HASHIREEEEEEEEEEEEE!!!
4 Capítulo 4 - Alameda, via láctea... e o tanuki mandrião.
Notas iniciais
27 de março, 15:43 da tarde...
Bairro Conde Piero, alameda Luna Benedetti, Vucinicci, Casavecchia.
O arvoredo de azinheiras fazia um corredor quase fechado ao céu de quem passeava por ali pelas calçadas da desmensurada alameda. Às árvores arcadas estavam bem enraizadas em seus canteiros adornados em calcário, enquanto o revestimento calçado ao chão de tráfego dos pedestres era de cascalho de pedra miracema, e as folhas delas formavam um tapete ao se despencarem de suas matrizes — e destas folhas, muitas serviam de entretenimento para os azuis tits que saracoteavam pelo chão, brincando com elas e ciscando o que podia ser consumido. Estes pássaros sempre eram agraciados pelas pessoas que ali passavam; moradores locais também, por causa do festival diário que, habitualmente, faziam até o início do crepúsculo, propagando boas energias. Tudo promovido pela natureza urbana, verde de um mundo à parte do grande cinza da cidade. O rangido ecoava pelo corredor quando a brisa aflava ali... e os raios de sol transpassados pelos galhos e folhas iluminavam, parcialmente, o local com grânulos luzidos em meio a penumbra. E lá estava ela, Lin, caminhando em passos paulatinos. Outra vez ela se encontrava abraçada à sua síndrome do astronauta, apenas ligada a um tubo de oxigênio acoplado em seu traje. Esquecia-se de até mesmo estar viva. Situava-se cercada de estrelas; tomada pela gravidade zero; exígua ante o sistema solar. Lin sorria muito grata pelo frescor mavioso do vento. Este que brincava de bagunçar seus cabelos, sempre que passava. Por isso, mesmo que em silêncio total pela soledade momentânea, a garota apreciava a alameda como se fosse um infinito edênico, valorando muito a oportunidade de ter aquele momento, mesmo sabendo que a paz que ele trazia, era passageira.
A verdade é que Lin estava sozinha, longe de casa, de tudo, e exposta aos perigos que não esperava que fosse correr...
À deriva... e rodeada de monstros marinhos que cercavam seu barco...
Naquele instante, Luna Benedetti fazia parte de sua via láctea particular, formada de diversas divagações sobre as radicais mudanças de situações, de cada minuto virado de sua vida.
De acordo com o caminhar despretensioso de rumo, ao deixar de notar que mesmo ali havia um mínimo de público local, ela saltitava, espontaneamente, enquanto sentia ausência de medo ou qualquer tipo de receio. Girava o corpo como numa valsa infantil e sorria. Para Lin, sorrir era o melhor a se fazer no dia, ou enquanto tivesse a posse de tempo para isso, sem desperdiçar um sequer segundo dessa essência — e o giro de seu corpo rodava a saia preta, de prega, que se media até a base dos joelhos e moldava sua cinturinha curvilínea. O barulho de borracha da sola do seu par de Allstar, vermelho, era o único ruído mais audível que ela podia ouvir, além de claro, do canto dos passarinhos empáticos que pousavam nela, mesmo que em movimento constante de corpo. Naquele momento havia ao menos uns três azuis tits pousados no antebraço destro, ombro sinistro e o topo da cabeça. Os passarinhos se alternavam sobre o tecido bem ajustado ao corpo da menina, do blusão social, de manga longa, abotoado até o último botão escondido — em ordem decrescente — por um laço preto na base do pescoço.
Desde que a tal joia da catástrofe lhe acompanhava como um obsessor...
Lin passou a considerar sua felicidade um fogo fátuo efêmero...
Longe de casa, ela pensava na hipótese de que não podia voltar até tudo aquilo terminar, e esta hipótese cada vez mais se transformava em certeza, de acordo com cada conclusão que obtinha acerca dos fatos. O fato era que à fangonesa não podia voltar ao seu lar e expor seus entes queridos àquele perigo pervertedor, que estava subvertendo até mesmo sua viagem, mesmo que estes, que ela considerava entes queridos, não tivessem o mesmo apreço, afeto e ternura por ela. Sua família a via como um borrão, como uma ovelha negra; como um único dente pobre na arcada. Até para isso, por mais desbotado que fosse o sentimento, tentava sorrir, ser ela mesma e ser útil de todas as formas para todos eles, mas lá no fundo... esperava uma ínfima gratidão por tudo. Era só isso... mais nada havia que pudesse desejasse ter como arrimo. Não precisava mesmo de mais nada. Dentro daquelas vias e ruelas entrelaçadas que considerava serem seus pensamentos... quando, infelizmente, ela entrou em uma que tivera a levado a lembrar-se disso, os passos se travaram ao chão como se houvesse cola-rápida nele. Os passarinhos voaram. O sorriso de antes permaneceu, mas enervou-se, até que deixou de sorrir. Os moradores das residências próximas que a observavam coexistir com a natureza, como um espírito perambulante, ficaram tristes pelo show parecer ter chegado ao seu término. Lin suspirou e fitou o alto verde da alameda, e as estrelas formadas dos raios solares marcavam a pele láctea de seu rosto.
