Half Street
1 Capítulo Único
Notas iniciais
#BoaLeitura! :)
Ela sentia seu coração partido, ferido. Talvez fosse uma mistura de ódio com uma amarga dose de traição. Bem, ainda não era exatamente essa palavra, mas ela não pôde evitar o seu sangue de subir fervorosamente à cabeça, fazendo-a latejar como se uma orquestra não-harmônica ecoasse em seus ouvidos calejados. “Ele não é nada. É um verme, apenas.” Repetia para si mesma, socando as frontes com as duas mãos. Ela não era do tipo que se deixava dominar por sentimentos, muito menos um que fosse ligado à alguém tão estupidamente repugnante. Ela não poderia admitir aquilo, jamais. “Você não significou nada, Ward. Nunca foi um risco para mim.” Ela repetia novamente, dessa vez em frente ao espelho, encarando as olheiras e as bochechas rosadas. Os negros olhos asiáticos denunciavam que ela havia chorado. E não tinha sido pouco.
- May. – Uma morena de cabelos curtos batia à porta, esperando que a outra não a ignorasse. – Eu trouxe água.
O silêncio continuava a reinar no segundo andar do casarão. Hill não estava acostumada a vê-la dessa forma, nem em quinze anos. Sempre a rotulara como fria e calculista – Embora ela não tenha sido sempre assim – Mas parecia que algo mais a incomodava e ela simplesmente não estava afim de falar.
- E uma aspirina, May. – Ela não desistira – Abra a porta, por favor.
- Obrigada, Hill.
A asiática finalmente se rendera. Tomou o analgésico num único gole, batendo o copo sobre a mesa em seguida. Parecia que ela havia tomado uma dose pura. Apertou os olhos com força, apoiando-se no guarda-roupa com as duas mãos. A ex-comandante da S.H.I.E.L.D. a olhou por alguns segundos antes de sentar-se na beirada na cama, quase que condenando a mulher à sua frente. Como se não a conhecesse, May não ousou encará-la. Não antes de erguer-se do seu estado confuso de introspecção.
- Olha, não queria que isso tivesse...
- Hill – O tom firme de May anunciava que definitivamente, não era uma boa ideia tocar naquele assunto.
- Você veio aqui procurar ajuda, May. – A morena de cabelos curtos virou-se para a amiga, confrontando-a – Por que está recusando agora?
- Eu não preciso de ajuda com isso. Coulson está mais interessado em descobrir a verdade. Foi só por isso que eu procurei você.
- Você é inacreditável! – A atual funcionária de Stark levantava-se da cama, incrédula ante as palavras da ex-agente. – Quer alguém para acreditar nisso? Mesmo? Sinto muito, você veio ao lugar errado.
- Maria... Não torne as coisas...
- Quinze anos, Melinda! – Dessa vez, a voz de comando surgiu da mulher que usava as botas negras de cano baixo – Ainda tem dúvidas? É certo que não estamos mais no mesmo ramo, muita coisa mudou, mas eu ainda conheço você. Eu te conheci antes de Bahrein e ainda te conheço agora. Então, ou você me diz o que está havendo ou pode sair do meu apartamento. Não vou ficar assistindo você se lamentar em silêncio. – Hill piscou os olhos, como se liberasse a adrenalina de dentro do seu corpo e respirou profundamente – É pra isso que estou aqui.
A asiática não tinha argumentos dessa vez. Hill a conhecia e sabia que se existia três pessoas no mundo que ela não bateria de frente por muito tempo, essas pessoas seriam Coulson, Fury e ela. May não costumava manter as pessoas por perto, mas quando ela se importava de verdade com alguém, ela seria capaz de dar sua vida pela pessoa. Sem pensar duas vezes.
- Ele nos traiu, Maria.
Hill poderia interrompê-la naquele momento para dizer o quanto ela o havia vetado e o quanto ela o odiava, mas resolveu aproveitar a boa vontade de May em compartilhar a história. Apenas sentou-se e engoliu em seco o seu discurso destruidor para outro momento.
- Ele traiu o Coulson. – Seus olhos ardiam de indignação – Ele poderia tê-lo matado, colocado todos nós em risco, nós... Nos arriscamos por ele, Hill... Por ele! Quase morremos tentando proteger um bastardo desgraçado que nem ao menos soube ser homem para admitir sua droga de culpa – Ela socou a cama – Quando eu acha-lo, Maria – Ela respirou fundo, deixando o ar tilintar entre os seus dentes – Quando eu encontra-lo... Não vai sobrar ar nos seus pulmões. Eu juro que...
- Ele a magoou, Melinda? – O faro da comandante apontava para algo mais profundo na alma dela – Você confiou nele, então ele simplesmente...
- Me traiu.
Hill acenou positivamente com a cabeça. Ouvir May admitir isso fez com que ela perdesse por alguns instantes a sua tão adorada eloquência, demonstrando o quanto ela poderia ser vulnerável em algumas situações.
- Vocês dois...
