HL: The Other
10 Capítulo 9 - Parte 1 - Como tudo começou
Notas iniciais
Julho de 2007
Um carro parava na casa vizinha, enquanto Megan, com oito anos, olhava pela janela, curiosa. Dele saiu um casal acompanhado de garoto por volta dos treze anos e uma garota que deveria ter a idade de Megan. Animada, a menina saiu e foi até a casa do outro lado da rua para conhecer os novos vizinhos.
— Olá — disse para a outra menina que sorriu ao vê-la.
— Olá — continuou sorrindo. — Qual é o seu nome?
— Megan, e o seu?
— Beatrice — então apontou para o irmão mais velho. — Aquele é o meu irmão, Jack. — Então chamou o irmão. — Jack essa é a Megan.
— Oi — logo o garoto voltou a ouvir as músicas em seu iPod e ignorou as duas meninas.
— Ele é meio calado — Beatrice justificou. — Onde você mora?
— Ali na frente — apontou.
— Então somos vizinhas — comemorou.
***
Agosto de 2007
Após terminar de se arrumar, Megan foi até a tia que a levou até a casa vizinha, onde Beatrice e Jack a esperavam.
— Tchau tia — a menina se despediu e então os três entraram em um carro que a mãe de Bea e Jack dirigia.
— Quem é essa Karol? — Beatrice perguntou curiosa.
— Eu não sei, mas minha tia quer que eu faça mais amigos.
— A minha mãe também.
— Eu não entendo porque tenho que ir — Jack estava inconformado.
— Porque você precisa de amigos — a mãe interviu.
— Mas lá só vai ter criança!
— Fala o super adulto — Beatrice ironizou rindo.
— A conversa ainda não chegou na ala dos bebês — debochou.
— Nossa, esqueci que com treze anos você já é super adulto, pode até comprar um carro e dirigir — rebateu no mesmo tom que o irmão.
— Cala a boca, pirralha.
— Mãe, o Jack me chamou de pirralha!
— Os dois, fiquem quietos! — Logo eles chegaram e a mulher deixou os três na festa. — Comportem-se. — Ela pediu antes de sair com o carro.
— Olá — uma garota simpática de cabelos escuros os cumprimentou. Tinha a mesma idade que Megan e Beatrice.
— Você é a Karol? — Megan estava em dúvida.
— Não, eu sou a Tiffany — explicou e apontou para uma menina loira que estava emburrada no canto. — Karol. — A garota se aproximou a contragosto.
— Oi, eu sou a Beatrice — disse sorrindo. — Esse é meu irmão, Jack. E essa é minha amiga Megan.
— Ninguém se importa — se afastou resmungando.
— Ela é muito simpática — Jack ironizou.
— Desculpa por isso — Tiffany pediu envergonhada. — É que aconteceram umas coisas meio chatas e ela ficou assim. — Explicou. — Mas entrem. Tá todo mundo na piscina. — Os três entraram com Tiffany e logo que o fizeram, colocaram seus trajes de banho e foram para a piscina. Enquanto Megan e Beatrice brincavam na piscina, Jack ficou deitado em uma espreguiçadeira que ficava perto da piscina.
— Oi — um menino com sorriso simpático se aproximou. Tinha a mesma idade que Megan e Beatrice.
— Oi — Jack não estava a fim de fazer amizade com uma criança tão nova.
— Eu sou Jason.
— Jack.
— Posso te dar um conselho?
— Não — colocou um par de óculos escuros e ficou olhando para cima.
— É que essa é a espreguiçadeira do pai da Karol — avisou. — Ela vai ficar brava se te ver aí.
— Tô nem aí — disse na maior naturalidade enquanto fitava a piscina.
— Só avisando, não vai querer ver a Karol brava — então o menino viu Karol indo na direção dele. — Ai meu deus! Fui! — Saiu correndo dali.
— Esse lugar é do meu pai! — Disse em um tom que Jack considerou "irritantemente chato". — Sai daí! — Jack nem se mexeu. Ignorou a garota deixando-a completamente enfurecida. — Sai! — De longe, Megan e Beatrice viram aquilo e decidiram sair da piscina e verem o que estava acontecendo. — Eu mandei sair!
