H.a.c.k

8 Capítulo 8 - Bem-Vindo de volta


Notas iniciais
Eu sei, eu sei! Três meses já é sacanagem, mas cá estou eu com um capítulo novinho. As coisas estão quentes, fervendo e o final... Talvez chegando.

POV- J.K

“Como...?”. Questionava-me incansavelmente. Por mais acordado que estivesse, por algum motivo, meus olhos não se abriam. Era como se houvesse algo pesado em minhas pálpebras resultando no mais profundo e medonho breu já visto por mim. Mas, aquilo não era o que mais me incomodava no momento. Por ora, minha maior preocupação era: “Como tudo aconteceu?”.

Minhas duvidas e incertezas atordoavam minha cabeça e provocavam-me náuseas e elas, por sua vez, latejavam e desciam por minha garganta como se fossem serras afiadas cortando-me e desfazendo-me por dentro. Mesmo deitado, minha cabeça rodava fazendo-me suar frio. Agarrei-me aos lençóis do que parecia ser uma cama na tentativa fracassada de parar de “girar”. Com o tempo, acabei por perceber que aquilo não era só “uma” cama, aquela era “minha” cama. Tendo isso em mente, acabei então por relaxar e soltar os gelados lençóis que costumavam me aquecer durante as noites.

Finalmente uma de minhas duvidas havia sido cessada. UMA delas. Ainda não tinha certeza do que havia acontecido, com quem havia acontecido e muito menos por que havia acontecido. Só sabia que devia ser algo importante, mas, o que? Ao correr do tempo, meus sentidos começaram a voltar, e, aos poucos, minha cabeça começou a se preencher por chiados — Zumbidos, para ser mais preciso. Esses, rapidamente, tomaram minha mente, impedindo-me de ter o menor pensamento que fosse, entretanto a sensação de desconforto não se perdurou e gradativamente então pude entender melhor o que ocorria. Não eram zumbidos e sim... Palavras. Palavras as quais essas que pareciam doer nos que as pronunciavam, e também nos que as ouviam. A melancólica conversa já havia tomado meu quarto antes mesmo do meu despertar, porém, somente agora eu a entendia. Ainda que com dificuldade, coloquei-me a prestar atenção no que estava sendo dito.

– E agora?!

– Precisamos dele pra continuar!

– Acalmem-se. Vamos encontrá-lo.

– E se não encontrarmos?!

– Estamos perdidos. Perdidos!

A discussão demorava um pouco para se formar em minha mente. Não sabia do que falavam, mas precisava saber.

Enfim, pude abrir meus olhos. Os seus redores doíam provocando falhas a minha visão. Não conseguia parar de lacrimejar também, era como se houvesse algo me incomodando... E havia. A porta meio encostado do pacato quarto deixava fugir por sua fresta um estrondeante e insuportável feixe de luz. Feixe esse que mirava perfeitamente em direção as minhas orbes cegando-me.

Em uma tentativa de fugir da luz, elevei um pouco o tórax. Ansiei. Subira um cheiro forte e nauseante de minhas roupas. Na verdade, subira um cheiro forte e nauseante de remédio. Remédio? Por quê?

– Não estamos perdidos! Dá pra parar de parecer uma criança toda borrada?!

– Mas eu sou uma criança toda borrada! Olha o que fizeram com ele!

– Você nem sabe o que fizeram com ele, Scott.

– Coisa boa é que não é! Aidê, o Heinz é a nossa única esperança!

Arrepiei. Não acreditava no que acabara de ouvir. Ou pelo menos não queria acreditar. Relutante, balançava minha cabeça de um lado para outro freneticamente. Finalmente havia lembrado de tudo, mas, agora eu não queria mais. O nervosismo tomou conta de meu corpo e um frio que se proliferava por meus pés subiu até minha nuca paralisando-me.

“Isso... Isso não é verdade, certo?”. Pensava incansavelmente. Minha visão parecia escurecer a cada minuto que perdia encarando a porta que selava meu quarto. Naquele momento eu só pensava em berrar. Meu interior se remoía preenchendo-se de raiva e rancor. Num impulso involuntário, levantei. Queria sair correndo. Voltar pra Gorod e terminar com tudo isso. Mas o máximo que consegui fazer foi terminar no chão. Meu corpo todo tremia. Aquilo era humilhante. Tentei levantar, entretanto uma dor tremenda vinda do meu abdômen me impedia puxando –me de volta ao chão gelado e límpido do cômodo. Raiva que cultivava ia se avolumando cada vez mais em meu inteiro. Cerrei os olhos de ódio. Queria sumir! Desaparecer! Evaporar!...

