Hackertype [HIATUS]

6 Voltando ao Passado (Parte 2)


Notas iniciais
Bom, antes de tudo quero comunicar o que já deve estar um tanto óbvio: Não consigo manter um ritmo semanal de atualização, gente, desculpa ;-;, mas por mais que demore, nunca pensem que eu abandonei a fic! Tenho tudo devidamente planejado aqui e espero que vocês me acompanhem até o fim ♥ Agradecimentos especiais para Ai-chan, uma amiga minha que gentilmente aceitou betar este capítulo.

“Eu nunca me preocupei em me aproximar das outras pessoas. Não as odiava, mas lhes era indiferente. Graças a isso nunca tive nenhum amigo realmente próximo, com exceção de alguns primos, mas eles moravam longe e não nos víamos com frequência.

Em compensação, sempre fui cercado de colegas e pessoas interessadas em mim, então cometi o erro de achar que eram meus amigos.

Ficar na biblioteca quando não estava em horário de aula era minha rotina na outra escola, mas naquela tarde eu consegui me exceder ainda mais e, quando percebi, já estava no horário da escola ser fechada. Eu sei que é um pouco exagerado, Leon, mas eu tinha uma prova importante no dia seguinte! O fato é, a lua estava alta no céu quando eu sai e eu queria chegar rapidamente em casa para uma boa noite de sono, porém depender de transporte público seria demasiado demorado.

Paciência, fui esperar.

Quando estava saindo da escola, alguns rapazes da minha classe passaram de carro e me ofereceram carona. Não sabia se eles tinham habilitação para dirigir e talvez, em outras circunstâncias, eu teria me importado com isto, porém eu queria apenas chegar em casa, acabei aceitando.

Me arrependo até hoje.

Saiba, Leon, que antes disso eu não me preocupava muito com o ambiente ao meu redor, muito menos tinha o costume de realmente observar as pessoas, procurando algo potencialmente errado nelas. Não sei se posso chamar isso de inocência, acho que se enquadra mais em egoísmo.

E foi essa falta de percepção que não me fez perceber o sutil cheiro de álcool que emanava dos meus colegas.”

— Vocês… Eles bateram o carro? — Leon perguntou. Ian confirmou com a cabeça, pesaroso.

— Sim, mas, graças a Deus, não tivemos nenhum ferimento realmente sério. Pode chamar de golpe de sorte, se quiser, mas o fato é que não acabou por aí. Eu consegui escapar das consequências legais porque ficou provado que eu não tinha conhecimento das garrafas de cerveja no porta-malas do carro, mas foi por muito, muito pouco.

— Eu… Fico feliz — Leon falou depois de hesitar um pouco, entrelaçando os dedos. A expressão de Ian dizia que a história não havia acabado por ali.

— Eu também fiquei, mas… meus “amigos” não pareciam felizes. Minha família não confiava mais em mim e, de alguma forma, era como se alguns deles quisessem que eu tivesse me ferrado.

Ian explicou tudo com uma expressão tensa. Leon se compadeceu, mas de certa forma entendia o que se passava na mente dos tais amigos.

Inveja.

É uma sensação horrível. Desejar algo que pertence a outra pessoa porque, no fundo, você sabe que nunca será capaz de alcançar aquilo pelas próprias forças. Então, num gesto mesquinho, você apenas torce para que de alguma forma aquilo venha para as suas mãos… ou que a outra pessoa o perca.

Leon entendia esse sentimento melhor que ninguém.

— Eu não vou entrar em detalhes — Ian continuou, sem perceber o olhar distante do mais baixo — Mas descobri que muita gente que eu admirava e gostava só ficava comigo por interesse ou inveja, além de alguns familiares que juram de pés juntos que isso foi um aviso dos céus para eu parar de usar brinco “porque isso é coisa de marginal” — Fez as aspas no ar — É só a porra de um brinco! Não é uma arma que eu vou apontar na cara das pessoas, é só uma forma de eu me sentir mais como eu mesmo, qual o problema com isso? — Desabafou, respirando fundo.

— Então era esse o acidente que a mensagem falava — Leon murmurou — Sinto muito, Ian.

