Hades I Terra-inversa
5 Capítulo 3 - Nem amigo, Nem inimigo - Parte I
Notas iniciais
Felipe pousou sua pata negra sobre o pequeno peito do Pierre humano. Marlyn gritava, em pânico, suplicando para que não ferissem seu filho. Queria poder salvá-lo, mas os outros dois monstros a seguravam contra a grama, pisando em seus braços. Os olhos de Pierre lacrimejavam de medo. Como uma criaturinha tão ingênua poderia ter um fim tão triste? Os cinco inimigos eram enormes. Jamais, em toda a sua existência de leprechaun, se deparou com um demônio de pelos.
Uma gota de saliva escorreu do espaço entre os dentes de Felipe e caiu sobre os cabelos de Pierre.
– Não há espaço para você nesse mundo. Nunca houve... Os fracos precisam morrer para dar espaço aos fortes.
Ele abriu a boca, mas antes que pudesse abocanhar o garoto, um som alto ecoou à direita deles, no meio das árvores.
– Ei, imbecis! Porque não me pegam? – indagou a voz.
Pierre reconheceu como sendo a voz de Oliver.
– É aquele humano de novo... – resmungou Marcos.
– Não se esqueça que humanos são estúpidos e gostam de fazer ignorâncias – lembrou Charles.
– Vocês fedem que nem esgoto! – xingou Oliver.
– Se ele quer dar uma de valente... Então peguem-no! – ordenou Felipe rosnando.
– Covardes! – acusou o humano. – Acham que não posso acabar com vocês também?
Marcos e Charles começaram a caminhar em direção a voz. Por um momento, a atenção se voltou completamente para os dois. Charles tomou a frente enquanto se embrenhava na floresta. Eles caminhavam sobre quatro patas com uma destreza e uma elegância superiores à de um urso. Pierre não acreditou que Oliver pudesse ser tão idiota a ponto de se arriscar daquela forma. Imaginou que talvez ele tivesse um plano, mas duvidou que fosse suficiente para vencer seus inimigos.
As duas criaturas apressaram o passo em direção à voz.
– Que humano estúpido – retrucou Marcos irritado.
Charles arrancou com uma patada uma planta que se encontrava em seu caminho.
– Ei, imbecis! Porque não me pegam? – repetiu Oliver.
Agora, mais próximo da voz, as duas criaturas se entreolharam e reduziram o passo. Havia uma parede de arbustos em seu caminho. Charles gesticulou com a cabeça, sinalizando a presença do humano ali atrás.
– Vocês fedem que nem esgoto! – Foi o que Oliver disse.
Os dois avançaram entre as plantas.
– Que porcaria é essa? – questionou Marcos esmagando com as garras um aparelho celular situado sobre um tronco partido.
– É um celular! – respondeu Charles. – Aquele idiota estava nos enganando com uma gravação!
Marcos esmigalhou o celular ao apertá-lo.
– Que cheiro é esse? – perguntou Charles, farejando fumaça. – Parece que estão queimando algo...
Marcos ergueu o focinho para o alto. Não havia nenhum sinal de queimadas e nem haveria como, pois a chuva havia molhado tudo. Se fossem humanos, eles já teriam pressentido suas presenças. Charles sentiu algo gelado em sua pata e, ao olhar, viu que ela estava imersa em uma textura estranha. Parecia muito com uma fumaça, no entanto era de cor vinho escuro e de aspecto aveludado. Enojado e receoso, tentou puxar a pata, mas ela parecia tão presa quanto se estivesse em areia movediça.
– Marcos! – exclamou o monstro cercado pela fumaça.
Ela serpenteava entre o gramado e as folhas dispersas pelo solo, nunca passando dos quinze centímetros de altura. Vinha de todas as direções e também prendia as patas traseiras de Marcos, que ficou de pé antes de ficar completamente preso. Puxou a perna com as patas sem surtir nenhum efeito na prisão.
– É gelado! – grunhiu o monstro de pelo castanho. – O que é isso, Marcos?
