HL: Blue Skies
3 Ratos
Notas iniciais
Em 1822, o Brasil havia passado de Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves para Império do Brasil, completamente independente de Portugal, embora fosse governado pelo filho de D. João VI, D. Pedro I do Brasil.
Foram anos complicados para estabelecer a independência e o Império. Houve o ocorrido da Assembleia Constituinte, a Constituição de 1824, a Confederação do Equador, a Guerra da Cisplatina, além dos vários romances de D. Pedro I, que apesar de ser casado com D. Leopoldina, tinha amantes muito conhecidas, a mais famosa sendo uma de nome Domitila de Castro Canto e Melo. Eventualmente, D. Leopoldina veio a falecer.
Com tantos ocorridos, o desgaste do Imperador era evidente, e por isso, ele renunciou em abril de 1831, passando a coroa para o filho, que viria a ser D. Pedro II. Mas o menino era muito pequeno então até que ele atingisse a maioridade, o Brasil seria governado por regentes.
Mas Adriano pouco sabia daquilo, havia ouvido falar da independência, todos haviam, assim como da guerra, ouvira que o pai, Joaquim, havia lutao nela e que voltara vivo. Também havia ouvido os rumores das amantes de D. Pedro, assim como da renúncia, mas não se importava muito com aquilo.
Ele era uma criança, não conhecia nenhum dos envolvidos, morava no campo, ou melhor, se escondia, para que o mundo exterior não soubesse sobre o fato de que não envelhecia, ou de que ele tinha estranhos poderes que nem o próprio menino compreendia.
Adriano estava morando naquela pequena casa, juntamente de Geraldo, que trabalhava naquela fazenda em troca de um lugar para dormir. O menino não era a única criança da casa, Geraldo cuidava de outras três crianças também. Florêncio, José e Madalena, todos com oito anos.
Florêncio era filho de italianos, os pais haviam o deixado temporariamente com Geraldo enquanto procuravam um lugar para se estabelecer e um emprego, mas aquilo já durava meses.
José era filho de libertos, ele viveu com os pais até os seis anos de idade, quando eles decidiram partir para o Norte e deixaram o menino aos cuidados de Geraldo, a última carta havia chegado há vários meses e desde então José não tinha notícias dos pais. Quando as cartas ainda chegavam, elas eram lidas em voz alta por Adriano, por ser o único ali que sabia ler.
Quanto a Madalena, ela nada sabia dos pais. Ela havia sido deixada ainda bebê na porta de Geraldo, que havia a acolhido e lhe dado um nome, e Adriano havia ajudado a cuidar dela, juntamente de Madalena, era quem morava há mais tempo ali.
As três crianças sabiam que Adriano crescia muito devagar, mas lhes havia sido dito que isso era causado por uma doença, eles não sabiam dos poderes do menino, mas escondiam o fato dele não crescer das pessoas de fora.
Adriano tinha vinte e cinco anos, mas aparentava apenas oito.
Naquele dia ensolarado e sem nuvens no céu, em 1831. Enquanto Geraldo trabalhava, as crianças foram escondidas até o pé de goiaba que ficava do outro lado da propriedade, eram proibidas de irem até lá por aquelas serem as goiabas do “Senhor da casa grande”, mas isso não as impedia de descumprirem tal regra.
Florêncio e Adriano estavam em cima do pé de goiaba, pegando as frutas e jogando para Madalena e José, que colocavam as goiabas dentro de uma cesta.
— Que bagunça é essa aqui? — Uma voz perguntou os assustando, era o Feitor da fazenda, ele havia os flagrado e estava segurando uma arma.
— Corre! — José gritou e saiu correndo deixando a cesta para trás e sendo seguido por Madalena.
Adriano e Florêncio também tentaram correr, mas não foram muito longe, já que logo o Feitor os alcançou e os arrastou segurando-os pelas orelhas, enquanto os meninos gritavam de dor.
— Seus diabinhos, dessa vez vocês vão ter uma lição! — Ele gritou enquanto arrastava as crianças.
Enquanto isso, Madalena e José correram até os limites da fazenda, onde encontraram Geraldo trabalhando, ele ficou completamente confuso ao ver as crianças.
— O que estão fazendo aqui? — Ele questionou estranhando aquilo.
— A gente… — Madalena estava ofegante e precisou respirar fundo algumas vezes antes de continuar a falar. — … foi brincar… no pé de goiaba…
— Já falei para não irem lá — Geraldo os repreendeu. — Se o Feitor visse vocês.
— Ele viu —José continuou. — A gente correu, mas ele pegou o Adriano e o Florêncio.
Desesperado e preocupado, Geraldo largou tudo o que estava fazendo e correu até encontrar o Feitor, que estava acompanhado das duas crianças. Os adultos conversaram entre si, o velho suplicava para que deixassem os meninos irem.
— Sabe, o Patrão deixou que você cuidasse dessas almas renegadas — O Feitor disse. — E é assim que elas pagam, roubando o que é do Patrão, e essa não é a primeira vez.
— Eu juro que não irá se repetir.
— Precisa dar um jeito nesses moleques ou eu vou ter que dar — O Feitor disse e soltou os meninos, que voltaram para casa juntamente de Geraldo.
— Quantas vezes já disse para não irem lá? — Geraldo os repreendeu. — Se eu não tivesse chegado a tempo só Deus sabe o que poderia ter acontecido.