— Me obriga — Então a menina virou a espreguiçadeira e o fez cair. — Qual é o seu problema?
— Ei! — Beatrice se aproximou brava. — Ninguém mexe com o meu irmão! — Com isso, Karol deu um tapa em Beatrice.
— Qual o seu problema? — Megan estava indignada.
— Quer apanhar também? — De repente, uma menina de maria-chiquinha empurrou Karol para dentro da piscina.
— Vê se esfria a cabeça — a garota disse. Karol saiu da piscina e todos começaram um coro com a palavra "briga".
— Eu vou te dar uma lição — Karol tentou partir para cima da menina, mas foi parada por um rapaz que estava trabalhando de garçom.
— Chega! — Disse afastando da Karol da outra menina. — Todo mundo dispersando, acabou a briga. — As crianças se afastaram dali e então ele foi até Jack. — Você está bem?
— Foi só uma pirralha mimada, nada demais — respondeu.
— A pirralha mimada te derrubou — brincou.
— Não preciso das suas piadas! — Deu de costas.
— Desculpa, é que eu não esperava encontrar outro neo-humano nessa festa — explicou despertando a atenção do garoto.
— O quê?
— Oi, sou o Bernie, também sou neo-humano — então o rapaz viu a feição preocupada do garoto. — Relaxa, não sou da Nêmesis.
— Como sabe que sou neo-humano? — Questionou desconfiado.
— Também sou neo-humano — explicou, mas o garoto continuava confuso. — Minha habilidade é diferenciar humanos e neos, além de poder rastrear qualquer neo-humano na face da terra.
Perto dali, Megan e Beatrice brincavam com a menina que havia empurrado Karol na piscina.
— Qual o seu nome? — Megan quis saber.
— Eu já disse, Wanessa — respondeu. — São amigas da Karol?
— Não, nem conhecemos ela direito — Megan respondeu.
— E espero nunca conhecermos — Beatrice não havia gostado de Karol, e não era a única.
— Não precisamos daquela esnobe — Wanessa disse. Megan sentou-se na cadeira de um balanço e começou a balançar-se ali, até que Karol chegou por trás e a empurrou fazendo-a cair.
— Meu balanço! — Gritou enquanto Megan se levantava. — Só eu posso balançar aqui! — Com os braços doloridos, mas sem querer revidar, Megan se afastou dali com as amigas. Os braços doíam, mas conseguia disfarçar bem. Se segurou para não chorar.
— Você está bem? — Beatrice estava preocupada.
— É estou — Megan conteve uma lágrima.
— A gente tinha que falar com a mãe dessa mala! — Wanessa estava inconformada com aquilo.
— Não! — Pediu. — Não precisa. Estou bem.
— Tomara que aquela garota quebre o braço naquele balanço idiota! — Wanessa soltou. Estava odiando a festa, odiava Karol e as únicas coisas ali que realmente gostava eram as novas amigas.
— Hora de cortar o bolo! — Uma mulher anunciou e todos correram para dentro da casa para que pudessem cantar parabéns e partir o bolo. Enquanto isso acontecia, Jack notou que Megan não estava mais com as amigas. Preocupado com a possibilidade de ter perdido a amiga da irmã e correr o risco de levar uma bronca da mãe, Jack saiu para procurar Megan e a viu de longe mexendo no balanço. Logo a menina saiu dali e voltou para dentro e o garoto resolveu segui-la. Do lado de dentro, Megan voltou para o lado de Beatrice e agia como se não tivesse saído.
Quando as crianças estavam pegando um pedaço de bolo, Jack aproveitou que a irmã não estava por perto e foi até Megan.
— O que você estava falando? — Perguntou segurando o braço dela.
— Hã? — A menina estava confusa.
— Eu te vi.
— Jack, do que você está falando? — Soltou o braço sem entender nada. Jack leu a mente da garota e percebeu que ela parecia não se lembrar do que havia feito. Algo estava errado com Megan.
Logo que pegaram os pedaços de bolo, as crianças voltaram a brincar no quintal. Não demorou para que Karol brincasse no balanço, quando de repente, o balanço caiu em cima da menina, que começou a chorar com a dor.