Ian suspirou.

— Perdi tudo. Quem eu achava que era meu amigo, a confiança dos meus familiares e, de quebra, o ano letivo. Por conta de todo o estresse, minhas notas baixaram e eu acabei repetindo — Explicou — E obviamente, um incidente desses foi parar na minha ficha acadêmica, querendo ou não, ou seja… Sem instituto para mim. Eles nunca deixariam alguém com uma mancha dessas entrar.

Seguiu-se o silêncio. Leon não sabia o que dizer e Ian parecia ter entrado num estado de profunda reflexão. O rapaz de cabelos castanhos encarou mais uma vez os próprios pés, enquanto tentava se colocar no lugar do colega. Ter seus sonhos retirados de uma forma tão brusca, ainda mais por circunstâncias fora do seu controle, deve ser realmente revoltante, mas talvez esse fosse o preço a se pagar pela popularidade, não?

Em horas como essa, Leon egoisticamente acabava agradecendo por ser apenas mais um anônimo tanto na escola quanto na própria vida já que, por uma série de motivos, era o tipo de garoto ignorado até pelos próprios pais. Alguém sem grandes feitos, com habilidades medianas em quase tudo.

Não era um sentimento bonito, mas o que mais ele era além da sombra de outro rapaz que se foi há muito tempo?

— Obrigada — Leon disse, depois de um período de silêncio. Não queria revirar o próprio passado agora — Por confiar em mim e por me dizer isso.

— Eu que agradeço por você escutar — Ian respondeu. Encararam-se sem saber direito o que falar naquele momento, mas de alguma forma, sabiam que estavam bem.

— Quer voltar? — Leon perguntou — Ainda precisamos almoçar.

Como respondendo aquela pergunta, o estômago dos garotos roncou. Ian sorriu de canto.

— Vamos.

Caminharam por alguns minutos imersos em seus próprios pensamentos até Ian parecer se lembrar de um detalhe.

— Desculpe-me.

— O quê?

— O soco. Eu estava nervoso, assustado e cego pela raiva. Foi um erro ter descontado em você sem procurar saber a verdade — Admitiu. Aos olhos de Leon, parecia sincero.

— Oh, não se preocupe, eu estou bem, de verdade — Sorriu, um pouco mais feliz.

— Tem outra coisa que eu queria perguntar: Desde quando a Tao senta ao lado de vocês?

— Ah, sobre isso… É uma longa história.

E contou-lhe, resumidamente, tudo o que ocorreu desde que Phantasma se revelou. Era estranho voltar atrás e perceber que havia se passado apenas um dia desde que começou todo aquele furdúncio, fazia-o temer ainda mais o que viria. Se bem que era difícil Phantasma ir além daquilo, certo?

— Nossa, você foi bem longe só para saber quem usou o seu nome? — Ian observou genuinamente surpreso — É inesperado, quer dizer… Não é qualquer um que fala com a Tao.

— Ela é menos assustadora do que os boatos fazem parecer — Justificou-se com um risinho sem graça, afinal, aquilo nada mais foi além de um impulso de coragem que ele ainda não sabia direito explicar. Até agora, a explanação mais coerente que conseguiu encontrar foi a de que, como não tinha amigos além de Nino, Kim e Ian, não queria deixar que o relacionamento deles fosse estragado por algo tão fútil, mas ainda não tinha certeza se era realmente aquele motivo.

— Mesmo assim, tome cuidado. Eu sei que você não lhe pediria ajuda se achasse que a culpa é dela, mas é impossível negar que as suspeitas estão fortes.

— Eu sei — Leon meneou a cabeça, pensando no que poderia falar, mas não foi necessário continuar a conversa. Chegaram até o gramado de onde Kim acenava com um olhar radiante ao vê-los interagindo normalmente; ao seu lado, Nino segurava um pedaço de papel e parecia contrariado.

— Posso assumir que vocês voltaram a se falar? — A garota perguntou, esperançosa.

— Sim — Ian não pôde evitar o sorriso breve ao vê-la — E eu preciso admitir que fui precipitado, me perdoem.

