Hades I Terra-inversa
8 Capítulo 5 - Companhia Inesperada - Parte I
Notas iniciais
Oliver fizera o boletim de ocorrência do roubo na delegacia de polícia de Porto Alegre. Ninguém questionou sua história. Haviam levado seu carro e lhe espancado a cabeça antes disso. Quando chegou novamente em casa, deparou-se com uma ligação de sua empresa, dizendo que o carro fora encontrado. A seguradora – sim, a carroça tinha um seguro – já tratara de pegá-lo com o guincho e o consertaria para que estivesse pronto para uso, pelo menos até semana seguinte.
E ele que imaginou ver-se livre do monte de metal ambulante. Parou no centro de sua pequena sala com um sofá vermelho escuro, uma mesa de centro de vidro e um cabideiro de metal. Exceto, é claro, sua estante baixa com a televisão antiga, daquelas que nem controle remoto tinha e com as laterais da tela arredondadas. As cortinas de crochê balançavam suavemente com o vento do entardecer. E lá se ia mais um dia... A parede do prédio vizinho, cinzenta e encardida devido a um problema no encanamento, refletia os tons alaranjados e amarelados do pôr-do-sol.
Sua apartamento tinha, além disso, dois quartos, um banheiro e uma cozinha apertada. Simples, mas o suficiente para chamar a espelunca de lar. Pagava o aluguel, as contas, a comida... Odiava ter de viver a mesma vida todos os dias, porém gostava de seu espaço, o seu quarto.
Sentiu náuseas e pontadas de dores na cabeça. Despejou as moedas sobre a mesa, cautelosamente, separando-as uma a uma com o dedo. Elas eram lisas e sem nenhum detalhe, logo, a única coisa que as definia como moedas era o formato. Cada qual com quatro centímetros de diâmetro. Ele as levaria para um lugar onde trocassem ouro por dinheiro e pagaria suas contas. Não importava a maneira como as conseguira e nem queria ficar pensando nisso. Preferia esquecer-se de Pierre, de Marlyn e dos cavaleiros. Mesmo que, no fundo, quisesse voltar a viver aquilo.
Andou descalço, porque sempre deixava os calçados na entrada, e rumou para seu quarto. Parou apenas em frente à porta encostada do quarto de sua mãe e abriu-a cautelosamente para que não fizesse ruído. Pela janela entreaberta entravam os últimos raios de sol que iluminavam sua mãe.
Ela estava deitada na posição fetal, dormindo silenciosamente. Em suas feições de velha, brincava uma expressão pacífica e cansada, realçada pelas olheiras fundas. Desde que o tratamento contra seu câncer no pulmão começou, Cecília usava nos cabelos um lenço. Sua esquizofrenia também se agravara com isso, mesclando-se a uma depressão profunda e a psicoses. Tinha cinquenta anos, mas aparentava setenta. Suas mãos enrugadas fechavam-se uma sobre a outra, diante do rosto.
Oliver aproximou-se e ajoelhou-se ao lado da cama, silencioso.
– Eu vou tirá-la dessa, mãe – prometeu o filho. – Assim como o pai conseguiu ajudá-la melhor do que qualquer remédio.
Pousou as mãos próximas às dela.
– Nós vamos sobreviver.
Subitamente ela ergueu a mão direita e descansou sobre a de Oliver. Sem abrir os olhos, Cecília apenas sorriu com os dentes pálidos e frágeis.
– Seu pai... – disse num esforço.
Oliver estava acostumado a ouvir falar em seu pai. Não era nenhuma louca perturbada, apenas uma das pessoas que viviam felizes em um outro mundo inimaginável.
– Seu pai disse para tomar cuidado com os capas vermelhas, – prosseguiu ela com dificuldade – você é um bom menino, vai conseguir.
“Capas vermelhas”, repetiu Oliver mentalmente lembrando-se do que Marlyn e Pierre haviam falado ao contar um pouco da verdade. Levantou-se de súbito, evitando o toque.
– Bom menino, bom menino... – repetiu cada vez mais baixinho até calar.
Oliver deixou o quarto em pânico. Só a loucura poderia definir a coincidência. Sua cabeça doeu e seu coração também, mas de angústia. Centrou seus pensamentos enquanto ia para seu quarto. Lá ninguém o julgaria louco...
