Half Of My Heart
2 Capítulo 2
Darcy aproximou-se de Ema, entregando a ela uma taça. A moça sorriu educada, aceitando o brinde que se seguiu. Ema era uma moça muito bonita, e Darcy passara metade da noite imaginando como seria estar casado com ela. Porém, embora tivesse boas maneiras, fosse uma moça agradável e inteligente, todos os sentimentos que despertava em Darcy eram fraternos.
Era um homem acostumado com as mulheres, e também não via em Ema mais do que uma gentileza no olhar, que não dava a ele nenhum sinal oculto. Era tal e qual suas correspondências, uma mulher que falava abertamente sobre sentimentos e emoções, que contava a ele sobre sua vida e sonhos.
— Não tivemos tempo de conversar. – ele sorriu. – Gostaria de conhecê-la melhor.
— Ora, senhor Darcy, passou anos lendo minhas intermináveis cartas. – Ema brincou.
— É verdade, mas falávamos de um futuro distante, que agora parece perto de se concretizar.
— Fico feliz que não tenha abandonado seu compromisso. Confesso que muitas vezes duvidei que fossemos seguir com estes planos. – sorriu.
— É mesmo? E por que tal pensamento? – Darcy a encarou, curioso.
— Ora, é cada vez menos comum que os casamentos sejam baseados em acordos familiares. – deu de ombros. – Sempre me pareceu possível que o senhor conhecesse uma moça com quem desejasse se casar.
Darcy riu da sentença de Ema.
— Me perdoe o divertimento, senhorita. É porque a mim sempre pareceu o oposto, nunca me senti inclinado a quebrar nosso acordo. – sorriu.
— Desculpe, eu não quis ser indiscreta. – ela corou.
— Não foi. Mas já deve ter percebido, por nossas correspondências, que sou um homem objetivo. – Darcy disse, sem rodeios.
— Senhor Darcy, não precisa dizer o que imagino que esteja querendo. – Ema sorriu, polida. – Sei, tanto quanto o senhor, que esta união não é baseada em sentimentos.
— Não há completa ausência deles também, e era o que pretendia dizer com esta conversa. A senhorita é uma moça muito bonita e educada, e estou feliz de conhece-la. – sorriu, galante.
— Também estou feliz por conhece-lo. E mais ainda por não sentir que o senhor é um completo estranho, já que iremos nos casar.
O olhar de Darcy foi atraído, de repente, para a dama de vermelho que retornava ao recinto. Os olhos dela cruzaram com os seus rapidamente. Era uma dança perigosa, que acontecera por toda a noite. Ele era atraído por ela, como um inseto por luz. Custara a ele toda a dedicação da noite para não procurá-la, não iniciar uma conversa.
Ema observou quando Darcy se distraiu, e o foco de seus olhos verdes migrou para o outro lado da sala. Não sentiu qualquer surpresa ao perceber que era Elisabeta o objeto de sua admiração. Sorriu para si mesma quando os olhos dele escureceram e sua expressão se tornou mais séria.
— É realmente de tirar o fôlego. – Ema comentou, e Darcy pareceu sair o transe em que se encontrava.
— O que? Me desculpe, não a ouvi.
— Elisabeta. – Ema sorriu, e Darcy sentiu seu corpo travar. – E está especialmente encantadora esta noite.
— O que? – ele engoliu em seco. – Não a entendo.
— Me perdoe a indiscrição, mas o senhor não poderia negar nem se quisesse.
— Me desculpe. – Darcy forçou um sorriso, sem jeito. – Não estou acostumado a agir como um homem comprometido.
— O senhor não é comprometido. – Ema deu de ombros. – Não ainda, ao menos. E eu odiaria tirar sua última chance de desistir deste casamento. Deus sabe que já tive a minha.
