Half a Heart
1 Half a Heart
Notas iniciais
PARA: renesmeecscullen@gmail.com
ASSUNTO: Sendo sincero…
Querida Renesmee,
Enquanto escrevo este e-mail, me questiono se você ainda mantém o velho hábito de verificar sua caixa de entrada logo nas primeiras horas da manhã. Gosto de pensar que sim; seria a forma mais fácil de garantir sua atenção antes que o mundo lá fora te distraia de mim.
Ontem, caminhando pela praia em La Push, a lembrança de você me atingiu com tanta força que precisei parar. Lembrei de como você adorava assistir ao pôr do sol aqui. Me perguntei se você sente falta disso — de nós dois, em silêncio, apenas observando o fim do dia. Quando fechei os olhos e o cheiro do salitre me invadiu, juro que pude sentir você encolhida nos meus braços, buscando abrigo contra o vento frio, exatamente como costumava fazer.
Nos últimos seis meses, Forks parece ter mergulhado em um tom de cinza que eu não conhecia. Está mais chuvosa, mais fria... mais vazia desde que você partiu. O céu sobre a reserva parece tão incompleto quanto o meu peito; sou apenas metade do que eu costumava ser quando você estava aqui. Passo meus dias em um estado de busca constante, e essa busca é sufocante.
Para ser honesto, comecei a questionar minha própria sanidade. Tanto tempo sem te ver me fez duvidar se você realmente existe, ou se tudo o que vivemos foi apenas um delírio da minha mente solitária. Tive medo de estar sendo traído pelas minhas memórias. Mas, parando para pensar, eu jamais teria criatividade suficiente para inventar alguém como você. Cada sorriso, o vinco teimoso entre suas sobrancelhas quando está concentrada, as sardas no seu nariz... as curvas do seu corpo. Foi presunção minha achar que eu seria capaz de projetar algo tão perfeito.
Ontem, encontrei o Charlie no Carver Café. Estar perto de alguém que compartilha o seu sangue foi como alcançar a superfície para respirar depois de muito tempo afogando. Ele parecia relutante em falar, mas eu não me importei em insistir — ou em me humilhar um pouco. Qualquer notícia sua, por mais escassa que seja, vale mais que esse silêncio cruel.
No fim, ele cedeu. Charlie confessou que você não tem passado pelos seus melhores dias. Disse que sente minha falta e que ainda dorme com aquele meu suéter vermelho que ficou na sua mala na noite da nossa briga. Me diga, Nessie: o que ele falou é verdade? Você ainda habita esse lugar sombrio entre a saudade e o arrependimento, da mesma forma que eu? Por favor, não brigue com ele por me contar isso; ele só o fez porque viu o meu desespero. Acho que ele teve pena de mim.
Se você falou com a Claire ou com o Quill ultimamente, eles devem ter te contado. Eles veem o que eu tento esconder: que agora sou apenas um rascunho do homem que você conheceu. Ando por aí como quem perdeu um sapato no caminho, desequilibrado, faltando uma parte fundamental para conseguir seguir em frente.
Renesmee, eu sonho com você todas as noites e acordo em desespero, tateando o lençol frio à sua procura. Eu não sei como ser inteiro sem você.
O natal sem você foi um ponto de ruptura, uma das coisas mais dificeis que eu já fiz na minha vida. Você sabe como fica a casa da Emilly nessa época do ano: todos os rapazes espremidos, as conversas altas, as músicas natalinas de fundo que ninguém presta atenção, as risadas escandalosas do meu pai. Bom, tudo estava do mesmo jeito, no lugar onde deveria estar… Tudo, menos você, Nessie.
Pela primeira vez, eu me senti como um telespectador da minha própria vida: me observando e sentindo pena. Eu me senti esquecido, não pelas pessoas mas, por mim mesmo. Eu não consegui rir de nenhuma das piadas contadas, nem me animar com a entrega dos presentes. Lembrei do Natal passado, de como seus dedos gelados se entrelaçaram nos meus por baixo da mesa, e de como esse contato era o que ancorava minha vida no chão.