— Desculpa — As crianças disseram em coro e de cabeça baixa.
— Prometam que nunca mais farão isso — O velho pediu e respirou fundo. — Já não tenho mais idade para isso e estou cansado, por favor, tentem me obedecer, pelo menos uma vez.
— Sim senhor — As crianças responderam e o velho abaixou a cabeça e fez sinal que elas saíssem para fora, e assim elas o fizeram, foram para o lado de fora e sentaram-se na sombra de uma árvore próxima dali.
— O Geraldo não parece bem — Adriano comentou.
— Ele parece normal — Madalena respondeu.
— Também acho que ele está normal — Florêncio concordou. — Apenas velho.
— Concordo com o Adriano — José se manifestou. — Talvez a gente não devesse ficar deixando ele nervoso desse jeito, já faz tempo que ele está estranho, e bom… ele está velho, não é bom ficar nervoso quando se está velho.
Naquela noite, eles foram jantar e depois foram dormir, as crianças dormiam todas na mesma cama, já que era o único lugar que elas tinham para se deitarem.
Na manhã seguinte, o dia amanheceu com a aparência de que choveria. O céu cheio de nuvens estava completamente cinza, em um tom que fazia as cores de tudo ao redor parecerem "menos vivas", as plantas pareciam "menos" verdes, a água do córrego refletia o cinza do céu, fazendo até os peixes terem uma aparência um tanto morta.
Adriano e Madalena foram os primeiros a acordarem, e rapidamente, eles se arrumaram e tentaram despertar Geraldo. Eles insistiram bastante, mas foi em vão, ele nem se mexeu. Então perceberam que o velho estava gelado.
Assustados, eles acordaram Florêncio e José, que tentaram chamar Geraldo, também falhando.
Com isso, as crianças correram pela propriedade até encontrarem o Feitor ranzinza, que não ficou feliz em vê-los e se aproximou, em sua pose severa.
— O que pensam que fazem aqui? — O homem questionou.
— O Geraldo não quer acordar — Adriano disse rapidamente. — Ele não se mexe, está gelado.
O Feitor olhou para as crianças, primeiramente cético, tentando entender se aquilo se tratava de uma brincadeira, mas ao notar as feições assustadas, percebeu que era sério. Ele as acompanhou de volta até a pequena casa, onde ele mesmo viu o corpo. Geraldo estava morto,
O Feitor informou ao dono da fazenda do ocorrido, ele recebeu instruções sobre o que fazer com o corpo, mas ainda restava um “problema”, as crianças. Agora que Geraldo estava morto, precisavam definir o destino delas.
Sentado em seu escritório, depois de uma longa conversa com o Feitor, o dono da fazenda pediu que ele deixasse as crianças entrarem. Apreensivas, elas entraram e ficaram lado a lado, não encarando diretamente ao homem, tamanho o medo que sentiam. Embora morassem na mesma propriedade, elas nunca haviam o visto pessoalmente, apenas ouvido as menções sobre o nome dele, o suficiente para que o temessem.
— Vocês são mudos? — O proprietário da fazenda questionou e fez sinal para que o Feitor saísse da sala e o deixasse sozinho com as crianças e assim ele o obedeceu. Após o Feitor sair, o fazendeiro continuou encarando as crianças. — Digam seus nomes.
— Florêncio.
— Madalena.
— José.
— Adriano — O menino fitou o Senhor nos olhos por alguns segundos, mas logo desviou o olhar assustado.
— Algum de vocês tem família? — O homem questionou.
— Meus pais estão no Sul — Florêncio contou.
— Os meus pais estão no Norte — José disse.
— Eu não conheço os meus pais — Madalena contou e olhou para Adriano, todos encaravam o menino.
— E sua família, Adriano? — O homem questionou e ficou irritado com o silêncio do menino, que mal o olhava. — Olhe para mim quando eu estiver falando! — Gritou, fazendo o menino assustado o olhar, embora tremesse. — Sua família?
— Moram no Rio de Janeiro, senhor — disse rapidamente, o medo era evidente na voz do menino.
— Certo — O homem respirou fundo. — Florêncio?
— Sim — O menino respondeu.
— Sabe exatamente onde seus pais moram?
— Sei sim, senhor — Florêncio respondeu.
— E você, José? — Olhou para o menino, que negou com a cabeça.
E assim, o destino das crianças foi decidido. Adriano seria levado de volta para a família dele, o que o deixava apreensivo, já que fazia muito tempo que não os via, tudo o que recebia eram cartas, a maioria vinham da mãe.
Florêncio seria deixado com alguém que o levaria até o Sul do Brasil, onde encontraria os pais. Quanto a Madalena e José, Madalena ficaria aos cuidados de freiras, enquanto José ficaria em outra Igreja.
Adriano foi o último a ser deixado em seu destino, o Feitor, que era quem estava cuidando de deixar as crianças em seus destinos, o acompanhou até entrarem no Armazém que era da família de Adriano, onde encontraram um jovem rapaz tomando conta do lugar.
— Adriano — O jovem rapaz abraçou o menino, que não conseguiu entender aquilo.
— Nos conhecemos? — Adriano perguntou confuso.
— Sou eu, Carlos — disse. Carlos agora era adulto, estava muito mais velho, mais alto, tinha até uma barba. — Eu mudei tanto assim?
