H U M A N A
1 Uma nova Era
A tecnologia era a base dos humanos e do mundo, mas hoje em dia ela é muito mais que uma base. Antigamente, aparelhos julgados como modernos e sofisticados não saíam das mãos das pessoas no corre-corre da rotina diária. Tudo mudou, completamente tudo. A tecnologia se difundiu dez vezes mais e ao entrarmos no ano 2096, nos deparamos com várias mudanças que há quase cem anos atrás nem se imaginava tanta tecnologia ao redor dos humanos como se tem hoje. É simplesmente surpreendente a criatividade e a inteligência humana. Uma máquina que dá origem á outras magníficas máquinas. Perfeitas.
O lançamento de novas tecnologias é tão importante para essa sociedade materialista que esses eventos tecnológicos e seus bastidores são transmitidos á todas as residências com aparelhos e receptores de ultima geração, super modernos. Não há grande desigualdade social quando o assunto é aparelhos eletrônicos. As classes mais baixas usufruem da mesma tecnologia que a classe alta utiliza. O governo federal de todos os países no mundo se importavam em dar uma boa educação, saúde e fornecer equipamentos tecnológicos do mais alto nível á todos da classe baixa, em hospitais e escolas, para acesso de todos. Diferente do desprezo com educação e saúde, a tecnologia acessível á todos possibilitou a difusão e o crescimento de conhecimentos e melhoria na qualidade de vida das pessoas, por isso sua importância.
A última novidade que todos estavam á comprar em grande fluxo era o HNM Robot (House Nanny Mother Robot), mais conhecido por MWT96. Um robô capaz de ajudar no serviço de casa, tomar conta das crianças e ainda era capaz de se transformar nas mães que precisavam do robô para se ausentarem de casa. Este robô era treinado. O robô ficava junto da mãe filmando imagens para memorizar suas ações. Memorizava a face das mães e a reproduzia com qualquer expressão através de um holograma realista. O robô também possuía o cheiro e a voz da mãe memorizados e sempre sabia como agir em determinadas situações.
Eles conseguem enganar crianças, não a mim. Desabafa minha mente dando uma gargalhada quando assisto a propaganda da máquina na minha WallScreen ou no SetGlass. O robô possuía uma robótica muito bem estruturada, mas o sistema que utilizaram do holograma não ficou muito bom. Eles podiam ser mais criativos, principalmente trabalhando para um chefão tão casca grossa como Maison Woodland, o engenheiro destes tipos de robôs. Maison era o mais famoso e conhecido engenheiro robótico dos Estados Unidos. Ele é um homem muito inteligente para desenvolver a engenharia robótica, mas seus engenheiros tecnológicos não conseguem acompanhar a perfeição de suas idéias. Ele tenta me desbancar, querendo a todo custo contratar meus funcionários para trabalhar para ele, mas ele não me intimida. Meus funcionários são de confiança. E se um dia isso acontecesse, eles ainda teriam que aprender muito sobre tecnologia para me superar.
Meu pai, Jeremy Sullivan, foi o mais importante cientista e desenvolvedor tecnológico de todos os tempos. Ganhou vários títulos por desenvolver um incrível sistema computacional onde todas as pessoas do mundo haviam aderido sua marca. Ele criou a SWares, empresa de softwares computacionais e tecnologia avançada de ultima geração. Suas máquinas eram conhecidas como SET, Sullivan Engineering Technological, nomenclatura dada pelos usuários às máquinas após sua morte, à exatamente dois anos. Meu pai e Maison eram concorrentes da tecnologia mundial que se tem hoje, mesmo estando em ramos diferentes da engenharia, e desde sua morte, sendo seu filho único, eu assumi o cargo de presidente da SWares.
Não me considero experiente para tal função, mas o amor pela tecnologia está no meu sangue e com grande empenho, tenho conseguido levar a empresa adiante com grande desenvoltura, buscando sempre inovar e criar novas máquinas. A WallScreen e o SetGlass foram invenções minhas depois que entrei na empresa, e vendem mais que os robôs de Maison.
Estou desenvolvendo agora um novo programa, que se chama MiSelf, um pequeno dispositivo que, se aderido a testa e conectado diretamente com o Set iS, um computador de alta tecnologia que toda a sociedade possui criado pelo meu pai, ele tem a função de permitir que você viva momentos inesquecíveis novamente, pois ele agirá em seus neorônios os estimulando. Até aqueles momentos que estão esquecidos no inconsciente da mente humana. Após a experiência, o que só você viu ao experimentar o MiSelf é salvo numa pasta na memória do Set iS, onde qualquer pessoa poderá assistir depois.
