Hakanai (Interativa)

8 Rouge vs Zang: o valor de uma W-battle


– Zang tem um estilo bem ofensivo na sua estratégia em WWW! – afirma Martina, junto de Fubuki, Star, Keiko e Anya: todos assistindo o início do confronto entre Rouge e Zang. – Já ela prefere se manter na defensiva. Além disso, ambos sempre venceram. Será mesmo eletrizante esta W-battle!

– Tempestade de Areia!! – ordena o pai de Mei, dando o seu parecer com seu Monstro de Areia.

Todos os seis W-warriors estão a postos. E assim que a declaração de Zang ecoa, sua criatura de areia cria uma densa tempestade de areia, tal qual preenche todo o campo. Rouge, por sua vez, declama calmamente:

– Varredura.

Reunindo suas mãos, as três Valquírias da mulher criam um grande turbilhão de luz e o mesmo dá um fim à Tempestade de Areia. Insatisfeito, decide usar a Maldição do Egito desta vez:

– Providência!

A Maldição do Egito, um ser com a forma da cabeça de um leão dourado, ruge furiosamente. Tal rugido age como uma verdadeira maldição, que faz as mãos das guerreiras femininas de Rouge se separarem e caírem com o joelho esquerdo – ambas – dobrado ao chão.

– Isso será, pelo menos, suficiente para quebrar a defesa delas. – pensa Zang, suspirando para executar um novo ataque. – Impacto Caótico!

Caos, o maior ser presente no campo, salta de ponta-cabeça contra as W-warriors da adversária. Seu punho direito cerrado é preparado para acertá-las, mas um escudo cinético bloqueia a investida.

– Deidade Defensora. – afirma Rouge, enquanto apenas a Valquíria Skuld forma a barreira protetiva, de mãos e rosto para o alto: é a única de suas guerreiras que permanece, de fato, de pé.

Apesar do poder de defesa do escudo, com o punho de Caos colado a ele, a barreira cinética começa a sofrer rachaduras. Por isso, as demais Valquírias também se levantam e se juntam a ela.

– Trindade Defensora. – recita Rouge, quando o escudo é reforçado e repele para o céu, agressivamente, o W-warrior gigante de Zang.

– Só se defender não vai te garantir a vitória! – exclama o pai de Mei. – Ataquem em conjunto, Monstro de Areia e Maldição do Egito: Deserto das Ilusões!

Uma grande luz carmesim envolve todo o local. A área do combate se transforma em um sofrível lugar desértico. Outra vez, as Valquírias fraquejam e caem de joelhos, deixando a barreira que criaram desaparecer. Em seguida, Caos, após ter sido lançado ao céu, retorna à sua posição inicial.

– Apesar de tudo, acho que você não sabe o que este jogo significa para mim. – afirma Rouge, trazendo para si o olhar do seu oponente.

– De fato, não sei. Mas por que deveria, se você também não conhece a minha postura sobre WWW? – retruca ele, usando, apesar disso, um tom ameno e tranquilo. – De certo modo, você é presunçosa. Deveria mudar a sua maneira de se colocar perante os outros.

Zang não pode ver, devido a máscara que ela usa, mas Rouge agora sorri. O motivo: considera que, na realidade, o presunçoso aqui é ele. Desse jeito, fala:

– Você é um homem de pulso firme, com decisão forte. Geralmente pensa bem antes de agir e quando age, acerta. Pelo menos acha que acerta.

– Aonde quer chegar com esse papo? Estamos em meio a uma W-battle! – declara ele, tentando deixar por encerrado o diálogo. – Tríplice!

Os três seres virtuais de Zang se preparam, reunindo o que parece ser energia. Uma grande esfera de luz é criada à frente de cada um dos W-warriors do pai de Mei. Em seguida, as esferas se fundem e dão forma a uma ainda maior, que é disparada contra as Valquírias. Porém, como antes, a Trindade Defensora bloqueia e o ataque se dispersa em energia outra vez. Satisfeita, a mulher prossegue com suas palavras:

– Detesta fugir às regras e, de certo modo, por se julgar como alguém que as segue fielmente, acusa quem não faz o mesmo. Pensa que sua postura diante da vida é a ideal para todos.

– Não sou presunçoso a esse ponto. – tenta argumentar ao seu próprio favor.

– No fundo, você é. E é por ter a hesitação em seu coração que não pode me vencer. Disso não tenho dúvidas...

– Fale sem rodeios! Diga logo que se acha superior. – pede ele, calmo, pelo menos por enquanto.

