Half Of My Heart
3 Capítulo 3
Elisabeta teve um sono conturbado, acordando várias e várias vezes, sempre com os olhos de Darcy assombrando seus pensamentos. Não conseguia explicar com a lógica o frio na barriga que sentia ao pensar nele, muito menos a sensação de que não era um sentimento novo.
Era verdade que as cartas de Darcy sempre despertaram sua curiosidade. Ema quase sempre buscava seu auxílio para entender alguma expressão ou ironia. E Elisabeta gostava do tipo de humor que ele demonstrava, de sua inteligência e sensatez.
Darcy sempre fora contido, era verdade, mas sempre educado, sempre contando a Ema brevemente sobre sua vida. Era sempre gentil, e em nenhuma vez prometeu sentimentos que não tinha. Falava sempre a respeito da amizade que desenvolviam, e confirmava seu compromisso, mas sem nunca tentar iludir sua amiga.
E a surpreendeu que ele não fosse diferente pessoalmente. Era intenso, direto, com um brilho irônico no olhar. Darcy a fizera responder automaticamente, acendera seu corpo e sua alma, se tornando um enigma que ela queria desvendar. Mas sabia que não podia se envolver com o prometido de Ema, por mais que as sandices da amiga a mandassem para outro caminho.
Conhecia sua amiga, e se não fora capaz de desfazer o compromisso nem pelo amor que sentia por Ernesto, não conseguia imaginar outro motivo para Ema desistir. O que complicava as coisas, porque algo em Elisabeta duvidava que algum dia pudesse estar perto de Darcy sem aquela atmosfera estranha.
Principalmente quando sonhara com as promessas daqueles olhos, com as mãos grandes de Darcy, que aqueceram sua pele no dia anterior, mesmo em tão discretos toques. Sonhou em ser dele, com um desejo tão vívido que a fez tomar um banho gelado antes do nascer do sol.
Um par de horas depois, Ema invadiu o quarto de Elisabeta e Jane, sorridente e animada.
— Bom dia! Vim saber tudo sobre a sua conversa com o senhor Darcy. Nem acredito que você sumiu depois disso, Elisa. – ela sentou-se ao pé da cama.
— Eu também quero saber, Elisa! – Jane bateu palmas, sentando ao lado de Ema.
— E desde quando você sabe qualquer coisa sobre o senhor Darcy? – ela balançou a cabeça. – O que você disse à ela, Ema?
— Nada demais. Só contei à Jane o quanto você e o senhor Darcy ficaram interessado um no outro na noite passada.
— Você é muito exagerada, Ema. E é muito estranho conversar com você a respeito disso, uma vez que ele é praticamente seu noivo.
— Deixe de conversa e me conte. – Ema pediu, fazendo Jane rir.
— Não foi nada demais. Darcy só me elogiou e lamentou sermos tão amigas. – Elisabeta deu de ombros, contando parcialmente a verdade.
— Lamentou? Pelo que? – Jane questionou. – Ema e Darcy sequer gostam um do outro.
— Ema e Darcy tem um compromisso praticamente desde que Ema nasceu. – Elisabeta revirou os olhos. – E nenhum dos dois pretende desistir desse compromisso.
— E o que isso tem a ver? – Ema ofendeu-se.
— Ora, Ema. Vamos supor que de fato eu me sinta atraída por Darcy, e ele por mim. – as duas reviraram os olhos, apontando o óbvio. – Você sugere então que eu me envolva com ele? Imagino os jantares interessantíssimos que teremos nos próximos anos.
— Você está pensando demais. – Ema bufou.
— E você está pensando de menos. – Elisabeta levantou-se, irritada. – E sabe o que acho? Você está usando o que imagina que poderia acontecer entre mim e Darcy, para não pensar sobre seus sentimentos por Ernesto.
— Preciso concordar, Ema. Me parece que no fundo você gostaria que Darcy se envolvesse com outra pessoa, para não ser a responsável pelo fim desta loucura.
— Não existe nenhuma chance deste casamento ser cancelado. – respondeu, categórica. – É parte dos planos da família de Darcy e da minha também. Não tem nenhuma relação com Ernesto.
— Então por favor, pare de tentar me juntar com Darcy. É um homem muito interessante, mas tem um compromisso com você, e não arriscaria nossa amizade.
— E você deveria falar com Ernesto. – Jane deu de ombros.