Eu saí mais cedo da festa, é claro; as baixas temperaturas que o termômetro de rua indicava parecia ter congelado meus ossos. Qual o sentido de estar ali se metade do meu coração já não está mais comigo? Eu invejei Emilly e Sam, sabe? O brilho no olhar, a forma como parecem orbitar em volta um do outro, tantos detalhes lindos de um amor inteiro que me causaram dor.
Passei o restante da noite de natal dirigindo sem rumo; eu precisei desligar o rádio do carro porque, cada música que tocava me lembrava de você. Me dei conta de como o tempo está passando, o relógio rodando, o calendário mudando, a vida de todos andando e, ainda sim, eu sigo estagnado no último segundo antes de você sair porta afora.
Lembro do meu pai dizendo no primeiro dia após sua partida que “o tempo cura tudo”, mas, acho que ele errou, Renesmee. O tempo só tem acentuado ainda mais o tamanho do burado e a grandiosidade da minha perda. Eu não quero mais passar por esses marcos — feriados, aniversários, mudanças de estação — se você não for a pessoa ao meu lado para testemunhar tudo isso.
A verdade, Nessie, é que minha vida agora gira em torno de um ciclo de lembranças das quais não consigo escapar, por mais que eu tente. Quando acordo, meu cérebro é meu maior inimigo; ele insiste em bloquear a informação de que você partiu. Por um milésimo de segundo, eu me viro para o lado esperando encontrar o lençol todo desarrumado porque você se mexeu demais durante a noite... mas ele segue intacto, frio e esticado. Na hora do café, o hábito me trai: faço duas xícaras. Bebo a minha enquanto encaro a outra esfriar sobre o balcão de mármore, até que eu crie coragem suficiente para jogá-la fora.
Tudo o que eu faço parece estranhamente errado. O caminho da minha corrida matutina é o mesmo, mas o ritmo está descompassado. Às vezes, me pego começando uma frase, uma piada ou um comentário sobre algo que vi, apenas para perceber que não há ninguém ali para ouvir. O silêncio que se segue é o som mais ensurdecedor que já ouvi na vida.
Na oficina, tento me manter ocupado, focado no trabalho, dedicando-me a consertar motores da mesma forma que eu deveria ter me dedicado a consertar "nós dois". Mas minha mente sempre volta para você, de um jeito ou de outro. É exaustivo e dolorido carregar esse vazio.
Para ser sincero, Nessie... eu já nem me lembro exatamente de como aquela discussão começou. Tento reconstruir os fatos, buscar os motivos ou os culpados, mas as palavras que gritamos um com o outro se perderam no barulho do meu arrependimento. Nada do que foi dito importa mais do que o silêncio que veio depois.
Por isso, eu quero te pedir desculpas. Não pelas razões da briga, nem por quem estava certo ou errado, mas por ter deixado o meu orgulho ocupar o espaço que era seu. Desculpe por não ter segurado sua mão com força o suficiente para te impedir de ir. Se eu pudesse voltar àquela noite, eu teria ficado quieto; teria apenas te abraçado até que a tempestade passasse.
Eu não aguento mais ser apenas metade, Renesmee.
Talvez eu não saiba como está seu coração agora, ou qual a sua percepção sobre tudo o que aconteceu, mas se ainda houver espaço para mim em algum lugar da sua vida, eu gostaria de tentar. Quem sabe possamos nos encontrar e almoçar na beira da praia, sem pressa, como fazíamos no início. Seria um privilégio olhar nos seus olhos e ter certeza de que você ainda é real.
Quero que saiba que eu vou te esperar. Mesmo que demore, mesmo que você ainda precise de tempo para se curar, eu estarei aqui. Eu só quero que possamos voltar a ser nós dois novamente… completos.
Lembre-se sempre do quanto eu te amo.
Sempre seu,
Jacob E. Black.
PARA: jacobephraimblack@gmail.com
ASSUNTO: Sobre suéteres e xícaras de café
Querido Jacob,
Não posso negar o quão surpresa fiquei ao receber seu e-mail. Dentre todos os meios de comunicação que você poderia ter utilizado, escolher este foi, sem dúvida, o mais criativo — e o que mais prendeu a minha atenção. Você me conhece bem demais; está certo sobre meus hábitos matinais. Eles não mudaram. Eu ainda checo minha caixa de entrada todos os dias, pontualmente às oito da manhã, como se esperasse por algo que eu não sabia nomear. Até hoje.