— Sim — Adriano respondeu espantado, só então se dera conta de quanto tempo havia se passado.
— Aconteceu alguma coisa? — O rapaz perguntou ao perceber que o irmão não iria lá sem motivo, especialmente acompanhado do Feitor.
O Feitor explicou a situação, deixou o menino ali e simplesmente foi embora. Carlos levou o menino até a antiga casa, onde encontraram Joaquim, o pai deles, que logo ficou com uma feição desagradável ao ver Adriano.
— Entrem logo — disse em um péssimo humor e então o rapaz entrou acompanhado do menino.
— Adriano — Cecília correu e abraçou o menino. — Está tão bonito.
— Obrigado, mamãe — O menino sorriu bastante feliz em vê-la.
— Escute, moleque — Joaquim o chamou. — Se alguém perguntar, você é nosso neto, filho do Adriano e por isso tem o mesmo nome. O seu pai mora no interior e te mandou para passar um tempo aqui.
— Sim — o menino concordou.
— E você irá nos ajudar no armazém todo dia — disse. — Não quero ninguém vivendo de sombra e água fresca na minha casa. Você come da comida que eu pago, vive sob minha propriedade na qual eu pago os impostos, então deve ser útil.
— Sim, papai — Viu o homem fazer uma feição desagradável ao ouvir "papai", Joaquim saiu dali e deixou os três sozinhos.
— Adriano — Carlos o chamou. — Quer conhecer os seus sobrinhos?
— Eu tenho sobrinhos? — Ele estava completamente surpreso.
— Sim, Osório e Marinalva.
— Sim, é claro!
— Lembra então que você é filho do Adriano e meu sobrinho, entendeu? — Carlos o lembrou e viu o irmão concordar com a cabeça. — Pode ser muito perigoso se alguém descobrir. — Explicou. — Vamos?
— Já estou voltando, mamãe — Adriano avisou e abraçou a mãe mais uma vez.
Então os dois seguiram para a casa de Carlos, onde encontraram a esposa dele, Julieta, e as duas crianças, que brincavam em volta da casa.
— Julieta, esse é meu sobrinho, Adriano — Carlos apontou para ele. — Crianças. — Chamou e então os filhos se aproximaram. Osório tinha cinco anos, enquanto Marinalva tinha três. — Osório, Marinalva, esse é o primo de vocês, Adriano.
Adriano sorriu tímido, era estranho saber que tinha sobrinhos, afinal, o menino era apenas um pouco maior que os filhos de Carlos.
— Então esse garoto é filho do tal irmão misterioso? — Julieta questionou encarando o menino. — O que não apareceu nem para o nosso casamento, mas manda o filho para ficar às custas dos outros?
— Julieta...
— Nunca aparece para visitar, mas manda o pirralho assim, aposto que alguma coisa esse moleque aprontou.
— Julieta — a repreendeu.
— Diga-me, Adriano — Olhou para o menino. — Por que o seu pai nunca nos visita?
O garoto não sabia o que dizer, ele não sabia o que a família havia inventado para encobrir que ele estava escondido no campo.
— Eu já disse, Julieta — Carlos interviu. — O meu irmão é muito ocupado com o trabalho, ele não tem tempo para vir.
— Ocupado — repetiu, desconfiada. — Mas não é ocupado para mandar o moleque. — Então encarou o menino novamente. — Espero que se comporte. — Ela se retirou deixando apenas Carlos e as crianças.
— Desculpe por isso — Carlos disse para o irmão. — Julieta tem um temperamento difícil.
— Tudo bem — o menino sorriu simpático.
— Então veio do campo? — Osório questionou encarando Adriano, que pensou sobre o que responderia. De certa forma, aquilo era verdade.
— Sim — respondeu confuso.
***
Meses depois, como sempre, Adriano trabalhava no armazém do pai. Ele ajudava no caixa, sempre fazendo as contas. Podia não ser o menino mais forte, mas era bastante esperto.
Quando dava meio-dia, a mãe costumava levar o almoço dos filhos, mesmo estando adoentada nos últimos tempos.
Naquele dia, o céu fora invadido por algumas nuvens que aos poucos uniam-se umas às outras, lutando contra o tom azul para ver quem dominava o horizonte.
Cecília não apareceu no armazém, eles esperaram por horas, mas nada. Preocupado, Adriano decidiu ir até a casa dos pais, para ver se a mãe estava bem, ele foi acompanhado pelo irmão mais velho. Quando chegaram lá, eles encontraram a mulher deitada na cama, estava fraca demais para se levantar.
— Mamãe — Adriano a chamou, estava muito preocupado.
— Adriano — A mulher se sentou. — Desculpe por não ter levado o seu almoço.
— O que aconteceu? — Carlos perguntou também preocupado.
— Não me sinto bem — disse fraca. — Adriano, sinto que minha hora chega e há algo que preciso te contar. Quero que saiba a verdade sobre si mesmo. — Então olhou para Carlos, que saiu do quarto.
— O que houve, mamãe? — Adriano perguntou e segurou a mão da mãe.