Oliver estava decidido no amanhecer seguinte. Não era louco e isso era suficiente para fazê-lo agir normalmente. Porém, quando saiu de seu apartamento e alcançou a rua, soube que a tarefa de ignorar sua loucura não seria fácil. Havia sombras escuras paradas no topo dos prédios. Criaturas que nunca estiveram lá, coisas que se quer Oliver imaginava existir. Esfregou os olhos quando se deparou com a primeira delas: era um cavaleiro, embora não tão grande e aterrador quanto Shafa, mas ainda sim uma criatura de manto vermelho, armadura, capuz e montado em um cavalo negro. Os animais se assemelhavam com Mabelle, mas eram mais magros e fracos do que ela. Tinham o brilho nos olhos mais intenso e uma respiração mais pesada, e estava parado no topo do prédio da frente.
Havia outro idêntico a este no prédio da esquina, outro sobre um supermercado movimento. Um ainda se encontrava parado abaixo de uma árvore que estava no caminho de Oliver. O humano esfregou os olhos e ofegou, precisando de um tempo para acalmar as batidas de seu coração. “Eles não são reais”, pensou Oliver aturdido. Todos, sem exceção, estavam completamente ocultos por suas vestimentas, e tão imóveis quanto umas estátuas. O vento não era capaz de afetá-los, assim como eles não possuíam sombras. Pareciam assombrações de mausoléus.
E, como era de praxe, ninguém parecia notá-los além de Oliver.
– Está tudo bem, isso não é real... Só pode ser uma consequência da batida em minha cabeça – disse para si mesmo.
“É a verdade me perseguindo de novo... Por que essas coisas não podem me deixar em paz?” questionou-se. Respirou fundo e decidiu que passaria pelo maldito cavaleiro em seu caminho como se ele não existisse. Estufou o peito e manteve o olhar sempre em frente. No entanto, quando passou pelo cavaleiro do Chamado, “sim”, pensou Oliver, “esse é o nome deles... Cavaleiros do Chamado”, foi como se o mundo ao seu redor estivesse prestes a acabar. Não se conteve e acabou olhando para a criatura. Ela apenas um pouco maior do que um humano comum seria, e seu cavalo tinha um aspecto de morto que causava arrepios. Ficou mais tempo do que planejava admirando o cavaleiro, por isso se assustou quando o animal piscou e o cavaleiro sacou a espada embainhada em sua cintura.
Oliver exclamou algo sem sentido e correu desesperadamente. Não quis olhar para trás, mas ficou aliviado quando sinalizou para o ônibus que vinha pela rua e o pegou. Respirou fundo, já na segurança de seu banco, e olhou contra a própria vontade para a rua: o cavaleiro continuava lá, parado. A espada novamente embainhada e a sua compostura de estátua. Quando encontraria paz novamente? Oliver odiou-se por ter escolhido obedecer seu chefe e ir para o Lami.
Após ignorar todos os outros cavaleiros do Chamado, que, aliás, estavam por toda a parte, Oliver parou diante da entrada pequena e discreta do prédio, situado entre um restaurante e uma loja de livros usados. Além dos dois homens que fumavam em frente ao restaurante, não havia mais ninguém por perto. Oliver usava um casaco preto, uma camisa azul com gola branca e uma calça jeans. Carregava no bolso de seu casaco suas dez preciosas moedas, garantindo a si mesmo que a forma como as encontrara não importava.
Subiu rapidamente as escadas até o terceiro andar. Já tinha esquecido dos cavaleiros quando deslizou em passos obstinados até a porta no final do corredor, onde uma placa simples de “compro ouro” estava pendurada na maçaneta redonda e dourada.
Bateu três vezes e esperou.
Viu uma sombra deslizar por baixo da porta e, então, silêncio. Demorou cerca de quase um minuto para que alguém abrisse um pouco, pelo menos até onde a corrente que trancava a porta permitia. Um anão, usando óculos, esgueirou metade do rosto pela fresta. Só então o humano percebeu que o olho mágico ficava mais abaixo do que o normal.
– Sim? – questionou o anão com sua voz possante e desdenhosa.
– Tenho algo de seu interesse para vender – ponderou Oliver um pouco nauseado.
O homem fechou a porta, destrancou a corrente e abriu-a por completo. O aposento era uma sala quadricular com uma porta e, no centro, uma escrivaninha. Fios escorregavam pelas paredes, como cobras, até o telefone, situado sobre a mesa, ao lado de um jarro com duas papoulas.
Oliver sentiu um vazio estranho diante daquela imensidão.