— Não há nada para falar com Ernesto. Quantas vezes preciso dizer que ele foi embora sem olhar para trás?
— Ema, se estamos dizendo isso, é porque amamos você. E você sabe melhor do que ninguém que não fez nenhuma questão de pedir para Ernesto ficar. E, se me derem licença, preciso ficar sozinha. Estou de saída.
Elisabeta não deu a Ema a chance de responder, saindo logo em seguida. Jane ficou em silêncio, deixando Ema com seus pensamentos.
##
Januário abriu a porta de seu quarto no cortiço, ainda sonolento. Passara a noite pintando e não esperava visitas tão cedo. Muito menos que do outro lado da porta estivesse Ernesto, que, pelo horário, estava em horário de trabalho.
— Bom dia, meu amigo. – Ernesto cumprimentou, entrando sem pedir licença.
— Bom dia, Carcamano. O que faz aqui?
— Eu vim me despedir, pelo menos por enquanto. Pensei muito durante a noite, e não posso cair sem luta, meu caro. – disse com um sorriso.
— É assim que se fala, meu amigo.
— Ema tem sentimentos por mim, e nunca demonstrou nenhum sentimento por este inglês engomadinho. Eu sei que ela pode me rejeitar de novo, mas não posso ver o amor da minha vida se casar. Não posso ficar parado.
— Ernesto, essa é a melhor coisa que você pode fazer. Vá atrás de sua felicidade.
— Eu nem saberia fazer nada diferente. Parto hoje à noite, só preciso pedir as contas em meus empregos.
— Boa sorte, Ernesto.
Januário puxou o amigo para um abraço fraterno. E então Ernesto seguiu seu caminho. Arrumou seus pertences e conversou com seu patrão na fábrica. Logo após, procurou o senhor Manuel, que garantiu que as portas estariam sempre abertas.
Era hora de procurar Ema. Era hora de mais uma vez tentar colocar um pouco de juízo na cabeça de sua Baronesinha. E era também sua última tentativa.
##
Darcy observava, ao longe, as obras da ferrovia. O sol já ameaçava cair, e os cafezais aos poucos eram tomados pelo alaranjado do sol se pondo. Não estava acostumado com a vida no campo, e se realmente se casasse com Ema, precisaria decidir entre o avanço de Londres, as peculiaridades de São Paulo, ou a calmaria do Vale do Café.
Sentia-se estranho após conhecer Ema e Elisabeta. Nunca dera-se conta de que o compromisso com Ema o privaria de tantas outras coisas, e parecia destino que ele quisesse agora a única mulher que era proibida. Porque Elisabeta era um problema, e ele sabia bem disso.
Havia refletido durante a noite, e não havia dúvida nenhuma em sua mente. Mesmo com as palavras de Ema, sabia que não havia forma de se envolver com Elisabeta sem causar extrema confusão. E duvidava que fosse capaz de não tentar se envolver com aquela mulher que dominava seus pensamentos desde o primeiro olhar.
Não conseguia recordar de outro momento em que sentisse tanta atração por alguém, obsessão até. Em contrapartida, nunca havia desejado uma mulher que não pudesse ter. Nunca havia recuado em seus desejos por qualquer outro motivo.
— Vejo que o destino está forçando nossa proximidade. – a voz de Elisabeta o tirou de seu raciocínio.
Ele virou-se lentamente, os olhos dela mais claros do que na noite anterior, o sol batendo em seus cabelos, trazia um sorriso leve no rosto e um cavalo a seguia.
— Me desculpe interromper, estava dando um passeio e não pude resistir à conversar com o senhor. – dessa vez foi ela quem piscou.
— Acredito que não possamos considerar interrupção quando os pensamentos se materializam. — Darcy sorriu.
— Fico lisonjeada. – Elisa se aproximou, parando ao lado dele. – É uma visão e tanto.
— De fato. – os olhos dela no pôr do sol, os dele, nela.
— Está preparado para a possibilidade de morar no Vale do Café? – ela perguntou, corando ao notar o olhar dele.
— Confesso que estou me adaptando a ideia de ser um homem casado.
— O senhor parece ansioso para colocar essas ideias em prática. – Elisa revirou os olhos.
— Sempre vi esse casamento como um acordo comercial. – ele ficou sério, de repente.
— É uma bonita maneira de ver. – Elisabeta disse, irônica.
— Não sou dado a aspirações românticas. – Darcy confessou.
— Se o senhor não dissesse, eu não imaginaria. – riu.