A porta rangeu. Rapidamente, abri os olhos, porém nada se focava, minha visão decrescia e escurecia fazendo tudo rodar novamente. O máximo que via eram vultos vindo em minha direção correndo. Meu coração acelerou. Não os reconhecia e estava muito assustado para pensar em possibilidades. Forcei-me novamente a levantar. Sem sucesso. Meu corpo se estremecia a cada tentativa inútil por feita. Quando estava preste a tentar uma segunda vez, algo me impediu.

– J.K! J.K!

Era Scott, por alguns curtos segundos relaxei. Scott, segurava-me junto ao chão impedindo que me erguesse. Pela sua voz, ele estava preocupado.

– Calma! — Disse Rei juntando se ao moleque.

Com um pouco de dificuldade, os dois puseram-me de volta sobre o leito da cama. Quando insinuei levantar, Rei juntou a cama instintivamente.

– Se você fizer isso os curativos irão sair! – tentou alertar-me enquanto me debatia a cama.

Não ligava para aquilo. E se saíssem? Eu morreria por conta disso? Acho que não, né?

Sentei. Meu abdômen parecia me matar. A sensação era que todos os meus órgãos estariam por atravessa-lo e destroça-lo de uma vez só. Mas eu não ligava. Dor por dor, força-me a frente. Não iria parar até que conseguisse o que queria.

Tombei. Arregalei os olhos sem entender nada. Por que havia caído? Faltava tão pouco.

Enfim a visão se focou novamente. Era Rei que havia me empurrado. Suas mãos estavam sobre meus ombros e seu rosto expressava esforço. Pelo visto ela havia usufruído de toda sua força para deitar-me de volta. Quando pensei em levantar-me novamente Rei surpreendeu-me tocando em minha ferida. Recuei assustado. Sentia-me um cachorro abandonado. Não queria que me tocassem, me visem, me ajudassem. Só queria que pelo menos uma vez na minha vida compreendessem o meu lado e me deixassem fazer o que me convinha. Junto a um calafrio, voltei o olhar a Rei, porém optei por desviá-lo. Rei parecia extremamente irritado e chateado. Seu olhar traspassava-me decepção e de um modo estranho dó. Desolado, deitei-me encarando o teto. Quanto mais olhava sua superfície límpida e pacifica mais ofegante ficava. As lembranças vinham e voltavam como um flash em minha mente. Rangi os dentes.

Passos. Ouvi passos – mais precisamente, passos de salto alto. Relutante, soltei um olhar para lado esperando por algo. Antes não tivesse o feito. Num piscar de olhos, Aidê surgiu no canto da porta. Seus olhos sem vida encaravam-me impondo superioridade e desprezo. Os braços cruzados mostravam insatisfação. E seus lábios, totalmente cerrados, correspondiam-me silêncio. Sua expressão seria capaz de assustar até mesmo a morte se quisesse.

Voltei ao teto. Não aguentava mais ser julgado por todos. Sabia o que havia feito. Sabia que havia sido horrível. Mas também sabia que julgar a mim não iria mudar nada. Nada?

A pressão subiu a minha cabeça.

–... Foi tudo culpa minha... – Pronunciei em tom baixo enquanto punha as mãos à cabeça.

– Como? – perguntou-me Aidê.

Sentia o deboche em seu dizer e aquilo me dava nojo. Impaciente, respondi.

– Você sabe muito bem o que eu disse, sua filha da mãe...

Scott e Rei pareceram espantados com minha resposta, mas eu estava pouco me lixando. Nada tinha mais sentido pra mim.

Aidê permaneceu calma. E na mesma serenidade de sempre retornou a perguntar como quem não houvesse ouvido.

– Como?

Irritei-me.

– É TUDO CULPA MINHA, CARAMBA! É DIFÍCIL ENTENDER ISSO?! – Sentei-me voltando-me a ela.

Por incrível que pareça, diferente de Rei e Scott, Aidê permanecia-se no mesmo lugar, calma, porém ainda lançando-me um olhar profundo. Entretanto aquilo não mais me intimidava e sim, me fazia pensar em possibilidades, essas se proliferavam em minha mente e escorriam por minha boca saindo quase que involuntariamente de mim. Eu dizia tudo que poderia ter feito, como iria ter feito, porque motivo iria ter feito. Eu parecia não ter freios na língua, entretanto, como sempre, Aidê trouxe-me de volta a realidade com sua desprezível e sarcástica risada de ironia. Aos poucos, calei-me. As risadas de Aidê se espalhavam pelo ar me desconfortando cada vez mais. Minha garganta ameaça secar a qualquer momento e não sei porque, meus olhos lacrimejavam. Quando cansou-se, direcionou-se a mim.

