HASHIREEEEEEEEEEEEE!!!
3 Capítulo 3 - Quem me dará outro milk-shake?!
Notas iniciais
25 de maio, 16:17 da tarde, Vinovia, Casavecchia...
Myung Lin começou o dia já dando rolé pela cidade de Vinovia da qual ainda não havia deixado. O dia anterior fora deveras causticante e só de pensar na desordem, e falta de sorte, espantou seus fantasmas malditos, chacoalhando o rosto para diversas direções. À franja e o corte chanel badernaram por causa da injúria efêmera, que ela logo elidiu, adoçando o bico formado nos lábios, pela sucção em um canudo. As bochechas criaram covinhas momentâneas enquanto ela sugava a bebida doce transportada pelo canudo. Canudo fincado em um copo de 700ml de milk-shake de frutas vermelhas e pistache. Bem ataviada, ela estava vestindo um vestido balanço vintage, vermelho bowknot, que se afunilava um pouco mais na cinturinha, por causa do laço amarelo Pequim traseiro, fazendo-se uma cinta. Hoje, diferente do par de Allstar cano longo, ela usava um coturno preto, meio aveludado, de cadarços e ornamentos em marfim. Um pingentinho de estrela dourado, bem pequeno, caía pelas laterais da bota, bem na base superior do cano; e ela usava um cordãozinho de ouro com pingente de estrela também. Bem-apessoadinha. Dona de uma fé que parecia inabalável, pairando em forma de nuvem sobre a cabeça da menina, com muito júbilo, irradiante e airosa, apesar do fantástico mundo de Myung não parecer ser aquele que ela realmente fazia-se parte. Ô minazinha absorta do caralho. Parecia uma remissa encantada, na Avenida Pietro Berlusconi, que naquele momento estava começando a entrar no rush. Pessoas de diversas estirpes precipitavam-se, antecipando seus passos aos devidos destinos de suas vidas e nisso, Lin ajeitava os fones de ouvido delicadamente, parando seu caminhar por isso. Estacou-se de frente a uma atarracada, grandiosa e desmensurada catedral de pedra basalto, gótica, robusta e com algumas abóbadas pontiagudas e vitrais coloridos. Era a catedral de São Vivino. Encontrava-se aposta a ela, mas antes de querer chegar lá havia uma enorme escadaria de mármore fosco, rajado em ébano e branco, para subir. Prendeu totalmente sua atenção e esboçou um sorriso obsequioso pelo encantador panorama, esquecendo-se por completo do episódio passado e começou os curtos passos até chegar ao primeiro degrau, quando...
Um calafrio arrepiou sua pele por completo.
A fangonesa olhou imediatamente para o lado, frígida, e a midríase veio pelo choque do que acabara de ver, logo contraindo a pupila em seguida e quase quebrando o pescoço com o movimento. Cleck. Não subiu o degrau, e mesmo que a mais ou menos uns... 7 metros de distância, uma figura que parecia mais como aquelas montagens de aparições fantasmagóricas, muito malfeitas, encontradas no Google, estava estatelada a olhando sem pudor algum. Pudor para que também, se lá vinha — ah se vinha — alguma merda muito da maligna por aí. Pelo menos era isso que Lin pensava.
— ...? — O silente reinou em sua mente e ela se manteve quieta, como se um rato travasse a respiração ao se esconder de um gato cheio de fome, atrás de algum lugar que o roedor não pudesse ser visto. Era um homem alto, qualquer, trajando um terno de linho avinhado, gravata borboleta azul marinho e sapatos sociais venetto verniz — o que a fez rir mentalmente, não pela elegância dos sapatos e, sim, pelo rapaz parecer um YETI granfino. O cara devia calçar uns 46 ou 47; ou até mais. — Ah, e usava uma cartola da mesma cor do terno, com um fitilho preto adornando o contorno dela.
Ela só se manteve assombrada porque... o rosto do rapaz era neutro ao que acontecia à volta e a massa de pessoas que pouco a pouco surgia nenhuma sequer esbarrava nele. O nariz afilado e os lábios também afilados (o inferior levemente mais carnudo que o superior), e a sobrancelha loira, unificada, grossa e espichada, nem sequer eram destacados. Os olhos amarelos, de pupilas reptilianas, roubavam a cena dentro do teatral rosto dele. Eles chamavam muito mais atenção que o resto da silhueta — tirando os pés de yeti.