E com um sorriso enigmático, Ema se afastou, deixando Darcy embasbacado. Se achava que não poderia se surpreender com Ema Cavalcante, estava completamente equivocado. Esperava uma moça disposta aos mais românticos sentimentos, temeu por isso, até. Jamais esperaria que fosse ouvir delas tais palavras. Mas foram suficientes para fazê-lo não resistir ao ver Elisabeta cruzar a porta em direção aos jardins.
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Ema sorriu ao ver Darcy seguir Elisabeta. Tomou um gole de sua bebida, sem saber exatamente o porque de tomar essa atitude. Mas não seria capaz de impedir os desdobramentos daquele encontro tão intenso que presenciara. Principalmente porque nunca vira Elisabeta tão desconcertada por um homem antes.
É claro que sua amiga não era completamente inocente. Tivera um ou dois namoricos com amigos de Ernesto, mas enquanto Ema sentia sua vida queimar em paixão, Elisabeta rapidamente se cansava de suas companhias. Era surpreendente para Ema, uma vez que sua amiga era muito mais propensa aos sentimentos intensos do que ela.
Mas tudo havia mudado ao conhecer o italiano de cabelos escuros e olhar divertido. No começo eram apenas alguns insultos trocados, uma implicância mútua, até o dia que uma brincadeira levou a um beijo. E logo as brigas se incendiaram, terminando em mais beijos roubados. E em uma noite estrelada, à beira da cachoeira, se entregou à Ernesto, e com ele viveu os momentos mais intensos e descontrolados de sua vida.
Era uma paixão que a mantinha fora de si, e o mero ato de pensar em Ernesto era o suficiente para fazer seu corpo responder. Sentia falta dos dias em que se sentia amada sem restrições, das invasões dele em seu quarto, da forma como o corpo dele se movia e a levava a loucura.
E se havia alguma dúvida em seu coração a respeito de como Darcy poderia fazê-la se sentir, ela havia sido respondida no primeiro olhar. Por mais bonito que fosse, Darcy não a atraia, não despertava nela mais do que sentimentos de carinho e amizade. E embora considerasse o suficiente para um casamento, não poderia negar a chama que vira entre ele e Elisabeta.
Porque ver o olhar de Darcy para Elisabeta a lembrara de Ernesto, e a forma como ele a cativava em qualquer lugar que estivesse, como seu olhar escurecia ao vê-la. E não negaria, jamais negaria à Elisabeta a possibilidade de uma paixão. Sabia que estava romantizando o que vira, mas se houvesse alguma pequena chance...
— Ema? – o rosto sorridente de Jane a tirou de seus pensamentos.
— Jane! Finalmente teve um tempo para mim! – piscou.
— Ema, o amigo de Darcy é um encanto. – ela trocou um olhar com o filho de Julieta Bittencourt, que a observava do outro lado da sala. – Espero que tenha gostado tanto assim de Darcy.
— É um homem muito bonito, sem dúvidas. – Ema divagou. – Mas...
— Não é seu carcamano? – Jane sorriu abertamente. – Minha amiga, eu não sei porque você insiste nesta loucura.
— Você sabe porque. – Ema sorriu. – Mas não posso mentir para você. Toda essa situação me fez pensar muito em Ernesto.
— Teve notícias dele?
— Não. Sei um pouco do que ele conta à Elisabeta, mas nunca me escreveu.
— Ernesto ficou muito magoado quando você se recusou a deixar este compromisso com Darcy de lado.
— É minha obrigação, Jane. Gostaria por vezes que não fosse, mas prometi cuidar de papai e vovô, e este é um grande plano de negócios para o Barão.
— Seu pai e seu avô a amam acima de tudo, Ema. Não tenho qualquer dúvida de que apoiariam suas decisões. – Jane segurou a mão de Ema.
— Mas não adianta falarmos sobre isso agora. Ernesto está bem longe, e Darcy está aqui. Se bem que... Você precisa prometer que não contará nada a ninguém. – Ema pediu.
— Me diga logo! – Jane a apressou.
