Hanahaki
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A doença de hanahaki é uma doença literária e atinge pessoas que não tem seu amor correspondido. A pessoa começa a cospir flores e sufocar.
Eu odeio flores. Não todas elas, mas eu com certeza odeio essas flores.
Mas agora olhar para qualquer tipo de flor me faz querer gritar. Eu espero que essa raiva passe com o tempo. Não quero viver para sempre com essa amargura.
Quem diria que algo tão bonito poderia matar alguém? Elas crescem dentro de mim, brotando com um desconforto, depois a dor e a sensação de sufoco, matando lentamente a infeliz amaldiçoada por todas as forças natureza.
Parece até brincadeira, mas é assim que funciona a doença de Hanahaki: flores crescendo em seus pulmões. Você tosse pétalas, depois flores inteiras, depois um buquê, até que elas te sufoquem e seu interior vire um belo jardim florido.
Não parece tão bonito agora.
E a pior parte: a culpa é inteiramente minha. Quer dizer, não tanto assim. Ninguém tem culpa de amar alguém a tal ponto; mas já que eu estou procurando um culpado, que seja eu mesma e minha idiotice.
Desculpe por não poder me despedir direito, mas você entende, não é? Não posso falar com você por recomendações médicas. É até melhor desse jeito. Assim você não tem que me ver assim e se sentir culpado. Você sempre se culpa demais, se importa demais, sente demais… Eu acho que foi por isso que eu me apeguei tanto. E agora eu joguei esse peso em você sem querer, mas você não tem culpa de não sentir o mesmo (é até muito compreensível).
Mas eu vou ficar bem! Não pelo motivo que eu gostaria, mas é melhor do que nada. Você é inteligente, já deve saber disso, mas eu vou explicar mesmo assim. A doença de hanahaki tem uma cura, que é ter seu sentimento correspondido. Nós dois sabemos que isso não vai acontecer, e está tudo bem, não tem problema, porque tem outra saída: remover as flores cirurgicamente. É uma solução prática. Vão embora as flores, o desconforto, as tosses, a sensação ruim e qualquer sentimento e lembrança sobre a pessoa de seu afeto.
É, eu não estou tão animada com essa última parte, mas não faria sentido se fosse de outro jeito. Quando terminar, não vou lembrar de você, de ter amado e o porquê. Os sorrisos, as conversas, a parte boa dessa experiência (ter amado alguém) vai sumir para sempre. Fica só a parte ruim: as flores e a dor que elas causaram. Eu odeio isso.
Assim que eu me recuperar da cirurgia minha família vai se mudar para outra cidade, você sabe, para manter distância. Então… Isso é um adeus. Mas no final das contas eu nem sentirei sua falta e isso me incomoda mais do que tudo. Claro, como sentir falta do que você não se lembra?
Será que você sentirá minha falta? Espero que não, isso seria injusto e não quero me sentir mais culpada por fazer você passar por isso.
Enfim, quem sabe, daqui a alguns anos, eu não resolva voltar para a minha cidade natal? Quem sabe a gente não se encontra por acaso? O mundo é muito pequeno. Você me chamaria para sair, sabe, como amigos. As coisas poderiam tomar o rumo certo. Ou talvez você me veja e atravesse a rua para me evitar, com medo de me machucar mesmo depois de tantos anos, e eu não vou ficar magoada, afinal eu não vou saber que você é.
Mas não vou pensar nisso agora, meu pessimismo vai estragar o futuro antes mesmo dele chegar; melhor olhar para o presente, e no presente eu odeio flores, odeio o amor e odeio a doença de hanahaki. Ao menos disso eu vou lembrar.
Não vou dizer "eu te amo" a essa altura do campeonato. Você nem está aqui para me ouvir dizer isso, então não vale a pena sentir mais dor. Só… Seja feliz (espero que você tenha mais sorte que eu na busca pela pessoa certa). Adeus, meu amigo, e até a próxima.
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