Daí né... ela olhou para os lados, olhou para trás, para tirar a prova real de que o vigilante ali à frente estava mesmo olhando para ela ou não; era mais certo que sim, graças as desventuras dos retrospectivos dias. Finória, ela, então, avistou um senhor baixinho, — apenas um pouco mais alto que ela — calvo da testa até a nuca, como uma pista brilhante para pássaros pousarem, e cabelos laterais bem grisalhos; bigode branco volumoso e trajava um terno preto e sapatos sociais Testoni pretos — o resto da roupa podia ser o que for, mas sapatos tinham de ser da Casa de Testoni, né, porque Testoni era Testoni e não havia discussão —, e ele segurava uma maleta de couro preto. Ela toda ‘donairinha’ singelamente o chamou bem baixinho e perguntou:
— M-meu senhor... — tímida, como um tomate bem maduro — pode me dar, por favor, um minutinho ou dois de sua atenção?
— Hum... — E o senhor olhou para o rolex de ouro branco com adornos em ouro amarelo e tornou a olha-la em face. — Dimmi... em que posso ajudar-te?
— M-meu rosto está sujo de milk-shake? — Deixou o cantinho da bochecha propositalmente sujo, só para que ele pudesse responder.
— Sim, estás! — Retirou um lenço do bolso superior, ao lado cardíaco do peito, e fez a gentileza de limpar para ela.
— Agora outra pergunta... — Ela desviou o olhar, que estava focado na silhueta do estranho, para o lado, e manteve-o em viés, para depois olhar à frente de vez. Isso na direção do olhos-de-lagartixa. — Consegue enxergar um homem de cartola e terno vinho, bem cafona, logo ali? — Ela chegou bem pertinho e murmurou bem no ouvido do senhor, que ficou encantado com a doçura dela, abafando a voz com a conchinha que fazia com a mão destra.
— No, signora... — Ele a olhou curioso, mas não via estranheza na estrangeira. Porém, deu-se conta de que logo devia prosseguir seu caminho e assentiu. — Ti vediamo, tesoro. Tenho um pouco de pressa. Tutto il meglio para ti!
— Devo então estar vendo coisas. Agradeço-lhe muito, buon uomo! — Arranhou um pouquinho no casavecchiano, e o agradeceu encarecidamente pela ajuda. Logo ele tomou o seu rumo e ela voltou a fitar o estranho-da-cartola-de-olhos-reptilianos.
Tomar no cu, outro denome que não tinha o que fazer!
— Veio também buscar pelo saquinho da discórdia, seu fedorento cafona?
— Eu vim buscar o que há dentro dele. Mas não pretendo machuca-la se você cooperar e me entrega-lo sem apresentar resistência.
A fala entre os dois era audível apenas pelos mesmos. Quem passava por ambos, não se dava conta de nada. Na verdade, ninguém o via, e quando a via, ela não parecia estar conversando com alguém.
— Eu não quero de forma alguma ficar carregando esse negócio comigo sabe...? — Desabafou por um instante. — Mas, também não faço ideia do que seja isso. Por que tanto querem essa coisa?
— Se você não quer se envolver com este mundo, não precisa saber do que se trata mocinha... — Ele a respondeu com brandura, mas quando Lin se deu conta... ele estava atrás dela. O nariz sentia a fragrância de peônia da fangonesa, fungando seu pescoço. Ela manteve-se imóvel, petrificada, porque aquilo já fora demais para lidar. Ele fora alígero demais para que ela pudesse esboçar qualquer reação; e poderia fazer, se ele quisesse que ela fosse... morta num instante. Não conhecia suas peculiaridades e sua origem. Fora sorteada por uma barganha... ou pior dizendo, por uma coerção, que a fez engolir seco, fungar e soltar o ar pelas narinas. Era demais acreditar que tudo podia ter acabado e finalmente ela pudesse ter paz? Ou era disparate e loucura ter crença nisso? Estava tudo tão bom e real para ser verdade. Lin tentava acreditar que hora ou outra o passeio pelo mundo prosseguisse como se nada houvesse de acontecer e quiçá — o que mais queria — era voltar em segurança para sua terrinha. A mente inocente de Myung Lin só podia ser trapaceira demais para com a própria dona e ficava lhe pregando peças, mexendo com seu achismo que cheirava a donzelice.
— Eu tenho outra opção, ou apenas preciso lhe entregar isso e ir embora sem o direito de escolha? — A fangonesa converteu a atmosfera para ar desafiador, sorrindo com gentileza, mas havia um temor travestido deste ar.
— Nunca lhe disseram que você não tem outra opção?
— Mas sempre que me disseram tal coisa, eu sempre tive uma opção óbvia. Não é à toa que, até agora, essa trouxinha está comigo, certo?
— Não sou como os outros que tentaram tirar-lhe a vida para conseguir a joia da catástrofe...
— Joia do quê?! — Estupefata, o olhou com olhos de nycticebus.