— Estou tentando me abrir com a senhorita, e está fazendo troça de mim. – Darcy a encarou, divertido.
— Me desculpe, sempre disse à Ema que era uma loucura casar-se por conveniência. Agora, conhecendo o senhor, não há cenário em que possa imaginá-lo fazendo Ema feliz. – ela deu de ombros.
— E me daria a honra de saber o porquê? – Darcy virou-se para ela.
— A começar, ambos são práticos demais. Ema precisa de um homem explosivo, que a faça quebrar seus medos. E não parece ser o seu caso.
— Ela me parece uma moça sonhadora.
— Ema sonha dentro de seus limites, como um pássaro engaiolado. É presa à tradições e obrigações com a família. Ninguém que seja parte deste mesmo mundo a faria sair do eixo. – sorriu, lembrando-se de Ernesto.
— E seu olhar me diz que ela já encontrou este homem. – Darcy questionou, curioso.
— Não caberia a mim dividir a intimidade de minha amiga.
Darcy a observou, e um brilho diferente piscou nos olhos de Elisabeta. Ele deu um passo em direção a ela, quase suficiente para invadir seu espaço.
— A senhorita é o oposto de Ema. Vejo em seus olhos a rebeldia. Foi o que a fez vir ao meu encontro, quando podia ter ignorado minha presença.
— Eu não estaria aqui se acreditasse que o senhor carrega a felicidade de Ema. – ela sorriu contida.
— Mas não carrego, e nós dois sabemos disso. – ele segurou a mão dela subitamente, levando o pulso de Elisabeta à seus lábios.
— Não... – ela fechou os olhos com a carícia, prendendo a respiração.
— Por que está aqui? – Darcy também fechou os olhos.
Ela demorou a responder, envolta por aquele ar quente. Os lábios dele continuavam depositando beijos em seu pulso e antebraço, arrepiando seu corpo, tirando-lhe o ar. E Darcy precisava conter-se para não puxá-la para seus braços, para não misturar seu perfume ao dela.
— Porque sou o oposto de Ema. – riu baixo. – Porque meus sentimentos governam minha razão, na maior parte do tempo.
Elisabeta segurou a outra mão de Darcy, repetindo o movimento dele, levando a palma da mão dele à seus próprios lábios.
— E o que sua razão diz? – ele mordeu o pulso dela, de leve.
— Que Ema nunca poderá me receber em sua casa, se não nos afastarmos. – Elisabeta riu.
— E seus sentimentos? – ele prendeu a respiração ao sentir os lábios dela repetirem o movimento.
— Que se me entregar agora, não haverá casamento.
Darcy desvencilhou sua mão da dela, segurando-a pela nuca. Sua outra mão a puxou pela cintura, grudando seu corpo ao dela.
— Tem tanta certeza assim de que poderia me fazer mudar de ideia? – os olhos dele buscaram os dela.
— Eu vejo o desejo em seu olhar. O sinto em cada toque, em cada gesto. O senhor ficou tão impactado quanto eu.
— Não neguei que a desejo. Mas não falei em desistir de meu compromisso. – Darcy disse, sério.
— Ema não desperta no senhor o que eu desperto. – Elisabeta sorriu, provocante. – E nem o senhor desperta nela maiores sentimentos.
— E o que sugere?
Elisabeta colou sua testa a dele, sem saber o que a dominava. O sonho marcava sua mente, e embora todos os seus alertas dissessem para correr, não conseguia se mover para nenhum lugar que não fosse para mais perto dele.
— Que estão cometendo uma loucura. O senhor é como Ema, senhor Darcy, gelo na superfície, mas rapidamente vira fogo. – o mão dele a apertou ainda mais na cintura.
— Você me faz fogo. Como nenhuma mulher fez antes. Quero controlar, e não consigo.
— Porque sabe que não podemos. – ela sorriu, suas mãos invadindo os cabelos dele.
— Quero beijá-la. Fazê-la perder o ar.
A mão que estava na nuca de Elisabeta subiu, segurando seus cabelos com firmeza. Puxou seus cabelos para trás, expondo seu pescoço, e sem conseguir resistir, tomou a pele entre seus lábios. A língua quente tirando um suspiro pesado de Elisabeta. Darcy a puxou contra ele, querendo fazê-la sentir o poder que tinha nele, sua ereção pulsando.