– Sente-se – pediu o negociante, apontando para a cadeira em frente à escrivaninha.
Oliver obedeceu, usando a sua máscara carrancuda para disfarçar seus medos.
– Meu nome é Pantaleone – apresentou-se ele ao sentar na cadeira. Notava-se que havia livros empilhados para deixá-lo mais alto.
Pantaleone, de terno e gravata, era um homem que, apesar de pequeno, esbanjava uma áurea de medo com seus olhos negros. Seu cavanhaque acentuava sua malandragem. Em seus dedos pequenos descansavam dois anéis de ouro nem tão pequenos e humildes assim.
Passou os dedos nos cabelos negros, lisos e penteados.
– Então, o que posso fazer por você?
Oliver despejou suas dez moedas de ouro puro sobre a mesa. Pantaleone arqueou as sobrancelhas grossas, estupefato.
– São magníficas... – comentou ao juntar uma delas.
– Cada uma contém exatas doze gramas – disse Oliver. – Eu as pesei antes de vir para cá... São feitas de ouro puro. Sei que posso conseguir pelo menos dez mil com todas.
– Você é esperto... – vislumbrou Pantaleone.
Ele abriu uma das gavetas e retirou uma balança digital. Juntou todas as moedas em uma pilha e pesou-as; como Oliver dissera, o peso era de 120 gramas.
– Faço-as por nove mil.
Oliver esticou a mão e juntou as moedas sem dizer uma palavra. Pantaleone segurou sua mão.
– Tudo bem, me precipitei um pouco. Como percebi que é um cliente deveras intrigante... Dou-lhe onze mil por essas moedas.
– Sei que as venderá por muito mais do que isso – disse Oliver, recolhendo a mão e deixando que Pantaleone pegasse as moedas. – Não sei que tipo de vendedor você é, mas eu não sou nenhum idiota. Já passei por situações que me deram o conhecimento necessário para saber como as coisas funcionam. Se me passar a perna, volto para lhe pegar.
Oliver fora solene em sua ameaça. Pantaleone sorriu ambicioso e abriu outra gaveta. Puxou onze maços de mil reais e atirou-as no colo de Oliver.
– Gosto de sua audácia. Agora vá embora, nossa negociação termina aqui.
Oliver conferiu se as notas eram verdadeiras, então levantou. Antes de ir embora, deu uma olhadela para o homenzinho que lhe sorria atrás da escrivaninha. Pantaleone pegou o telefone e discou rápido.
Alguém atendeu.
– Pegue o engomadinho. Há onze mil com ele... Dê-lhe uma sova para aprender a segurar a boca. Não gosto dele.
E desligou. Juntou as moedas, guardou-as no bolso e acendeu um charuto que repousava sobre a mesa.
Há ocasiões na vida em que nos deparamos com uma sorte maravilhosa. E essa era uma delas para Oliver. Sorria com vontade após muito tempo, embalado pelo desejo de comprar uma barra de chocolate das mais caras. Quando foi a última vez que parara em uma loja para comprar algo sem pensar nas dívidas? Um doce estava bom para começar.
Dentro de seus bolsos estava aquilo que precisava para retirar um peso enorme de seus ombros. Estava finalmente livre de dívidas...
Parou quando desceu o último degrau e olhou para a entrada aberta do prédio. Oliver nunca foi bom com sexto sentido, mas naquele instante algo o incomodou. Ficou parado, observando a calçada desnivelada, o prédio antigo à frente, folhas e papéis carregados pelo vento. Não havia luz no corredor, as sombras o espreitavam sedentas. Uma das portinholas das dezenas de caixas de correio embutidas na parede abriu e fechou com o vento sorrateiro.
Não houve nenhuma dúvida na cabeça de Oliver de que entrara em uma enrascada quando dois homens pararam em frente à saída.
Corra – disse uma voz distante em sua mente, quase inaudível. Mas Oliver compreendeu, era exatamente isso que faria.
Oliver correu na direção oposta a seus perseguidores, subindo novamente os lances de escada. Gelou da cabeça aos pés ao olhar por sobre o ombro; ambos também corriam. Não para fugir, mas sim para pegá-lo.
Arfou de dor de cabeça assim que atingiu o primeiro andar. Prosseguiu com sua fuga sem desistir, esbarrando nas paredes ao contornar a escada para alcançar o lance seguinte. Era mais rápido que seus perseguidores, pois conseguia saltar de dois a três degraus por vez com suas pernas longas.