— Eu já falei demais. Agora, entregue-me já! — Tocou-a nos ombros, e após o toque Lin sentiu um youki totalmente abrasador, soturno, impressionantemente desconfortável. Parecia ter esquecido a naturalidade de como se respirar e lhe faltou, muito, mas muito mesmo, o fôlego. Como ela poderia, novamente, aprender a respirar? Esqueceu-se totalmente de como se tratava deste exercício. A constrição era tanta que ela lutava contra uma gravidade mais elevada que a ordinária do globo e só tendia a piorar sua situação; e o cara que estava atrás dela, finalmente, era, talvez, um dos caras que ela... no fundo, no fundo, queria enterrar, com sua inocência, para não enxergar mais a dolorosa realidade da vida.
Ele era um demônio perigoso. Isso estava na cara. Ter saído de Fang, que era o seu país natal, foi como ter saído de uma bolha de conforto? Só sabia-se que agora, a gama de perigos que o mundo oferecia a desafiava. Arrependia-se ou não de ter havido pensado na ideia de querer se divertir um pouco? Ela deixou cair esta interrogação no chão assim como deixou cair o copo de milk-shake que estava degustando, amargando sua boca com um fel molesto. Mas este fel fez materializar uma lâmpada irradiante de razão que poderia, pelo menos, salvá-la do medo embargado que tinha de seu algoz. Questionou-se então: “o que eu aprendi até hoje, que me salvou de todos os outros conflitos sangrentos até então?” — Pensou ela, coagida, se vendo encurralada. Precisava ser lesta. Tinha a necessidade de esvoaçar para longe o véu do medo e isto acabou mesmo acontecendo, quando ela pisou firme no chão e acordou com o paft da sola de seu coturno. Tratou de vestir, agora, o véu da repugnância, e o sorriso de Cheshire mais uma vez resplandeceu nos lábios de Myung Lin. O nariz da fangonesa já era bem arrebitado devido sua genética. Herdou este formato de sua mãe, mas ela arrebitou-o agora de forma matreira e deu um passo à frente. Teve arrojo de acreditar que ele não lhe cortaria o pescoço, pelo movimento que fizera, e adicionou mais outro movimento em seu ato: deu meia volta e o defrontou. Aposta ganhada. Nada fora feito a ela após ser atribulada. Talvez o denome não fosse tão vacilão do caralho assim, como os outros, querendo ceifar a vida da pobre adolescente.
— Só darei isso a você se me contar do que se trata esse câncer aqui. Dependendo da resposta, não... eu não o darei. E eu quero lhe fazer mais outra pergunta. O que significa:
"Casa-se com o dia, a noite. Cobre-se o dia, o véu noturno. O dia acorrenta a noite, e a benquerença, à noite contempla. A noite atrai benquerença e presenteia o solo do dia, até que o véu noturno acorrenta o dia. Aliança e troca de tesouros; aragem a todos que querem o dia. A noite arrebata o dia. Todos arrebatam o dia. O dia torna-se noite e noite torna-se dia. Os alados querem liar-se com o fulgor do dia; o freático quer subsistir ao fulgor do dia. Todos têm o direito à luz; a noite tem o direito à luz. Liar-se noite ao dia; e os espíritos dançarão o baile unívoco de um novo corpo. Um novo mundo. O sangue rubro de um só espírito universal. Acorrente-se ao ocaso solar e lunar; você está entre as duas sazões; sinistro agrilhoado ao sol, destro agrilhoado à lua. Mediador de um novo turno matrimonial, receptáculo do cosmo final. Noite eterna torna-se soberana em seu corpo.”
— O que significa isso?
— Ela o fitou como uma criança pedindo doce para alguém mais velho. No fundo, o fogo da alma tremeluzia de acordo com o misto-quente de emoções que ela carregava. Mas o que aconteceu foi... o rapaz rir de leve até começar um gargalho totalmente sinistro — sinistro para ela que pensava de sua intenção ser totalmente malévola, entretanto, para ele, sendo geneticamente demoníaco, ter ouvido aquilo apenas soou engraçado, como quando um humano ri de uma piada qualquer. Lin ficou sem respostas de novo para aquilo e só ganhou outra afronta:
— Seja lá quem for que tenha dito isto para você, foi algo muito de mal gosto. Eu sei que sua mente agora deve estar em brasas. Você deve estar tacando todos os livros que leu até hoje nessa fogueira safardana e deve estar puta da vida por causa disso... — ele fez uma pausa e pigarreou, fazendo copinho com a mão destra e colocando o queixo nela. — Mas você não possui o direito de respostas e eu já estou — de repente o dia ensolarado da expressão do demônio começou a trovejar e ganhar cor de fuligem nas nuvens — começando a perder a porcaria da porra... QUE EU CHAMO DE PACIÊNCIA!
