Hades I Terra-inversa

2 Capítulo 1 - Leprechaun


– Você só pode estar brincando! – disse a mulher incrédula do outro lado da linha.

– Não, eu me perdi mesmo... Não faço a mínima idéia de onde esteja. Acho que entrei na estrada errada... Já tentei ligar para o número da polícia, mas as linhas estão ocupadas – retrucou Oliver comprimindo o aparelho celular com os dedos.

– Tudo bem, acalme-se. Está ocorrendo um manifesto no centro da cidade e estão quebrando tudo. A polícia deve estar ocupada por lá, mas continue tentando. Uma hora alguém vai ter de atender...

– O motor do carro pifou e vai escurecer logo, é melhor eu começar a andar. O sinal de telefone está muito ruim. Liguei mais para avisá-la que poderei demorar um dia ou dois para voltar para a casa, vai depender de quando eu vou sair daqui e encontrar a casa de Tadeu. Cuide de minha mãe, por favor.

A ligação chiou e a última coisa que o rapaz ouviu, antes de desligar, foi um fraco “cuide-se, Oliver”. Quando ele guardou o celular no bolso da calça jeans, tentou não transparecer o receio de estar perdido. Oliver Drummond, um jovem de vinte anos alto, magro e de cabelos despenteados, parecia mirrado perto da floresta que rondava a estrada de terra-batida. Um compacto carro popular cinza, que emanava uma fumaça mal cheirosa pelo capô, ocupava a estreita pista.

“Porcaria de carro”, pensou Oliver passando as mãos nos cabelos lisos e compridos, que ficavam na altura da orelha. O céu se acobertava de nuvens cinzentas e o sol descia no horizonte. Devido às árvores altas e de copas volumosas, Oliver não soube dizer quanto tempo ainda tinha de luz. Talvez trinta minutos ou, com muita sorte, uma hora.

Estava em algum lugar da Praia do Lami, longe de Porto Alegre e de qualquer civilização. Seu chefe, o dono de uma empresa de advocacia, pediu para que Oliver enviasse uns documentos importantes para que seu cliente Tadeu assinasse. “Porcaria de documentos”, repetiu para si em pensamento. Avaliou se deveria ligar para o seguro, mas como não tinha conhecimento de sua própria localização, preferiu economizar bateria do celular.

Juntou todos os seus pertences dentro da mala de couro e trancou o carro. Olhou uma última vez para o carro e prosseguiu caminhando pela estrada. Não havia nenhum lugar para buscar por ajuda por onde passara, então restava seguir adiante.

Quando o sol já havia desaparecido e deixado para trás um rastro alaranjado no horizonte, no topo dos morros altos, Oliver soube que levaria mais de dois dias para voltar para a casa. Qualquer barulho próximo a ele deixava de ser um estalar de árvores, para se tornar um monstro assassino pronto para devorá-lo. Embora não houvesse relatos de animais selvagens capazes de matar humanos por ali, Oliver acreditava que o perigo sempre dava um jeito de burlar qualquer improbabilidade.

– Ah, meu Deus, eu prometo que serei um homem melhor se me tirar daqui... – pediu para a floresta estreita à sua frente. Repentinamente sentiu um cheiro de queimado.

Adiante, uma trilha cinzenta, quase difundida com o tom do céu, se não fosse pela rarefeita claridade, marcava a presença de uma fogueira. “Pessoas...”, pensou Oliver sentindo um ardor de ansiedade invadir seu peito. Poderiam ser campistas ou caçadores de pequenos animais. Eles certamente saberiam lhe dizer como voltar para a casa. Apressou o passo e segurou a maleta com dificuldade, pois o suor insistia em escorregá-la. Oliver saltou sobre duas raízes no meio do caminho e abriu os olhos o máximo que pôde, a fim de captar toda a claridade.

Finalmente, após longos segundos, avistou um brilho alaranjado entre as árvores.

Afastou um arbusto e deu-se de frente com uma barraca de lona armada com cordas e um esqueleto de metal. Ao lado dela, mais duas idênticas se postavam desordenadamente sobre a grama rala. Uma fogueira crepitava diante das três cabanas enquanto um varal com roupas balançava sutilmente com a brisa.