Estirou o corpo sobre o corrimão e viu seus inimigos se aproximando no andar de baixo. Eles eram lentos, mas insistentes... Alcançou o terceiro andar num instante, mesmo que suas pernas ardessem e seu coração quase explodisse no peito. Agarrou uma vassoura que jazia ao lado de um balde no quarto andar, deixada por algum faxineiro do prédio.
Quase tropeçou durante a subida para o quinto andar. Seu dinheiro valia mais do que a própria vida, portanto a perda das valiosas notas seria seu fim como filho, homem e trabalhador.
Os andares terminavam no quinto andar. Subiu a meia escada que o levaria até o terraço e abriu a porta de metal, trancando-a com força assim que passou. Enfiou a vassoura no espaço da maçaneta, garantindo que a porta só cedesse se os marmanjos fizessem força.
Afastou-se da passagem enquanto julgava-se num caminho sem saída. O terraço era vasto e aberto, não havia nenhum lugar para se esconder ou uma porta para fugir. Imensas caixas metálicas guardavam as saídas do antigo sistema de calefação e três antenas parabólicas emaranhavam seus fios umas nas outras.
Oliver grunhiu quando ouviu o solavanco violento proveniente da porta. A vassoura os seguraria por poucos segundos, não havia mais nada para fazer. Correu até o peitoril e olhou para baixo, aflito. Uma vertigem percorreu suas entranhas só de imaginar como a queda o levaria para a morte.
Outro solavanco quase abriu a porta do terraço. Do fundo de sua mente, uma pontada de esperança, seguida de incredulidade, fez com que Oliver dissesse em voz alta:
– Shafa!
– Estava demorando para que fizesse isso – disse o cavaleiro.
O humano virou o rosto e fitou o cavaleiro parado ao seu lado. Era o mesmo cavaleiro que o salvou do Caçador, no entanto estava sem Mabelle. O manto negro de leve brilho arroxeado sacolejava, revelando ora as pernas revestidas pela armadura metálica, ora o peito prateado. Seu rosto permanecia sempre oculto por baixo do capuz. Ele era enorme visto de perto... E assustador.
Ele deu um passo. Dele emanava um cheiro de fumaça e enxofre; o ambiente ao seu redor parecia ser abatido por uma gravidade muito pesada.
– Meu Deus! Você veio mesmo! – disse Oliver com dificuldade para respirar.
Um filete de sangue desceu de seu nariz até os lábios. Pousou a mão sobre o rosto sem saber por que era tão afetado pela estranha criatura que ia além do compreensível.
– Sou seu amigo, sou seu inimigo. Vim para ajudá-lo, assim como você desejou.
– Não quero nada que s-seja seu! – grunhiu Oliver, cerrando os dentes.
– Não foi isso que você acabou de pensar quando chamou meu nome.
– Eu estou louco, não estou? Eu não sei o porque de tê-lo chamado, mas já me arrependi! Não quero você e nem aquelas coisas vermelhas atrás de mim!
Shafa olhou em direção à porta.
Um curativo grande que Oliver colocara sobre o arroxeado de sua testa caíra, revelando o hematoma mais escuro do que o do dia anterior. A vassoura rachou, mas ainda não cedeu. Oliver, que suava como nunca, sabia que na próxima batida eles entrariam.
– Eu não acho que tenha me chamado em vão. Você quer minha ajuda – ponderou o cavaleiro, flexionando os joelhos e se abaixando para fitar Oliver melhor. – Você está cansado disso. Posso perceber isso melhor do que você, porque posso ouvir o que pensa. Sinto o que sente, sei o que quer. E você não quer continuar assim. Eu posso tirá-lo daqui... Posso salvar você e o seu dinheiro. Eu posso lhe dar o orgulho de volta, e uma nova vida em que você será o que nunca foi antes. Posso ajudá-lo, basta aceitar – prosseguiu o cavaleiro, sério. – Você tem a chance, Oliver, que todo o humano gostaria de ter. A chance de ser diferente e de mudar o que está prestes a ser destruído em sua vida.
Oliver não entendeu.
– Cale a sua boca, não tenho que ouvir suas palavras! – gritou ao apoiar-se novamente no parapeito e olhar lá para baixo.
Houve uma pausa na investida dos seus perseguidores.
