Hölle
18 Catoptric tristesse
Notas iniciais
Ser uma decepção está no meu código genético, eu penso. Não quero atribuir todas as escolhas e decisões equivocadas, que venho tomando desde que nasci, a minha própria burrice. É mais fácil pensar que é algo intrínseco a minha pessoa, além do meu controle, como ter cabelo escuro ou músculos cobrindo os ossos. Obviamente, não posso apresentar essa tese de defesa a Lúcifer e Lilith. Além do que, imagino que não fará diferença. Os fatos são: eu estou aqui, Dana não cometeu suicidio. Eu não completei a tarefa.
Desde que abri os olhos e me deparei com o escritório antiquado, espero a aparição deles. Corro os dedos pelo braço da cadeira, conto os riscos na madeira da mesa, enumero os livros da estante, penso em tudo o que fiz, evito pensar em Dana. Respiro fundo e repito tudo de novo. Chego a pensar que a espera faz parte da tortura. Na vigésima sexta repetição, a porta se abre. Lilith, Lúcifer e Astarte entram na sala. Para o meu crédito, não desvio o olhar.
Eles estão exatamente iguais a ultima vez que os vi. Bom, aparentemente. A temperatura na sala parece subir, ou eu estou à beira de um colapso. O sorriso de Lilith ainda é eletrizante, mas dessa vez a alta voltagem me repele e me sinto um inseto preso em seus olhos âmbar. O sorriso de Astarte é quase maníaco. Não consigo ler o rosto de Lúcifer.
Nós se apertam em meu estômago quando Astarte fica de pé ao meu lado e Lilith e Lúcifer se posicionam do outro lado da mesa. Pulo na cadeira ao sentir a mão de Astarte em meu ombro. Ela sorri para mim, compreensiva, mas sua expressão é séria quando ela volta a olhar pra frente.
Isso esclarece tudo. É o meu julgamento.
— Cameron Malloch. Eu não esperava que fôssemos nos encontrar tão cedo. — Lúcifer começa.
— E aqui estamos nós. — Lilith completa — O que você tem a dizer?
— Eu não queria estar aqui.
— Então somos quatro. Mais alguma coisa? — Lúcifer sorri, puxando uma cadeira para ele e uma para Lilith.
Balanço a cabeça finalmente olhando para meus pés descalços. Entre um plano e outro voltei as antigas roupas, reconheço o pijama que estava usando quando morri e a terra embaixo de minhas unhas.
— Senhores. — Astarte se senta em uma cadeira que não estava lá a um segundo antes. — Acredito que o Cameron merece mais uma chance.
Meus olhos disparam para os dois. Espero que eles riam ou revirem os olhos ou só discordem, mas Lilith assente formalmente e Lúcifer cruza os dedos sobre a mesa.
— O que lhe leva a pensar isso, Astarte? — Lilith pergunta e nós se apertam em minha garganta.
— A senhora está ciente que ele não desistiu da tarefa. Cameron estava empenhado em perturbar o garoto desde o primeiro dia. Ele conseguiu o acesso a mente do Objeto e não precisou se utilizar disso para levá-lo ao fim.
— Sim, formidável da sua parte, Cam. O desespero e a dor que o objeto sentiu, — Lúcifer respira fundo, como se pudesse aspirar os sentimentos. — estava tudo indo perfeito. Mas o Objeto não está aqui, está? — Ele arqueia a sobrancelha esperando Astarte confirmar.
— Não, senhor.
— E o Cameron está.
— Sim, senhora.
— Então, por favor, elabore. — Lilith assente novamente, o menor dos sorrisos em seus lábios.
Cerro os punhos em meu colo. Quero cutucar Astarte e sussurrar que ela não precisa se incomodar, que eu estou pronto para ir pro Inferno e queimar até o fim dos tempos, mas a reações dos juízes — e é exatamente isso que eles são, me dá um pouco de esperança e é perigoso. Minha cabeça mal processa o elogio de Lúcifer. Quando eles negarem, seja lá o que ela vai pedir, sinto que vou chorar.
— O Cameron não está aqui porque desistiu. Ele não está aqui porque decidiu que o Objeto era muito trabalhoso. Ele está aqui porque um Anjo o mandou pra cá. Nem mesmo o senhor e a senhora poderiam revidar, caso tivessem a infelicidade de encontrar um durante uma tarefa.