– Olá? – arfou Oliver devido ao esforço de correr.

Apoiou as mãos nos joelhos ao arquear. Baixou a cabeça, respirou fundo e levantou. Largou a maleta.

– Alguém?

O rapaz não obteve resposta. Além do silvo das folhas das árvores se tocando, a fogueira era a única que fazia barulho. Passou pelas barracas e não viu nada além de pertences e colchonetes. “Podem ter saído para caçar ou fazer uma trilha”, pensou Oliver sentando sobre um tronco improvisado como banco, ao lado da fogueira. Talvez estar perdido na “selva” o distanciava um pouco de seus problemas cotidianos. Contas para pagar, notícias desastrosas nos jornais, mais problemas... Os assassinatos, os manifestos e as greves estavam aumentando sem parar. Os noticiários não paravam de relatar que nem o próprio governo estava conseguindo manter controle sobre a população ensandecida. Ninguém sabia explicar porque as pessoas estavam tão perturbadas.

Foi só pensar um pouco a respeito, que Oliver notou um jornal parcialmente queimado caído ao pé da fogueira. Juntou-o e sacudiu-o para tirar a fuligem. A única página visível relatava a notícia de uma seita procurada por assassinatos em série.

“O Olho do Dragão está sendo procurado pelo assassinado de oitenta e oito alunos e três professores, da Escola Andaraíba, desde 2005. E agora, em 2009, está sendo acusada pela morte de treze crianças e um adulto, motorista do ônibus escolar, que foi sequestrado há dois dias e encontrado ontem, às onze horas da noite, à beira do Guaíba.

“É um absurdo que pessoas como estas continuem vivas” – disse a mãe de uma das vítimas.

A seita em questão tem como padrão matar com gás letal ou, como o massacre de 2005, quando invadiram a escola e mataram noventa e uma pessoas, de escolherem as crianças mais novas para beberem de seu sangue. Embora muitas pessoas denominem o Olho do Dragão como vampiros, os céticos dizem que não passam de psicopatas querendo chamar a atenção e causar pânico na população. “Vampiros?” perguntou um dos pais, em luto, à reportagem, “vou provar que uma bala é capaz de matar esses desgraçados.”

Oliver, enojado e angustiado, atirou o que restava do jornal do fogo. Apoiou a mão no tronco e sentiu uma textura pegajosa entre seus dedos. Levantou assustado e analisou-a através da luz das chamas. Era transparente e gosmenta como saliva. Limpou os dedos na calça e olhou para a gosma transparente que recobria o tronco, ao redor de um buraco que parecia ter sido produzido por uma mordida. Pedaços de madeira acumulavam-se na grama. Tirou da fogueira um pedaço de tronco que fumegava apenas na ponta e ergueu-a diante da cabeça. O rastro de “saliva” ia do tronco até a orla da floresta. Avançou dois passos e viu uma carabina caída sobre duas raízes encurvadas.

Engoliu a seco. “Uma arma?” questionou-se mentalmente. O que havia acontecido no acampamento? Três arranhões enormes, com cerca de trinta centímetros cada um, marcavam o caule da árvore perto da carabina. Um urso? Cogitou Oliver avançando rapidamente até a arma. Pisou sobre um cartucho de balas vazio e acocorou-se para avaliar melhor a situação. Não havia urso na Praia do Lami. A escuridão já o rondava por completo e se não fosse o fogo e o pedaço de madeira em sua mão, não enxergaria nada naquela noite sem lua. Uma vez, há mais de sete anos atrás, seu pai o levara para acampar.

Além da carabina, duas balas prontas para serem usadas estavam quase escondidas abaixo da raiz. Recolheu-as junto com a carabina e o carregou, assim que verificou que o cartucho estava vazio. Havia mais saliva sobre o cano e, para o pavor de Oliver, marcas de sangue. Ergueu novamente a tocha e nada viu na floresta. Seja lá quem tivesse caçando, havia sido caçado.

– Pesadelo – grunhiu Oliver suando frio nas axilas.