— Há mais de vinte anos atrás, conheci um rapaz da Inglaterra. Ele estava trabalhando no porto. Muitas moças estavam encantadas por ele, mas foi para mim que olhou — viu um leve sorriso no rosto da mãe. — E ele me notou. Tinha um sorriso tão lindo, estávamos completamente apaixonados. Estávamos tão apaixonados que ele me contou o grande segredo dele. — Aquilo deixou Adriano curioso. — Ele não era comum. Tinha um talento especial. Assim como você. — Adriano não sabia como reagir. Sempre achava ser o único, mas existia alguém como ele. — Um dia, o avisaram que ele faria uma viagem sem volta para um lugar distante, foi quando ele me chamou para ir com ele, para fugirmos juntos.
— Mas, você está aqui.
Cecília não havia fugido com seu amor. Adriano se perguntava qual teria sido a razão.
— Combinamos de fugirmos juntos, mas meu pai descobriu — explicou. — Ele me trancou em casa e mandou que o rapaz nunca mais se aproximasse. Ele foi embora e nunca mais voltou. — Respirou fundo. — Pouco tempo depois, descobri que estava grávida. Meu pai ficou bravo com tamanha desonra e me casou com Joaquim.
Adriano entendeu aquilo, ele era o bebê na barriga de Cecília quando ela se casou com Joaquim, o que significava que o homem que achava ser seu pai, na verdade não era.
— Algum tempo depois, você nasceu, meu doce Adriano. Você parece tanto com seu pai. Até os talentos especiais são os mesmos.
— Joaquim não é meu pai? — Estava em dúvida se ficava feliz ou triste. Aquele homem não era realmente seu pai, e nunca o tratou como filho, fazia sentido, tudo fazia sentido.
— O nome de seu pai é Jack Smith.
***
Dias depois, o estado de Cecilia apenas piorou, ela mal conseguia se levantar, Adriano ficou ao lado dela, não queria largar a mãe sozinha. Joaquim protestou, nas palavras dele, "não queria que o filho ficasse sem fazer nada em casa", mas Carlos defendeu o irmão, entendendo que ele queria ficar ao lado da mãe. Carlos disse que trabalharia em dobro se necessário para que o pai deixasse Adriano ficar ao lado da mãe.
Assim, Adriano ficou cuidando da mãe com a ajuda do irmão, e eventualmente, Julieta também ajudava. Depois de semanas, Cecília não conseguiu aguentar e faleceu.
O funeral foi feito pouco tempo depois, durante o enterro, Carlos ofereceu ao menino que ficasse na casa dele, ele sabia que com a morte de Cecília, Joaquim logo expulsaria o pequeno. Após o enterro e o período de luto, Adriano resolveu juntar suas coisas para se mudar para a casa do irmão.
— Então finalmente o bastardo vai embora — Joaquim o surpreendeu. Adriano rapidamente terminou de arrumar suas coisas e tentou sair, mas teve o caminho fechado por Joaquim. — Você vai ficar, moleque!
— Eu já estou partindo Senhor Joaquim, não vou incomodá-lo — disse de cabeça baixa.
— Senhor Joaquim? — Se aproximou do menino, que tentava recuar. — A vagabunda te contou, não foi, bastardo? — Mesmo sendo uma criança, Adriano entendia o significado daquelas palavras. Sabia o que bastardo e vagabunda significavam.
— Não chame a minha mãe assim — Adriano gritou e Joaquim o pegou pelo pescoço.
— Vai fazer o quê, bastardo? — questionou em tom de ameaça enquanto sufocava o garoto. — Eu não tenho mais que te aguentar, bastardinho! — Adriano estava ficando sem ar, era fraco demais para se defender fisicamente. — Não sabe como esperei por isso.
Adriano fechou os olhos já esperando o seu fim. De repente, vários objetos de metais começaram a acertar Joaquim, que teve que soltar o menino, que tossiu quando finalmente conseguiu respirar.
— Foi você, seu bastardo! — Joaquim tentou avançar contra o garoto, que assustado, usou as mãos para cobrir o rosto e mais objetos voaram na direção do que até tempos antes, acreditava ser seu pai. Foi quando o menino finalmente entendeu, se ele movesse as mãos, os objetos de moveriam em conjunto.
Assim, ele se levantou e continuou a mover as mãos, e os objetos o obedeciam, conseguindo assim se defender. Aproveitando aquilo, ele pegou todas as coisas dele e saiu correndo até chegar ao lado de fora, onde encontrou o irmão que ia em direção a casa.
— O que está acontecendo? — Carlos perguntou ao ver o estado do irmão.
— Bastardo! — Joaquim gritou indo na direção deles. Assustado, Adriano se escondeu atrás do irmão, que se manteve firme na frente do irmão.
— Pai, o que está acontecendo? — Carlos impediu que Joaquim conseguisse tocar em Adriano.
— Esse pequeno diabo, bastardo, vai pagar muito caro — Ele tentou bater em Adriano, mas foi impedido pelo filho, Carlos.
— Pai, deixe Adriano, ele não é mais problema seu — pediu.
— Eu não vou deixar esse bastardo por aí me insultando — gritou.
— Pai!
— Quer cuidar do pequeno bastardo? Então cuide — gritou e se afastou.
1832
Naquele último ano, Adriano vivia na casa de Carlos, mesmo com Julieta protestando. Ela não se conformava em ter que criar o "sobrinho" de Carlos, filho de um rapaz que nem ao menos apareceu no enterro da mãe.