— De fato que não. Todavia, Anjos só tem o poder de interferir caso o demônio esteja agindo sobre outra pessoa que não o Objeto. É um risco assumido. — Lilith tamborila as unhas em seu queixo, pensativa. Ela está considerando, céus, ela está considerando.
— O Cameron será mais cauteloso na próxima vez. — Astarte adiciona, a mão em meu ombro relaxando.
— Histórico. — Lúcifer diz e o encaro. Eu deveria estar tomando notas todo esse tempo?
Astarte estende um envelope preto sobre a mesa. Sobre a capa o meu selo brilha. Lilith o puxa para si.
— Nós iremos deliberar. — Somos dispensados com um abanar da mão de Lúcifer.
Sigo Astarte pela porta e estamos no corredor que leva ao Submundo. A porta bate atrás de nós e ela se encosta na parede.
Seus olhos cor de cobre brilham. Ela parece algumas décadas mais jovem sem a expressão séria, o que é incrível visto que demônios não envelhecem. Astarte sorri e me segura pelos ombros.
— E aí? Como foi? — Sua voz soa perigosamente como um grito.
— O que?
— Lá embaixo — Ela me sacode levemente — Sua primeira experiência?
— Eu achei que você soubesse, você não estava me defendendo? — nem mesmo minha confusão atenua seu entusiasmo.
— Não! O seu Histórico grava apenas as suas ações. Eu quero saber como você se sentiu. Como foi?
— Bom.
— E o que mais? — mais uma sacudida — você fez coisas tão inovadoras, provavelmente lançou uma tendência ou duas.
— Inovadoras?
— Sim. São poucos os demônios dispostos a trabalhar como você.
— Como eu trabalhei? — Só consigo repetir as palavras como um papagaio. Astarte me solta para articular quando responder.
— A mistura entre as ofertas de amizade e o terror noturno. Você dá com uma mão e tira com a outra. Alterna entre um tapa e um beijo. E matar a irmã dele bem na sua frente? Quando ele já havia desistido? Ah, a cereja do bolo. Cruel. Eu sei que eles vão te dar mais uma chance, eles querem ver você fazer isso de novo e chegar ao final dessa vez. Mas não se espante se você receber uma punição.
— Eu não entendo.
— O quê?
— Porque você está me defendendo e me contando isso. — Astarte aperta minha bochecha e seus lábios formam um biquinho. Gostaria que ela me ensinasse a criar facetas tão distintas quanto às suas.
— É porque eu te criei, fofinho.
Risco a folha com força. Risco com tanta força que o papel se rasga. Minha professora se aproxima da mesa, a desaprovação aparente em seu rosto.
— Cameron, você tem que ser mais delicado.
Não tem não, a voz em minha cabeça responde.
— Desculpa — murmuro de cabeça baixa.
Crianças correm e gritam ao meu redor. Rostos sorridentes, suados. Eu deveria me juntar a eles, eu quero me juntar a eles, mas não consigo silenciar o ‘eles não valem o seu tempo’ insistente que ressoa em minha cabeça tão alto que fecho os olhos. Quando os abro novamente, não olho para as outras crianças.
A enfermeira coloca o prato de comida na minha frente. Ela se vira para o fogão e continua cozinhando, assoviando uma música. Eu não quero que ela faça barulho. Meu pai sempre está me mandando não fazer barulho, porque machuca minha mãe. Porque ela pode e eu não?
Ela vai ficar calada quando estiver morta. Enfio uma colher de purê na boca, e depois duas, e depois três. Quero sair de perto dela o mais rápido possível. Ela começa a cantarolar. A colher não está em minha boca, está atingindo a enfermeirano meio das costas.
— CALA A BOCA, CALA A BOCA.
O olhar chocado em seu rosto me diz tudo o que eu preciso saber. Corro para o meu quarto o mais silenciosamente que consigo.
— Ele é um rapazinho muito bonito, parece com você. — A mulher sorri para mim do banco da frente. Ela tem cabelos vermelhos como fogo e olhos verdes brilhantes.
Meu pai limpa a garganta quando não respondo.
— Cameron, a moça está fazendo um elogio. Agradeça.
Você vai me agradecer quando eu furar seu olho com esse lápis. Sorrio para a folha em meu colo. Já sei o que quero desenhar.