Apesar do MiSelf ainda ser um protótipo e estar sendo fornecido á alguns fãs sorteados, o aparelho está sendo testado com êxito. Estas pessoas fizeram a experiência com toda a família e compartilharam com nós desenvolvedores suas opiniões e estamos extasiados com as reações de todos eles. Poder sentir e reviver anos e anos de vivência em um vídeo memorial á sua frente… incrível para eles, estimulante para nós.
Com a repercussão deste protótipo, com o SetWallScreen e o SetGlass, eu tripliquei os milhões da minha herança e a fama da empresa cresceu absolutamente mais rápido do que crescia, ao ponto da SWares e minha imagem estarem empatados empresarialmente e socialmente com Maison Woodland e sua empresa. Com apenas vinte e cinco anos e dois anos de empresa consegui um lugar de respeito na competitividade com um homem que tinha cinqüenta anos e vinte e cinco de carreira.
Apesar de ser um cientista da computação, amar a ciência moderna, eu sou fascinado pela inteligência de criar robótica. Fazer de pedaços de aço inoxidável ou de ferro se transformarem em uma máquina que vive entre nós humanos hoje em dia. Apesar de ter grande vontade de entender mais o mundo robótico, ainda prefiro minhas máquinas digitais.
─ Victor?
─ Estou no laboratório, Peter.
Digo ao apertar um pequeno botão vermelho que havia perto do Set iS da minha mesa. Este botão serve para ecoar minha voz para fora do laboratório. Aquele espaço grande, quadrado e branco, com grandes janelas de vidro, era a prova de som, mas graças á estes pequenos altos falantes potentes embutidos nas paredes, o som lá de dentro podia ser escutado pelo interior da enorme mansão onde moro apertando aquele simples botão.
─ Seu celular estava tocando quando entrei. Acho que pode ser algo importante.
─ Obrigado.
Peter me estende o braço, segurando em sua mão meu celular, o Setphone. Olho a chamada em meu celular, mas não conheço o número. Normalmente, mesmo o número sendo desconhecido, o Setphone localiza a chamada. De repente ele volta a tocar com uma chamada de vídeo. Ponho o SetGlass e atendo, pois os dois aparelhos se conectam estando próximos. Uma tela digital de holograma se forma a minha frente. Do outro lado uma mulher loira, aparentando ter seus quarenta anos. Olhos azuis, cabelo preso, pele bem maquiada, com voz completamente profissional e um tanto imperativa.
─ Senhor Sullivan?
─ Sim.
─ Sou a nova coordenadora do curso de ciência da computação do MIT. Acho que o senhor já ouviu falar em nosso instituto, creio eu…
─ Sim, claro. Meu pai e eu estudamos no MIT. A que lhe devo a honra?
─ Senhor Sullivan, estamos realizando uma semana de palestras para nossos acadêmicos e estamos convidando vários ícones conhecidos, importantes e renomados nas áreas a qual disponibilizamos cursos no MIT. O senhor é um destes ícones, sendo o mais jovem e conhecido ícone da Ciência da computação, nosso mais concorrido curso.
Posso imaginar o quanto é! Grita minha mente com ela.
─ O senhor aceitaria o convite de palestrar suas experiências com a tecnologia para nossos alunos no centro de Computer Science and Artificial Intelligence, nesta próxima Terça, as dez da manhã?
─ Fico surpreso e lisonjeado com o convite.
Na verdade, você, Senhora maquiada, você soou educada e quase tão imperativa ao mesmo tempo que se eu recusasse era capaz de me mandar pastar na mesma hora!. Juro que minha vontade de responder era essa.
─ Sim, claro que aceito. Estarei ai ás dez na próxima Terça.
─ Obrigado senhor Sullivan. Os alunos escolheram o senhor como ícone e agradecemos a sua disponibilidade. Tenha um bom dia.
─ O mesmo, senhora… ? ─ Arqueio uma sobrancelha.
─ Senhora Willford.
─ O mesmo senhora Willford.
─ Obrigado senhor Sullivan.
Desligo o celular e retiro o SetGlass.
Uma palestra para alunos e pesquisadores da ciência da computação e inteligência artificial. Eu tenho que levar discussões bem interessantes para esse público. Estes alunos serão os próximos cientistas que levarão a tecnologia de hoje adiante e eles precisam de algo inspirador. Tem que ser um debate em tanto.
─ Palestra no MIT próxima Terça. ─ Falo para Peter.
─ Muito bom, Victor! Já tem alguma idéia do que vai apresentar na palestra?