Eu estaria mentindo se dissesse que pensei em você apenas ontem. A verdade é que pensar em você se tornou um evento tão constante que já faz parte integral de quem eu sou. Eu te sinto e te vejo em cada canto: nos corredores da faculdade, entre os plantões exaustivos no hospital e, principalmente, nas minhas noites mal dormidas. Tenho me agarrado à falsa sensação da sua presença como se fosse minha única tábua de salvação em um mar revolto.
Sim, Jake, eu sinto falta de assistir ao pôr do sol com você. Sempre foi um dos meus momentos favoritos. Sinto falta do cheiro do mar e da areia de La Push, mas sinto falta, principalmente, do abrigo dos seus braços. Aqui, o frio é diferente. É um frio que vem de dentro e que nenhuma lareira dos meus pais consegue aquecer.
Questionar nossa própria sanidade talvez seja o ato mais lúcido em meio ao período que estamos atravessando. Nunca acreditei que você pudesse ser uma projeção da minha mente mas, pouco a pouco, tenho começado a perceber que certas memórias vêm perdendo a nitidez, se tornando um borrão estranho, como quando estamos embriagados demais e, no dia seguinte, não sabemos dizer o que aconteceu de verdade e o que não passou de um sonho.
Sobre o que o Charlie te contou… Ele não mentiu e não pretendo brigar com ele por te revelar esse fato. Não tenho vergonha em admitir que estou me agarrando à última lembrança física que tenho de você. Seu suéter vermelho já perdeu quase todo o perfume que havia nele mas, se eu fechar meus olhos com força, ainda consigo imaginar você aqui comigo, me protegendo da escuridão. Essa peça tem sido o mais perto que consigo chegar de me sentir em casa novamente.
De fato, tenho mantido um contato frequente com Claire e Quill e isso, de certa forma, faz com que eu me sinta mais próxima de você. Os traços indígenas de Quill me lembram os seus mas, ele não chega nem perto de se igualar em beleza; nem mesmo o tom avermelhado da pele dele tem o mesmo brilho que o seu. Eles me falaram de você; falaram que você já não come e nem bebe da mesma maneira, que emagreceu e agora tem muitas olheiras, que anda de cabeça baixa por aí e saber disso doeu, Jake. Eu ainda me preocupo com você e com seu bem-estar.
Eu sei exatamente como é essa sensação de estar incompleta, de tentar preencher um vazio tão específico que nada se molda como deveria. Outro dia, lembrei de um mito grego que dizia que, quando o homem foi criado, ele possuía dois pares de braços, duas pernas e duas cabeças e Zeus, enfurecido com nossa espécie, nos dividiu em duas partes, nos condenando a passar a vida à procura da outra metade. Eu achei a minha, Jacob, mas como devemos proceder quando a perdemos nesse caminho?
Eu sonho e vivo você, Jake, mesmo que esteja longe, e isso acaba comigo. Eu revivo nossas fotos, me agarro aos presentes e busco migalhas e formas de te ter comigo mas, a sensação é sempre a mesma: você escapando por entre meus dedos sem que eu possa fazer nada a respeito.
O Natal para mim foi um teste de resistência. A minha família tentou, tentou com todas as forças. Eles decoraram a casa inteira, as luzes brilhavam tanto que chegavam a arder os olhos, e havia aquela harmonia perfeita que só os Cullen conseguem ter. Mas eu me senti como um rascunho borrado em uma fotografia de alta resolução. Enquanto todos trocavam presentes, eu só conseguia pensar que o único presente que eu queria não cabia em uma caixa. Não havia a comida da Emily, nem as piadas ruins do Seth ou as gargalhadas altas do seu pai; não havia os garotos se acotovelando por um pedaço da coxa do peru mas, principalmente, não havia você, e isso me dilacerou.