— Então, se você quer mesmo me matar, o faça. — Tornou-se serena, esperando.
— Eu o farei. Como havia dito: não sou a corja que tentou coagir você outrora. Começarei arrancando seu cor-!
Ele olhou para cima subitamente quando sentiu uma presença que muito conhecia. A pressão espiritual que pesava o corpo de Lin para o chão de repente fora embora. Ela “aprendeu” a respirar novamente, rápido como num estalo de dedos. Se olhasse para cima e avistasse o cara que fez com que o seu oponente parasse de graça, ela poderia considera-lo um anjo? Estava sobre a ponta do pé destro, no cume da construção gótica da catedral, de braços cruzados. Vestia uma capa negra, esvoaçante por causa do vento que corria, e tinha cabelos cacheados, castanhos, volumosos, mas não longos. Era um blackpower, só que de cabelo bom — Lin mal conseguia ver aquilo, então não sabia se era outro timbirão, ou se era alguém que acabara de chegar para salvar sua pele do timbirão que estava à sua frente. Vamos dizer que ela, então, mesmo que não fosse, acreditou que ele fosse, sim, um anjo. 'Valeu aí, seu anjo, arrombado, gostoso, tesudo, tudo de bom!' — Pensou. Pelo menos agora podia meter o louco no canalha que estava para arrancar sua vida, todavia, né, ela não se daria por vencida de qualquer forma, pelo que ela mesma conhecia de si, mas isso poupou muito um esforço daqueles. Pelo menos era isso o que ela achava. Que poupou. Um tiro no escuro para acertar o vaso da sorte.
— Deixe-a, Adônis. Você sabe que a joia da catástrofe deve permanecer com ela até a hora certa chegar... — Disse ele, lá de cima, e a garota deixou um pesado suspiro fugir. Ela acertou no julgamento e por ora não morreria.
— Você irá me impedir de tomar a joia dela, Sísifo? — Apenas perguntou ao outro com total remanso.
— Não irei impedi-lo, Adônis... você tem o livre arbítrio para fazer o que quiser. — Fechou os olhos e pausou laconicamente — mas sabe que haverá consequências advindas de seus atos, meu companheiro. Controle-se e espere ignóbil. E quanto a você... — O “anjo” lá de cima dardejou o olhar assomado para Lin, imponente, com uma expressão isenta de qualquer sentimento ou traços. — Segue seu rumo e viva o quanto puder desgraçada. Queria lhe matar agora, pelo que vem fazendo com meus companheiros... mas não posso. Todos eles foram cheios de ignomínia para cima de você, então por eles... — assentiu e suspirou — não posso fazer nada. E à sua hora irá chegar.
O “anjo-demônio” sumiu deixando um fapt no vento.
Lin olhou para agora a quem sabemos seu nome. Adônis. Ficou em silente, e seu olhar para ele transpassava um ar de pergunta do tipo ‘e aí? Vai fazer o que então, sacana?’
Adônis apenas sorriu e fez o mesmo fapt, o que fez as pernas de Lin tremerem de alívio.
...Só que ele voltou de novo e Lin saltitou como uma gata após ver um pepino alienígena atrás dela, sem perceber.
— CARALHO, O QUE FOI AGORA?! – Vociferou Lin, exausta.
— Não pense que irá durar muito tempo, garota. Diferente de Sísifo, eu não rogo sorte alguma para contigo. Morra o quanto antes para que eu possa... — Ele se calou ao se dar conta de que poderia, novamente, estar falando demais, e mais uma vez fez fapt. Teletransportou-se e foda-se.
Lin só queria ajuda para segurar esta barra que era odiar você, joia da catástrofe. Ficou plena, olhando para o céu, que nesta altura da tarde, estava ganhando tonalidades de âmbar e degrade em salmão. As nuvens estavam começando a encobrir parcialmente o sol que perdia vigor pouco a pouco, recolhendo-se aos seus aposentos para dar lugar à noite. Os olhos de Lin semicerraram e o cantinho deles lacrimejou quando o vento passou e entrou em contato com ambos. À franja negra e o cabelo lateral encobriu a face de expressão vazia, que ajeitou delicadamente para evitar a coceirinha de cabelo tocando-lhe a tez, e o ardor ao tocar os olhos. Olhou para o chão e de repente se viu sem ele, quando reparou que estava lá, por inteiro, o copo de milk-shake jazido e esparramado. Até sujou um pouco o veludo do coturno, e a cascata desceu o rosto tristonho da garota...
Pobre menina... Tão... Coitadinha...
— E ninguém vai me pagar outro. AIYÃ! EU QUERO MORREEEEEEEEEEEEEEER!
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