– Então serei direta: por trás desta armadura, há um bom coração que foi decepcionado e ferido. Porém, ao invés de tentar curar a ferida, você a cultiva como se fosse uma lembrança a si mesmo para que nada viesse lhe fazer sofrer outra vez. Procura, no WWW, uma espécie de refúgio para suas dores, onde encontra a força que, externamente, pensa não ter. – explica, como se pudesse ler a alma do seu adversário, deixando todos os espectadores da disputa impressionados. – E sei perfeitamente o nome de quem lhe fez tão mal...

– Tríplice!! – exclama ele.

Os seus W-warriors fazem o mesmo “ritual” que antes. Porém, outra vez, o ataque é bloqueado pela defesa cinética das guerreiras da Virtude em campo. Por isso, sorrindo por debaixo de sua máscara, a mulher deixa claro:

– O nome da pessoa que um dia te decepcionou, responsável pela criação da armadura que hoje o reveste... É...

– Pare já com isso! – pede Mei, ao surgir do nada no meio da arena de combate.

Ambos os W-players que agora disputam olham para ela, assim como todos os espectadores. Ninguém poderia esperar que haveria uma interrupção dessas. E vinda logo da filha de um dos participantes da W-battle atual!? Para muitos, o espetáculo está bem melhor do que novela...

– Vocês estão aqui para travar uma W-battle e não para falar da vida pessoal um do outro! – argumenta Mei, dando todo o seu olhar para Rouge. – Você não tem o direito de falar assim do meu pai, por mais que saiba do passado e das reais ideias dele! Ir ao fundo dos sentimentos mais ocultos de alguém machuca e...

– Mei, não preciso ser protegido. – alega Zang, chamando para si o olhar surpreso da filha. – Saia.

– Pai... Eu...

– Saia. Vou terminar com esta disputa, irei até o fim com a minha própria determinação. Meras palavras como essas não vão me desanimar. – insiste ele, bem sereno, mesmo nesta situação.

Mei se vira para o outro lado e começa a caminhar: o que faz por alguns instantes. Porém, para quando escuta:

– Moon. O nome de quem te feriu é Moon.

Hesitante, tudo o que Mei deseja é voltar para defender seu pai. Porém percebe que, para ele, ferir seu orgulho seria ainda pior do que ferir seu coração. Se quer fazer algo por Zang, verdadeiramente, deve apenas assistir e torcer por sua vitória. Sem mais palavras, retoma seus passos e retorna para o camarim.

– Talvez você saiba mais do que deve sendo quem é. – alega ele, julgando isso pelo fato de sua oponente ser a Virtude da Castidade. – Contudo, não precisa compartilhar dessa sabedoria comigo, pois dispenso. Nem tente me entender, já que isso não lhe trará nada em absoluto. O valor deste jogo é lutar com a sua determinação e não com joguinhos mentais, mostrando para todos o potencial que tem.

Isso ele diz pelo fato de que, mesmo tendo uma hierarquia de classes nas cartas de metal no mundo de WWW, o W-warrior – apesar de ser virtual – só é realmente forte quando responde aos anseios do coração de seu usuário. É por isso que o jogo – ou esporte – é aclamado como um dos melhores de todo o mundo. É algo que se conecta diretamente ao jogador, lendo o que ele sente para traduzir isso no campo de batalha. É algo que foi criado 16 anos atrás e que, desde então, faz um sucesso mundial tremendo.

– Benção Divina. – clama a mulher, erguendo seu braço direito para o alto. – Está engado em tudo o que diz.

Um intenso brilho envolve as W-warriors dela. Benção Divina é algo que pode ser feito somente quando as três Valquírias estão reunidas – apenas uma vez – e uma das poucas ferramentas das mesmas que não é ligada, diretamente, à defesa. A função que tem é elevar ao máximo um dos status: VIDA, MAGIA, FORÇA OU VELOCIDADE. E, no caso, é possível ver no W-disk – e também no grande telão na arena que sempre mostra o nome dos participantes e os status de seus guerreiros – de ambos, que o que aumenta é a VELOCIDADE. Todas as Valquírias atingem 5000 no quesito.

– Primeiro: não sei nada além do que devo saber. – afirma a Virtude em campo.

Em seguida, ela suspira. E pensa somente:

– Relampejo da Espada Sagrada...

Somente os W-warriors que possuem ligação total com o jogo e com seus W-warriors é capaz de executar um comando apenas com o pensamento. Afinal, World White War é algo que lê os sentimentos do praticante. Rouge não é famosa apenas por nunca ter perdido uma W-battle, mas também por ser a única que pratica WWW, no mundo inteiro, que tem 100% de compatibilidade com o mesmo.