– Você é um assassino, Oliver. Um ladrão, um excluído da sociedade e um privado de uma vida normal – disse Shafa ao ficar de pé. – Que tipo de vida espera continuar levando? Acha que alguém nesse planeta dará outra oportunidade como eu lhe dou? Posso provar do que estou falando se me permitir. Deixe-me tomar seu corpo e tirá-lo daqui. O salvarei assim como fiz na clareira, se assim quiser.
– Por que eu? – perguntou Oliver entre dentes.
– Porque você não é ninguém... Não há nada de especial que saiba fazer ou que o destaque. Você sabe mais do que qualquer um sobre a verdade, apenas não é capaz de acessá-la ainda.
Oliver riu. Abriu os braços, gesticulando para os lados como se acabasse de vencer uma luta de boxe e pedisse por aplausos.
– Esse é o ponto do seu jogo de maluquices? Minha alma? Você é o quê? O diabo de armadura? Quer me enlouquecer, não é? Quer que eu acredite que estou louco!
O cavaleiro, para a agonia de Oliver, apenas riu. A porta finalmente se escancarou e os dois homens puderam entrar no terraço. Um, o mais alto e magro, tinha os lábios grossos, as sobrancelhas quase unidas, e um corte que descia da ponta da narina esquerda até um pouco acima do lábio. O outro, de mesma altura, porém mais forte, era louro e tinha os olhos escuros. Em suas mãos haviam duas armas.
– Desgraçado! – xingou o loiro com um forte sotaque arrastado no “r”.
Um fator que o levava a crer que estava realmente ficando louco era que nenhum dos dois enxergava o cavaleiro. O que faria para se defender se não tinha nenhuma carta na manga? Preferia morrer a entregar um único centavo aos dois imbecis armados.
Um deles ergueu a arma em sua direção.
– Tudo bem! – gritou Oliver desesperado. – Me ajude! Eu aceito que tome meu corpo!
Oliver teve certeza de que o cavaleiro sorria por baixo do manto. Ele voltou a ficar de pé, exibindo toda a sua exuberância de um porte de um urso.
– Pule – ordenou o cavaleiro. – Não questione, não temos tempo.
– Pular? – gritou Oliver, subindo sobre o parapeito de concreto sem saber ao certo se deveria obedecer. – Não sei se...
– AGORA! – gritou Shafa num tom que Oliver não pode revidar.
Oliver trancou a respiração e saltou.
– Ei! – berrou o perseguidor mais magro.
Foi como se o tempo parasse para Oliver. A inércia ao seu redor desapareceu; o chão abaixo de si sumiu e foi substituído pelo ar. A calçada lá em baixo parecia distante no momento, mas ele sabia que logo ela estaria muito perto. Suas roupas sacolejavam com violência durante a queda.
Viu, pelo canto do olho, Shafa erguer um pouco a cabeça e estender o braço, como se apontasse para suas costas humanas. A seguir, o próprio cavaleiro transformou-se em uma fumaça cinzenta, e lançou-se sobre Oliver. O humano gritou quando a fumaça o englobou e adentrou sua boca, penetrando por completo suas narinas.
Oliver sentiu um calafrio, mas não porque seu corpo caía, e sim porque viu suas mãos, braços, pernas e todo o restante de si transformar-se na mesma fumaça cinzenta que foi Shafa. Num instante estava ali, em plena queda e, no outro, estava de pé, na calçada, lá em baixo. As moléculas de fumaça uniram-se tão rápido quanto se separaram, reconstruindo Oliver novamente por inteiro.
Respirou ofegante e quase caiu ao não encontrar força nas pernas para permanecer de pé. Olhou para seus dois perseguidores lá no alto. Oliver não conseguia entender e nem acreditar no que acabara de acontecer. Num segundo estava prestes a explodir os miolos na calçada, e, no outro, estava intacto e saudável na calçada.
Apalpou o bolso, constando que seu dinheiro continuava lá. “Tele-transporte?” cogitou por um milésimo de segundo, antes que sua sanidade o obrigasse a esquecer o que havia acontecido e correr, até desaparecer na esquina, desejando nunca mais ter que voltar para aquele lugar.
Quando Oliver acordou se lembrava de ter chegado em casa, contado seu dinheiro e depois de tê-lo dividido entre as despesas, antes de desfalecer no sofá. Quanto menos pensasse no ocorrido, menos estranho lhe pareceria.
– O que está fazendo aí? – perguntou Anne, assim que entrou no apartamento.
Oliver esfregou os olhos e limpou a baba úmida que recobria toda a bochecha, até sentar demoradamente no sofá. Havia dezenas de papéis de contas ao seu redor. Usava um moletom branco e seu cabelo despontava em várias direções.