– Você é mesmo um idiota, não é J.K? – perguntou-me ainda rindo. – Não passa de um moleque qualquer que quer ser o herói da história. Quer salvar todo mundo, mas não consegue salvar nem a si mesmo. “se eu tivesse feito aquilo!” ”se eu tivesse feito isso!”, se você não tivesse feito porra nenhuma, estaria tudo bem. Não pense você que você é apenas meu problema, seu fracassado. Você é o problema de todos! – vociferou.

Por algum motivo, aquilo doía. Aquilo doía muito.

Aidê deu as costas a todos e sumiu das nossas vistas. Depois disso, estava claro que para ela, eu não passava de um monte de merda. Talvez eu fosse mesmo um monte de merda. É, no fim das contas, eu não sirvo para nada mesmo.

POV – Aidê

Minha cabeça parecia que ia explodir. Estava fora de mim e totalmente cansada. Aturar três crianças já era de mais. Três crianças... Aquilo realmente não estava certo.

Enquanto subia as escadas para a cozinha pensava em um jeito de me acalmar. J.K e seu jeito infantil sempre me aborreceu. Fugiu de Gorod achando que iria mudar tudo aquilo... Se enganou. Não consegue cuidar de si mesmo, imagina salvar a humanidade.

Chegando ao andar de cima, me senti sozinha. A falta de alguém me marcava. Mordi o lábio para tentar pensar em outra coisa. Não gostava de me expressar, muito menos mostrar meus verdadeiros sentimentos. Queria sempre passar a imagem de superioridade. Precisava ser forte, sempre. Nada pode me abalar. Ninguém...

– Senpai...

Virei minha cabeça. Era Rei. Ela estava com a cabeça abaixada, tentando não fazer contato visual. Parecia que o que falei para J.K, não só o afetou. Olhei novamente para frente, não podia desviar-me de meu percurso. Continuei a andar em direção à porta.

– Eu sei que você não queria dizer aquilo... – Insinuou num tom triste.

Suspirei diminuindo meus passos. Queria ouvir o que Rei estava prestes a falar.

– O J.K é mesmo um idiota, isso todo mundo sabe, mas... Mas por que falar daquele jeito com ele?

– Só falei a verdade. – Expliquei mantendo-me no ritmo.

Ouvi alguns passos se aproximando. Vinham das escadas, eram leves, então já tinha uma ideia de quem seriam.

– É, pode até ser, mas ele não é inútil. – Disse Scott chegando.

– Diga uma coisa que ele fez certo. – Pronunciei, virando-me para os dois.

O garoto, seguidamente, tirou de seu bolso um pequeno pen drive prata. Era de aço e continha um logotipo em sua estrutura. O objeto, meio retangular, voou em minha direção.

– O que é isso? – Questionei agarrando-o no ar.

– Enquanto o J.K estava no chão, peguei do bolso dele. – Respondeu Scott na maior simplicidade – E adivinha.

– Hm? – Perguntei cruzando os braços.

– Temos tudo que precisamos bem aí.

Scott abrira um sorriso um tanto que maligno. Esperava que eu dissesse algo, mas mantive-me quieta. Como assim? Já estava tudo pronto? Podíamos prosseguir para o final? Tudo em nossas mãos. A salvação do planeta Terra.

– Então... Então é só irmos para Gorod, certo? – Perguntou Rei, meio confusa.

– Não, não podemos. Precisamos bolar um tipo de distração. Algo que os deixe muito ocupados. – Respondi.

– Se o Heinz estivesse aqui, conseguiríamos, com certeza... – Lamentou Scott.

Desviei meu olhar junto de um suspiro. Sentia-me culpada por ter deixado aquilo acontecer. Como ele deve estar? Ferido ou até morto... Fechei os olhos e tentei imaginar algo que poderia me acalmar. Mas, infelizmente, coisas terríveis vieram em minha mente. Gritos de dor e sofrimento. Não queria saber de quem eram.