– Santa porca! Aqueles lupus do norte disseram que viram um Caçador de Recompensas por essa região... E eu já ouvi falar sobre eles antes. São criaturas que caçam Gerações Passadas em troca de uma porção de suas almas, eles pegam suas vítimas com seus véus.
– Véus? – questionou Charles acuado. Suas orelhas apontavam para trás.
– Lupus – disse uma voz tão sussurrante quanto o próprio vento.
Os dois olharam no mesmo instante para frente. O homem do qual Oliver e Pierre haviam visto na casa se encontrava agora diante deles. Ele tinha um pouco mais de dois metros de altura e sua silhueta semelhante a um armário intimidava até os dois monstros. A manta que envolvia sua nuca, e também toda a região da base do nariz para baixo, era do mesmo tom escuro da fumaça. Não era possível ver seus olhos, ocultos na sombra do boné. Sua respiração, que mais parecia o resfolegar de uma múmia, causava arrepios.
– Quem é você? – perguntou Marcos, arreganhando o cenho.
O Caçador não respondeu. E o seu silêncio foi pior do que qualquer resposta que pudesse ter dado. A fumaça vinho cobria até a altura de seus calcanhares e tinha um cheiro inconfundível de fuligem. Caçador arregaçou as mangas, o que ainda sim não revelou um único pedaço de pele em seu corpo. Luvas de couro pretas protegiam seus dedos grossos e o pulso. Marcos se irritou e conseguiu soltar uma das pernas, embora tivesse a sensação de que o Caçador os desafiasse ao deixá-los lutarem por suas vidas. Charles também se viu solto e embora desejasse fugir, Marcos tomou a frente da briga, o que o obrigou a fazer o mesmo.
Caçador estalou o pescoço e gesticulou para que o primeiro viesse. O ar ao seu redor parecia turvo, denso e frio. Marcos rondou o inimigo de longe.
– Se acha que pode contra nós, vou mostrar do que nossa raça é capaz – ameaçou o lupus.
A essa altura, a fumaça aveludada já cobria todo o solo de onde estavam. Marcos arqueou o corpo e saltou com suas garras em riste. Esfolaria aquele desgraçado da mesma forma que já fizera com outras presas suas. Um humano, por mais alto e forte que fosse, jamais seria um problema para um lupus como ele. Ao invés de recuar, Caçador avançou um passo, levou o braço para trás e depois desferiu um soco na face do monstro. Marcos experimentou a sensação de bater com a boca em aço. Foi atirado para o lado e antes que pudesse pedir por socorro visualmente ao seu companheiro, ele teve a boca, as patas e metade do corpo envolto pela fumaça. Arregalou os olhos de pavor e tentou se soltar, inutilmente. Olhou para Caçador segundos antes de seu corpo terminar de ser coberto, congelar e tornar-se cinzas.
Charles entreabriu a boca, horrorizado. Tentou gritar, no entanto a fumaça já cobria sua boca quando pensou em abri-la.
– Onde estão aqueles dois? – perguntou Felipe, sinalizando para que o irmão de Charles fosse procurá-los.
Nesse instante, Pierre sentiu uma pedrinha bater contra sua bochecha. Do outro lado da clareira, atrás dos arbustos, Oliver gesticulava para o leprechaun, que entendeu o que ele queria dizer. A carabina, caída a menos de um metro e meio de distância de Pierre, precisava chegar até o humano. Pierre concordou, juntou uma pedra caída e a bateu contra a pata de Felipe. O lupus, distraído com o desaparecimento dos companheiros, libertou Pierre. O leprechaun se arrastou, apanhou a carabina e atirou para Oliver, que já saía de seu esconderijo.
O humano tinha uma expressão séria e calculista. Pierre viu Oliver pegar a arma e empunhá-la enquanto corria. Seus movimentos eram precisos: ele poderia não ter matado um monstro como aquele antes, mas tinha no sangue uma tendência assassina. O suor escorria por sua testa quando saltou sobre o leprechaun estirado no chão e reduziu a distância que o separava do inimigo de uma única vez. Felipe não teve tempo de reagir quando a ponta da carabina tocou seu pescoço.
