HERÓIS

2 Truque de mestre


Ágata Telles e seu parceiro Mauro estavam prestes a arrombar a porta de um apartamento do quarto andar de um prédio velho e afastado do centro. Quando Ágata fez o sinal, Mauro arrombou a porta e os dois entraram no que parecia ser a sala do apartamento. Havia vidro quebrado pelo chão e manchas de sangue no carpete velho. O lugar cheirava a fumaça de cigarro e a cerveja. Havia algumas latas de Skol jogadas num canto próximo as janelas da sala.

— Solta ela – disse Ágata com sua arma em mãos apontada para um cara alto e magro que usava uma garota baixa e morena de escudo. Ele tinha uma faca apontada para o pescoço dela.

— Se você der mais uma passo – disse o homem nervoso – eu mato ela.

A polícia da cidade havia sido acionada mais cedo por um morador do prédio relatando os gritos de uma mulher no apartamento 16 do quarto andar. Ágata e Mauro ficaram de ir verificar o que estava acontecendo e se depararam com os gritos e barulho de coisas quebrando assim que chegaram ao local.

Mauro bateu na porta e disse ser da polícia, mas recebeu um "vai para o inferno" do homem por trás da porta como resposta. No mesmo instante uma voz feminina gritou por socorro o que começou a deixar tanto Mauro quanto Ágata, preocupados.

— No três? – Perguntou ágata sacando sua arma da cintura.

— No três – disse ele segundos antes de arrombar a porta.

Ágata encarou a mulher que era feita de escudo. Ela aparentava ser muito nova, estava com parte do rosto inchado, como se tivesse levado um soco e seus braços estavam arranhados. Ela usava um vestido de alcinha florido na altura dos joelhos e havia manchas de sangue nele. Estava descalça, descabelada e tinha os olhos inchados, provavelmente de chorar— pensou Ágata.

— Solte a garota – disse Ágata firmemente. Ela tentou dar um passo para frente, mas desistiu de sair do lugar quando o agressor aproximou a faca do pescoço da garota.

— Não de mais nenhum passo sua vaca – disse o homem.

Ágata bufou. Mauro começou a falar alguma coisa, mas ela não prestou a atenção. Tudo o que fez foi olhar bem no fundo dos olhos castanhos daquele homem e sussurrar bem baixinho somente para que ela ouvisse.

— Dor...

No mesmo instante o homem começou a se contorcer e a gritar em agonia. A faca caiu no chão e a garota aproveitou para correr para o lado oposto de onde ele estava.

O homem caiu no chão gritando e se contorcendo e Mauro, aproveitando o momento, correu até ele para tentar imobilizá-lo. Ágata parou de exercer seu poder sobre o homem que parou de se debater facilitando o trabalho de Mauro, que o prendeu com uma algema.

— Eu vou ligar para o Samu – disse Mauro olhando para o homem no chão e em seguida para a garota no canto do apartamento.

— Boa ideia – disse ela. Ágata andou até a garota, desviando dos cacos de vidro pelo caminho. – Você está bem?

Ela fez que sim com a cabeça, mas estava claramente assustada com toda a situação.

— O que aconteceu? – Perguntou Ágata.

— Ele fica agressivo quando bebe – disse ela encarando o homem no chão que gemia baixinho. – Dessa vez ele ficou muito descontrolado.

— Você é maior de idade? – A garota fez que sim com a cabeça, ela encarava Ágata com um pouco de medo. – Algum problema? – a policial perguntou.

— Como você fez aquilo? – A garota olhou para o homem no chão e depois para a Ágata, que sorriu.

— Eu tenho alguns truques – disse ela.

Mauro se aproximou das duas avaliando a situação no total. Ele era jovem e um pouco superestimado pela idade que possuía, mas Ágata achava que a aquela camisa branca lhe caia muito bem. Ele era alto, tinha cabelos bem escuros e olhos num tom bem claro de um castanho. Era um pouco atrapalhado às vezes, mas Ágata gostava de trabalhar com ele.

— Eles já estão a caminho – disse ele com sua melhor voz de dono da situação. Mauro gostava de se sentir no controle de tudo e Ágata gostava de deixá-lo imaginar que o controle era realmente dele.

— Que ótimo – disse ela. – Meu personal vai me matar se eu chegar atrasada hoje de novo.

Cerca de dez minutos depois a ambulância do Samu já estava estacionada do outro lado da rua e a garota já recebia alguns cuidados. Já o agressor estava algemado no banco de trás da viatura. Mauro e Ágata estavam parados do lado de fora da viatura quando ele encarou bem a parceira de trabalho.

