Quando o despertador tocou, ela se iludiu pensando ser capaz de dormir apenas mais cinco minutos.

“Porque você iria conseguir dormir só mais cinco minutos depois de virar a noite terminando aquele script, você, com certeza, iria!” Ralhou consigo mesma enquanto escovava os dentes, vestia a meia-calça preta e chutava os coturnos marrons para perto das roupas ao mesmo tempo, escutando a risada da mãe, que ouvia a bagunça no quarto ao lado.

Mas o script ficou impecável.

Muitos dos hackers com quem conversava diziam já estar adaptados a dormir três ou até mesmo duas horas por dia, apenas. Em algum momento da vida ela chegaria neste nível, mas por enquanto, restava lamentar o atraso como uma estudante normal.

Forçou-se a diminuir o ritmo apenas para apreciar a caneca fumegante de café que tomou, afinal nada no mundo era tão urgente que a impedisse de saborear café, ainda mais o da sua mãe, que era simplesmente divino!

—Tô saindo! — Avisou aos pais, jogando uma caixa de balas de café na bolsa.

—Eu também, filha. Não quer esperar? Eu lhe dou carona.

A voz do seu pai nunca lhe pareceu tão bonita.

—Pai, eu já falei que até esses fios brancos no seu cabelo parecem muito mais radiantes hoje?

Assim que encostou as costas no banco do carro capotou de sono mais uma vez e foi preciso que seu pai a acordasse quando chegaram. Era grata por isso.

Sabia que se fossem outros, seus responsáveis provavelmente ralhariam com ela a manhã toda sobre como deveria administrar melhor seu sono, mas foram eles que lhe ajudaram a desenvolver aquele amor imenso pela informática e tudo relacionado. Obviamente se preocupavam para que ela não passasse da conta (Ainda eram pais, afinal), mas tinham orgulho da filha justamente porque a infância dos dois não havia sido muito diferente.

“Qualquer programador que se respeite sabe que a madrugada é o melhor horário para se fazer qualquer código”.

Observou pelo vidro da porta a posição da professora na sala e esperou-a ficar de costas. Entrou devagar, quase na ponta dos pés, se desse sorte, ela não notaria o seu atraso.

—Senhorita Slackware…

“Já era o plano de tentar ser discreta”.

Não escutou o resto da frase que a professora lhe dirigiu, culpa de um bocejo involuntário, mas murmurou um pedido de desculpas e jogou duas balas de café na boca, buscando um pouco de energia.

—Tava estudando – Justificou, sabendo que as olheiras testemunhavam a seu favor “Só não era a sua matéria”, a desculpa pareceu suficientemente convincente para a professora aceitar.

O resto da aula se resumiu à garota chupando bala de café atrás de bala de café na tentativa de ficar acordada, copiando o assunto de forma resumida até demais (“Depois eu pesquiso em algum lugar”) e verificando o relógio de minuto em minuto numa vã esperança de que a hora passasse mais rápido.

Enquanto o seu olhar vagava pela sala, percebeu um par de íris amarelas observando-a.

“Wow” Riu baixo, devolvendo o olhar e sorrindo de canto. Geralmente, quem a encarava fazia isso por algum estúpido teste de coragem proposto pelos amigos ou outra bobagem semelhante, mas Tao conhecia um pouco aquele garoto, não por conversar com ele, mas porque sabia, no mínimo, o básico sobre 75,3% daquela escola, o que, modéstia a parte, era uma porcentagem considerável. Ele não era o tipo de pessoa que se envolvia em joguinhos estúpidos de coragem.

“Aiai, esse povo inseguro” Pensou com um quê de riso ao vê-lo desviar o olhar assim que percebeu que estava encarando-o de volta.


~X~

Os vinte minutos do intervalo pareciam o momento perfeito para aproveitar que a sala estava vazia e tirar um cochilo, então quando seus planos foram frustrados por conta do bipe do celular avisando uma mensagem recebida, ela apenas franziu o cenho, passou rapidamente o olhar pelos prints para garantir que seu nome não estava envolvido e silenciou o aparelho.

