Hades e Perséfone
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu nunca fiz questão de estar aqui
Muito menos participar
E ainda acho que o meu cotidiano
Vai me largar
Abriu os olhos negros entediados por mais uma noite sem dormir. Sentou-se, bocejou cansadamente e escorregou para fora da cama. Abriu o guarda-roupa, jogou algumas peças em cima da cama e arranjou uma toalha, seguindo pra o banheiro. Sempre a mesma coisa. Não dormir. Levantar. Tomar banho. Se arrumar. O cotidiano se apossava dele cada vez mais.
Não queria gostar da rotina, mas gostava porque a rotina tem essa maneira romântica de nos tomar nos braços e fazer com que tudo entre em um torpor tão permanente que todas as outras preocupações se dissolvem como gelo ao toque de água. Porque a rotina vai matando-nos um pouquinho mais a cada dia até que chega um nascer do sol onde não se vive, apenas se existe.
Um dia eu vou morrer
Um dia eu chego lá
E eu sei que o piloto automático
Vai me levar
Tirou a camiseta e seu olhar abateu-se em seus pálidos pulsos horizontalmente marcados. De relance vislumbrou o brilho cinzento das pequenas lâminas em sua pia. De súbito balançou a cabeça para espantar os pensamentos que só levavam a um lugar escuro e ao gosto de sangue.
— Você já está grandinho de mais para ficar brincando com giletes, não acha?- Falou para si mesmo em um tom falsamente repreendedor- Se continuar desse jeito vai morrer- Riu amargamente, deuses não morriam, entretanto desapareciam, o que talvez acontecesse se ele continuasse a cortar os pulsos daquele jeito.
E por algum motivo a ideia de simplesmente parar de existir tendo a fina poeira da descrença jogada em si mesmo não o metia regelo algum em seus ossos. Sempre os mesmos cansados ossos.
Eu devia sorrir mais
Abraçar meus pais
Viajar o mundo e socializar
Nunca reclamar
Só agradecer
Tudo o que vier eu fiz por merecer
Saiu do banho, enxugou-se e colocou um terno tão escuro quantos seus pensamentos matinais. Deslizando os dedos pelo cabelo cor de ébano em frouxa tentativa de penteá-lo, arriscou uma olhada no espelho próximo.
— Este é você Hades Aidoneus, eu não me orgulharia- Brincou sem humor algum na voz. Humor não era de seu temperamento.
Dizia-se que era o mais parecido com Cronos. Com os mesmos cabelos cor de carvão e aquela palidez mórbida como a expectativa de morte enfiada na pele. Dizia-se que possuía as mesmas expressões duras e rígidas. O mesmo feitio severo.
Talvez por ser o primogênito do Rei não tivesse herdado o Olimpo. Porque era parecido demais com seu pai para ser saudável. Porque era uma decepção em muitos graus diferentes.
Tocou timidamente o vidro do espelho, já acostumado ao típico auto-ódio que estava intricado em cada complexa molécula de seu DNA.
Ergueu os orbes para encarar sua própria face reprovadora e engoliu um ofego ao fitar olhos tão dourados quanto ouro derretido e viu lábios idênticos aos seus murmurarem uma prece silenciosa.
’’Meu... Herdeiro’’.
Sem hesitações o punho bateu-se contra o vidro em uma profusão de cacos e icor dourado.
Finalmente a falta de descanso estava fazendo-o ver coisas.
Eu devia sorrir mais
Abraçar meus pais
Viajar o mundo e socializar
Nunca reclamar
Só agradecer
Fácil de falar, difícil fazer
Sua mão latejava penosamente quando ele abriu a porta do escritório e encontrou um jovem deus esperando-o em pé no meio da sala. Era muito pálido, mas que aparentou ficar ainda mais branco na sua presença. Os cabelos escuros emolduravam uma face bela em conjunto com temerosos olhos azuis e asas cor de azeviche que se encolhiam em suas costas.