POV- Scott

Estávamos perdidos. Totalmente derrotados. Não sabia o que fazer, nunca sei mesmo... Estava de pé, olhando para Aidê, esperando que ela fizesse alguma coisa, mostrasse confiança, mas... Nada. A mesma expressão de sempre. Uma pessoa sem alma. Minha vontade era de chacoalhar sua cabeça, entretanto, eu já estaria espatifado no chão muito antes de chegar perto.

Me dava calafrios só de pensar no Heinz. Uma pessoa tão amigável e inocente... Ele não seria capaz de se defender sozinho, certo? Bom, com certeza o mais corajoso que conheci. Vamos fazer isso por ele.

Rei parecia perdida e desolada, uma coisa muito estranha de se ver. A vontade era de consolá-la e dizer que ficaria tudo bem, mas nem eu sabia. Poderia acontecer o pior.

Aidê parecia muito concentrada. Seus olhos, que quase não os via, estavam meramente abertos. Olhava para o chão, porém, não estava procurando algo onde pisava. Estava prestando atenção em algo longe, bem distante. Fiquei preocupado e meio desorientado. Rodava a cabeça para ver se encontrava alguma coisa.

– Fica quieto. – Alertou Rei, me segurando no braço.

Parei imediatamente quando senti Rei me tocar. Olhei para seu rosto, ela estava concentrada também. Não sabia o porquê de tudo aquilo, não escutava nada.

– Temos que sair daqui, rápido. – Disse Aidê, imóvel.

Seu olhar passava desespero, pela primeira vez.

– O-o que foi? – Gaguejei.

Comecei, de longe, ouvir passos. Muitos. Quem seria? Não passa muita gente por aqui. Rei começou a me puxar em direção à escada. O que estava acontecendo?!

Um sinal. Aidê fez um sinal com a mão, mandando nós descermos. Não pensei duas vezes, comecei a acelerar o passo. Bom, foi meu maior erro. Alguém bateu na porta, dando pancadas consecutivas. Pesadas. A madeira, já desgastada e velha já não parecia aguentar qualquer tipo de força bruta.

Silêncio.

Nós três ficamos atentos a qualquer barulho. Olhávamos perplexos para a fresta debaixo da porta. A sombra, provavelmente, do pé do intruso. Por que não corremos que nem loucos para a escada?! Seria mais fácil, não acha?

O som da terra se mexendo nos tirou a atenção. A sombra logo cresceu, parecia que tinham agachado. Estava espantando, mas mesmo assim, pude ver algo passar pelo pequeno buraco. Um papel.

Aidê pareceu mais nervosa ainda. Curvou-se um pouco para tentar ler, porém, junto com o receio, hesitou. Outra invasão? Fiquei nas pontas dos pés para ver se conseguia avistar a escrita. Entretanto, não entrou no meu campo de visão. Tentei novamente, dessa vez apoiando nos ombros de Rei.

– S-Scott...! – Sussurrou Rei.

Ergui-me o mais alto que pude, dando uma pequena inclinada para frente. Sabia que se pisasse mais para frente o chão iria ranger.

– Okazavshis...? – Questionei-me.

– Scott...! – Puxou-me – Cala a boca...

– Desculpa, não sei ler russo direito... Droga...

Tampei minha boca rapidamente. Mas acho que não adiantou muito.

A única coisa que lembro é de um barulho estrondeante.

~*~*H.A.C.K*~*~

POV- J.K

Nunca tive medo do escuro, porém, dessa vez foi diferente. Sentia um gosto ruim na boca. Amargo. Meus ouvidos chiavam. Parecia que meus olhos estavam abertos, mas... Não via nada. Algo prendia meus pulsos, pareciam correntes metálicas.

Por mais estranho que parecia, tentei abrir as pálpebras o máximo que pude, só para enxergar algo. Sem sucesso. Ouvi murmurinhos e movimentação. Várias vozes, presenças diferentes. Achava perigoso de mais gritar o nome de alguém. Preferi ficar calado.

Aquilo estava me matando aos poucos. Não estava mais deitado, e sim, sentado. Tentei separar meus braços, não ocasionou em nada. Uma algema, talvez? Coisa boa é que não era.

A dor, o desespero. Tudo aquilo estava me deixando louco. A ferida ardia e latejava junto com o frio ar. Frio? Os únicos lugares frios que conheço são o esconderijo e...

– Comunico a todos a entrada do Senhor governador da Cidade de Gorod no tribunal. Peço a todos que fiquem de pé.

De repente, começando com um som parecido com de um estalo, ouvi os calçados colidindo com o solo. O silêncio permanecia.