Nunca deveria ter saído de seu carro. Melhor estar dentro de sua carcaça metálica do que no bosque, mais perto do perigo do que imaginava. Ficou de pé e ouviu o estalar de galhos atrás de si. Virou abruptamente e quase deixou cair a tocha. Imaginou se começava a ter alucinações.

– Acho que isso é seu, senhor – disse alguém à suas costas.

Quando virou, deu-se de cara com a criatura mais bizarra de sua vida; ela tinha um metro de altura, sendo dois terços do tamanho apenas pernas, e um corpo completamente redondo. Seus olhos eram pequenos e situavam-se acima dos lábios, divididos entre si por um longo espaço e duas narinas. A boca era feia e separavam o corpo praticamente ao meio, tinha a consistência macilenta e o lábio inferior era protuberante, expondo três ou quatro dentes. O maxilar achatado grudava na barriga redonda e pequena, com um umbigo em seu centro.

Suas pernas eram longas e finas, tão finas que pareciam não suportar o próprio peso. Os braços, bem pequenos em comparação às pernas, mas também finos, terminavam em dedinhos longos e com bolotas nas pontas.

Mas aquilo ainda não era o mais estranho de tudo. Sua pele tinha um tom amarronzado com manchas verde escuro. Ele usava uma meia calça desfiada nas pernas e uma peruca na cabeça, que Oliver acreditou ser de um manequim de vitrine. Uns óculos transparentes de operário repousavam em sua cabeça redonda, e um espelho de cabo na mão direita. Na outra mão, ele estendia a maleta de Oliver.

Seus pezinhos de cinco dedos compridos e espalmados causavam um som engraçado toda a vez que tocavam a grama.

Oliver congelou. Enquanto encarava os dois olhos miudinhos e negros da criatura, seu corpo por inteiro sofria um jato de adrenalina. Suas veias pinicavam, seus músculos ficavam rígidos e suas pernas ainda mais molengas.

– UM MONSTRO! – gritou assim que despertou do choque.

– Monstro! – repetiu a criatura. Sua voz era pomposa e quase humana, diferente do que se esperaria de um monstro. Ele olhou para os lados, perturbado. – Onde?

Oliver gritou de novo e recuou, tropeçando nos pés. Esfregou os olhos com as costas da mão. A boca entreaberta expressava um pavor intenso. Esqueceu-se de que carregava uma carabina na mão e o deixou cair.

– Monstro! – gritou novamente ao dar meia volta e correr. – Socorro! SOCORRO!

Saltou sobre o tronco no meio do caminho enquanto agitava a tocha que carregava.

– Socorro! – repetiu o monstrinho desengonçado.

Quando Oliver olhou por sobre o ombro, ele o estava perseguindo.

– Salve Pierre! – gritou ele para Oliver.

Oliver apressou o passo no intuito de salvar-se a qualquer custo. Ver aqueles dentes mortais e afiados dançando na bocarra da criatura lhe causava arrepios. Gritou de pavor, rezando mentalmente para que nada daquilo fosse real. Aquele monstro teria devorado os caçadores desaparecidos?

– Meu Deus, eu não posso morrer... Não posso. – Olhou por sobre o ombro, a coisa horrenda estava mais perto. – Meu deus, é horrível!

– Espere por mim! – pediu a criatura. – Não me deixe aqui!

Oliver sentiu as pernas latejarem. Quando deu por si, o monstrinho o ultrapassava e começava a correr à sua frente. Estava difícil esquivar das árvores em seu caminho. Sacudiu a cabeça e reduziu o passo, incrédulo. O monstro percebeu e também parou, respirando ofegante.

– O que está fazendo? O monstro vai pegar você! – retrucou a criatura.

“Isso não está acontecendo...” pensou Oliver ao arquear as sobrancelhas.

– Mas você é o monstro – acusou o humano.

– Quê? – a criatura se apalpou, chocada. – Pierre não é nenhum monstro!

– Pierre?

– Pierre, meu nome – disse ele apontando para a barriga. Abaixo do umbigo havia uma tatuagem escura com um símbolo π, um R e o número dois. – Pierre II!

– Você não pode ter um nome... Também não pode estar falando e nem existindo! Seu MONSTRINHO!