— O que faz aqui Thanatos?- Perguntou com a voz desprovida de qualquer calor antes de sentar-se em uma cadeira atrás de sua escrivaninha.
— Meu senhor- Ele se curvou levemente em uma vênia educada- Almas escaparam dos Campos de Punição e rumaram para o Elísios, consegui recolher todas e agora estão em seus devidos lugares- Relatou apressadamente com a voz um tanto trêmula- Não demorei muito- Acrescentou nervosamente.
Hades emitiu um suspiro que era um misto de exasperação e cansaço.
— Diga-me, meu caro- Começou, fitando o pequeno quadro hesitante que era o deus da morte- Os Campos de Punição acaso não são uma tortura eterna sem escapatória?
— Sim, senhor. — Assentiu ficando ainda mais lívido.
— E algumas almas fugiram dessa suposta ’’tortura sem escapatória’’?-Sua voz era uma bala de chumbo agora. Certeira, fria e cruel.
— Desculpe-me meu senhor- Disse o deus com olhos ridiculamente marejados- Mil perdões.
— Que isso não volte a se repetir, se não vou pensar que talvez você deva tentar achar uma escapatória nos Campos de Punição, pois vai ser lá que vai passar o resto da eternidade- Ameaçou, com os olhos tão duros quanto o metal- Fui claro?
—Foi, senhor. — Ele se curvou mais uma vez e se retirou como se fugisse do próprio Diabo.
E talvez de fato estivesse.
Quase toda vez que eu vou dormir
Não consigo relaxar
Até parece que meus travesseiros pesam
Uma tonelada
Entrou no seu quarto, rumou ao banheiro e tomou um rápido banho. Arranjou uma roupa confortável e se aninhou na cama ciente da sua incapacidade de dormir tranquilamente. Era incrível, ele não conseguia relaxar nem quando tinha pegar no sono!
Revirou-se na cama prevendo uma longa noite. Tocou o punho enfaixado que ainda doía, provavelmente tinha deixando algum caco de vidro dentro da carne. Esfregou os olhos, enterrando o rosto na cama. Com certeza seria uma longa noite.
Eu devia sorrir mais
Abraçar meus pais
Viajar o mundo e socializar
Nunca reclamar só agradecer
Tudo o que vier eu fiz por merecer
Abriu os olhos negros, não que tivesse dormido. Sentou-se e olhou para o espelho rachado a sua frente, se semicerrasse os olhos o suficiente ainda conseguia vislumbrar o mesmo reflexo dourado dos olhos que não eram seus.
Riu de ironia, dor e amargura. Mas não sorriu, porque sorrir era demais.
Eu devia sorrir mais
Abraçar meus pais
Viajar o mundo e socializar
Nunca reclamar
Só agradecer
Fácil de falar, difícil fazer
O Mundo Superior era um local verdejante, colorido e repleto de sons. Muito diferente do submundo onde tudo era um eterno quadro em preto, branco e cinza. Na verdade, Hades sentia que se passasse tempo suficiente em sua casa, esqueceria que outras cores existiam e que outros sons além dos uivos dos mortos podiam ecoar.
Certamente o Mundo Superior não era o lugar certo para ele. Apesar de já terem o recomendado passar menos tempo com os mortos e mais com os vivos e andar mais nesse mundo cheio de cores. Mas também falavam que ele devia ser mais positivo e agradecer mais por suas sortes, então ele ignorava todas as recomendações. Sacou seu elmo e o encaixou na cabeça automaticamente ficando invisível.
Eu nunca fiz questão de existir
Não queria incomodar
Um dia eu acho um jeito de aparecer
E você notar
Encostou-se a um tronco, observando uma deusa muito jovem. Possuía cascatas de cachos castanhos deslizando pelas costas em combinação com a pele morena qual contrastava com o tom muito verde de seus orbes. Era um ser de luz, porém, como Hades, também não sorria. Não era de seu temperamento.
Mesmo assim ele sabia que nunca, nunca, seria notado por ela.
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