— Licença — a mãe de Karol passou por entre as crianças até chegar na filha, que chorava muito.
— Vamos — Jack decidiu tirar Beatrice e Megan dali, antes que tivessem algum problema. O garoto pegou o celular e decidiu ligar para a mãe, quando terminou, foi abordado por Bernie, que havia o seguido.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou preocupado e um tanto desconfiado.
— Preciso conversar com você — sabia que Bernie era o único que poderia ajudá-lo.
— Sobre o quê?
— O balanço — então olhou para Megan, deixando Bernie curioso. — Não foi um acidente.
— Como ela... — Antes que Bernie pudesse terminar, a mãe de Jack estacionou o carro e foi até os dois.
— Então fez um amigo — sorriu. — Qual o seu nome?
— Bernie.
— Quanto anos tem, Bernie?
— 16 — respondeu. — Tenho que ir. Jack, sabe onde fica o Vaticy High School?
— Sim — confirmou.
— Me encontre lá na segunda após o fim das aulas — combinou e Jack concordou. Em seguida, Bernie foi embora.
— Eu disse que faria amigos — a mulher disse feliz e então olhou para Megan e Bea trice, que estavam entretidas brincando de adoleta. — Megan, Beatrice, vamos! — Todos entraram no carro e a mulher começou a dirigi-lo. — Como foi a festa?
— Aquela Karol era uma mala — os braços de Megan ainda doíam, não tanto como antes, mas ainda assim, doíam.
— Fizemos amizade com uma menina chamada Wanessa — Beatrice sorria. — Ela é bem legal! O balanço caiu em cima da Karol, ela parece ter machucado.
— Espero que ela fique bem — ao ouvir Megan dizendo aquilo, Jack não conseguiu evitar uma risada, que deixou todos ali confusos.
— Aconteceu alguma coisa? — A mulher estava desconfiada.
— Nada, só lembrei de algo que o Bernie disse.
***
Na segunda-feira, após o fim das aulas. Jack foi até o local combinado, onde encontrou Bernie que já estava o esperando. Ele contou tudo o que havia acontecido para Bernie que ficou impressionado com a história.
— É como se existissem duas pessoas dentro da Megan — explicou confuso com aquela situação.
— O que acha que pode ser?
— Eu não sei, talvez alguém esteja invadindo a mente dela — aquela era uma de várias teorias que o garoto havia criado. — Ou ela é doida.
***
Setembro — 2007
Megan dormiria aquela noite na casa de Beatrice, assim como Wanessa. As duas estavam sentadas no sofá da sala vendo Operação Cupido.
— Qual das duas gêmeas vocês gostam mais? — Megan perguntou para as amigas, que seguravam um balde de pipoca.
— Annie — Beatrice soltou.
— Hallie.
— Seria legal ter uma irmã gêmea — Megan imaginava como seria. Alguém da mesma idade que ela, igual a ela, com quem poderia brincar quando não pudesse ir na casa de Beatrice, alguém para colocar a culpa por ter quebrado um copo, ou para poder trocar de lugar como nos filmes de crianças gêmeas.
— Já pensou se a nossa vida fosse que nem naquela série da Disney? — Beatrice tentava lembrar o nome. — Zack e Cody, gêmeos em ação.
— Eu iria querer ser o Zack — Wanessa disse.
— Eu também, mas provavelmente eu seria o Cody — Megan não era uma criança muito bagunceira.
— Verdade — Wanessa concordou.
— Eu queria ser a London — Beatrice soltou deixando as outras duas surpresas.
— Não estávamos falando sobre gêmeos? — Wanessa perguntou confusa.
— Também sobre como seria nossa vida se estivéssemos em Zack e Cody — Beatrice justificou jogando o cabelo para trás.
— Mas por que a London? — Wanessa não entendia. — Ela é meio burra.
— Mas é rica — Beatrice fez uma pose imitando como imaginava uma mulher rica, o que fez as outras duas amigas rirem.
— Bea, quero ir no banheiro — Megan estava apertada.
— Ok.
Megan foi ao banheiro e quando terminou o que tinha que fazer. Passou pelo corredor dos quartos para voltar para a sala e viu a porta do quarto de Jack aberta. Curiosa, a menina entrou no quarto e logo teve a sua atenção chamada para as action-figure que ficavam em uma estante.
