Hallucinations
1 Exame de Sangue
Terça-Feira, 23 de Julho de 2014, também conhecido como Ontem, foi o dia em que tive uma epifania, também conhecida como súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo, neste caso, da vida em si, e é por isto que estou escrevendo hoje.
Acordei as seis horas da manhã, com o humor neutro, cabelos em pé e rosto amassado, tomei um banho frio porque o chuveiro estava estragado e quis morrer ao sentir a agua fria como o abraço de um defunto caindo em minhas costas, escovei os dentes e me vesti, obviamente. Não comi nada pois o exame deveria ser feito em jejum. Enquanto caminhava quis morrer novamente ao sentir o gosto de estômago tomar conta da minha boca no lugar do suave frescor mentolado. Andei por alguns minutos aquém do que se passava ao meu redor e sentindo o vento frio da manhã passando pelo meu rosto. Vento este que fez eu me sentir vivo, um ser vivo com frio neste caso.
Ao chegar no laboratório logo peguei uma senha, a minha era a de número 4, sentei-me e comecei a observar o local. Havia uma pequenina mesa de centro com diversas revistas em cima, todas elas eram sobre saúde, e ao centro da mesa, havia um pequenino vasinho, com uma pequenina florzinha amarela de plástico, que me deixou um pouco triste por ser pequena demais. Reparei nas pessoas que haviam chegado antes de mim: Um senhor de idade que usava um chapéu marrom e uma bengala de madeira com algo que lembrava um rosto esculpido na ponta, não sei se ele estava dormindo ou olhando para baixo. Uma senhora que segurava sua bolsa bege com força como se fosse sua ultima esperança, e uma mulher com uma criança com semblante triste e as pequenas mãos enfaixadas. As cadeiras eram de um azul-hospital, e as paredes brancas, assim como o piso que não tinha uma mancha sequer e fazia o ambiente parecer esterilizado. Voltei minha atenção para um relógio que havia na parede e marcava exatas 6 horas e 32 minutos, não lembro os segundos. Assisti pacientemente os marcadores do relógio girarem até marcarem 7 horas em ponto. Uma mulher, toda vestida de branco e com brincos dourados apareceu pela porta do outro lado da sala exatamente as 7 horas e 6 minutos.
As 7 horas e 17 minutos a idosa com a bolsa bege foi chamada pela moça de branco quando a criança das mãos enfaixadas começou a reclamar. "Tá ardendo" ela dizia enquanto puxava as ataduras das mãos. Sua mãe rapidamente abriu a bolsa e sacou uma pomada, desenfaixou cuidadosamente as mãos da criança — que estavam vermelhas — passou a pomada e as enfaixou novamente. As 7 horas e 22 minutos a moça chamou a mulher e a criança. Após alguns instantes pude ouvir a criança gritar. "Eu não quero" ela berrava desesperadamente. Algo metálico caiu no chão fazendo um estrondo.
Após algum tempo de muita gritaria, a criança calou-se e logo após saiu da porta do outro lado da sala com os olhos vermelhos e um pirulito na boca.
As 7:30 fui chamado. Entrei na sala e entreguei o papel que dizia os exames que eu faria, não sei que exames eram porque a letra do médico era ilegível, mas misteriosamente a mulher de branco sabia muito bem o que era e como fazer. Ela pegou meus documentos, anotou algumas coisas no papel e mandou eu me sentar numa cadeira estofada branca, com um apoio para o braço. Ela pegou uma seringa e um cordão de látex. Enrolou o cordão em volta do meu braço e mandou eu apertar a mão. Obedeci e virei o rosto para o outro lado.
Senti cada milímetro da agulha entrando em minha veia enquanto tentava pensar em gatos fofos. Quando ela desamarrou o cordão do meu braço eu achei que havia acabado, então ela pegou outra agulha, desta vez maior, e quando eu estava prestes a perguntar o que ela faria com aquilo, ela segurou meu dedo mindinho e espetou. Levei um susto horrível.
No mesmo instante ela sacou um cronometro que estava em seu bolso que eu não havia visto e começou a contar quanto tempo levava até que o furo em meu dedo parasse de sangrar. Não demorou muito.
Ela anotou o tempo, pegou meu sangue entrou por uma porta enquanto eu me recuperava do choque. Algum tempo depois ela retornou, olhou pra mim e disse "Nossa! Você tá muito branco, tá tudo bem?" e eu respondi "Claro que sim", levantei-me para ir embora e senti uma fraqueza. Desmaiei
Acordei deitado em uma maca num lugar escuro, lembrando da criança que chorava e gritava que não queria ter seu sangue retirado, fiquei pensando nisso e como isso se aplica na vida em geral, em que nada depende de você querer ou não, as coisas apenas acontecem. Eu nunca quis fazer exames de sangue, nunca quis ser humilhado na escola, nunca quis ir para a escola pra ser sincero, nunca quis várias coisas, mas elas aconteceram e eu tive que aceitar, porque na vida nada depende de você querer, depende de você escolher o que é menos pior e seguir acreditando que algo de bom vai acontecer, mesmo sabendo que não vai. Acho que é por isso que comemoramos aniversários, mesmo sendo algo inútil.
A moça de branco entrou na sala e ligou a luz, meus olhos arderam e eu me sentei na maca. Ela perguntou se eu estava melhor, eu respondi positivamente com a cabeça, levantei e ela me disse que meu exame estaria pronto em uma semana.
Fui para casa.
Eu nunca comemoro aniversários.
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