HIATUS - No fundo dos teus olhos
5 Preciso dizer que te amo
Notas iniciais
A vida tinha um gosto estranho por ser irônica, Remus notou.
Em coisas simples, às vezes, como no fato de que Peter era habilidoso em proferir feitiços, mesmo que suas notas na matéria fossem abaixo da média. Outras mais sérias, como no fato de seu pai, que teve a infância destroçada pelo pai alcoólatra, ter se perdido na bebida e negligenciado seu filho ele mesmo.
Era irônico, também, como Remus encontrou uma amizade verdadeira e profunda não em seus colegas de classe, nem mesmo em James, Sirius e Peter (Apesar deles chegarem perto), mas com um garoto solitário da sonserina. Remus se aproximou de Severus ainda em seu primeiro ano. O motivo, na época, era simples: James e Sirius gostavam de incomodar ele, e Remus não encontrava em si a coragem para impedí-los. Sabendo o que era sofrer aquilo, decidiu falar com ele, talvez amenizar alguns dos erros de seus amigos.
Se ele ao menos soubesse...
Ser amigo de Severus era maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. O sonserino era incrivelmente inteligente e talentoso em quase tudo que fazia, particularmente em poções. Seu vocabulário era extenso, e ele tinha um humor negro e sutil que, uma vez que você se acostumasse, sempre te deixava rindo nas situações em que você não devia fazer isso. Por outro lado, ele era mal-humorado e com um humor oscilante, e Sirius e James o odiavam, o que talvez fosse o maior obstáculo.
Eles continuaram amigos, apesar disso. Sua amizade cresceu mais forte com o tempo, com as experiências. Com Remus descobrindo o abuso que Severus sofria do pai, e contando, em tons quietos enquanto o curava, da negligência que recebia do seu. Os dias de verão que eles passavam nos campos intermináveis que cercavam a casa dos Lupin, os silêncios pacíficos que os dois dividiam.
O que sentia por Severus foi se construindo tão lentamente, timidamente, que ele não notou no começo. Não enxergou as horas que passava pensando nele pelo que eram, nem viu nada de anormal do fato de contar os minutos antes que pudesse vê-lo. Não reparou no quanto gostava de ouvir a voz dele, cada vez mais profunda, ou como o nome dele conseguia lhe colocar um sorriso no rosto.
Remus não era burro, no entanto, e logo descobriu. O que ele viu o assustou, no início. Como ele poderia estar sentindo aquilo? Depois, o entristeceu. Uma fera como ele, nunca teria o amor retribuído. Aos poucos, ele se acostumava com a idéia, e começava a gostar mais dela, no ponto em que uma tímida confiança era colocada ali.
Ele também não era alguém covarde (fora colocado na Grifinória por algum motivo, afinal), e sabia que teria de contar a ele. Passou noites inteiras pensando em como articularia aquilo, nervoso de se fazer de ridículo. Mas, no final, não falou nada, e acabou o beijando ao invés disso. O choque de Severus fez retornar o medo da rejeição, que foi logo afastado, com os dois se beijando a cada vez que se viam sozinhos. Pensou, então, que seus sentimentos estavam claros.
Mas… não, não exatamente. Ainda faltava algo. Numa epifania, Remus realizou que deveria contar a ele, com todas as letras. A idéia o assustava, mas de um jeito bom, aquele que te traz um frio na barriga e um sorriso no rosto. E agora chegara o momento.
Os dois estavam numa ponte estreita em Hogwarts, na parte sul do castelo. Pouco conhecido, o caminho perigoso ligava duas torres e proporcionava uma linda visão de toda a escola. Eles estavam com as costas apoiadas, os pés balançando no vazio. Um sol raro aquecia suas peles, e Remus respirou fundo, sorrindo. Devia falar agora. Antes que tivesse a chance, no entanto, Severus começou:
— Eu… — Ele parou, parecendo incerto. — Eu acho que devo te contar algo, Remus. Nós andamos, bem, andamos nos beijando recentemente e,.. — Remus prendeu a respiração. Eles nunca tinham falado daquilo. Será que Severus diria o mesmo que ele pretendia contar? — E eu acho que não seria justo te deixar sem saber disso. Eu sou apaixonado por Lily Evans, era antes mesmo de Hogwarts e… E eu vou amá-la para sempre. — Terminou, confiante, mas com um tom oco.
Era como um balde de água fria. Em um segundo, todas as esperanças e felicidade que Remus sentia se desvaneceram, como se levadas pela brisa que agora acariciava seu rosto. Ele não sabia ao certo o que pensar. Alguém soluçou, e levou alguns segundos para Remus perceber que fora ele.
Notou que estava chorando, os ombros tremendo, mesmo não soltasse um único som. Ele respirou fundo, tentando se controlar, embora o exercício fosse de pouca utilidade.
— Que… que bom. — Finalmente conseguiu dizer, a voz quebrada. — Foi muito honesto da sua parte me contar isso. Obrigado. — Falou, se levantando, e passou a mão pelo rosto. — Eu… Ah… Espero que consiga ficar com a Evans. — Disse, o rosto virado. Sabia o que Severus veria: Os olhos e nariz vermelhos, as bochechas coradas, as lágrimas ainda deslizando silenciosamente. — Eu… Uh, tenho de ir agora. Lição de Transfiguração. — Disse, forçando uma risada que saiu mais como um ganido, e saiu, os passos apressados.
— Remus… — Chamou Severus, hesitante, mas Remus não parou, logo correndo, chorando livremente.
Sim, a vida gostava de ser irônica, ás vezes de forma cruel, sem piedade.
Como agora, Remus tendo seu coração partido no dia em que pretendia dizer “Eu te amo”.
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