— O que você está fazendo aqui? — Jack a surpreendeu.
— Desculpa, eu...
— Sai daqui! — Ele gritou assustando a menina.
— Desculpa...
— Sai! — Jack pegou a menina pelo braço, a jogou para fora do quarto e trancou a porta.
— O que está acontecendo? — Beatrice, assim como Wanessa, havia sido atraída até lá por causa da gritaria e encontrou Megan caída. — O Jack fez isso? — Megan permaneceu em silêncio, ainda assustada, e a amiga entendeu aquilo como um sim. Não conseguia acreditar que Jack havia feito algo assim. — Jack! — A menina gritou enquanto batia na porta. — Eu vou falar para a mamãe! — Ela continuou batendo, mas não teve nenhuma resposta.
— O que está acontecendo aqui? — A mãe de Jack e Beatrice apareceu.
— O Jack empurrou a Meg e gritou com ela! — Ela bateu na porta mais uma vez.
— Isso é verdade? — Perguntou olhando para Megan, que ainda continuava sem palavras. A mulher respirou fundo antes de continuar. — Vão dormir. As três. — As meninas a obedeceu e foram para o quarto de Beatrice. — Jack, abra a porta. — Houve um pequeno momento de silêncio. — Jack, por favor. — Finalmente, o garoto destrancou a porta e deixou a mãe entrar. — Podemos conversar? — O garoto apenas sentou na cama e olhou para a mulher. — É verdade o que as meninas disseram?
— Ela entrou no meu quarto — disse em voz baixa.
— Só isso? — Ela não conseguia acreditar naquilo. — Sua irmã entrou aqui várias vezes e nunca a tratou assim.
— A Megan não é minha irmã.
— A Wanessa também não, mas também nunca a tratou assim — fitou o garoto. — Está acontecendo alguma coisa?
— Não.
— Jack — continuou a fitar o garoto. — Eu sei que provavelmente pelo que você e a sua irmã devem ter passado antes de virem para cá, deve ser difícil confiar em um adulto. Provavelmente pode estar com medo de que façamos alguma coisa, ou que talvez te devolvamos para o orfanato, mas Jack... Somos sua família agora, confiamos e apoiamos um ao outro, não importa a situação.
— Eu sei, mãe — sorriu ao olhar para ela.
— Vamos fazer o seguinte, qualquer tenha sido a razão, amanhã você se desculpará com a Megan, certo? — O garoto concordou com a cabeça.
Mais tarde naquela noite, Jack acordou repentinamente e encontrou Megan o encarando no canto do quarto.
— Megan?
— Errado, tente de novo — a menina sorriu de maneira macabra.
— Você é a outra que mora na cabeça da Megan — sentou-se e começou a analisar a menina. Tentava ver o quão diferente eram as duas.
— Sabia que era um garoto esperto, Jack — foi na direção do garoto e sentou-se ao lado dele.
— E o que acontece com a Megan quando você aparece?
— Ela dorme — ficou o encarando. — O jeito que você a tratou não foi legal, e como sou eu quem a protejo, preciso tomar medidas.
— Eu devia ter medo de você? — Debochou se levantando.
— Sim, você devia.
— Não tanto quanto você devia me temer — Jack começou a invadir a mente da menina. — Talvez eu devesse acordar a Megan e fazer com que ela te veja. — A menina sumiu e após alguns instantes reapareceu e dessa vez segurando uma faca.
— Quer mesmo tentar isso, Jack? — Usou um tom de voz ameaçador enquanto apontava uma faca para ele. Para se defender, ele invadiu novamente a cabeça da garota e fez com que ela sentisse dor.
— Fique longe de mim!
Megan conseguiu usar os poderes e lançou Jack contra a parede.
— Fique fora do meu caminho — logo em seguida a garota sumiu e a mãe de Jack entrou preocupada no quarto.
— Jack, está tudo bem? — Perguntou vendo o filho caído. Havia sido acordada por causa do barulho.
— Eu... — O garoto não sabia o que dizer. Achou que seria melhor guardar segredo sobre aquilo. — Sim, eu só caí da cama.