Ciência da computação e Inteligência artificial. Lembra-me minha mente. Roço minha barba ao pensar na incrível possibilidade de…
─ Talvez eu possa falar sobre aquele novo robô do Maison, o MWT96.
─ Posso acompanhá-lo? ─ Diz ele instintivamente.
─ Claro, afinal você é meu ajudante e acredito que também tenha suas opiniões sobre o MWT96.
─ Sim, Victor. Entendemos de tecnologia e temos um olhar profundo para essas máquinas.
Balanço a cabeça assentindo com sua afirmação, rodando a cadeira onde estava sentado no sentido horário, parando de frente a Peter, que vestia o jaleco e sentava na cadeira ao meu lado, pronto para continuarmos com o MiSelf.
Era no laboratório da minha casa que eu desenvolvia as novas tecnologias da SWares. Peter foi um grande amigo que fiz no MIT enquanto estudava. Ele é um homem dedicado á tecnologia desde que o conheci e ele me ajuda desde que assumi a empresa. Peter é o único o qual confio a entrada no laboratório. Ninguém mais além de nós tem acesso ao que tem aqui dentro e acho que mais ninguém terá essa confiança toda em mãos. Deste laboratório sai tecnologia, e ali havia mais que tecnologia, havia uma super tecnologia. Havia uma nova base surgindo para a sociedade que se tem hoje.
PARTE 2
SAMANTHA WOODLAND
Mais uma manhã de aula no MIT. Não consigo disfarçar minha insegurança quanto ao meu cabelo loiro bagunçado. Será que está aparecendo?. Acho que isso não importa neste momento. Os professores adoram utilizar o SetWallScreen para dar aula, mesmo que o aluno não quisesse assistir, utilizando também o SetGlass, desconfortável e acima de tudo um aparelho persuasivo. Para onde quer que você olha, um holograma com o assunto da WallScreen se forma a sua frente. Não era obrigado utilizar o SetGlass, mas nas aulas do Doutor Smith era. Todos tinham que estar usando e eu me via obrigada á retirar os óculos de nerd.
Raphael, meu amigo de alguns anos aqui no MIT, é o que mais se interessa por estas tecnologias visuais. Na minha opinião, é muita tecnologia para pouca saúde. Depois que a tecnologia se difundiu e cresceu em toda sociedade mundana, a visão, a audição e principalmente as funções motoras das mãos estavam sendo afetadas. Isso tudo sem contar com o número recorde de casos de aparecimento de tumores devido ao aumento de ondas eletromagnéticas proporcional á difusão tecnológica. A tecnologia nos ajuda e nos prejudica ao mesmo tempo, por isso que a saúde se desenvolveu, mas ainda não é o suficiente para fazer a diferença. Eles dizem que estas tecnologias que se tem hoje ajuda na educação e na saúde. Na educação pode até ser, mas pra quem conhece a saúde sabe que não é bem assim.
A aula termina e a tela a minha frente desaparece, voltando meu foco para a sala.
Raphael sempre me ajudava a levar meus pesados livros. Biologia, anatomia, citologia, genética e tecnologia artificial.
─ Livro sobre Tecnologia, Caroline?! ─ Ele me olha rindo.
─ Mesmo não sendo muito a favor, eu tenho que tentar relacioná-la com minha medicina.
Ele dá um sorriso para mim e continua a olhar para frente.
Caminhamos até um banco de madeira embaixo de uma árvore e nos sentamos. Eu consigo ver Renee vindo de longe correndo ao nosso encontro. Renee é minha prima, melhor amiga e me conhece melhor do que muita gente. Só ela conhece meu verdadeiro eu e quem realmente sou. Minha mente e suas opiniões. Ela é estudante do curso de Ciência da computação e sua grande influência era Victor Sullivan, o jovem que é inteligente, milionário e solteiro, segundo ela. Pra mim ele não passava de um cientista tecnólogo que conseguiu fama as custas da morte do pai.
─ Olá Renee! ─ A recebo sorrindo.
─ Oi Caroline, oi Raphael.
─ Pode contar Renee. ─ Raphael percebe sua empolgação e tapa os ouvidos.
Renee revira os olhos como se ela quisesse que ele não fizesse aquilo toda vez que ela estivesse empolgada. Tudo que Renee fala é levado na brincadeira por Raphael, e caso ele não saiba, isso é muito desconfortável não ser levada á sério.
─ Acabei de saber pela coordenadoria do meu curso que o MIT fará semana que vem algo diferente, por ser aniversário do instituto…
─ Todo ano eles fazem algo diferente, Renee! ─ Raphael a interrompe.