Lin não queria que aquela fosse à alameda dos sonhos quebrados.
A fangonesa só queria deixar de ser aquela existência com pouco acréscimo de tempo qual ela acreditava ser...
E queria, também, reconhecer que havia um alicerce na sua existência que não fosse uma base no sofrimento a que ela era fugaz, e muito fugaz. O único medo absoluto — em meio aos outros que não eram nada perto deste — que sentia muito mesmo em vida, era o medo onde aquele monstro lôbrego chamado sofrimento a agarrasse com seus milhares de braços plúmbeos e tudo estivesse perdido. Então por que os olhos de Lin conseguia ser apontados para o ar, tendo a oportunidade de ser dadivada por uma vista maravilhosa como aquela, de cor da esperança, que fazia parte de sua realidade?! Aquelas árvores lindas; os passarinhos; os sorrisos dos casavecchianos ao notarem sua felicidade momentânea atuar em palco; tudo que ainda estava ali... tudo que ainda não fora arrancado, por que ainda permanecia? O fato de ainda conseguir sorrir continuava a existia. A questão é que ela não deixava de notar, nunca, nunca mesmo, que se estava sozinha naquele momento e, ainda assim, se tudo estava lá, era porque somente ela podia se suster por si mesma. Era por causa de sua própria força. Pelo menos isto ela guardava no bolso, ao peito do blusão social que vestia.
Levou as duas mãos sobre este bolso e assentiu, suspirando, fechando por completo os olhos. Essa autonomia de Myung Lin... se muitos soubessem sobre, alegariam, com total certeza, que a garota era digna de aplausos. Estar sozinha numa situação como aquela e ainda conseguir se mantiver de pé, sem deixar que o mal a tomasse tudo de assalto; para muitos era algo digno de um ovacionar eterno, em vida; porém, ninguém era de ferro e um dia uma erosão podia provocar uma fissura bem funda na alma dela...
Lin sempre achou que este fato sobre ela a fazia estar entre o lado bom e o ruim da coisa. E talvez ela estivesse mesmo certa ao pensar assim.
"Por mais forte que minha vontade de viver tenha uma armadura de ouro, e minha força de vontade pela busca da felicidade seja reforçada em dobro por isso... nada disso dura para sempre... e se um dia isso tudo não me pertencer mais, será que haverá alguém para que eu possa, pelo menos, segurar em suas mãos...? Será mesmo que eu posso continuar a resistir ao fato de estar sozinha sempre? Às vezes eu penso que isto é uma coisa muito fácil de ser conduzida por mim, e que não precisar de alguém é um algo e tanto... só que até a flama e veemência de nossos sentimentos podem escoar como às areias de uma ampulheta, e o tempo disso tudo um dia pode se esvair... e será mesmo que daqui dez, vinte, trinta anos ou mais, — sei lá, posso ser morta ainda hoje por aquele tal de Adônis ou Sísifo, ou o lazarento que for né... — Será MESMO que eu continuarei a estar trajada com esta armadura? Se eu sobreviver ao tempo que me foi resignado... poderá ela ainda estar comigo? E se ela tornar-se pesada o suficiente para que eu tenha de despi-la...? O tempo pode tornar o fraco um alguém muito forte, e também pode aposentar as forças de alguém muito forte, pouco a pouco... e eu não sei exatamente onde me encaixar nisso. Tenho uma dúvida anacrônica quanto a mim mesma, vide eu saber que possuo tal força, porém, e se a essência dessa força for outra? E se essa força, na verdade, for um véu feérico que apenas me faz acreditar que 'está tudo bem', e que 'não perderei esta batalha', quando na verdade, desde o princípio, eu precise de alguém para seguir em frente?... Será que um dia eu me cansarei de ser sempre assim? Será que estou me desgastando sem ter percepção disso? Será que um dia... alguém estará em algum lugar por mim...? Lembrara-se de mim...? Eu, Lin, da família Myung... realmente não me importo com isso? Eu acho que sou minha própria inimiga e estou sendo punida, agora, por nunca conseguir me vir ao lado de alguém, por mais que um dia eu tivesse um querer desses... só que se a vida me pune por algo que outrora eu tentei adquirir, mas não