— Que bom que admite — Nino disse com altivez — Mas sem problemas, bem-vindo de volta.

— Está tudo bem, Nino? — Leon sentou-se ao seu lado enquanto Ian completava a roda — Que bilhete é esse? — Espiou curioso.

— Isso aqui? É da Tao — Nino entregou-lhe, os olhos roxos exalando desconfiança — Segundo ela, foi o resultado das análises das novas imagens.

Ian se inclinou um pouco, tentando visualizar o bilhete que Leon já tomava das mãos de Nino com interesse palpável.

— Outra letra…

— Outra? — Ian observou o bilhete.

K

— Sim, na primeira “revelação” — Kim fez as aspas no ar — Tao também descobriu uma letra escondida, pelo que Nino me contou. O problema é que não sabemos qual o objetivo dele com tudo isso.

— Compreendo — Ian meneou a cabeça — Escutem, eu sei que todos estamos curiosos, mas por hora, é melhor irmos almoçar. As atividades continuam na parte da tarde e não adianta divagarmos sobre isso ao ponto de nos esquecermos de nossas obrigações — Aconselhou.

— Você está certo — Nino concordou, jogando a cabeça para trás num suspiro longo, movimento que fez suas mechas laranjas ficarem com ainda mais destaque graças a luz solar — Vão almoçar no refeitório mesmo?

— Desculpa, gente, mas hoje eu e as meninas do grupo marcamos de almoçar juntas — Kim se explicou, arrumando as coisas — Eu estou bem atrasada, na verdade, mas como não conseguiria me concentrar na nossa reunião se estivesse pensando em vocês, disse a elas que demoraria um pouco aqui.

— Por sinal, Kim, você falou com a Tao sobre a questão da Íris? — Leon perguntou, a garota desviou o olhar.

— Falei. Ela disse que amanhã ou depois me daria uma resposta, então não vou me precipitar por enquanto. Íris jura que é mentira e eu acredito nela, quer dizer, você mesmo também foi vítima, então acho que entende um pouco o que eu estou dizendo, não é?

Leon balançou a cabeça em confirmação. Ele realmente entendia.

— A questão é… — Kim se levantou, dando um beijo na cabeça de cada um — Não adianta sofrer por antecipação, e se por acaso for o nosso último almoço como amigas, o que na minha opinião é uma possibilidade muito pequena, eu espero poder aproveitá-lo bem. Nos vemos mais tarde!

Acenou e, com esta despedida, foi praticamente aos saltos até o refeitório. Os rapazes arrumaram suas coisas e seguiram o mesmo caminho.

— Eu queria ter um pouco da confiança da Kim — Ian admitiu enquanto andavam — Quer dizer, ela conhece essas garotas há quanto tempo?

— Ela começou a estudar aqui esse ano… Não devem estar juntas há mais que alguns meses — Leon lhe respondeu — Pelo que ela me contou, como as quatro sonham em ser artistas, montaram o grupo e treinam juntas desde então.

— Exato, e ainda assim, ela nem duvida da inocência de Íris, acho isso louvável.

— Flowers with Fangs… É um nome interessante, esse que eles escolheram — Nino falou, sem realmente prestar atenção na conversa.

— Combina com elas — Ian falou, levando as mãos aos bolsos — Quer dizer, não conheço tanto as outras, mas com Kim, com certeza combina.

— Pois é.

Durante o almoço, Nino estava anormalmente silencioso e foi impossível para Leon não se incomodar um pouco com isso; aguardou paciente por uma oportunidade de perguntar sobre o assunto e a chance veio quando Ian terminou de comer, anunciando que iria à biblioteca antes da aula começar.

— Nino.

— O que foi?

— Você está estranho — Disse, e dessa vez não havia dúvidas. Uma coisa era conversar com Ian, que também conhecia há poucos meses, outra era falar com quem convivia há praticamente seis anos… Embora houvessem controvérsias.

Ambos se conheceram num jogo online aos onze anos, mas só se viram pessoalmente aos dezesseis, quando Leon mudou de cidade, logo, o tempo de amizade variava dependendo se o período em que conversavam virtualmente contava ou não. A despeito dos que diziam que era impossível existir uma amizade virtual verdadeira, Leon não conseguia imaginar amigo melhor que Nino mesmo quando estavam separados por um computador.