Por isso, as três guerreiras femininas sacam as suas espadas em suas costas. As lâminas são envolvidas por feixes de luz que parecem pequenos raios.

– Segundo: a sabedoria deve sim ser compartilhada, pois nunca é demais.

Com uma velocidade aterradora, a Valquíria Rota se movimenta. Em um milésimo de segundo, surge diante da Maldição do Egito. Com o movimento da sua espada – o dito Relampejo da Espada Sagrada, algo totalmente ofensivo – pulveriza o alvo após o corte, fazendo-o desaparecer: tanto Zang quanto os espectadores e o anfitrião ficam boquiabertos.

– Terceiro: tentar te entender me permitirá lhe fornecer ajuda. É meu objetivo auxiliá-lo para que possa escapar desta dor que o envolve.

Uma nova Valquíria faz seu imparável movimento: Skuld surge diante de Caos e, com o ataque de espada, o parte em dois, transformando em migalhas que desaparecem.

– E quarto... – inicia, entre um suspiro leve, dando então o “retoque final” antes do quase determinado fim do confronto. – Concordo: o verdadeiro valor deste jogo se encontra na determinação para mostrar o que, nós como humanos, somos e o que podemos fazer. World White War traduz tudo o que sentimos e, como tenho uma ligação tremenda com este jogo, posso ler o coração dos meus adversários em uma W-battle.

Como última cartada, a Valquíria Gundr se aproxima – tão veloz quanto suas antecessoras – do Monstro de Areia e o corta com a espada. Assim como os dois primeiros, ele desaparece. E diante disso uma imensa plateia: atônita.

– Por quê? – questiona Zang, surpreso com tudo, sem nem mesmo acreditar que está perguntando isso para Rouge. – Por que você ama tanto este jogo a ponto de sentir os sentimentos alheios nele?

– Por que, além de Deus, ele é tudo o que me restou.

O silêncio ecoa. Prova de que até o anfitrião do evento está atordoado com o espetáculo que se fizera nesta arena. Entretanto, segundos depois, o tal declara:

– A lendária Rouge é a vencedora!

A mulher caminha em direção ao seu adversário, assim que o silêncio geral se desfaz por completo e a plateia começa a gritar de empolgação como em nenhum outro confronto anterior deste torneio. No fim das contas, ela deu tudo de si. Pois quando Rouge parte para a ofensiva, deixando os métodos de defesa das Valquírias de lado, o valor do seu oponente está sendo reconhecido. É por isso que, no fundo, ciente disso, Zang está satisfeito.

– Todo ser humano tem o direito de ser feliz de verdade. – afirma ela, estendendo sua palma direita para o pai de Mei após se aproximar o suficiente e se colocar diante do mesmo. – Abra seu coração, elimine os sentimentos negativos... E seja feliz.

Ele sorri. E sorri com sinceridade. Nunca havia enfrentado alguém como ela, nem sido derrotado. Foi sua primeira e saborosa derrota, logo após incontáveis W-battles que já passaram das 4000. Sendo assim, o sujeito estende sua mão direita, concluindo o aperto de mãos de alguns instantes.

– Obrigado. – agradece, mantendo o sorriso radiante que sua alma ansiava exibir desde que seu coração fora ferido pela tal pessoa chamada Moon.

Quando o aperto de mãos tem fim, Rouge se vira em direção ao camarim. Começa a dar alguns passos para ele e, logo depois, o pai de Mei Sasaki faz o mesmo. Satisfeita, a Virtude vai pensando em seu trajeto:

– De fato, Deus e este jogo são tudo o que me restou. Mas é tendo ambos que adquiri algo mais: o sonho de, através do World White War, curar as feridas de todo coração.

– Impressionante mesmo! – opina Fubuki, observando o aproximar de Rouge, com Star em seus braços, junto de Keiko, Anya e Martina. – Nunca vi uma W-battle tão fantástica como essa!

– Eu disse que seria. – afirma Martina, sorrindo. – Mas admito que nem mesmo eu esperava algo tão bom.

Rouge, então, passa pelo grupo e segue seu trajeto, em direção a um dos vários corredores internos do camarim. Eles continuam lhe observando, enquanto Keiko fala:

– Ela já venceu este torneio. Não tem para ninguém.

Assim que os pés de Zang tocam o local, Mei corre para seus braços, abraçando com afeto e repousando a porção direita da sua face em seu peitoral. Entre lágrimas e com suas pálpebras fechadas, ela diz:

– Parabéns, pai! Você foi ótimo!