Na virada do ano foi ainda pior, se é que isso é possível. Quando os relógios marcaram meia-noite, meus pais, meus avós e meus tios se beijaram e se abraçaram com tanta ternura e amor que uma inveja corrosiva tomou conta de mim. Discretamente, eu saí em direção à varanda, amargando ainda mais a minha solidão. O ar estava congelante, mas eu não conseguia sentir nada além de um vazio imenso. Olhei para o céu e me dei conta de que estávamos entrando em um ano onde você não era mais o meu presente, apenas o meu passado. Eu não brindei, Jacob. Eu apenas fechei os olhos e sussurrei seu nome para o vento, torcendo para que, por algum milagre da nossa ligação, você pudesse me ouvir do outro lado do país. Eu me senti traída pelo tempo, como se ele tivesse avançado para todos e me esquecido num looping vivido em câmera lenta.
A rotina parece ainda mais cruel que as datas comemorativas. Tenho vivido um exercício exaustivo de fingimento. Meus dias são dedicados aos livros da faculdade e aos corredores brancos do hospital; tento me focar na dor dos outros para esquecer a minha mas, ainda assim, na maioria das vezes o silêncio do estetoscópio me trai e, nessas horas, me permito buscar o ritmo do seu coração em minhas lembranças. É irônico, não é? Estudar para curar pessoas quando eu mesma me enxergo como um caso perdido.
Você mencionou as duas xícaras de café. Bom, se serve de consolo, eu também sigo preparando duas, assim como você. A única diferença entre nossos hábitos é que, ao invés de deixar esfriar e jogar fora depois, eu bebo as duas, numa vã esperança de que a quentura da bebida me lembre como é estar nos seus braços novamente.
Acho que preciso concordar com você: Billy está errado. O tempo não cura nada, ele apenas aumenta a sensação de sufoco, o desespero por respostas e o eco do silêncio. E mesmo que curasse, quanto tempo seria necessário para esquecer um amor como o nosso?
Incentivada pela tia Rosalie, eu tentei me distrair, sair e conhecer novas pessoas. Eu me afoguei no álcool, beijei uma ou duas bocas e descobri que isso não aplacava meus sentimentos. Ao contrário, senti como se eu estivesse te traindo e traindo tudo aquilo que sentimos e construímos juntos.
Sinto falta da sua voz, do seu sorriso; sinto falta da sua boca e dos seus beijos; sinto falta de acordar nua nos seus braços depois de uma noite inteira de sexo. Sinto falta de você.
Na semana passada foi nosso aniversário de namoro. Teríamos completado quatro anos juntos e, por um momento, me permiti pensar em como teria sido a comemoração. Tive a ousadia de imaginar que você me levaria em nosso restaurante favorito, pediria uma sobremesa decorada com nossas iniciais e se ajoelharia para me pedir em casamento, com um anel entalhado em madeira feito por você. Bom, eu teria dito “sim” sem pensar; eu me atiraria em seus braços e diria que estava pronta para o casamento, a casa e os filhos. Sim, Jake! Os filhos. Uma menina com seus olhos e um rapaz com meu tom de pele.
Sobre a nossa briga... eu também já não sei onde ela começou. As razões parecem tão pequenas agora, quase infantis diante da magnitude dessa ausência. Eu não quero mais ter razão, eu só quero ter você.
Eu não quero mais sentir que você é apenas uma projeção da minha mente. Eu preciso que você seja real de novo. Eu aceito o almoço, aceito a praia, aceito qualquer coisa que nos tire desse silêncio que nos separa. Não importa o quanto eu precise me curar, eu prefiro fazer isso ao seu lado.
Estou neste exato momento fazendo as malas e comprando minhas passagens; provavelmente vou estar de volta a Forks antes que você leia esta resposta. E, quem sabe, posso declarar o que eu sinto para você pessoalmente.
Jacob, o céu e nossos corações vão voltar a ser completos novamente. Não me importa a vida aqui no Alasca, a faculdade ou o trabalho no hospital, nada faz sentido se você não estiver comigo.
Espere por mim só mais algumas horas, amor. Eu estou voltando.
Eu amo você
Sempre sua,
Renesmee C. Cullen.
Fale com o autor