Algo esbarrou em meu ombro como se fosse sem querer. Inesperadamente, senti algo puxar levemente minha cabeça, levantando alguns fios de cabelos meus. Aquela luz parecia que me deixaria cego. Abaixei a cabeça para proporcionar-me um pouco de sombra. Quanto tempo eu fiquei sem ver a luz? Como fui parar naquele lugar?

Quando finalmente meus olhos se acostumaram com o ambiente, continuei com a cabeça baixa. O chão, branco e polido, refletia o que parecia ser um tribunal. Percebi que um enorme lustre se segurava no enorme teto com um formato abobadado. É tudo muito enorme.

Aos poucos, fui levantando a cabeça. Olhei para os lados, por um segundo, senti-me aliviado. Todos estavam lá. Aidê, Scott e Rei. Na verdade... Nem todos.

Aquilo não era tão bom assim. Fomos capturados e presos. Somos só ratos de laboratório, eles podem fazer o que bem entendem com nós. A multidão atrás de mim olhava fixamente para frente, imóveis e sérios. Pareciam robôs bajuladores.

O homem do meu lado encarava-me. Seus cabelos negros penteados para trás dava um olhar de riquinho metido. Eu tinha vontade de rir, mas seu olhar carrancudo me deixava sem palavras.

Olhei para frente na expectativa de me livrar dos olhares. Deparei-me com um senhor. Não era realmente um senhor. Deveria ter uns 50 e poucos. Ele sorria amigavelmente, olhando dentro de meus olhos. Eram verdes, um pouco mais intensos que os meus. Seu cabelo meramente ondulado chegava a nuca. Era grisalho que nem sua barba rala e mal feita. Sua rupa, que quase não via, por estar sentado detrás de uma mesa, era branca.

A cadeira, que mais parecia um trono, era feito de mármore e se encontrava um pouco mais alto do que todos ao seu redor. Era preciso erguer um pouco a cabeça para poder olhá-lo nos olhos. Aquele rosto me era familiar.

– Bom, vejo que todos estão aqui. – Riu o governador – Vamos começar.

– Começar o quê? – Sussurrei para mim.

– Shhh. – Reproduziu o cara do meu lado.

O senhor olhava para um tipo de apostila na mesa, parecia interessado, até animado.

– Aidê Callis, a líder do bando, né? – Brincou – Fugiu da Grécia, com 12 anos, quando seu pai estava transportando mantimentos para Gorod. Culpada pela morde de vários soldados e guardas. Mas acho que isso não acontecerá mais... Nunca mais.

Em toda sua fala, o homem, pronunciou as palavras tranquilamente, como se estivesse contando uma história. Aidê abaixou a cabeça. Pela primeira vez, achei que estava desolada.

– Rei Kurosaki – Riu voltando-se para a mesa – Bem, não é todo dia que vemos um desses. 23 anos, nascido no distrito três. Fugiu logo depois da morte da mãe. É, acho que você deveria ter ficado mais tempo com seu pai, olha só para você agora. Realmente... Tenho dó de você.

Quem era aquele cara?! Sabia que Gorod tinha um governador, mas nunca ouvi falar nele. Ele humilhou Rei na frente de todos. Só eu posso humilhá-la.

– Scott Jones, 16 anos, ainda um projeto de gente. Ah, olha! Ensino médio, segundo ano, certo? É, Scott. Temos que melhorar as notas. – Fingiu lamentar – Mas tudo bem, você não vai precisar sofrer muito para conseguir. Scott Jones... É, é até um nome bonito. Não posso esperar para ver ele escrito na sua lápide.

Scott arregalou os olhos e permaneceu tão imóvel quanto o grupo de gente atrás de nós.

O senhor abriu um enorme sorriso no memento que olhou para mim. Seus olhos brilhavam mais que o chão do tribunal.

– Ah, Josja Kuznetsov. Quanto tempo. – Saudou-me colocando a apostila de lado.

– Desculpa... Eu não conheço você... – Pronunciei-me confuso.

– Ah, não... – “lamentou” – Depois de tudo que fiz para você. Lar, comida, educação. No mínimo gostaria de uma retribuição, Josja... É o que todo pai gostaria de ter.

Notas finais
Que pai legal, né? A propósito Josja se pronuncia Yosya (Йося Кузнецов) E o Heinz? Mais um capítulo sem ele. O que deve ter acontecido? Nenhuma pista... Bom, te vejo por aí! (Prometo que não vai passar de três meses....)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.