Carlos havia encomendado flores para o túmulo da mãe e colocado no nome do irmão mais velho, mas Julieta continuava desconfiada.
Adriano tinha vinte e seis anos, mas aparentava nove.
Joaquim havia viajado para São Paulo para resolver alguns problemas, com isso, Carlos ficou cuidando do armazém e Adriano foi ajudá-lo, aproveitando que Joaquim não estava na cidade e que não teria que encontrá-lo.
Osório, o filho de Carlos, que agora tinha seis anos, também ajudava, com Adriano o ensinando a como cuidar do caixa, a calcular e a fazer anotações. Marinalva, a filha de quatro anos, também havia se oferecido para ajudar, mas Julieta não deixou, alegando que a garota deveria ajudar em casa.
Naquele dia não foi diferente, Osório e Adriano saíram com Carlos e foram ao Armazém. Adriano ficou no caixa juntamente de Osório, os dois fazendo contas e Osório aprendendo com Adriano. O céu, como de costume, era azul e limpo.
— Está vendo essa caderneta? — Adriano mostrou. — Toda vez que um cliente pedir para "colocar na conta", você abre a caderneta e procura o nome dele aqui. Aqui estão nomes de pessoas da nossa família e amigos muito próximos. Então se um cliente pedir para colocar na conta, você olha a caderneta, se o nome dele não estiver aqui, você não aceita e diz que não vendemos fiado.
No final do dia, Carlos fechou o armazém e foi embora para casa juntamente das crianças, e logo que chegaram lá, Julieta estava quase terminando de fazer a janta.
— Como foi o dia? — Ela cumprimentou Carlos com um beijo.
— O movimento foi bom — Carlos respondeu.
— Adriano disse que não é para eu vender fiado — Osório contou.
— Esperto esse Adriano — Julieta debochou.
— Papai — Marinalva correu e abraçou Carlos, que pegou a filha no colo.
— Como foi o dia da minha princesinha? — Carlos perguntou segurando a filha.
— Eu e a mamãe fomos na venda e vimos a Bernadete — contou. — Ela estava com um vestido bem bonito, parecia uma princesa.
— Tenho certeza que ela estava — Carlos disse.
Mais tarde, todos jantaram juntos e depois, Carlos ajudou a esposa a arrumar a cozinha enquanto Adriano, como fazia há algumas semanas, continuava a ensinar Osório não só a escrever como também a fazer cálculos mais complexos.
— Eu posso participar? — Marinalva pediu curiosa.
— Vem — Adriano permitiu e a menina se sentou ao lado dos dois.
— O que estão fazendo? — A menina perguntou curiosa.
— Multiplicando — Adriano respondeu.
— É assim? — Osório mostrou a conta que havia feito para Adriano.
— Assim mesmo.
— Posso aprender também? — Marinalva perguntou.
— Você é pequena então vou te ensinar algo fácil —Adriano pegou um papel com algumas letras e entregou um lápis para Marinalva. — Essas são as vogais, a, e, i, o, u. — Explicou apontando para cada letra. — Você tem que aprender a escrever elas.
— Certo — a menina começou a escrever as letras tentando deixá-las iguais às que Adriano havia feito antes.
— O que estão fazendo? — Julieta perguntou ao ver Marinalva escrevendo.
— Adriano está me ensinando a escrever — Marinalva respondeu animada.
— Pois ele não devia, ele não é professor e isso não é apropriado — disse descontente tirando o lápis e o papel de perto da filha. — Já está tarde, vão para suas camas.
— Mas mamãe... — Marinalva e Osório tentaram argumentar, mas não havia outra opção a não ser obedecer a mãe.
— Arrume essa bagunça, Adriano — A mulher mandou apontando para os papéis restantes na mesa. — E depois vá para a cama.
— Sim, senhora — Adriano disse de cabeça baixa e a obedeceu.
***
No dia seguinte, Carlos, Adriano e Osório saíram pela manhã deixando Julieta e Marinalva em casa. Ao meio dia, Julieta preparou o almoço e pediu que Marinalva levasse enquanto ela arrumava a casa. O armazém era perto, então Julieta não via problemas naquilo.
Enquanto arrumava a casa, ouviu alguém bater na porta e estranhou, afinal, não esperava visitas. Ela atendeu e se surpreendeu ao encontrar o sogro, Joaquim.
— Seu Joaquim? — disse surpresa. — Posso ajudar?
— As crianças estão? — quis saber.
— Não — Estranhou a pergunta.
— Ótimo, precisamos conversar — Tentou entrar, mas foi barrado pela nora. — Não sei se fica bem nós dois conversarmos sozinhos.
— Serei breve — Então conseguiu entrar e Julieta fechou a porta.
— Não estava viajando? — A mulher questionou desconfiada.
— Retornei esta noite, mas Carlos ainda não sabe — explicou. — E quero que permaneça assim.
— Mas por quê?
— Precisamos conversar, sobre aquele garoto, o Adriano — disse com certa dificuldade para pronunciar o nome do suposto neto.
— Seu neto — disse com desdém. Ela não gostava do garoto, julgava que ele era muito cheio de si, e filho de um insensível.
— Não gosto da presença dele aqui, assim como você — O homem contou.
— Sim, mas não há nada que eu possa fazer — A mulher disse. — O garoto é sobrinho do meu marido, o que significa que é meu sobrinho também, não posso expulsá-lo. Carlos não iria gostar.
