Hanabi
1 Capítulo Único
— Então, Rukia, o que está achando do ano-novo ao estilo família Kurosaki? — perguntou Ichigo, sem de fato olhar para a garota, preferindo observar a rua que estava a alguns metros abaixo deles.
Antes que ela pudesse responder, o pai de Ichigo parou em pé na soleira da porta de correr, não entrando na sacada onde eles estavam.
— Rukia-san, nós vamos começar a jogar mímica. — comentou, fazendo com que o seu filho se virasse para vê-lo. — Querem jogar? — seu sorriso era de orelha a orelha.
— Não, obrigada. — a shinigami assentiu educadamente.
— Ichigo? — olhou o seu filho com olhos esperançosos.
— Depois, velho. — disse, sem se sentir tocado pela sua cara de cachorro sem dono. Com isso, Isshin afastou-se com ombros caídos, voltando para a sala de estar, onde suas filhas o esperavam. — Desculpa por isso. — fez uma careta. — Aposto que isso não deve acontecer na comemoração de ano-novo dos nobres Kuchiki.
— Eu não me importo. — abriu um meio-sorriso. — E tenha certeza de uma coisa, o ano-novo no mundo real é muito melhor que na Soul Society. — baixou os olhos tristes, observando suas mãos, que estavam apoiadas na barreira de ferro da sacada.
— Por quê? — estranhou o ruivo. — Vocês não comemoram o ano-novo lá? — franziu o cenho.
— Nós comemoramos. — fez um movimento afirmativo com a cabeça. — Bom, você sabe que... Que nii-sama e eu não tínhamos uma relação muito boa antes de você aparecer. — começou, hesitante. — O nosso ano-novo não era um dos melhores. — os cantos dos seus lábios curvaram-se para baixo.
Ichigo não disse nada em troca, passando o seu olhar da Lua contra o céu noturno para o rosto da morena ao seu lado. Observou seus olhos fora de foco, compreendendo que Rukia, no momento, estava num lugar só seu.
— Sente. — escutou a voz fria ordená-la. Assentiu prontamente, fazendo o que fora dito. Viu na outra ponta da longa mesa o seu irmão. Serviçais da família Kuchiki colocaram pratos contendo as comidas de entrada da ceia monumental à frente de cada um deles, saindo quase no mesmo instante.
Silêncio. Era isso que resumia a refeição. Nem o barulho dos talheres batendo contra os pratos havia — nas suas aulas de etiqueta, Rukia aprendera que fazer isso era falta de educação. Talvez, se concentrando o suficiente, ela seria capaz de escutar a respiração de Byakuya. Quem sabe ela escutaria até mesmo o som dos grilos no quintal da mansão.
— Então. — começou o homem, cruzando os talheres após terminar comer. Rukia baixou o seu garfo sobre o seu prato meio cheio — os dois tinham que finalizar a refeição ao mesmo tempo, de acordo com as regras. — Ukitake lhe ofereceu uma vaga no décimo terceiro esquadrão.
— Sim, eu sei. — gesticulou com a cabeça. — E eu já recusei o convite dele. — avisou.
Ele ergueu seus olhos recheados com fúria silenciosa para a garota. Mesmo com mais de dois metros entre eles, ela ainda era capaz de sentir o poder de sua raiva penetrando-a.
— Por que? — perguntou, seu tom de voz perigoso.
— Porque eu ainda não terminei de cursar a academia. — explicou, sua voz tremendo de leve. Logo em seguida os serviçais entraram novamente na sala de jantar, servindo o prato principal.
Sentindo a estática tão tangível que era possível cortá-la com uma faca, eles saíram rapidamente do local. E, de novo, Byakuya esperou terminar a refeição para voltar a falar.
— Você irá voltar atrás. Dirá a Ukitake que mudou de ideia e que aceitou a sugestão dele. — seu tom era rude, mostrando que não era uma orientação ou pedido, e sim uma ordem.
— Mas eu não quero deixar Renji sozinho na academia. — isso saiu num murmúrio. Ele lhe lançou um olhar ainda mais frio que o anterior, fazendo-a tremer nas bases.
E então a sobremesa foi servida — uma torta ornamentada com frutas, granulado e chocolate —, tão linda que dava até pena de consumi-la. E por mais que o seu sabor fosse doce, ela era amarga para Rukia.
— Oh, Ichigo, você estava falando algo? — piscou algumas vezes, focando-se no ruivo à sua frente.
