Terça-Feira, 30 de Setembro de 2014, 21:32, acordei com dor de cabeça após dormir 20 horas seguidas. Levantei-me e, como um zumbi, andei até a escrivaninha para adentrar o Incrível Mundo da Internet. Enquanto olhava o feed do Facebook comecei a reparar nas fotos que as pessoas estavam postando: fotos na piscina graças ao calor que está fazendo, fotos com os amigos, fotos em festas. Em todas elas as pessoas irradiavam felicidade e por um momento acreditei na fábula de que a vida das pessoas é como elas tentam pintar nas redes sociais, um mundo de sorrisos reluzentes e sem fim... Eu daria tudo para ser como elas, normal, viver na bolha de selfies e festas, ter o sorriso branco graças ao clareamento pago pelo plano de saúde, saber que meu futuro é reluzente. Após alguns momentos levantei-me decidido e fui tomar banho

Quero tentar viver na bolha por um tempo, então me vesti e olhei no espelho. Ao ver meu reflexo tímido no espelho de trás da porta, a visão dos olhos inchados e a calça desajustada ao meu corpo desproporcional me fizeram sentir como lixo, porém, ninguém precisa saber. Saí pelo portão de casa com a confiança de um leopardo, que após alguns passos decaiu para a confiança de uma lebre fora de sua toca. Respirei fundo e resisti a tentação de voltar correndo para dentro de casa.

Eu não tenho para onde ir, andei sem rumo por algumas quadras até avistar uma distribuidora de bebidas. Segundo pesquisas, pessoas com alto nível de estresse parecem mais velhas, o que foi comprovado ao comprar uma cerveja sem o atendente da loja nem suspeitar a minha real idade (16). Andei por mais algumas quadras até um parque que até algum tempo atrás era verde e limpo, mas agora consistia apenas em lixo e milhares de pombos. Sentei-me em um banco enquanto bebia a cerveja (o gosto era horrível, mas eu estava quase na bolha então relevei). Tentei sorrir para as pessoas que passavam mas apenas os pombos se aproximavam de mim, após quase uma hora vendo as cores do semáforo mudarem, resolvi voltar pra casa tentando pensar positivamente "quase entrei na bolha!!!", mesmo sabendo que ao chegar em casa seria esmagado pelo terrível "tão inútil que não conseguiu entrar na bolha". Chegando ao portão de casa, olhei através da rua e vi que o atendente simpático da farmácia estava trabalhando então resolvi dar uma ultima tentativa para a socialização.

Me pesei, olhei as prateleiras cheias de shampoo arrumadas pela cor da embalagem e fui até o balcão. O atendente simpático sorriu ao me ver e olhou profundamente em meus olhos quando eu disse "Minha cabeça dói tanto que sinto como se tivesse um rato dentro do meu crânio". Ele sacou o remédio e quando eu já estava me virando para ir ao caixa ele perguntou se eu estava bem. Em um dia normal eu acenaria "sim" com a cabeça, iria pra casa e me arrependeria, mas hoje é o dia de entrar na bolha, então respondi que não.

Expliquei pra ele a história da bolha e ele riu e soltou um "é foda...", eu repeti "é foda..." e concordamos com a cabeça, ele é muito mais alto que eu, o que faz eu me sentir uma criança olhando para cima para olhar nos olhos do adulto. Após alguns segundos de silêncio constrangedor ele começou a pensar em voz alta sobre como a "bolha" era uma maneira de separar as pessoas. As que estão dentro são como o sol, radiantes, chamam atenção sempre tirando fotos sorrindo de orelha a orelha, comentando sobre como seus dias são ocupados com muitas festas, amigos e alegria, algumas são como a lua, refletem a luz do sol e não emitem luz própria. Ele parou de falar por um tempo e olhou para o chão com uma expressão pensativa, e eu assisti. Depois de alguns segundos ele virou pra mim, apoiado no balcão de vidro e contraiu as pálpebras como um míope tentando enxergar algo distante (minha alma talvez) e disse que algumas pessoas não estão nem fora nem dentro da chamada bolha.

"Elas são únicas, são o sol a e a lua de si mesmos" finalizou, sério. Me despedi e voltei pra casa com a sensação de que precisava raciocinar.

Tomei o remédio na cozinha e fui para meu quarto, ao abrir a porta me deparo com uma forma humana nos vincos cortina, levo um susto enorme. Estico a cortina e me deito. O barulho do ventilador embalava os devaneios de minha mente. Olhando para o teto o papo de lua e sol começou a fazer sentido: Nós vemos a lua graças ao reflexo da luz do sol, vemos sua superfície, suas crateras, seus defeitos, mas sem o sol ela é apenas uma pedra que flutua no espaço. Eu me sinto como a lua, agora sou apenas uma pedra flutuante, mas não quero buscar luz de outras fontes além de mim. Meu humor sempre foi instável, perco a calma muito fácil mas me comporto como a lua, sozinho no vácuo e na escuridão, não transpareço sentimentos, são poucos e rápidos os momentos de euforia em que me sinto radiante como o sol. Este que produz sua energia transformando hidrogênio em hélio, a maioria das pessoas parece ter um estoque vitalício de hidrogênio. Eu não, mas eu não me conheço muito bem, vivi até agora como um borrão, querendo que tudo acabasse logo, dopado em remédios, no País das Maravilhas eu era Alice, e comia o bolo diminui-dor. Passei muito tempo em uma caixa de vidro, triste por não ter o que eu via lá fora, triste por não conseguir sair, e me esqueci de aproveitar o que eu tenho dentro da caixa.

E é assim, pensando nas minhas áreas inexploradas que eu me perco novamente em devaneios: há algum hidrogênio na caixa?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.