— Há algo que pode fazer, eu pretendo leva-lo para o pai.
— Carlos me disse para manter o menino longe de você — Ela lembrou.
— Por isso preciso de sua ajuda — Ele pegou um pano que envolvia pedaços de uma planta. — Faça um chá com isso e sirva a todos os outros, para que durmam bastante.
— O que pretende? — Ela não gostava daquilo.
— Dê o chá a eles, assim que todos estiverem dormindo eu venho e levo o Adriano — Joaquim propôs.
— Não sei se Carlos vai gostar disso — hesitou. Por mais que não gostasse de Adriano, não desejava mal a ele e não queria de indispor com o marido.
— Depois eu converso com meu filho.
***
No fim do dia, Carlos fechou o armazém e foi para casa acompanhado das crianças, logo que elas chegaram, encontraram uma apreensiva Julieta, que estava incerta sobre o que deveria fazer.
— Aconteceu alguma coisa? — Carlos perguntou preocupado ao notar que algo estava estranho.
— Não, nada — A mulher disfarçou. — Estou fazendo seu ensopado favorito.
— Hoje é algum dia especial? — Ele estranhou aquilo.
— Não, só achei que seria legal fazer um agrado — respondeu nervosa. — Mas se não quiser o ensopado pode procurar comida em outro lugar
— Não, Julieta — disse. — Eu só estou preocupado. Está tudo bem mesmo?
— É claro que está — Ela voltou a sua atenção para as panelas. Continuou a fazer a janta, e quando ela ficou pronta, serviu as crianças e o marido tentando aparentar normalidade.
— Não vai jantar? — Carlos estranhou que a mulher não havia colocado nada em seu prato.
— Não estou com fome — respondeu seca.
— Tem certeza que está tudo bem? — Se preocupou que a esposa estivesse doente.
— Eu já disse que está — gritou nervosa e se levantou. — Vou fazer um chá. — Então saiu de perto dali deixando Carlos sozinho com as crianças. Incomodado, Carlos se levantou e seguiu a esposa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou enquanto ela pegava a planta que Joaquim havia lhe dado.
— Eu já disse que não — Ela começou a preparar o chá, mas Carlos ainda estava incomodado.
— Então por que está agindo de maneira tão estranha? — Ele questionou.
— Eu só estou me sentindo um pouco indisposta, só isso.
— Certeza? — questionou. — Quer que eu vá na dona Helena buscar alguns chás? Eles sempre te fazem se sentir melhor.
— Não precisa…
— Se tiver acontecido algo, sabe que pode me contar…
— Não aconteceu nada — disse nervosa. — Vá ficar com as crianças, depois eu levo o chá.
Mesmo em dúvida, Carlos saiu dali, deixando Julieta sozinha com sua consciência. Depois de algum tempo ela terminou de fazer o chá e o levou para que as crianças e o marido bebessem, eles já haviam terminado a janta.
— Não vai tomar também? — Carlos estranhou.
— Eu já tomei na cozinha — Ela mentiu, pegou os pratos na mesa e foi para a cozinha.
Antes que Carlos pudesse beber o chá, um amigo bateu na porta e ele teve que deixar a xícara ali para atender a porta. Com isso, Marinalva, que havia gostado do chá, pegou a xícara do pai e bebeu tudo. Não demorou muito para que as crianças ficassem sonolentas. Logo, Julieta voltou e viu as crianças quase dormindo ali.
— Vão para a cama, aqui não é lugar de dormir — Ela disse e levou as crianças para o quarto, logo elas deitaram e dormiram. Assim que Carlos terminou de conversar com o amigo, ele fechou a porta e estranhou ao não encontrar as crianças na mesa.
— Para onde elas foram? — perguntou.
— Estavam com muito sono então os coloquei para dormir — explicou.
— Ah sim — estranhou aquilo por lembrar que as crianças estavam animadas antes do jantar, mas pensou que provavelmente a comida havia os deixado com sono. — Bom, acho que vou dormir também. Precisa de ajuda para arrumar as coisas?
— Não, não tem muito o que arrumar — disse. — Vá descansar. — Assim, Carlos foi dormir enquanto Julieta arrumava a cozinha e esperava Joaquim chegar para levar Adriano. Pensava se aquilo estava mesmo certo.
Quando já era bem tarde da noite, Julieta ouviu batidas na porta e atendeu, encontrando o sogro.
— Seu Joaquim — Ela o deixou entrar. — Tem certeza que isso é certo?
— Não se preocupa — Ele disse em um tom estranhamente calmo. — Ele é meu neto tanto quanto Osório e Marinalva. — Mentiu. — Apenas vou leva-lo para os pais. — Joaquim foi ao quarto das crianças onde encontrou todas dormindo, com isso, ele pegou Adriano no colo e se dirigiu a saída.
— O Carlos não vai gostar disso — disse receosa.
— Já disse que depois me entendo com ele — então ele saiu levando o menino desacordado. Após isso, Julieta foi para o quarto dela e encontrou Carlos acordando.
— Julieta? — Ele estava sonolento, mas consciente o suficiente para saber que algo estava errado e a mulher estranhou aquilo. O chá deveria fazê-lo dormir bastante. — O que estava fazendo?