─ Ei! Deixa ela terminar. Pela euforia deve ser algo importante. ─ Alerto.
─ Claro que é, Caroline! E sim, eles sempre fazem algo diferente, mas este ano será melhor! ─ Consigo ver o brilho contagiante nos olhos dela. ─ Eles farão uma semana de palestras com vários ícones, um cada dia, durante a semana toda e um para cada curso. Dentre eles estarão Doutor Schnutz, o cirurgião; Marilyn Brooks, a dona da maior rede de hospitais privados dos Estados Unidos…
─ Ela é incrível! ─ O queixo de Raphael cai ao ouvir seu nome.
─ E nada mais, nada menos que Maison Woodland e Victor Sullivan, engenheiro robótico e engenheiro de softwares mais importantes da atualidade!
─ Victor Sullivan?! ─ Eu fico surpresa.
─ Isso, ele mesmo. Quem quiser participar das palestras tem que pegar os tickets limitados nas coordenações.
─ Renee… ─ fala Raphael delicadamente após a informação. ─ eu, no caso, posso participar de outra palestra que não seja da minha área? Adoraria conhecer Maison Woodland. Depois que Caroline me presenteou a miniatura robótica no meu aniversário fiquei mais curioso ainda para conhecê-lo. E sou muito agradecido pelo presente Carol, principalmente porque sei que deve ter gastado todo o seu salário da lanchonete nele. ─ ele acaricia minha mão.
Ele segura minha mão um pouco forte com uma expressão calorosa, singela. Eu contraio os lábios e sorrio. Um sorriso tímido e um olhar metralhador para Renee mudar de assunto.
─ Ah… ─ ela chama a atenção dele. ─ Não Raphael, acredito que só possa participar de palestras do seu curso.
─ É Raphael, não é desta vez que vai conhecer Maison Woodland.
E ao dizer isso, Renee e eu não nos seguramos e começamos a rir. Raphael fica decepcionado com a idéia de não conhecer aquele homem. Ele despede-se naquele ultimo dia de aula da semana.
─ Vou indo nessa. Vocês vão para a festa na casa do Bio amanhã?
─ Não. ─ Digo eu.
─ Sim. ─ Diz Renee. Ela me olha rápido. ─ Talvez eu vá.
─ Ok. Vejo você lá. ─ Raphael vai andando em direção á saída do MIT.
Ele vai embora e Renee senta. Ela me olha e revira os olhos ao ver Raphael indo embora, reprovando alguma atitude vinda dele.
─ Não suporto o jeito de Raphael debochar do que falo.
─ Não se preocupe. Um dia isso se esclarece… ou piora de vez. ─ Eu debocho.
─ Você e seu senso de humor ridículo! ─ Diz ela sorrindo. ─ Bom, já estou com meu ticket, ansiosa para ver Victor Sullivan! ─ Ela não consegue esconder a empolgação.
─ Queria saber o que ele vai falar na palestra… você sabe?
─ Com certeza ele vai falar do robô do seu pai, se é isso que quer saber.
─ Renee! ─ A repreendo. ─ Não fale isso aqui! Alguém pode escutar. ─ Falo baixo.
─ Desculpa. Mas acredito que ele vai falar e comentar o que pensa.
Eu fico a olhá-la com uma cara de que só ela sabe do que se trata. Fiz meu melhor arqueamento de sobrancelha e meu melhor olhar idealista dessa galáxia. Contraio os lábios para o lado esquerdo da minha face e a olho de lado, arqueando a sobrancelha direita.
─ Já vi que vem bomba pro meu lado! ─ Ela fala deixando de me olhar e olhando as pessoas caminharem naquele imenso campus gramado.
Renee cruza as pernas e me mostra a mão esquerda estendida na altura da minha face, sinalizando que eu parasse de fazer aquilo que possivelmente ela não iria fazer parte do plano que eu estava a planejar em mente. Ela é esperta, sabe que eu estou pensando em algo e preciso da ajuda dela. Eu sou insistente, não sou dessas que desiste fácil. Eu sei como convencer qualquer um, até chegar ao meu objetivo. Antiga tática do arqueamento de sobrancelhas e um olhar fuzilador no rosto pra se conseguir o que quer.
─ Está bem, Caroline Watson. O que você quer desta vez?
Renee levanta as mãos para cima, como se estivesse sendo detida pela polícia e olha para mim. Eu não pude conter a minha expressão de alegria no momento. Consegui! Eu sabia!.
─ Participar da palestra de Victor Sullivan. ─ Sorrio.
─ O quê?! ─ Ela mostra muito espanto com o que ouviu. ─ Você querendo assistir uma palestra de Victor Sullivan?!