— Você me preocupou — ligou a luz e esperou que o garoto se deitasse. — Sabe que se precisar é só chamar.
— Sim, mãe.
A mulher então apagou a luz e voltou para o quarto. Jack, esperou alguns minutos e então usou os poderes para checar se todos na casa dormiam. Em seguida, ele saiu do quarto e passou pelo da irmã. Abriu a porta de leve e encontrou as três meninas dormindo. Após isso, ele fechou a porta novamente, foi até a sala e ligou para o amigo.
— Bernie? — Disse em voz baixa para não acordar ninguém.
— Jack, isso é hora de ligar? — Perguntou sonolento do outro lado.
— Aquela outra que mora na cabeça da Megan. Ela falou comigo — ficou em silêncio por alguns instantes antes de continuar. — Ela me ameaçou.
— Jack...
— Ela apontou uma faca para mim — ainda estava assustado com aquilo.
— Tem como trazer ela aqui amanhã?
— Eu não sei... Essa Megan nunca iria confiar em mim — pensou naquilo.
— E a Megan normal?
— Depois do jeito que eu a tratei, ela deve estar morrendo de medo de mim — cochichou.
— Arrume um jeito de trazer ela aqui e eu verei o que está acontecendo.
No dia seguinte, as crianças sentaram-se a mesa, assim como Jack. Um silêncio constrangedor habitava o local. As meninas ainda não entendiam o porquê de Jack ter feito o que fez. Enquanto esse, estava confuso em relação a Megan. A única coisa que havia entendido sobre ela era que a amiga de Beatrice não era a mesma pessoa, pelo menos em essência, que a garota que havia o ameaçado na noite anterior.
O garoto escreveu "você me desculpa" em um papel e o entregou para Megan que desenhou um sorriso e devolveu o papel.
Mais tarde, quando Wanessa já havia ido embora, o pai de Beatrice chegou do trabalho com uma caixa que deixou a menina curiosa. Logo ela abriu e encontrou os novos patins que tinha ganhado. Muito feliz, ela beijou o pai no rosto, pegou os patins, saiu de casa e correu até o outro lado da rua, onde tocou a campainha da casa de Megan e foi atendida por Lovatelli.
— Beatrice, posso ajudar?
— A Meg tá ai?
— Bea — Megan correu até a porta ao perceber que era a amiga ali.
— Megan, olha o que eu ganhei — mostrou animada os patins.
— Eles são lindos.
— Vem, vamos andar de patins — tentou pegar a amiga pela mão, mas ela chegou para trás.
— Eu não tenho patins — disse cabisbaixa.
— Tudo bem, te empresto os meus velhos — Beatrice tentou novamente pegar a amiga pela mão, mas ela continuava de cabeça baixa.
— Eu não sei andar de patins.
— Não? — Beatrice havia se esquecido daquilo. — Ok, eu te ensino. — Puxou a amiga pela mão até em casa, onde a fez colocar um par de patins velho. Beatrice calçou os novos patins e foi segurando a mão de Megan até a calçada.
— Bea, eu vou cair! — Disse tentando segurar na amiga para conseguir algum equilíbrio.
— Está tudo bem, Megan — segurou a mão da amiga. — Não é tão difícil.
— É fácil pra você falar isso, você patina desde sei lá quanto tempo!
— Meg, apenas tente dobrar os joelhos para se equilibrar — orientou e então soltou a mão da menina que caiu sentada.
— Eu não consigo! — Megan segurou na mão de Beatrice e conseguiu se levantar. — Eu nunca vou conseguir andar de patins.
— Vai sim, Meg. É difícil só no começo.
— O que estão fazendo? — Jack perguntou curioso ao encontrar as meninas.
— Estou ensinando a Megan a andar de patins — após Beatrice dizer aquilo, Megan se desequilibrou novamente e caiu.
— E eu estou aprendendo novas maneiras de bater com a cara no chão — levantou dolorida.
— Até que você está indo bem — Beatrice tentou animar a amiga, que a olhou séria. — Ok, ainda tem muito o que melhorar.
— Bea, a mamãe está mandando você entrar para dentro — avisou. — É melhor se despedir da Megan. — As duas meninas sentaram-se na beira da calçada e Megan tirou muito feliz os patins e os devolveu para Beatrice.