— Não é nada — O rapaz disse, brincando um pouco com a comida no prato para disfarçar — Apenas o cansaço do dia.

— Eu sei quando você está cansado, Nino, e você não fica com essa cara de suicida num penhasco, o que foi? — Repetiu — Ainda é por causa da Tao?

— Sabe que eu não gosto dessa história de você se aproximando dela — Nino respondeu — Você não escutou as histórias que eu escutei, Leon, eu estudo aqui há mais tempo que você e, de certa forma, me sinto responsável por você.

Foi impossível para Leon segurar um sorriso singelo ante aquela sutil demonstração de preocupação.

— Eu sei, cara, e te agradeço muito, mas… Ela está nos ajudando até agora, certo? E você não quer saber quem é o Phantasma?

— Quando alguém descobrir a identidade dele, acha que levará mais que trinta minutos até toda a escola ficar sabendo? — Nino ergueu uma sobrancelha, num claro gesto de desdém — Não precisamos da Tao para isso, além do mais, você já cumpriu seu objetivo, certo?

— Hã?

— Fazer as pazes com Ian. Você pediu que Tao cuidasse do assunto porque queria provar que era inocente, agora que Ian já lhe perdoou, não acha que é hora de dar tchau para ela?

— Eu…

Ok, não tinha pensado nas coisas por aquele lado. Baixou o olhar e refletiu um pouco sobre aquilo. Tecnicamente não havia mais porque se meter naquela história, mas uma parte de si realmente queria ver até onde todo aquele caso iria, e que melhor maneira de se manter informado do que ao lado da hacker que estava determinada a caçar a origem de toda aquela história? Além disso, duvidava que alguém mais na escola houvesse descoberto as mensagens escondidas nos prints, então saber aquela pequena informação que poucos sabiam era como ser especial, de alguma forma.

Ser algo além de uma sombra.

Era contraditório demais se contentar em ser uma sombra e, ao mesmo tempo, almejar um pouco de reconhecimento? Só um pouco, nunca quis grandes coisas.

— Eu realmente quero ver até onde essa história vai dar, Nino… Se no fim Tao estiver manipulando a todo mundo, tudo bem, você pode rir na minha cara e dizer “eu avisei”, mas por enquanto… Eu vou continuar, é o que eu quero.

Nino não demonstrou surpresa ao ouvir aquilo, mas o seu ceticismo era palpável.

— Você tem certeza de que é você quem quer isso? — O olhar de Nino tornou-se cético

— O… O que quer dizer? — Sua voz falhou por alguns instantes, sem saber como reagir à pergunta, ainda mais quando Nino suspirou e seu olhar encheu-se de preocupação.

— Bancar o herói não combina com você, Leon. Se colocar em risco de ser enganado pelos outros também não, você é quieto demais para isso e…

— E… Começou, agora termina, Nino — Pediu mesmo que não estivesse gostando do rumo da conversa, com o nervosismo já tomando conta de si.

— Por favor, me desculpe pelo que eu vou dizer agora — Nino pediu antes de endireitar a postura, e erguer o rosto de Leon para que o encarasse — O que eu quero dizer é o seguinte: Eu não acho que você esteja fazendo isso por vontade sua. Você está querendo se meter nessa história porque é o que você acha que é o que Louis faria se estivesse aqui.

O tom firme da voz de Nino fez Leon fraquejar.

Não, era impossível, tinha que ser.

Aquele simples pensamento bastou para que não tivesse paz durante o resto do dia.

Notas finais
O que acharam? Assim como o nome do capítulo indicou, além do passado do Ian, tivemos uma prévia do passado do Leon também, esperavam por essa? Quais suas apostas sobre quem é Louis? Amo teorias, então não hesitem em viajar nas suas! E não sei se já notaram, estamos com capa nova e sinopse também! Amei o kit antigo quando o criei, mas depois de um tempo percebi uns detalhes que me incomodavam, então refiz tudo. Contem-me o que acharam disso também. Vejo vocês em breve!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.