– Assim como você também foi contra ela. – fala ele, acariciando o topo da cabeça da filha com os dedos da mão direita. – Porém, Rouge é uma pessoa que não pode ser derrotada. Não em WWW.

Mei reabre seus olhos e ergue sua face, encarando o pai com ela úmida e avermelhada. Alegre por ter visto tudo aquilo e por agora senti-lo verdadeiramente disposto a ser feliz, a Virtude se aperta ainda mais no pai, declarando:

– Te amo muito!

É... A W-battle travada pelas duas grandes lendas em WWW chegara ao fim. Porém, as marcas por ela deixadas prometem permanecer eternamente nos corações de muitos – e não somente nos de Rouge e Zang. Percebendo tal fato, ele corresponde:

– He... Eu também te amo, e bastante, minha pequena preciosa...

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Enquanto isso, em algum ponto interno do camarim...

– Eu preciso parar de chorar... – fala Yuni, saindo do banheiro feminino.

Desde o término da W-battle em que foi derrotada, veio para cá e se derramou em prantos solitários. Não por ter perdido o torneio, mas por ter perdido sua melhor amiga. No fundo, está agora pensando no que será de Lucy, como ela pode estar...

– Mika’il, você por aqui... – se surpreende Sisshin Takayama, de braços cruzados, ao se deparar com o citado.

Com seu rosto cabisbaixo, a jovem Yuni o ergue ao ouvir a voz daquele que travou uma disputa tão acirrada consigo. À certa distância, estão os dois sujeitos que, agora, permanecem um diante do outro se encarando com seriedade. Parecem ser conhecidos de longa data...

– O que quer? – questiona o mais alto, de modo meio rude, sem demonstrar interesse em uma conversa com o ruivo.

– Entender o que houve para mudar tanto. Tudo foi por causa do que aconteceu com a vila?

A vila a que Sisshin se refere é o lar onde vivia Mika’il. Vivia, pois a mesma já não existe mais. Ouvindo o último comentário do ruivo, por alguma razão, Yuni se sente interessada e acaba ficando no mesmo ponto para escutar mais.

– Me deixe em paz, por gentileza. Não me use como bode expiatório para passar seu tempo... – pede o mais velho, desviando-se dele e passando ao seu lado esquerdo.

A mão do menor vai até o pulso direito de Mika’il, prendendo-o com força e impedindo-o de seguir. Irritado, o maior puxa sue braço abruptamente, voltando seu olhar carregado de ira para Sisshin:

– Dá para você parar de me importunar? Vim aqui participar deste torneio por meus próprios objetivos e não para falar com pessoas do seu tipo. E já não tenho nada mais a fazer neste lugar.

Sendo assim, sem de fato ter o desejo ou a intenção de perder um segundo sequer da sua vida com o ruivo em questão, o jovem que fora abatido por Fubuki durante as W-battles das preliminares se afasta, tomando seu próprio rumo. Afinal, é uma pessoa que, após os duros choques da vida, aprendeu a se virar sozinho sem ajuda de ninguém. E, de certa forma, Sisshin sabe que ele não mudará tão facilmente.

– Gostava mais do Mika’il antigo. Era um cara mais maneiro... – comenta para si mesmo, ao colocar suas mãos em seus bolsos e manter todo o seu corpo em direção daquele que se afasta. – Diferente desse “senhor armagura”...

Ao se virar para o outro lado, seus olhos acabam se encontrando com os olhos de Yuni. Por algum motivo, ela sente seu rosto corar e quase morre de tanta vergonha quando ele lhe mostra um estonteante sorriso.

Sisshin toma passos e começa a caminhar em direção a ela, o que faz com que o coração da amiga de Lucy dispare a mil por hora. Entretanto, ainda assim, quando ele está bem perto, se vira e toma como meta um dos corredores do local. Por alguns segundos, ela pensara que Sisshin vinha ao seu encontro.

– Ai garota, para de pensar besteira! – se repudia, balançando a cabeça de um lado para o outro. – Não é hora de ficar imaginando coisas!

Com isso, Yuni se acalma e respira profundamente. Ainda com Lucy em sua mente, acaba se lembrando de Fubuki, Yume, Mei, Martina, Gon e Zang. É claro que não se lembra dos nomes de todos eles, mas jamais esquecerá as palavras que lhe foram ditas. E, por alguma razão, sente que pode confiar naquele grupo. Ao menos tentar... E é com tal mentalidade que a garota decide enfrentar todos os seus temores e implorar por ajuda. Afinal, não poderá mais ter a paz de antes enquanto não for capaz de resgatar sua amiga Lucy, esteja ela onde estiver.