— Até amanhã, Megan — as duas se abraçaram e cada uma foi para sua casa.
***
Já era tarde da noite, Jack andou na ponta dos pés para fora do quarto e verificou se todos estavam dormindo. Em seguida, ele saiu sorrateiramente, sem fazer barulho, e foi para a casa do outro lado da rua. Ele olhou pelas janelas procurando qual deveria ser a do quarto de Megan, e quando a achou, jogou algumas pedrinhas na esperança de acordar a menina. Depois de algum tempo, ela olhou pela janela, com uma aparência confusa, e pouco depois apareceu ao lado de Jack.
— Megan?
— É a outra — avisou o analisando. — O que você quer?
— Há alguém que precisa conhecer.
— Por quê? — Questionou.
— Porque ele é neo-humano como nós — explicou. — E precisamos ficar juntos se quisermos nos defender em horas necessárias.
— E que horas seriam essas? — Cerrou os olhos.
— Sei lá, já ouviu falar da Nêmesis? — Então leu a mente dela e percebeu que Megan sabia do que ele estava falando. — Sim, você sabe. E sabe que podem vir atrás de um de nós. E somos mais fortes juntos.
***
As duas crianças entraram escondidas em um prédio e subiram pelo elevador até chegarem a um andar, onde foram a porta de um apartamento e tocou a campainha. Logo um jovem atendeu a porta ficando surpreso com a visita.
— Meio tarde, não? — Bernie questionou sonolento e deixou as crianças entrarem.
— Qualquer outra hora não seria possível — Jack tentou explicar, mas foi interrompido por Megan.
— Porque a Megan jamais iria querer vir junto com o idiota conhecer um estranho — ela completou.
— E você deve ser a... — Ficou confuso quanto ao nome. — Eu não sei bem como chama-la. Megan?
— Quando eu pensar em um nome, eu te falo — respondeu. — Até lá, me chame de Megan mesmo.
— Megan — repetiu e então olhou para Jack. — Jack, pode me deixar a sós com a Megan? — Mesmo a contra-gosto, Jack saiu e deixou os dois sozinhos.
— O que quer? — Cruzou os braços fitando-o. Era impossível não notar que ela parecia analisar a tudo e a todos.
— Apenas conversar, Megan — disse. — Me fale sobre você.
— O que quer saber?
— Me conte sua história — pediu.
— Bom, meu nome é Megan e tenho sete anos — disse confusa. — Eu morava com os meus pais até o ano passado, até que a Nêmesis matou eles e me levaram.
— Sim, Nêmesis — Bernie também tinha um passado com a Nêmesis. — Como fugiu?
— Eu não fugi, a Lovatelli enganou todo mundo e me tirou de lá — explicou.
— Lovatelli, é a sua tia?
— Ela não é minha tia, ela não é nada minha — disse emburrada. — Ela trabalhava para eles e matou os meus pais.
— E ela decidiu te tirar da Nêmesis?
— Sim, por causa de algum sentimento de culpa — explicou.
— E como que uma Megan se tornou duas?
— EU sou a "Megan original" — disse. — E depois de algum tempo a Lovatelli não conseguia me controlar. Aquela idiota. Eu não queria ser controlada. Eu odeio ela.
— E como a outra Megan surgiu?
— Eu estava cansada daquilo, queria desaparecer, mas não tinha para onde ir — disse. — Ao mesmo tempo, eu queria ser... Normal. Mas, eu mesma nunca conseguiria. Então, ela surgiu.
— Então, você apenas quer se encaixar? Viver em paz?
— É, basicamente.
— Mas o que você fez com aquela menina na festa diz o contrário — disse de maneira repreensiva.
— Sabia que lá vinha bronca.
— Não estou te dando bronca — disse de maneira serena. — Apenas alertando. Se mais coisas assim acontecerem, você vão chamar a atenção de pessoas ruins, até mesmo da Nêmesis, você não quer isso, quer?
— É claro que não — disse.
— Então, é só isso o que eu peço, cautela.
— Por quê? — Questionou cética. — Por que está fazendo isso?
— Somos neo-humanos, ficamos mais fortes juntos.
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