– Você está péssimo... E essa sala está com um cheiro de... – Como ela não encontrou nenhuma palavra certa para definir, simplesmente caminhou até a janela da sala e abriu-a, permitindo que a frágil claridade do dia nublado adentrasse.
– Está frio lá fora? – questionou Oliver, ignorando o comentário dela.
Anne gesticulou positivamente. O homem ficou alguns instantes pensando até juntar do carpete, onde estavam atirados, um dos dez envelopes pardos em cujo verso estava escrito o nome Anne.
– Tome, isto é seu.
Ela analisou o envelope antes de pegar.
– Isso não é o que eu estou pensando, é?
Oliver resumiu-se apenas a sorrir. A mulher abriu o envelope com dois dedos e arregalou os olhos, surpresa.
– Meu salário!
– É, e tem um abono por tudo o que tem feito por mim e minha mãe.
Anne olhou-o como quem quisesse dar um abraço, mas após analisar seu estado lastimável mudou de ideia. Sorriu agradecida e colocou o envelope dentro da bolsa.
– Vou dar uma olhada em sua mãe, depois preparo algo para você comer.
Oliver viu-a distanciar-se e relaxou o corpo sobre o sofá.
– E então, garanhão, como se sente hoje? – questionou uma voz conhecida.
Ela vinha de dentro de Oliver, ou melhor, de sua própria boca, embora a tonalidade fosse diferente. Seus lábios moveram-se por conta própria.
– Mas o que... – Oliver não encontrou forças para falar.
– Então já se esqueceu do meu favorzinho de ontem? – perguntou Shafa sorrindo.
Oliver fitou o próprio reflexo através do espelho no outro lado da sala. Sua face expressava-se e movia-se contra a sua vontade. Shafa encarou-o, usando os próprios olhos de Oliver.
– Ou você acha que pularia cinco andares sem, pelo menos, quebrar o seu pescocinho?
Oliver não conseguiu falar, assustado demais quando ficou de pé contra sua vontade. Shafa esticou os braços, estalou o pescoço e voltou a ficar de frente com o espelho, colocando as mãos na cintura.
– Nós temos muito trabalho até o final do dia.
– O que você está fazendo? Saia de dentro de mim! – exclamou o humano, por fim, tentando retomar o controle de seu próprio corpo.
– Estou cumprindo o nosso acordo. Você pediu minha ajuda... E eu nem comecei a ajudá-lo ainda, – retorquiu Shafa irônico, calando-se assim que viu Anne retornando para a sala.
O cavaleiro, ou Oliver, aproximou-se da mulher e segurou sua mão, levando-a até os lábios enquanto realizava uma reverência.
– Que bela dama tenho diante de mim.
Anne fitou Oliver afetadamente, seu tom de voz havia mudado de uma hora para a outra.
– Você está bem? – perguntou ela sem entender.
– Pare já com isso! – ralhou Oliver, puxando a mão de volta, segurando-a com toda a força que conseguia. – Eu não pedi para que usasse meu corpo como se eu fosse um marionete!
– Isso estava incluso nas “entrelinhas” que você não leu – alegou Shafa, revirando os olhos.
– Tudo bem... Isso tá ficando estranho – murmurou a mulher. Nada mais via do que um homem falando consigo mesmo em dois tons diferentes
– Desculpe, querida – pediu Shafa, recuperando o movimento das mãos sem dificuldade. – Mas vou ter que levar o seu amiguinho emprestado para dar um passeio. Tem dinheiro ali no chão se precisar de qualquer coisa. Faça o favor de pagar as contas... Estou cansado de ouvir esse imbecil contar a noite inteira.
Anne arregalou os olhos.
– Do que está falando, Oliver? Desde que você voltou do Lami, não parece regular direito! Estou preocupada com essa batida na sua cabeça.
– Anne! – exclamou Oliver desesperado que, até então, estava tentando falar e se mover, em vão. – Socorro!
– Shhh! – chiou Shafa ao recolher um casaco pendurado no cabideiro de entrada sem antes, é claro, pegar para si um dos envelopes de dinheiro.
Olhou para Anne antes de sair, acrescentando:
– Não nos espere para o jantar.
– Pare! – gritou Oliver, enfiando o pé na frente da porta.
Shafa puxou-o de volta com violência.
– Trato é trato, amigo. E, além do mais, faz tempo que tenho planos com você.
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