consegui possuir este algo e adotei um novo pensamento... por que ainda continuo a acreditar que ela é maravilhosa e digna de se continuar vivendo? Ela pode estar sendo injusta comigo, e eu, ainda assim, continuo a passar minha mão sobre sua cabeça, como se estivesse perdoando alguém sem merecer tal perdão... e agora, o que eu ganhei com isso, foi essa tal 'joia da catástrofe', hahá! Um purgatório em vida seria? Eu queria que uma voz pudesse surgir do nada e com muita eloquência, sanar minha miserável dúvida. Egoísta sou por achar ser forte em estar sozinha, já que tantas vezes fui expelida até mesmo pela minha própria família? Sou mesquinha por agora, aqui, estar sozinha? Ser perseguida por demônios é o que ganho por levar a vida desta maneira? Talvez eu nunca tivesse uma escolha justa. Só tenho certeza de que ainda estou aqui vivendo VOCÊ, VIDA! HAHAHAHA! E você me parece incomodada com o fato de que vivo à maneira que posso; porém, não sendo à sua maneira. Agora, sinceramente, tenho que convir que só de pensar que estou lhe tratando, vida... como uma entidade... A-Aiyã... eu acho que sou mesmo uma palhaça totalmente mórbida e sem cura..."
Lin pensou tanto que nem se deu conta de que já estava sentada em uma escadaria de granito, que dava até uma pequena capela branca, cheia de adornos em azul celeste e frisos dourados, com um grande portal de madeira fosca. Ela estava mais ou menos um pouco antes da metade desta escadaria e lá abraçava seus próprios joelhos, posicionando o queixo ao pedestal que ambos formavam para ela apoia-lo. Algumas árvores pino domésticas assomavam à escadaria pela esquerda e direita, e pela direita de Lin, as que cercavam ali, eram por detrás de um grande muro matizado nas mesmas cores da capela. Alguns arbustos pelo lado de dentro do muro e da escadaria contornavam este muro até chegar lá em cima. Ela, então, bocejou, tremendo os lábios, e uma pequena gotícula de lágrima se formou no canto direito, do olho direito. Quando Lin levou a destra para secar tal lágrima, algo lhe tomou a atenção: um rapaz de cabelo bagunçado, castanho, meio puxado para o loiro, vestindo uma calça jeans surrada e um par de botas de couro mais maltratado ainda; uma camisa amarela de mangas curtas azuis; um casaco xadrez preto e branco amarrado à cintura vinha subindo à escadaria a fitando estranhamente. Ela o analisou de cima a baixo para saber se não era, mais uma vez, outro denome, porque se fosse... mais uma vez daria outro chilique daqueles, mas, estranhamente, ele não tinha uma aura demoníaca que ela sabia e cansava de saber sentir. Trouxe com ele, logo atrás, uma ventania bem inconveniente, espalhando poeira e folhas das pinos que caíam ali gradativamente, e isso a fez levar suas mãos até suas vistas, fazendo uma choupaninha para se proteger do alvoroço de sujeira rebelde. Quando estava a mais ou menos uns 7 degraus de distância dela, o rapaz sorriu e mostrou seus olhos azuis bem claros, e o nariz levemente abatatado, o que fora uma surpresa para ela... e ele também tinha um rosto de traços orientais como o dela. Pensou a mesma que fosse um hinokokunês, sem dúvida.
— Moça... seria bom se você pudesse se levantar e subir esta escadaria comigo...
— Ah, sim... claro... eu devo me levantar daqui e seguir um rapaz que não porta suspeita alguma de ser um tarado querendo me violentar, certo? É isso mesmo? — E quando Lin terminou de falar, ele passou por ela. Parou de costas para ela uns três degraus acima e coçou sua nuca, suspirando.
Lin se curvou para olhá-lo e os cenhos estavam totalmente franzidos.
— M-mas é claro que não faria tal coisa, sua tonta. Eu só estou tendo uma boa fé por você... já que me parecem...! AH, DROGA, NÃO TEMOS TEMPO! SÓ VENHA!
— Só venha? Larga do meu pé, chul-! — E pronto. Coitado é quem não escuta conselho? Lin não deu ouvidos ao rapaz de identidade até então desconhecida, e começou a sentir múltiplas presenças que tanto sabia reconhecer.
— Aiyã... eu não pedi pra trazer essa corja com você, pedi? Então por que trouxe?!