— Não, nada. — deu de ombros. — Meu pai veio avisar que agora ele está brincando de Imagem e Ação com Yuzu e Karin. Como é um jogo que envolve desenhar, eu pensei que você gostaria de... — não terminou a sua linha de pensamento, baixando os olhos num movimento envergonhado.
Rukia franziu o cenho, confusa, mas decidiu voltar a observar o céu.
— Será que terão fogos de artifício? — pensou em voz alta.
— Claro. — riu Ichigo. — Não é ano-novo sem queima de fogos. — virou-se para a morena. — Na Soul Society não tem?
Ela fez um movimento negativo com a cabeça, não confiando em sua voz.
— É uma longa explicação que envolve partículas espirituais, então quando nii-sama me ensinou eu não prestei muita atenção. — admitiu.
O shinigami substituto deu uma curta risada baixa, e estalou os dedos de uma das mãos para distrair-se.
— Sabe, o primeiro ano-novo sem a minha mãe foi um desastre. — comentou, batucando distraidamente os dedos na bancada de ferro.
Rukia olhou-o sem respondê-lo, sabendo quando Ichigo queria ficar em silêncio.
Yuzu, Karin e Ichigo encararam, incrédulos, a ceia completamente queimada que estava disposta na pequena mesa de jantar. A carne estava com partes pretas como carvão, o arroz estava misturado numa massa nojenta e até mesmo o suco caseiro aparentava estar ruim.
Os três irmãos viraram o seu olhar para o seu pai, que parecia estar à beira de lágrimas.
Ignorando o estado de espírito de Isshin, Ichigo não hesitou em dar as costas para a sua família, indo em direção à porta de entrada.
— Ei, Ichigo, aonde você vai? — perguntou seu pai, indo, esbaforido, atrás dele.
— Ali. — apontou pela porta com sua mão pequena e infantil para a loja de conveniências do outro lado da rua. — Mamãe comprava comida ali quando não dava tempo para cozinhar. comentou. — Se lembra? — seu tom agora era duvidoso — mal sua mãe morrera e seu pai já estava se esquecendo dela?
Isshin soltou uma risada. Era a primeira vez que Ichigo o escutava rindo, de forma honesta. Desde quando a sua mãe morrera ele forçara seus risos, falhando completamente a ponto de até Yuzu e Karin perceberem a dissimulação.
Invés de insistirem em comer à mesa de jantar, eles se ajeitaram na sala de estar, assistindo ao especial de ano-novo na televisão. Uma comemoração simples, mas era considerada uma das mais especiais para Ichigo.
— Vamos brincar? — Rukia virou-se para ele, e o ruivo reprimiu uma risada diante da ambiguidade da pergunta.
— Claro. — tirou seus cotovelos da bancada, e juntos entraram na sala de estar. — Mas você me paga caso eu perca por causa dos seus desenhos péssimos. — murmurou, recebendo da morena um soco nas costelas. Sua exclamação de dor foi abafada pelos gritos de alegria de Isshin ao vê-los juntarem-se à brincadeira.
A contagem-regressiva foi feita com muita emoção da parte do pai de Ichigo, ele sobrepondo as vozes finas de suas filhas mais novas de forma entusiástica. A shinigami observou a família abraçar-se em conjunto, para o desconforto de Ichigo. Isshin a girou no ar, e ela recebeu um beijo tímido no rosto de Yuzu e Karin.
Logo os três começaram a guardar os pratos, talheres e tudo que fora usado na ceia, arrumando a sala de estar e a cozinha. Assim, Rukia e Ichigo ficaram sozinhos novamente na sacada, a garota estranhando o fato de ele não ter desejado a ela um feliz ano-novo.
— Então... Eu não ganho nem um comentário ridículo do tipo "o ano terminou, legal, né?" — questionou num tom brincalhão.
— Eu não falei com você, sério? — fingiu surpresa. Recebeu outro soco, dessa vez mais leve. Rukia não tirou o seu punho em contato com a pele, sem saber ao certo o porquê disso. Ichigo puxou o braço estendido á sua frente, dando-lhe um abraço. — Feliz ano-novo. — disse contra o seu cabelo negro.
— Feliz ano-novo. — respondeu com uma voz fraca. Logo escutaram o barulho de uma explosão, seguido por uma nuance de cores misturadas no céu escuro. — Fogos de artifício! — exclamou, e Ichigo foi capaz de escutar um sorriso em sua voz. — Ei, você também quer ver? — perguntou ao perceber que o ruivo estava virado para a porta da sala devido ao abraço deles.
— Não, eu estou bem. — disse, e era incrível como aquela simples frase podia ter tantos significados.
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