— Está bem. Pode ser que Darcy esteja com sua irmã no jardim. – Ema sorriu.
— Minha irmã? Mariana? Mas eu acabei de...
— Não Mariana. Elisabeta! – Ema a interrompeu.
— Elisabeta? – Jane espantou-se. – O que Darcy estaria fazendo com Elisabeta?
— Isso só eles poderiam dizer, minha amiga. Mas me parece que sua irmã entrou na disputa por Darcy sem fazer qualquer esforço. – Ema manteve o sorriso.
— Elisabeta nunca faria isso com você. – Jane afirmou.
— Elisa não fez nada, Jane. – o sorriso de Ema se alargou. – Mas talvez eu tenha induzido Darcy a fazer.
Jane a observou com curiosidade. Ema parecia alegre demais com a possibilidade de Darcy e Elisabeta terem qualquer tipo de envolvimento. Quase como se desejasse que houvesse outro motivo para cancelar o compromisso.
##
Ela observava as poucas estrelas no céu, e só observando-a agora, de costas, é que Darcy notou os cachos que apareciam nas pontas de seus cabelos, ou as flores vermelhas que amarravam delicadamente seu penteado. Podia ver parte do rosto dela, iluminado pela lua, e o ar de repente ficou um pouco mais difícil em seus pulmões.
— Me pergunto o porque de Ema nunca ter comentado sobre a senhorita nas cartas... – ele disse, de repente, fazendo-a sobressaltar.
Elisabeta sentiu um arrepio ao ouvir a voz grave interagir com ela. Virou-se por reflexo, seus olhos em outro encontro rápido. Sua boca ressecou de repente, e desejou ter consigo alguma bebida.
— Não deve ter achado relevante. – deu de ombros, encontrando a voz.
— Eu não acredito. Pensando bem, Ema não costumava mencionar outras pessoas em suas cartas. – ele se aproximou em passos lentos, parando ao lado dela e olhando também para o céu.
— Não é como se o senhor perguntasse sobre a vida de Ema. – o olhar de Elisabeta retornou para as estrelas.
— A senhorita lia as minhas cartas? – inclinou a sobrancelha, voltando seus olhos para ela.
— Talvez. – respondeu em um meio sorriso.
— Teria me esforçado mais, se soubesse. – Darcy sorriu.
— Deveria ter se esforçado mais para Ema. – o sorriso de Elisabeta se alargou.
— Nem todas as palavras teriam sido suficientes para evitar o que aconteceu esta noite.
— E o que aconteceu esta noite? – Elisabeta virou-se para ele.
Mas não esperava que o olhar de Darcy estivesse tão próximo do dela, e sentiu o ar ficar pesado à volta dos dois. Havia perguntado por curiosidade, mas agora sentia que havia caído em uma armadilha.
— Eu vou me desculpar apenas uma vez pelos meus modos, pois quero que saiba que sei que a senhorita é uma dama. – ele disse sério, com os olhos grudados nos dela. – Mas não há outra forma de dizer. Eu não recordo de alguma outra vez em minha vida ter desejando tanto uma mulher quanto a desejo neste momento.
Elisabeta sentiu o calor tomar conta dela, como se tudo ao seu redor estivesse em chamas. Sabia que deveria sair dali, que deveria inclusive estapeá-lo por sua ousadia e deselegância. Mas estava ali o que chamava tanto sua atenção em relação a cada uma de suas cartas, a maneira direta com que abordava qualquer assunto.
Darcy abriu um sorriso sedutor ao ver que Elisabeta não se movera. Sabia que era um movimento arriscado, mas tudo em seu corpo dizia que era a maneira correta de abordar uma mulher como aquela. E não poderia ter proferido palavras mais sinceras do que as que acabara de dizer.