─ Isso.
─ Pra quê, Caroline?
─ Curiosidade, Renee! Eu também posso ser curiosa, não posso?
─ E onde entro nessa história? ─ Ela levanta-se e apóia as mãos na cintura.
─ Eu sei que você joga um charmezinho para o coordenador do seu curso e ele é louco pra te agarrar que eu sei…
─ E…? ─ Renee faz uma expressão de tímida, mas continua na mesma posição.
─ E você podia falar com ele e arranjar um ticket para mim, já que sou do curso de medicina. Quero assistir a palestra do Doutor Schnutz, mas também quero assistir a de Victor. Você pode fazer isso?
─ Claro que sim. Isso é fácil. O único problema, pelo que vi na programação, é que as palestras são no mesmo dia com uma diferença de uma hora. A de Victor é as dez e a do Doutor Schnutz é as onze.
─ Sem problemas. Só quero ter a chance de conhecer as idéias dele.
─ E o que eu ganho com isso? ─ Renee cruza os braços.
─ Quando chegarmos no ônibus conversamos. ─ Eu sorrio fazendo o gesto de aspas com os dedos ao falar a palavra ônibus.
─ Certo, no ônibus.
Renee também faz com os dedos o gesto de aspas quando fala a palavra ônibus, para enfatizar o que nós estaríamos escondendo por trás deste gesto, para que ninguém descubra o que realmente estamos falando.
Ela me ajuda a segurar os livros pesados. Sinto que meu coque folgado do cabelo está soltando e meu óculos com armação preta está escorregando do meu rosto. Ao pararmos em frente á um espaço vazio na rua por trás do MIT, eu olho os lados da avenida para ter certeza de que ninguém do MIT estivesse passando, e quando tive certeza que não havia mais ninguém na rua além de Renee e eu, saquei um pequeno controle de dentro da minha mochila, que possuía apenas um único botão.
Sem esperar, aperto esse botão e jogo o controle rapidamente em direção á rua vazia e acontece o espetáculo tecnológico mais incrível do mundo na minha opinião, que me maravilha toda. O pequeno controle começa a se abrir e em exatos seis segundos meu carro preto fica totalmente perfeito na minha frente. Lanço outro olhar para os lados e me apresso para entrar no veículo junto com Renee. Retiro a peruca loira e a ponho junto com os livros no banco de trás. Essa peruca ainda vai me prestar muitos serviços. Minha mente sorri. Mexo meus cabelos longos e escuros e retiro o óculos de grau, colocando um óculos escuro, estilo aviador, que estava guardado dentro da caixa no porta luvas. Esse modelo de óculos é perfeito, bem retrô.
─ Por que você ainda usa esses óculos de grau?
─ Porque eles fazem parte de Caroline. ─ Sorrio.
─ Já que estou falando com Samantha Woodland, o que vou ganhar com o favor que vou fazer á Caroline? ─ Ela me olha arqueando as sobrancelhas como fiz na hora que a pedi o favor.
─ Bom Renee, de mim você vai ganhar um bônus na sua conta bancária. Caroline só poderia te dar um obrigado. ─ Eu gargalho. ─ Pobre Rafael, pensa que Caroline gastou todo o salário do emprego na lanchonete com a miniatura que foi presenteado. ─ Faço uma cara de pena e logo sorrio. Renee faz o mesmo.
─ Até quando você vai se disfarçar de Caroline? ─ Ela olha para mim séria.
─ Não sei… eu gosto da meiguice e inocência dela. Bem diferente da cara dura e séria que não sai de mim.
Incrível como minha personalidade muda junto com o disfarce!
─ Você tem que ser as duas em uma só, Samantha… não seja tão séria, e nem seja tão divertida. Saiba moderar as duas.
─ Melhor não. Samantha é Samantha, Caroline é Caroline. Okay? ─ Olho para ela.
Ela dá de ombros e ali eu dei um ponto naquele assunto, o que me interessa mesmo naquela história era a palestra de Victor Sullivan. Apesar de Caroline não aprovar essa atitude como estudante, Samantha se interessa pela associação da tecnologia com a medicina. Mesmo todos que conhecem Samantha não sabendo que ela faz parte dessa área também.
As vezes penso que esta história está me levando á ter dupla personalidade, mas com um único objetivo. Meu pai é robótico, Victor cientista computacional e eu médica… o que preciso para concluir minha experiência. Não posso perder o foco e é nesta palestra onde eu irei descobrir o que a tecnologia é realmente capaz de fazer e até onde ela poderá me ajudar na minha pesquisa em benefício da sociedade.
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