Os dois se encararam por segundos que pareceram intermináveis. Não houve dialogo. Oliver sabia que falar daria tempo de revide ao inimigo, tempo este que estava ao seu favor. O disparo foi feito e, antes que o monstro caísse, seu corpo tornou-se cinzas que se dissiparam com o vento. Tão rápido quanto seu sangue-frio voltou a ser quente, Oliver conseguiu mirar novamente.
Apontou para Lucas. Sabia, no fundo, que ter matado Felipe foi apenas um golpe de sorte. O outro inimigo não cairia com uma bala que não fosse precisa. “Sorte”, pensou ao soltar a respiração e ofegar. Seus dedos escorregaram quando o outro monstro largou Marlyn e o encarou com olhos assassinos.
– Você o matou... – murmurou ele incrédulo e, ao mesmo tempo, satisfeito. Hierarquias entre lupus eram como alcateias, se o líder era morto, outro deveria tomar seu lugar. Não havia apego ou amizade entre os monstros.
– Eu vou matá-lo também! – exclamou Oliver, perdendo para seu medo. Sua frieza já não era evidente.
– Você veio, Oliver! – disse Pierre, ficando de pé.
Marlyn foi de encontro ao filho e os dois se protegeram atrás do humano. Eram eles e Lucas. Ou melhor, Oliver e Lucas. O monstro teria prazer em ter o humano como um troféu, afinal ele fora o assassino de seu ex-líder. Após a primeira ação, Oliver começava a sofrer com sua consciência. Jamais deveria ter voltado para os braços da morte. Estava se entregando ao inimigo por quem mesmo? Um monstrinho e sua mãe que mal conhecia?
– Onde diabos eu estava com a cabeça? – perguntou-se Oliver baixinho.
Pierre sentia o cheiro de medo de Oliver. Criaturas com os sentidos aguçados, como ele e Lucas, tinham essa capacidade. Talvez o inimigo não tivesse sentido o cheiro do humano graças ao vento e a terra molhada.
– Obrigado, Oliver – agradeceu Pierre com sinceridade.
– Cale a boca, monstrinho – pediu Oliver rispidamente. – Não me agradeça até você estar definitivamente em segurança.
Lucas rosnou e avançou um pouco.
– Eu vou atirar se chegar mais perto!
– Não sou tão estúpido quanto Felipe. Não vou menosprezá-lo, mas também não tenho medo de você.
Afinal, o que era Oliver com sua única bala?
– Só tem uma bala a mais, não é? O caçador que eu matei disparou dez vezes antes de eu matá-lo... E você gastou uma em Felipe – disse Lucas avançando mais um passo.
Pierre abraçou mais sua mãe. Oliver nunca ia acertar um lupus em movimento... Ainda mais se tinha apenas uma bala disponível.
– Corra, Pierre – disse Oliver após um tempo em silêncio. – Vou segurá-lo o quanto conseguir...
Felipe riu. Nunca vira um ser humano aceitar tão rapidamente a morte.
– Correr só vai tornar as coisas mais divertidas...
– Rápido! – ordenou Oliver trincando os dentes. Mesmo que sua consciência o mandasse correr, Oliver não queria mais fugir. Não havia para onde fugir... Sua rotina o esperava caso saísse dali.
Lucas era o menor de seus problemas agora. Sua mãe doente, seu emprego desgraçado e seu passado o esperavam. Não queria voltar para aquilo. Já pensou várias vezes em se matar com um tiro, mas nunca teve coragem. Essa era a sua oportunidade. “Quero morrer aqui, e hoje”, pensou consigo.
Marlyn puxou o filho relutante ao dizer um “obrigada” fraco. Oliver não retirou os olhos de Lucas por nenhum instante. Levaria o monstro junto para o inferno. Queria ter mais balas para poder retalhá-lo como merecia de verdade. Os dois leprechauns deixaram o local, embora Oliver soubesse que Pierre relutava até o último instante para ficar com ele.
Lucas avançou mais. Carabinas eram ótimas para tiros de curta distância... Quanto mais perto o inimigo estivesse, melhor seria para Oliver, por isso não se distanciou. Ao invés disso, também avançou.
– Você está pronto para o inferno, humano?