— Eu... — Ela não sabia o que dizer. — Seu pai esteve aqui.
— O quê — Aquilo despertou o rapaz completamente que levantou e se sentou na cama. — O que ele queria?
— Ele está levando seu sobrinho de volta para os pais dele.
— O quê? — Carlos gritou, ele logo ficou de pé e calçou um sapato. — Você é maluca?
— Eu…
— Ele odeia o meu irmão — gritou. — Ele vai matar o Adriano. — Desesperado, ele correu para a saída.
Enquanto isso, Joaquim levou o desacordado Adriano para a antiga casa e o colocou em cima de uma mesa. Em seguida, ele pegou um machado e se preparou para atingir o garoto. Antes que conseguisse fazer isso, Adriano acordou e viu o machado prestes a atingi-lo. Assustado, ele gritou e o machado voou e ficou preso no teto.
— Morre diabo! — Joaquim subiu em cima do menino, colocou as mãos em volta do pescoço dele e começou a enforcá-lo. — Morre!
Adriano estava ficando sem ar, era fraco demais para reagir. Sua única chance era os seus poderes. Ele fechou os olhos e tentou usá-los, um prego atingiu o rosto de Joaquim, que gritou com a dor e soltou o garoto, que saiu de cima da mesa e correu, ainda tonto.
Joaquim tentou persegui-lo e quando foi pegá-lo, mais um prego, dessa vez atravessou sua mão esquerda fazendo-o gritar novamente.
— Adriano — Carlos gritou arrombando a porta e encontrou Adriano assustado de um lado e o pai do outro, completamente enfurecido.
— Demônio — Joaquim tentou partir para cima de Adriano, mas foi impedido por Carlos, que o segurou.
— Pai, pare! — Carlos gritou, segurando Joaquim. Adriano estava completamente imóvel, ele não sabia o que fazer.
— Me solte — Joaquim fez muita força e conseguiu se soltar, tentou ir na direção de Adriano novamente, mas Carlos o impediu com um soco. — O que pensa que está fazendo? — Joaquim revidou e deu um soco no filho que caiu para trás, Adriano tentou correr até o irmão, mas foi pego por Joaquim. — Vou acabar com você, bastardo!
— Já disse para parar — Carlos partiu para cima do pai e deu mais socos no homem, que teve que soltar Adriano. — Deixe-o em paz.
— Eu devia ter te ensinado a ser macho — Joaquim tentou bater no filho, mas dessa vez, ele se desviou. Ele tentou pegar Adriano novamente, mas Carlos pegou uma cadeira e a bateu em Joaquim, que caiu desacordado.
Assustado, o pequeno Adriano saiu de casa e correu pelas ruas, fugindo para longe dali.
— Adriano — Carlos tentou correr atrás do irmão, mas depois de vários metros de corrida, acabou o perdendo.
Depois de tudo isso, Carlos voltou para casa e encontrou a esposa, Julieta, apreensiva.
— Prepare as coisas, pela manhã mando você e as crianças para morarem com o meu tio em São Paulo.
— Mas e você? — A mulher quis saber, receosa.
— Procurarei o Adriano e colocarei a casa a venda — Carlos disse evitando contato visual com a esposa, a culpava pelo acontecido e embora não quisesse brigar com ela, o irmão quase havia morrido por causa de tudo aquilo. — Logo também vamos para lá e ficaremos todos juntos.
— Mas e o armazém?
— Que apodreça com aquele... — Ele não conseguia dizer pai, não depois do que aconteceu. —... monstro. — Então saiu para procurar o irmão, mas ele não encontrou. Ele nunca mais encontraria, Adriano e Carlos nunca mais se veriam novamente.
1914
— Isso é um absurdo — Michel estava indignado.
Ele e vários outros soldados seriam transferidos para outra trincheira, mas esse não era o motivo para ele estar indignado. Depois de um incidente naquela área envolvendo Michel e um avião no qual o piloto havia perdido todos os dados da área que havia conseguido mapear, foi decidido que ele não mais pilotaria.
— Precisamos de bons pilotos — O Comandante explicou. — Bons pilotos, algo que você não é.
— Bons pilotos? Tudo o que eu fiz não valeu de nada? — Michel continuava indignado.
— Se continuar com esse comportamento enfrentará a corte marcial, entendeu?
Michel não teve outra escolha a não ser obedecer, ele se juntou a Adrien e vários outros soldados que iriam para a fronteira com a Alemanha. Depois de alguns dias de viagem, eles finalmente chegaram lá e se uniram aos soldados que ali estavam.
O céu estava cinza, cheio de nuvens, havia chovido há pouco tempo e logo choveria mais, o chão em volta era pura lama e se olhassem mais atentos, conseguiriam ver alguns vermes.
— Olá — Um dos soldados que já estavam ali cumprimentou Michel e Adrien, que o cumprimentaram de volta. — Sou Henri.
— Adrien.
— Michel.
Então, um soldado negro se aproximou deles, ele era mais alto que a maioria ali, embora fosse do mesmo tamanho que Michel. Parecia curioso quanto aos novatos.
— Quem são esses? — O soldado perguntou a Henri.
— Esses são Adrien e Michel — Henri apontou para eles. — Eles vieram de outra trincheira. — Então ele olhou para os recém-chegados. — Michel, Adrien. — Ele disse e olhou novamente para o outro soldado. — Esse é James Turner, ele é um piloto.