— Você não precisa fazer isso sempre... – disse ele.

Ágata encarou seu parceiro. Ela sabia perfeitamente que ele se referia à estranha habilidade dela, já que ambos estavam na explosão da clínica há dois anos e presenciaram coisas que até Deus duvidaria ser possível.

— Eu sei – disse ela encerrando o assunto. Ágata estava prestes a falar alguma coisa quando viu seu filho Eduardo, de apenas cinco anos sentado no meio fio da rua chorando. – Filho?

A mulher andou rapidamente até ao garoto sem entender como ele havia ido parar ali.

— Du? – chamou Ágata, mas o garoto continuou sentado no chão com a testa encostada nos joelho soluçando de tanto chorar.

Ágata se ajoelhou ao lado do filho assustada.

— Filho! – Ela colocou a mão no ombro dele, mas o garoto não reagiu. – filho, fala com a mãe! O que foi?!

Eduardo continuava a chorar o que só foi aumentando o desespero de Ágata. Ela tentava falar com o garoto, mas ele continuava a chorar de forma dolorida que partiria o coração de qualquer pessoa. Ágata sabia que ele estava chorando de tristeza. Eduardo já havia chorado daquela forma antes quando seu avô, com quem era muito chegado, havia morrido meses atrás.

Uma mulher usando uma blusa branca, saia social e sapatos fechados que faziam um som oco quando andava se agachou ao lado de Eduardo e colocou sua mão nas costas dele.

— Vamos? – Perguntou ela que parecia extremamente triste com a dor do garoto. Eduardo olhou para a mulher com os olhos inchados e o nariz escorrendo.

— Eu quero minha mãe...

A mulher sorriu, mas seu sorriso não era de felicidade.

— Eu já te expliquei meu querido – disse a mulher. – Agora ela é uma estrela no céu...

Ágata se levantou bruscamente sem entender o que estava acontecendo.

— O que...? – Ela tentou dizer, mas suas palavras mal saiam da boca.

A mulher pegou Eduardo no colo e o levou para um carro do outro lado da rua, depois de colocá-lo no banco de trás ela se dirigiu ao banco do motorista e deu partida no carro. Naquele momento Eduardo pareceu ver sua mãe parada na rua e batendo com as duas mãos no vidro começou a gritar por ela.

Ágata não conseguia mexer um músculo se quer de seu corpo. Seus pulmões pareciam não bombear mais ar e ela sentia que estava prestes a desmaiar.

— Ágata? – Chamou alguém tocando em seu braço.

Como se despertasse de um transe, Ágata voltou à realidade. Ela continuava parada no mesmo lugar com Mauro a encarando curioso – Tudo bem com você?

Ela encarou o ponto da rua onde havia visto seu filho, mas não havia ninguém lá, nem mulher e nem carro parado do outro lado da rua.

— Sim... – disse ela meio minuto depois. O fim de tarde parecia mais pesado naquele instante. – Só preciso fazer uma ligação antes – disse ela se afastando de Mauro e pegando o celular.

Ela procurou por Fernando em seus contatos e ele atendeu rapidamente, como se já esperasse aquela ligação.

— Fernando – disse ela rapidamente – acabo de ter um pesadelo.

○○○

Fernando havia acabado de parar com sua Pop quando o sinal fechou no mesmo instante que uma estranha sensação percorreu por todo o seu corpo. Um Gol prata parou logo atrás dele, também na espera que o sinal abrisse.

Dois dias haviam se passado desde que recebera a ligação de Kayo e Ágata sobre terem tido pesadelos enquanto ainda estavam acordados. Durante as últimas quarenta e oito horas, Fernando trabalhava sem parar em busca de qualquer pista que pudesse ajudar a encontrar um antigo inimigo, que estranhamente parecia estar de volta. Ele até mesmo teve que parar com um trabalhinho pessoal sobre alguns dados confidenciais sobre o governo brasileiro para ajudar Ágata e Kayo naquela estranha situação e para variar, ele tinha uma pista quente.

O garoto estava indo para o Pub onde Kayo trabalhava. Na última vez em que esteve lá foi na noite da explosão. Fernando riu daquela bobeira por dias. Ele realmente não conseguia entender como as pessoas engoliam qualquer asneira sem ao menos contestar os fatos.

Uma simples explosão? – Pensou ele enquanto o sinal permanecia fechado – tem que ser muito estúpido para acreditar numa idiotice dessas.