– Estou tanto quanto você – ameaçou Oliver trazendo o rifle para perto do rosto.
– Só espero que sua consciência limpa tenha valido tudo isso.
Era o momento decisivo. Lucas avançou mais rápido do que Oliver esperava, o que o obrigou a atirar. Mesmo que tivesse acertado o ombro do lupus, ele não parou e o derrubou com uma pancada no peito. Usou a carabina para impedir que a boca do monstro arrancasse sua cabeça. Sentiu a baba com cheiro de podre escorrer por sua bochecha. Fez toda a força que conseguiu e não o afastou um centímetro. As juntas dos braços começaram a doer conforme os músculos cediam.
O rosto de Oliver enrubesceu e suas veias ficaram aparentes. Lucas mastigou o metal do cano, até que, com um puxão, arrancou-a das mãos de Oliver e a atirou longe. Nesse momento, o irmão de Charles surgiu apressado no bosque. Seus olhos arregalados de pavor mal continham seu choque.
– Estão todos mortos! – exclamou apavorado.
Oliver achou que estivesse alucinando, mas havia uma fumaça cor de vinho escapando das costas do monstro. Ele sacudiu o pelo, mas isso não foi suficiente para afastá-las.
– Do que você está falando? – perguntou Lucas irritado.
– É um Caçador... Caçador de Recompensas... – gaguejou o lupus.
Diante dos olhos de Lucas e Oliver, a fumaça rasteira do Caçador invadiu a clareira e agarrou as patas traseiras do lupus. Ele tentou se soltar, mas quanto mais se movia, mais rápido o véu o envolvia.
– Socorro! – gritou ele quando restava apenas sua cabeça de fora.
Lucas não se moveu de tamanha surpresa. Oliver não entendeu o que acontecia, assim como também não entendia a existência de todas as criaturas que estavam aparecendo em sua vida. Reconheceu o homem parado entre dois cinamomos, logo atrás do irmão de Charlie. Era o Caçador de Recompensas que havia visto na casa. Incomodou-se muito com o fato de não poder ver seu rosto, esperava que um homem que causasse tanto pânico pudesse, ao menos, ter um rosto. Talvez medonho e marcado por cicatrizes, ou barbudo e carrancudo.
O desconhecido sempre assombrava mais. O irmão de Charles, para o pavor de Lucas, tornou-se cinzas. Lucas sabia o que eram aqueles “homens” e do que eles eram capazes. Não eram vivos e nem mortos, mas eram capazes de fazer mal a ambos. Saiu de cima de Oliver, acuado, e partiu em corrida. Para seu azar, segundos antes de deixar a clareira, elevou-se dos arbustos em seu caminho uma cortina de fumaça que se chocou contra ele e o fez cair de costas. Oliver afastou-se engatinhando o máximo que pôde, assistindo a luta em vão do monstro para salvar sua vida.
Ele latiu, grunhiu, rosnou e nada foi capaz de deter o véu que o cobriu por completo. Assim que o silêncio se fez presente, a silhueta do que era Lucas foi diminuindo até se equivaler ao nível dos calcanhares do Caçador. Silêncio. Caçador avançou um pouco e parou, agora de frente para Oliver.
Só restavam eles. A energia densa continuava a esfriar o ambiente. Oliver afastou a mão da fumaça que se aproximava vagarosamente. Sabia que não deveria tocá-la se quisesse continuar vivendo. Precisou abraçar os próprios joelhos para se comprimir no espaço intocado pela fumaça que ainda sobrava. Por onde olhasse, aquela coisa fedendo a cinzas esperava apenas uma ordem para matá-lo também.
Era como se o tempo houvesse parado. Os raios não iluminavam a noite, assim como o vento não soprava mais. Que tipo de mundo era aquele em que lobisomens comiam pessoas e que fumaças comiam lobisomens? Riu da ironia de seu pensamento.