— Piloto? — Michel ficou surpreso. — Eu também sou… era piloto.
— James? — Adrien perguntou para ter certeza. — Você é britânico? Mas o seu sotaque é estranho.
— Não, sou americano.
— Americano? — Michel ficou ainda mais surpreso. — Mas os americanos não entraram na guerra.
— Não, é por isso que estou servindo pela França, mais especificamente na Legião Estrangeira — James explicou ainda olhando para os recém chegados. — Infelizmente, não poderei ficar para conhecê-los melhor, já que fui chamado para estar em outro lugar.
— Onde? — Henri perguntou surpreso e curioso.
— Eu não estou autorizado a dizer — respondeu e apertou as mãos do amigo. — Até algum dia, Henri.
— Até — Henri acenou com a mão e viu James indo embora.
***
Algum tempo se passou, o clima nas trincheiras era o mesmo. As condições não eram agradáveis, soldados adoeciam e ratos roubavam a comida. Era pior quando chovia, a lama invadia tudo e alguns precisavam ser amputados por causa da gangrena.
Era hora do jantar, Adrien, Henri e Michel jantavam com alguns outros soldados britânicos dentro das trincheiras, as mesmas comidas enlatadas de sempre. Eles odiavam, mas era melhor que morrer de fome.
Henri viu um bicho preto, peludo e grande subir em seu braço e cheirar sua comida, mas ao invés de se mexer, apenas o encarou curioso, estava praticamente embriagado pelo sono.
— Que gato esquisito.
— Henri — Adriano percebeu que aquilo não era um gato. — Isso é um rato.
Então o bicho roubou a carne da comida de Henri, que imediatamente despertou com o susto e viu o rato correr com a carne.
— Rato desgraçado! — Ele se levantou e correu atrás do rato, sendo seguido pelos amigos. O homem pegou uma arma e tentou atirar no rato, que bastante rápido, conseguia se desviar.
— Henri, pelo amor de deus — Michel tentou intervir. — Você vai nos colocar em problemas!
— Henri! — Adrien tentou chamar o amigo de volta a razão, mas na tentativa de acertar o rato, Henri quase acertou um tiro em Adrien.
Ele continuou perseguindo o bicho que saiu para fora da trincheira e Henri tentou correr atrás do rato colocando a cabeça para fora, um tiro da trincheira inimiga foi disparado, mas Adrien usou os poderes e conseguiu desviá-lo, em seguida, ele puxou o amigo de volta para a trincheira e ele finalmente retornou a si.
— Você é maluco? — Adrien questionou quando Henri se recompôs.
— Como fez aquilo? — Henri estava impressionado.
— O quê?
— Aquilo com o tiro!
— Você está vendo coisas — disse e então Michel abordou os dois.
— Está maluco, Henri? — Michel questionou. — Poderia ter morrido.
— Eu não sei o que deu em mim.
— O que está acontecendo aqui? — Um comandante foi até os soldados. — Conseguem me explicar que confusão foi essa?
— Eu estava perseguindo um rato — Henri explicou envergonhado.
— E isso justifica toda essa desordem?
— Falando assim parece terrível — Henri respondeu e Michel lhe deu uma leve cotovelada como forma de repreendê-lo.
— Já que gostam tanto de caçar ratos, farão isso pelo resto da noite.
— O quê? — Michel não conseguia acreditar naquilo. — Mas eu não fiz nada.
— Para que sirvam de exemplo.
***
— Não acredito que estou caçando ratos por sua causa — Michel estava bravo.
— Eu já pedi desculpas — Henri repetiu.
Os três tentavam encontrar mais ratos e matá-los. Não era muito difícil, já que estavam por toda parte, parecia uma tarefa sem fim.
— Você é doido — Michel disse. — Adrien é outro doido por ter ido atrás de você, os dois poderiam ter levado um tiro.
— Você queria que eu o deixasse levar um tiro? — Adrien questionou.
— Ele estava pedindo por isso — E percebeu o que disse. — Não foi o que eu quis dizer.
— Sabemos o que você quis dizer — Agora Henri também estava bravo.
— Desculpe — Henri disse. — Eu devia estar pilotando aviões, não aqui.
— Você reclama por não poder pilotar seu aviãozinho, sério? — Henri questionou.
— Vocês dois, parem — Adrien tentou intervir.
— Pessoas estão morrendo nesse inferno e não são com tiros! — Henri gritou. — Seja um patriota, ajude seu país, seja um herói. Ser um herói é uma droga!
— Eu não aguento mais! — Um soldado próximo dali gritou. Ele saiu correndo de dentro da trincheira para que fosse atingido com um tiro inimigo. Tudo o que Henri, Adrien e Michel puderam fazer foi assisti-lo ser morto.
— Está vendo aquilo? — Henri apontou para o lado de fora, onde estava o soldado, agora morto. — É o que essa merda de lugar faz.
***
Na manhã seguinte, Michel procurou por Adrien e Henri pela trincheira e depois de algum tempo, os encontrou. Estavam em seus postos, com muito sono, mas firmes.
— Henri — Michel o chamou. — Queria me desculpar pelo que disse.
Então Henri respirou fundo.
— Desculpe pelo o que eu disse ontem à noite — Henri respondeu. — Acho que estamos quites.
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