Quando o sinal abriu, Fernando acelerou e seguiu o trajeto rumo ao Pub, ele mal havia saído do lugar quando foi atingido com tudo por um trator. Ele caiu e sua moto foi parar do outro lado da via deslizando sobre o asfalto. Na queda, seu joelho havia batido com toda a força o impedindo de levantar.

Deitado no chão, ele tentou mais uma vez se erguer, mas o esforço fez seu joelho doer ainda mais. Uma mancha de sangue sujou sua calça jeans, ele então tirou o capacete com um esforço tremendo e tentou alcançar o celular que havia caído no asfalto também.

Numa questão de segundo, o gol prata estava vindo à direção dele. Fernando achou que o carro ia parar para ajudá-lo e com muito esforço conseguiu erguer o tronco e sentar desajeitadamente. Porém, a mulher que dirigia o carro parecia mexer no rádio e não tinha os olhos na pista.

O carro continuou a acelerar e a mulher continuava com os olhos fora da estrada. Fernando gritou para ela parar, mas a mulher não ouviu. Então tudo o que fez foi proteger a cabeça com os braços enquanto o carro passava por cima dele. A roda de trás passou em cima da perna direita dele a esmagando na hora. Ele ficou enroscado no carro e foi arrastado por alguns poucos metros, o suficiente para seu braço e rosto virar carne viva. O carro deu um solavanco e então parou.

A mulher desceu do carro desesperada, mas ainda sem entender direito o que havia acontecido. Fernando viu os pés dela indo de um lado para o outro. Sapatos legais – pensou ele olhando para o tênis branco com dourado que ela usava. Seus olhos foram fechando e sua consciência foi se desmaterializando. Todo seu corpo doía e a última imagem que ele teve em mente antes de se perder na paz assustadora que tomava seu corpo, foi do par de tênis daquela mulher.

Uma buzina fez Fernando dar um salto. Ele olhou para o retrovisor e viu o Gol prata buzinando para ele. A mulher apontava para o semáforo. Ele olhou para cima e viu que o sinal já estava verde. Rapidamente ele acelerou em sua Pop com o coração ainda disparado, sem saber ao certo se era do susto da buzina ou do pesadelo que havia acabado de ter.

Tudo o que Fernando conseguia pensar naquele instante era que ele tinha que chegar logo ao Pub.

○○○

Assim que atravessou a porta do Pub, Richard encontrou Kayo escorado no balcão dobrando um guardanapo de papel até ele ficar bem pequeno. Ágata estava em uma mesa com seu cabelo platinado amarrado num rabo de cavalo, ela estava usando um jeans justo, uma camiseta preta e tomava uma Coca Zero enquanto mexia no celular.

— Aqui estou eu – disse ele parando próximo a Kayo. – O que de tão urgente você tem para falar que não podia ser por telefone?

Ágata e Kayo se entreolharam, mas não falaram nada. Richard analisou Kayo, ele usava uma calça jeans preta, uma camiseta branca um número maior que ele e tênis branco. Seu cabelo negro tinha um corte raspado dos lados e a parte de cima era jogada para o lado direito com gel, mas a franja um pouco mais comprida caia na frente de seus olhos, como o Milo Ventimiglia em Heroes. Seus olhos castanhos tinham aquele tom escuro, enigmáticos com traços orientais bem fortes e a barba grande já cobria boa parte de seu rosto.

— É bom ver você também Richard. – Richard se virou e encarou Ian de braços cruzados. Ele parecia confiante dentro de um jeans rasgado e da camiseta totalmente preta. – Isso na sua cabeça é um fio branco? – Provocou ele.

Richard estava sempre com um pé atrás em relação a Ian. Há dois anos eles haviam se conhecido. Aquilo havia sido de longe a pior coisa que havia acontecido em sua vida.

Ian tirou um cigarro de um maço e o acendeu.

— Você não devia fumar – disse Ágata o censurando. Ele soprou a fumaça para o ar e respondeu com uma piscadinha pra ela.

— Verdade – disse Richard. – Você não tem pulmões que podem se regenerar, como os meus – os dois trocaram um olhar de desafio, mas Ian não respondeu.

Por muito tempo, Richard procurou saber os motivos de ser diferente das outras pessoas. Ele conseguia se regenerar de qualquer machucado, qualquer ferida. Seu organismo sempre estava zero bala, sua pele sempre boa e sua aparência sempre jovem. De todos os lances estranhos sobre sua capacidade de se regenerar, não envelhecer era do que ele mais gostava. Ali estava ele com quarenta e dois anos preso num corpo de um adolescente de dezessete.