Não dava para saber o que Caçador pensava. Não haviam olhos e muito menos expressões... Restava apenas o silêncio de um final que, apesar de previsível, assombrava a mente de um humano. “Não pode ser real”, pensava Oliver, começando a se mover para frente e para trás, em choque. Nada fazia sentido. Duas colunas de fumaça vinho se ergueram diante de seus olhos e voaram lentamente em sua direção como duas mãos prontas para lhe abraçar. “Venha aqui, meu filho, vou levá-lo para um lugar melhor. Você está a salvo agora”, elas lhe diziam.
Flashback II – 23 de Dezembro de 2001
Oliver tinha 12 anos e a viagem de carro com seu pai estava ficando cansativa. Eles já estavam rodando fazia uma hora e meia pela tal da Estrada Velha, uma estrada que interligava a capital do Rio Grande do Sul ao estado de Santa Catarina, mas que não era usada devido a um infortúnio que impediu sua finalização. Não se via nada além de uma planície de gramado ressecado que terminava ao pé de morros verdes e encobertos por nuvens. Aquela tarde meio amarelada parecia que nunca ia terminar. O sol esquentava muito o metal do carro e fazia Oliver suar demais. Moscas também se faziam presentes.
– Afinal, por que estamos aqui? Poderíamos ter ido para a praia, ou jogar futebol, ou qualquer outra coisa que não fosse essa coisa chata!
Guilherme, um homem de trinta e nove anos, rosto lívido e com algumas rugas, cabelo já grisalho e olhos e sobrancelhas como os de Oliver, dirigia a caminhonete azul encardida. Com toda a paciência do mundo, ele sorriu e depositou a mão sobre os cabelos de “cuia” de Oliver. Uma música de Rock dos anos 80 tocava no rádio e assim que ela começou a falhar, pela perda de sinal, seu pai abaixou o volume até desligar. Eles passaram por uma placa envelhecida que dizia “Posto Carvaris II a 1 km”.
– Aqui é mais interessante do que parece.
– Por causa daquela história que você contou? – indagou Oliver, cínico. – Não tenho mais idade para ficar com medo, pai.
– Isso também é interessante. Não acha estranho que muitas pessoas tenham morrido aqui em três incidentes ocorridos no mesmo lugar, mas em tempos diferentes?
– Se é tão perigoso para os outros, por que não é para nós também? – desafiou o garoto, cruzando os braços.
Guilherme revirou os olhos e riu. Era um homem calmo e nada do que Oliver fizesse o tiraria do sério.
– Para que são as flores ali atrás? – perguntou Oliver apontando para um buquê de rosas deitado cuidadosamente sob o banco traseiro.
– Você vai ver.
Oliver notou, mais adiante, centenas de pequenas cruzes fincadas desordenadamente no solo. Era um cemitério. Seu pai reduziu a velocidade até parar na frente da cerca baixa que delimitava o lugar. Deveria haver uns cento e vinte túmulos lá. Guilherme desceu. Oliver também saiu do carro e acompanhou seu pai, já com o buquê em mãos, até o centro do cemitério.
Ele parou diante de um túmulo com uma pequena cruz de madeira. O nome “Alberto Drummond” estava escrito com tinta preta e falhada.
– Alberto? – perguntou Oliver, estranhando. – Não é o seu pai?
Guilherme abaixou, fez o sinal da cruz e depositou as flores no túmulo.
– Sim. Ele participou da construção dessa estrada e morreu no último dos incidentes que fez o governo fechar a Estrada Velha. Como eu disse, eles estavam construindo uma ponte sobre um rio que corta a estrada. Quando estavam quase terminando, um acidente fez com que a dinamite que eles estavam usando para explodir uma parede rochosa matasse vários operários. Todos sabiam que o acidente foi intencional... Era um crime sem provas. Muitos operários deixaram de trabalhar lá na época, porque sabiam que as coisas não terminariam ali. Mas meu pai não ia parar o que ele tinha começado. Alberto tinha acompanhado a construção da estrada desde que ele era jovem e não ia deixar ninguém pará-lo.
“Seus amigos insistiram para ele ir embora com eles quando o segundo incidente matou mais operários. Alguém queria parar o trabalho nas minas de carvão da região e encontrou a melhor forma ao destruir a ponte pela segunda vez. Sem a ponte, não havia como fazer essa estrada funcionar. Alberto não quis ir embora...”