Pierre franziu a testa, pasmo. Pôs a mão sobre o peito e depois admirou o próprio reflexo no espelho encardido que carregava. Apenas em fitar a própria imagem já se acalmou, ajeitando a peruca emaranhada de fios vermelhos sobre o topo oval da cabeça.

– Mon Dieu!Você só pode estar brincando... – retrucou Pierre. – Já se olhou no espelho? Ou a sua mãe estava com dor de barriga quando deu a luz a você, ou é defeito de nascença mesmo!

Oliver tocou o rosto, insultado.

– Eu sou NORMAL, mas que diabo é você? Uma mistura de sapo com... Com... – Como não conseguiu pensar em nada melhor para dizer, se calou. Para ele, aquilo não passava de um sonho muito louco. Ou uma alucinação... Ou quem sabe apenas uma reação desesperada de seu medo.

Pierre deu a impressão de revirar os olhos, estava irritado com a ignorância do humano.

– Eu sempre me esqueço de como as pessoas são burras.

– O que você disse? – questionou Oliver.

– Sou um Leprechaun, da quinta geração.

– Leprechaun não são homenzinhos irlandeses que se vestem de verde e consertam sapatos? – perguntou Oliver irônico. Se precisava entrar naquele jogo doido para sobreviver, então que fosse.

– Monsieur! Se eu cuspisse uma moeda a cada vez que eu ouvisse isso... Definitivamente estaria rico! – retrucou Pierre para si. – Minha mãe era irlandesa, sim, e vivia numa colônia na Irlanda, mas meu pai é francês. E não, não sou nenhum homenzinho que conserta sapato. Embora nossa raça produza couro... Consertar sapatos está definitivamente fora de cogitação desde que a segunda guerra mundial terminou.

Oliver não compreendia nada do que o leprechaun estava dizendo. Entretanto, ele não parava de falar.

– Nós viemos em um barco cargueiro, eu e minha mãe, para o Brasil depois que meu pai e meus irmãos foram exterminados durante a guerra. Eles foram recrutados pelos humanos, sabe... Foi então que nós vimos como os humanos são. Eu era pequeno demais na época e, então, quando cresci foi melhor irmos embora. Queríamos um lugar tranquilo para morar e achamos esse lugar aqui, muito bom.

– Olha, eu... Eu não quero interromper o seu falatório. – “Que não faz sentido nenhum para mim”, completou Oliver em pensamento. – Mas eu tenho que acordar desse pesadelo...

O leprechaun riu diante da expressão de Oliver. A criatura se aproximou; Oliver fez menção de recuar, mas ele já estava à sua frente no passo seguinte. Pierre estendeu a mão.

– Vamos esquecer nossas diferenças e nos tornarmos amigos.

Oliver olhou enojado para a mão da criatura.

– Você não espera mesmo que eu o cumprimente, não é? Você é um monstro. Não existe... Nem fala, nem anda. Fruto da minha imaginação... Não podemos ser amigos. Em qualquer instante ou eu acordarei de um pesadelo, ou você simplesmente desaparecerá para sempre. O que você fez com as pessoas daquele acampamento?

– Acampamento? Eu não sei do que está falando. A primeira coisa que vi foi você quando cheguei ali.

Pierre suspirou pacientemente. No seguinte piscar de olhos, Oliver não estava mais diante do monstrinho, mas de um garoto de quatorze anos. Cabelos vermelhos, pele alva e manchada de sardas. Seu rosto redondo, embora humano, ainda apresentava traços anfíbios, como uma boca um pouco mais larga do que o comum e o queixo realçado. Contudo era, indubitavelmente, um humano. Os olhos negros e pequenininhos reluziam em esperteza.

– E agora... Podemos ser amigos?

Os dedos humanos alvos e finos dele continuavam abertos para um aperto. Oliver piscou incredulamente. Sua mão moveu-se sozinha de encontro à de Pierre, apertando-a quase sem forças.

– Meu nome é Oliver Drummond.

– Oliver... – repetiu Pierre estalando a língua. Sua pele era humana e rosada, principalmente na região das bochechas. – Eu preciso de sua ajuda.