— Como foi no Rio grande do sul? – Perguntou Ian indo até uma mesa próximo a ele. Havia uma garrafa de Smirnoff pela metade, ele a pegou, abriu a tampa e deu um longo gole direto do gargalo. Todos olharam para aquela cena sem dizer nada. Depois de uma careta, Ian largou a garrafa e se concentrou em Richard. – Encontrou as respostas que procurava?

— Sim – disse ele entre dentes. – Você estava certo. Encontrei o paradeiro da minha família lá.

Ágata olhou para Richard parecendo curiosa.

— Você encontrou sua família? – Perguntou ela parecendo confusa. – Agora que você tocou no assunto – ela olhou de Richard para Ian e depois para Richard novamente – você nunca falou sobre o seu passado.

— É porque não há nada para ser dito – disse ele rosnando cada palavra.

— Ah da um tempo – disse Ian depois de outro gole na garrafa. – Você realmente quer ficar fazendo segredinho da sua vida? – Ele olhou para Ágata. – O Richard teve uma irmã, foi sequestrado por alguém e mandado pra puta que o pariu onde um velho doido cuidou dele por anos – Richard estava vermelho de raiva. – Daí ele saiu em busca da família biológica, se apaixonou por uma paraguaia e...

Richard avançou sobre Ian e o agarrou pelo colarinho. A garrafa caiu no chão e saiu rolando para um canto.

— Cala. A. Sua. Maldita. Boca. – Disse ele entre dentes. Kayo puxou Richard pelo ombro e o separou de Ian. Os dois foram até o lado oposto de onde o garoto estava. O clima tenso parecia estático.

— Merda – disse Ian arrumando a camiseta no lugar – você apagou meu cigarro. – Ágata parecia não acreditar no que havia acabado de acontecer.

Richard rosnou algo e encarou Kayo.

— Ao que se deve essa reunião dos X—men? – Perguntou ele tentando não pensar em Ian naquele momento. Ágata foi quem respondeu.

— Nosso antigo inimigo está de volta – disse ela. – Você esteve na cidade por esses dias?

Richard fez que não com a cabeça.

— Todos nós tivemos uma experiência estranha – disse Kayo. – Um pesadelo. – Richard andou até Kayo e se escorou no balcão ao lado dele, podendo assim encarar Ágata e Ian ao mesmo tempo.

— O que eu tenho a ver com isso? – Perguntou ele de forma bem arrogante.

— Você faz parte disso – disse Ian parecendo irritado. Havia outro cigarro na boca dele. – E você melhor do que ninguém sabe do que ela é capaz de fazer.

— A culpa é sua – disse Richard para Ian. – Você que arrastou aquela coisa para as nossas vidas – todos estavam pensativos. – Você é tão mau caráter quanto ela – faíscas saiam de seus olhos. – Ou você acha que eu sou idiota de acreditar nesse seu papinho motivacional de que estamos todos em perigo e que precisamos salvar o mundo outra vez?

Ian não respondeu.

— Não é bem assim... – tentou dizer Ágata, mas Richard não deixou.

— Não é bem assim uma ova! – disse ele. – Você é o problema! – Disse ele apontando para Ian. – Você me distraiu me dando uma informação que sabia que eu daria a vida para ter, mas agora estamos todos aqui e você não vai conseguir nos manipular dessa vez – ele encarava Ian com fúria – eu posso ver você com clareza agora, Ian. E acredite, eu não gosto do que vejo.

Ian soprou a fumaça para o alto e esboçou um sorrisinho de ironia nos lábios.

— Não. – disse ele – Você não consegue me ver com clareza merda nenhuma – Richard estava mais uma vez vermelho de raiva. – porque se conseguisse aí sim você não ia gostar de mim...

Richard bufou no mesmo instante que Fernando atravessou a porta da frente. Ele continuava da mesma forma que Richard lembrava. O cabelo negro escorrido e o rosto amarelado, parecendo um pequeno índio. Não havia crescido nada desde então, baixo e magro ele se aproximou dos outros usando um jeans largo e uma camiseta branca com a estampa de uma caveira psicodélica.

Todos encaram Fernando que parecia pálido.

— Algum problema? – Perguntou Ágata.

— Um dos grandes – disse Fernando tirando um celular do bolso – ainda bem que eu sempre trago a solução.