– Por quê? Que velho idiota! Deveria ter ouvido os amigos... – retrucou Oliver tentando parecer independente e sabido.
Guilherme meneou a cabeça.
– Meu pai sempre foi muito teimoso, assim como você! Ele nunca deixava para trás uma coisa sem que pudesse terminá-la. Algumas pessoas escolhem objetivos em sua vida e não há nada que as faça dar para trás, nem mesmo a morte. Entenda, filho, que a morte é só mais uma fase. E então, – prosseguiu o pai – Alberto morreu na noite do terceiro incidente. Ele estava trabalhando durante noites a fio para terminar a ponte que abriria a estrada para o público. Faltava muito pouco... Estava chovendo aquele dia... Eu era jovem na época, tinha vinte anos. Foi uma pena eu ter perdido meu pai tão cedo. Suas palavras fazem falta... E seu sorriso também. Ele deixou uma carta para nós, porque sabia que corria riscos se continuasse trabalhando lá.
“Na carta, ele contava que se acontecesse qualquer coisa com ele, era para ficarmos calmos. Eu sei que parece absurdo alguém pedir uma coisa dessas, levando em consideração as circunstâncias, mas ele pediu que tivéssemos paciência e compreensão. Ele estava fazendo seu trabalho. Aquele velho teimoso...”
– E por que você me trouxe aqui? Por que nunca falou sobre isso? – indagou Oliver, confuso.
– Você nunca me perguntou sobre meu pai, então eu resolvi trazê-lo aqui. Um dia, filho, você vai estar de frente com a morte. Um dia ela vai tentar levá-lo cedo... Ou talvez ela só o tente levá-lo quando você for bem velho. As pessoas dizem que não, mas quando a morte está por vir, a gente sempre sabe. Nós sentimos a chegada dela, mesmo que inesperada. É sempre mais fácil aceitar, mas quando você luta... Luta bravamente, ela não consegue pôr os dedos em você. No caso de meu pai, ele aceitou o desafio. Ele tinha ambições e a morte não o amedrontou, porque ele sabia que poderia lutar. E assim como ganhar dela, também poderia perder.
– E ele perdeu – afirmou Oliver com ares sombrios.
– Depende... Há pessoas que perdem mais coisas quando estão vivas. Logo, se um dia você tiver uma ambição e a morte tentar impedi-lo, não se entregue. Nunca abandone um sonho ou você será devorado pela ceifadora. Suas metas e ambições são suas armas mais fortes contra sua foice. Não acredito que meu pai ganharia alguma coisa largando o trabalho que ele começou, mesmo que o perigo o espreitasse. Aquilo era sua vida... Sua coisa mais preciosa, sem aquilo também estaria morto.
– Morto por dentro – concluiu Oliver, pensativo.
Guilherme sorriu. Oliver havia entendido a mensagem. Colocou o braço sobre os ombros do filho enquanto admirava as flores. Embora estivessem apenas os dois naquela região, eles não se sentiam sozinhos. No fundo, tinham um ao outro. Os túmulos devorados pela erosão eram também seus espectadores.
– Viver e morrer é mais do que as pessoas pensam. Um dia você vai lembrar dessa conversa... E eu espero que o tenha ajudado.
Fim do Flashback II.
Seu pai estava certo. E lá estava ele, com a morte apontando a foice para seu peito. E que argumentos tinha? Nenhum. Era um fracassado, um lixo. Era tão miserável quanto aqueles que moravam de baixo da ponte. Só tinha a reclamar da vida e nenhum sonho que suprisse sua vontade de viver. Havia errado feio com suas escolhas e era tarde demais para se arrepender.
“Não é possível que eu não possa ter feito nada que valesse em minha vida”, pensou quando a fumaça estava perto de tocar seu pescoço. “Não é possível que eu não tenha um sonho... Nem nada. Eu sempre estive morto... Que diferença faz continuar vivendo?”
Uma segunda chance foi à única coisa que seu “eu” mais íntimo conseguiu gritar. Não era completamente um perdedor. Mesmo pensando anteriormente em se matar, sua vontade agora era contrária.
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