— E agora a culpa é minha? — Ele suspirou e fez uma cara engraçada de desgosto.
— A culpa é minha e eu a ponho em quem eu quiser! — Lin se levantou batendo na bunda para tirar a poeira da saia.
— Mas que fedelha chata... — E ele bocejou virando-se para a direção oposta, olhando lá para baixo. — E agora, 'mocínea'? Vai ficar tudo bem com você?
— Eu não sei né...? — Praguejou mentalmente, com toda mácula existente no mundo, por aquilo estar se repetindo mais uma vez. — Quando essa cambada de pulhas resolverem aparecer, talvez eu consiga lhe dar uma resposta melhor que esta...
E eles apareceram. Primeiro surgiu uma silhueta trajando um manto branco com as bordas rasgadas, e no centro do peito havia um pentagrama vermelho. O manto era grande o suficiente para cobrir todo o corpo, não deixando Lin e o rapaz atrás saber se ele vestia algo mais por debaixo. A cabeça do rapaz era uma caveira de boi, só que com dentes tão afiados na arcada dentária, que eles só podiam pensar que aquilo era um crânio de boi de alguma fazenda lá do inferno. Se era uma espécie de elmo ou não, eles não sabiam; porém, pouco importava também saber que merda aquele cara era. Depois que ele surgiu, Lin conseguiu contar uns 15 demônios — além dele — fechando o cerco à volta, e quando a abordagem terminou ela sorriu, fazendo um bico nos lábios, forjando um ar de 'fazer o que, não é’? —E deu de ombros, chateadíssima.
— E então, amizade! Em que posso ajudar? – Lin perguntou olhando o cabeça-de-boi.
— Você já sabe do que se trata. Nos dê log-!
— Não darei merda nenhuma pra você, bicho tinhoso.
— NÃO VAI DAR...?! GAROTA NOJENTA, ESTAMOS LHE DANDO A LIBERDADE DE NOS ENTREGAR, DE UMA VEZ POR TODAS, A JOIA DA CATÁSTROFE! ENTÃO PASSE-A PARA CÁ, JÁ! — Gritou um demônio subordinado do cabeça-de-boi-bizarro.
— Ó... e agora descobri que existem demônios bonzinhos... — Lin fez uma pausa olhando às próprias palmas das mãos unificadas, como se estivesse segurando algo que precisava ser com as duas juntas.
— HIHIHIHEHAHAHAHAHAHAHHA! BONZINHOS? EU NÃO TENHO PACIÊNCIA, VOU MATAR VOCÊ AGORA SUA P-! — O outro demônio que começou a vociferar para Lin não teve tempo de terminar a frase pejorativa que proferia para ela. A única coisa que conseguira ouvir, antes de ser pulverizado, fora a voz da garota gritando: "BOLA DE FOGO”. Uma bola de fogo vermelho cintilante enorme engoliu o corpo do demônio parvo, como se um tubarão branco passasse feito um raio para abocanhar uma foca em pleno alto mar. E não havia sobrado mais nada dele além de migalhas estorricadas.
— Puta é a sua mãe, se é que você tem mesmo uma...
— Seu nome é Myung Lin, certo? — Perguntou o cabeça-de-boi-bizarro. — Eu realmente não quero ter de lutar contra você... então eu a perdoarei desta vez, por ter eliminado um de meus subordinados. Aquele cretino pagou por sua insolência. Agora vamos. Você sabe que se continuar a ter a joia da catástrofe consigo você será perseguida enquanto estiver viva, e não é isso que você quer, certo?
— Você tem razão, niú-de-tou. Eu lá tenho cara de que quero ser infinitamente perseguida por um bando de aberrações que sempre tiram o meu sono de beleza? — Respondeu totalmente com ar de indignação, o que fez o rapaz que estava atrás dela, sorrir. Ele parecia se divertir um pouco com a situação de Lin, mas não por achar que a desgraça alheia era jocosa, e sim, pelo fato dela ser alguém bem... interessante... — Mas eu não quero entregar... e não vou entregar! Avisa pro babaca do seu chefe lá, no escritório dele... que. Eu. Não. Vou. Entregar. Nada!
— Lin... assim você não nos deixa escolha... — A pilha do aparato de apaziguar com barganha estava começando a se esgotar. Niú-de-tou mostrou um dos braços, totalmente despido, e a pele dele era totalmente pálida, assim como a cor branca do crânio. A mão dele portava garras enormes e extremamente afiadas.
“Parece que mais um show de horrores está pra começar... e eu ainda tenho que proteger esse maluco que está comigo... Yaowú...”
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