Darcy mordeu o pescoço dela levemente, antes de beijar novamente a pele sensível. Elisabeta moveu seus quadris contra ele, sentindo o calor dominar seu corpo. Uma de suas mãos arranhou de leve a nuca dele. Pretendia provoca-lo, sem saber o motivo, e acabara refém das garras de Darcy.
Ele mordeu a orelha de Elisabeta, seus lábios deixando marcas por sua pele, sua língua mantendo um rastro de calor que fazia todos os poros dela vibrarem. Seus narizes se tocaram e os lábios estavam a milímetros de distância, suas respirações descompassadas.
— O senhor será incapaz de viver sem esse desejo, senhor Darcy. – ela desviou os lábios do dele, retribuindo e beijando-o no pescoço. – Comigo, ou com outra mulher. Mas não será Ema.
Darcy jogou a cabeça para trás ao sentir os lábios dela em seu pescoço. A barba sempre bem feita, hoje cutucava a pele de Elisabeta. As mãos dela desceram para o peito dele, e Darcy não resistiu a descer a mão que estava na cintura dela, numa carícia breve na carne macia.
— Não deveríamos estar fazendo isso. – ela sussurrou no ouvido dele.
— A senhorita me surpreende. – disse, sem ar. – Mas deixou claro seu ponto. – soltou uma risada.
— Fico feliz. – ela se afastou dele lentamente, arrumando as roupas.
Mas foi surpreendida pelo puxão dele em sua cintura, grudando novamente seus corpos, quase grudando suas bocas.
— Me fará pensar a respeito do casamento. – Darcy segurou a mão dela, descendo-a pelo corpo dele. – Mas você será minha, Elisabeta. Não importa o quanto tente evitar.
— É uma ameaça? – ele parou de controlar sua mão, quando estava perigosamente perto do botão das calças de Darcy.
— Ameaça-la seria dizer que não terá o que deseja. – Darcy olhou nos olhos dela. – É uma promessa, para nós dois.
— O senhor é cheio de promessas e compromissos. – Elisabeta sorriu, provocativa.
— Disse mais cedo que eu não sou o tipo de homem que Ema precisa. – ele sorriu, descendo sua mão pelo corpo dela. – Mas a senhorita precisa de um homem que a domine, que a provoque, que descubra seus desejos. Eu sou esse homem, Elisabeta.
— Como pode ter tanta certeza? – os olhos deles se encontraram.
— Porque está aqui.
Os dois sorriram, sabendo a verdade por trás daquelas palavras. Elisabeta o empurrou de leve, e ele a deixou ir.
— Vamos, pode dizer. – ele sorriu abertamente para ela, arrumando suas próprias roupas.
— O que? – Elisa perguntou, confusa.
— Que a senhorita é a mulher que vai bagunçar minha vida. Sei que é nisso que está pensando. – Darcy colocou as mãos nos bolsos.
— Se o senhor está dizendo... – ela deu de ombros, com um sorriso provocante. – Tenha uma boa noite, Darcy.
— Você também, Elisabeta.
Ela montou em Tornado em seguida, tomando o rumo de sua casa, e completamente confusa quanto ao que acabara de acontecer. Estava brincando com fogo, e pelo calor de seu corpo, já estava queimando.
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A noite trouxe o vento gelado, e Ema encolheu-se embaixo das cobertas. Era nessas noites que sentia falta do calor do corpo de Ernesto à seu lado, nas muitas noites em que ele entrava por sua janela e saia antes do sol nascer. Pensava nas palavras de Elisabeta a respeito de seus motivos para querer um envolvimento dela com Darcy.
Não podia negar que gostaria de uma desculpa para que esse compromisso sumisse. Se Darcy não quisesse seguir em frente, não haveria nada que seu avô poderia fazer, e não se decepcionaria com ela. Mas então, o Barão arrumaria outro pretendente, e ainda assim ela não seria de Ernesto.
Mas não conseguia negar o que via no olhar de Elisabeta, e havia sim parte dela que queria ver a amiga feliz. Mas se fosse sincera, parte dela também torcia para que fosse apenas sua imaginação, para que não precisasse se acostumar à ideia de casar-se com outro homem.
Darcy era gentil e certamente seria um bom amigo. Não despertaria paixões, mas ela bem sabia que a paixão era um sentimento poderoso e perigoso. Darcy seria seguro, estável, e não a desrespeitaria.
Mas na noite fria, era o italiano quem ela desejava a seu lado.
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