- Vamos lá... – A piloto respirou fundo, dirigindo-se ao frigobar ao lado de Hill – Aquele dia, em Dublin, em que enfrentamos um bando de adolescentes fanáticos que se achavam deuses ou sei-la-o-que... Ward estava mal. Realmente alterado. Naquele momento, eu soube que nem o melhor dos seus treinamentos poderia protegê-lo do que ele viu. Eu vi isso nos olhos dele, Hill. Toda a dor, toda a raiva... O ódio formando bolhas na sua pele... E eu... – Ela enchia o seu copo e o da sua anfitriã – Apenas vi a mesma cena... Os mesmos gritos, os mesmos nomes... Ward é um superespião, uma máquina de matar, admito. Mas naquele momento... – Ela arfou e voltou a socar a cama, dessa vez com mais força – Eu me sinto vomitada, Maria! – Ela apertou seu copo até o vidro começar a deformar – Ele apenas fez isso para me cegar e eu não consegui ver o que ele era. Eu dormi com o inimigo.
* Dublin, Irlanda – Alguns meses atrás.
Ele rastejou até a porta. Os olhos baixos, mal conseguiam esquecer tudo o que vira naqueles poucos instantes. “Grant! Me Ajude! Grant!” Os gritos ainda ecoavam no seu cérebro como se ele tivesse voltado no tempo. Sacudia a cabeça com força para espantar os fantasmas da sua memória, em vão. No seu rosto, as marcas da luta de mais cedo não ardiam. Não doíam nada. Ele estava completamente dormente e suspenso por sua própria consciência, tentando manter o foco em alguma coisa que nem mesmo ele sabia o que era.
Encaixou rapidamente o cartão que dava acesso ao seu quarto e esqueceu-se de abrir a porta ao notar a aproximação dela. Apenas olhou para a mulher à sua frente, imaginando o que ela poderia ter visto para que ficasse naquele estado. Quebrada. Seu semblante era parecido, mas sua dor era contínua. Ao contrário de Ward, os fantasmas dela eram frequentes, quase não saíam da sua memória. Que diferença faria segurar aquele bastão Berserker? Ward precisava de ajuda e ela estava ali. Essa era sua natureza, na verdade: Proteger.
Ela virou-se para olhá-lo e os dois passaram alguns segundos se avaliando, afinal, era isso que faziam. Os dois eram agentes de operações, sabiam o quão difícil era aquela vida, ser sempre a pessoa que conserta tudo, que salva o dia. Sentir-se responsável pela vida das pessoas. Essa era a sua rotina. Ele a questionava com o olhar e ela deixou passar alguma coisa, piscou os olhos lentamente, deixando a decisão com ele. May entrou no quarto com uma garrafa largada na mão, deixando a porta aberta. Ambos haviam entendido a mensagem.
- Não quero falar sobre aquilo. – Ela avisou antes de qualquer coisa.
- Nem eu – Ele concordou, tirando a garrafa da mão dela e tomando um gole.
...
- May! May? Você ainda está aqui? – A voz de Maria parecia vir de outra dimensão, trazendo-a de volta ao presente.
- Oi? – Ela piscou os olhos rapidamente, voltando a olhar para a amiga. – Desculpe, o que falava?
- Que você não poderia adivinhar a verdade sobre Ward! Sinto muito que tenha descoberto dessa maneira...
- Pelo menos você me contou. Eu ficaria louca se não contasse.
- Mudando um pouco o foco... Como está indo com o Phil?
- Fury confiou essa missão a mim, Hill. Minha intenção foi sempre proteger Coulson. E eu deixei isso escorrer pelos meus dedos... Phil nem ao menos acredita em mim! Para ele eu sou só mais uma que o traiu... Os olhos dele, Maria... – A voz da asiática hesitou por um segundo – Se você tivesse visto... Os olhos dele me julgado... Julgando mal cada atitude que eu tomava, cada olhar... Me dizia que eu não era mais bem-vinda na vida dele.
- Phil não abrirá mão de você, May. – A morena colocou uma das mãos no ombro da piloto – Ele só está digerindo tudo isso. Está confuso... Dê a ele algum tempo para perceber que você sempre esteve ao lado dele. Coulson é um homem prudente. Ele saberá lidar com isso.
- Por isso eu preciso que me ajude, Maria. Chega de mentiras. Oficialmente, a S.H.I.E.L.D não existe mais, então... Não existe confidencialidade de informações.
- Só tenho uma coisa a dizer. Sobre a charada de mais cedo... A resposta talvez seja mais literal do que você pensa, May.
- Se for, eu já sei por onde começar.
- Então, o que está esperando?
- Obrigada, Maria. – May aproximou-se da amiga para abraça-la – Nos vemos em breve.
- Só me faça um único favor.
- Diga.
- Chute aquele verme. Nos dentes, em meu nome.
- Deixa comigo. – Ela apertou os olhos em tom de ameaça – Eu não vou parar enquanto não ouvi-lo morder a própria língua de dor.
- Ótimo. Divirta-se por mim.
- Com prazer.
Uma breve conversa com uma velha amiga. Era tudo o que precisava. Melinda pegou sua jaqueta de couro preta e dirigiu-se até o estacionamento, imponente. “Você vai querer esquecer de mim, Ward.” Ela repetiu para si mesma, dessa vez em alto e bom tom, enquanto deixava as marcas de pneu no asfalto da Half Street.
Notas finais
- Comentários, sugestões, críticas, ideias?
#Até a próxima!
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