Dormir era mais importante naquele momento.


~X~

Depois daquele breve cochilo, parecia mais fácil prestar atenção nas aulas seguintes. Apenas quando todos estavam de saída para o almoço foi que lembrou de analisar com mais precisão as conversas que lhe enviaram.

“Devem ter mandado isso para a escola inteira”.

Pegou o celular e sentou-se num banco afastado de onde a maioria dos alunos socializava, demorando-se um pouco na foto da tela: Ela mesma, há alguns anos, e uma garota de sorriso gentil, brilhantes olhos cor de mel e cabelos roxos.

Seus lábios formaram um sorriso melancólico antes de finalmente abrir a mensagem.

“Phantasma?” Quem será que havia assumido a identidade dele dessa vez?

“Essa é verdadeira, essa é falsa, essa outra também, esse aqui eu não conheço o cara, acho que essa outra é verdadeira, o professor Abner sempre foi um pervertido, só não vê quem não quer” Pensava enquanto movia o dedo sobre a tela, passando print por print dos anexos enquanto os analisava de acordo com as informações que possuía.

Estava interessante, mas qual era o propósito de tudo aquilo?

—Tao…

A voz de um garoto tirou-a de seus devaneios, guardou o celular no bolso da saia e ergueu a cabeça: Nino Velt, outro garoto que também estudava em sua classe, a encarava, um pouco atrás dele pôde ver Leon, que externava nervosismo, não importava o ângulo por onde se observasse.

—Olá, Nino, Leon – Cumprimentou de forma educada, quase fria. Nunca haviam se falado, então estava muito interessada no que havia levado-os ali, embora…

Oh, sim, depois de tantas revelações, não havia dúvida sobre o que eles buscavam.

—Querem falar sobre essas conversas que vazaram? Por sinal, muito corajoso de sua parte sair expondo o passado de Ian daquela forma – Provocou com um riso – Como ele reagiu?

—Ele não fez isso! — Nino se apressou em defendê-lo. Tao se divertiu ao perceber que ambos estavam definitivamente desconfortáveis por falar com ela, paciência, sabia que sua fama não era das melhores, mas nunca se importou. Enquanto não tivessem provas não podiam fazer nada contra ela.

—Se não foi ele, quem foi? Você? — Arriscou, vendo o garoto ficar vermelho de raiva.

—Não, você! Quem mais se divertiria com tudo isso?! Além do mais, foi a única que nem foi citada nos prints!

—Epa, “a única” uma vírgula – Ergueu o dedo indicador e encarou-o sem se deixar intimidar ou alterar o tom da voz – Lembro claramente de alunos dos primeiros e terceiros anos que não foram citados, inclusive, seu nome entra nessa lista, o que tem a dizer sobre isso?

—Como se eu fosse uma garota nojenta que fica invadindo os segredos alheios em busca de dinheiro.

—Exato, eu invado segredos, eu não crio segredos. Esta é a diferença: Trabalho apenas com verdades, não saio inventando boatos por aí, o que automaticamente invalida a sua teoria sobre eu estar por trás de tudo a não ser que você realmente tenha espalhado os segredos do seu segundo melhor amigo de bandeja como as conversas indicam, o que acha, Leon Antergos?

Era engraçado falar o sobrenome dele.

Finalizou tudo com um sorrisinho no rosto enquanto Nino estava possesso. Resmungou meio mundo de coisas e puxou Leon dali sob um aceno cordial de Tao.

A garota voltou a mexer no celular, fazendo algumas anotações sobre um código que queria revisar quando chegasse em casa, mas foi surpreendida por uma mensagem minutos depois.

“Posso te encontrar hoje, as 4:00 PM, na estação de metrô? Queria falar com você a sós, sem o Nino.
Leon”.

Deu um sorriso de canto, aquilo estava ficando interessante.