— E não há nada que me incomode mais do que sua ligação com Ema. – ele continuou, e deu um passo em direção à Elisabeta. – Porque sei que sua honra e lealdade me recusarão, mas vejo em seus olhos que, não fosse por Ema... não fosse por Ema.
Os olhos dele eram cheios de promessas, e a chamavam para um lugar distante. Estava encantada, envolvida, seu corpo vibrava.
— O senhor é direto. – Elisabeta recuperou a fala. – E não há nada que eu aprecie mais do que a honestidade. E por isso não há motivo algum para fingir que o senhor não está certo.
Ele sorriu, seus dedos encontrando o rosto dela em uma carícia leve, quase fantasma, mas suficiente para fazer com que os dedos dele formigassem, e ela fechasse os olhos.
— Eu gostaria de beijá-la agora, e sei que não impediria. – ela inclinou de leve a cabeça em direção ao carinho de Darcy. – Não impediria que a puxasse pela cintura, e apertasse seu corpo contra o meu.
— Mas o senhor não o fará. – os olhos dela se abriram, certeiros.
— Não farei. – ele sorriu, fazendo-a sorrir também. – Pois sei que se sair agora, ficará pensando nos beijos que poderíamos dar, e nas noites de amor que poderíamos ter.
— E se fizer? – ela o provocou.
— A senhorita será tomada por raiva e desprezo por minhas atitudes. – Darcy soltou uma risada baixa.
— O senhor me conhece surpreendentemente bem para alguém com quem nunca tive contato.
Elisabeta sorriu, se aproximando dele. Beijou-o levemente na bochecha, perto demais do canto do lábio de Darcy para que ele não notasse suas intenções.
— Tenha uma boa noite, senhor Williamson.
— A senhorita também, senhorita Benedito. – ele manteve-se imóvel.
Antes de entrar na casa, Elisabeta ainda o encarou mais uma vez, recebendo novamente uma piscada lenta.
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As luzes de São Paulo atrapalhavam seus olhos. Seus músculos doíam por mais uma jornada dupla de trabalho, e o chuveiro frio não ajudava a relaxar seu corpo. Ajudava apenas a esvaziar seus pensamentos, que insistiam em voltar para o Vale do Café, onde seu coração fora tirado de seu peito e mantido refém.
Passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. Queria esquecê-la, precisava apagar a presença de Ema de sua vida, mas a cada dia longe dela, seu sentimento era ainda mais forte. Sentia a falta dela, e como sentia a falta dela.
Sentia falta de suas frescuras e do jeito como ela sorria pela manhã. Do rosto dela corado quando o encontrava depois de uma noite de amor, e de seu olhar perdido quando o vento batia em seu rosto. Sentia falta do jeito doce que Ema tinha ao dizer o quanto o amava, e até mesmo das palavras duras que anunciavam sua partida.
A vida em São Paulo era boa. Estava trabalhando e construindo seu futuro, mas tudo parecia muito mais vazio sem ela à seu lado. Achava que deixar o Vale do Café faria com que sentisse felicidade, mas notava a todo momento que sua felicidade permanecia lá, com a Baronesinha.
— Tudo bem, meu amigo? – o amigo Januário perguntou, ao vê-lo pensativo no pátio do cortiço.
— Só pensando, meu caro. – ele tentou sorrir.
— Eu já disse uma vez, Carcamano, mas vou repetir. Você precisa lutar por sua felicidade, por mais difícil que pareça.
— Ema já fez sua escolha, Januário. Me resta seguir em frente. – ele levantou-se, indo em direção à seu quarto. – Boa noite, meu amigo.
— Noite. – Januário balançou a cabeça, sem discutir.
Precisava tomar uma decisão, e precisava fazer isso rápido. Sabia, por Elisabeta, que o inglês estava para chegar ao Brasil. E se queria manter qualquer chance de felicidade, precisava lembrar Ema do que sentiam um pelo outro. Só restava a ele um pouco de coragem para reerguer-se caso ela recusasse mais uma vez seu amor.
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