As cortinas no quarto da minha mãe são brancas. Às vezes, quando a porta está aberta, vejo ela parada encarando a cortina. Hoje ela está deitada. Então quem é a mulher parada ao lado da cama? A mulher vira para mim, um dedo sobre os lábios.
Bato a porta do quarto atrás de mim. No escuro, consigo acalmar as batidas frenéticas do meu coração. O que eu vou fazer? Bellona precisa saber. Mas, mesmo que ela saiba, o que ela pode fazer? Eu preciso fazer alguma coisa, e rápido. A julgar pela rotina de Amatore, ele deve estar em casa dentro das próximas duas horas. Com a cabeça entre os joelhos, procuro uma solução. Eu não tenho avós, tios, muito menos amigos a quem recorrer.
Mate. Mate eles. Se mate depois.
A voz em minha cabeça, a voz que eu pensei ser a minha própria, ordena e eu considero. Quando levanto a cabeça, estou com uma faca na mão. A mulher loira sorri para mim e aperta meus dedos contra o cabo.
Eu guio você.
Astarte assopra uma mecha do meu cabelo.
— Quando você morre, as memórias do seu demônio são temporariamente apagadas. Seria trapaça ter um Objeto e saber praticamente o que fazer desde a primeira vez.
— Porque? Como é que eu tive um demônio desde criança e — o nome queima meus lábios — o Dana só na adolescência?
Ela dá de ombros.
— Nós recebemos os arquivos Lá de Cima. Talvez sejam pessoas que Eles achem que devem ser castigadas. Eu nunca questionei.
Que grande pecado um feto cometeu? Eu não sei. Isso é tão injusto. Como eu poderia saber? Como eu poderia ter resistido mais um dia, quando vinha lutando contra meus próprios pensamentos — quer dizer, os de Astarte — desde que nasci?
— Você não parece muito feliz com a descoberta.
— Eu deveria ter feito como você.
— Que parte?
— Eu deveria ter convencido ele a matar Eleonora.
— Ah, que isso! Existem mais de mil formas de acabar com uma pessoa. O seu Dana, por exemplo, um dos maiores medos que ele tinha era intimidade. Faria sentido você afastá-lo de outras pessoas, como eu fiz com você, quando distância era exatamente o que ele queria?
Abro e fecho a boca várias vezes como um peixe fora d'água.
— O que mais você sabe sobre o meu Dana?
— Não muito. A mãe dele foi Objeto de um colega meu, Dagon. Ela está aqui faz um bom tempo. Eu não tenho certeza, o tempo passa muito rápido aqui embaixo.
Dana estava certo. Não posso confirmar sua outra fala, pelo menos, não inteiramente.
— Existe um céu? — Astarte sorri com a pergunta como se eu tivesse lhe perguntado porque o céu é azul.
— Sim. E você deve estar pensando que é o Paraíso, um lugar de recompensa e êxtase eterno. Na verdade... Imagine isso. O mundo é um prédio. O céu é a administração que fica na cobertura. Em cima da cobertura existe um terraço. Nós somos a limpeza e ficamos no porão. Todo o resto são as pessoas vivendo. Quando elas morrem, o elevador desce ou sobe. Se descer, elas são punidas ou remanejadas aqui. Se subir, elas são agraciadas ou remanejadas. Quer dizer, assim como você é um demônio, uma pessoa pode ser um anjo.
— Mas você disse agraciadas-
— A versão Deles disso é o fim de tudo. Se você foi uma ótima pessoa, sua alma literalmente desaparece. Essa é a noção deles de recompensa. As pessoas pulam do terraço.
— Há quanto tempo você está aqui?
— Desde que construíram o prédio. — Astarte pisca pra mim.
A porta se abre sozinha e o rangido das dobradiças faz chumbo se formar em meus pés. Minhas pernas tremem a cada passo até a mesa. Com o resto de minhas forças, fito Lilith e Lúcifer, mas suas expressões são vazias. É pior do que se eles estivessem com raiva.
— Cam, nós deixamos claro quais seriam as consequências caso você não conseguisse.
— Você não conseguiu, no entanto, Lilith e eu acreditamos que dada uma nova situação, você teria êxito.
— Por não completar sua tarefa, nós te sentenciamos a mil anos de tortura no Inferno.
— Quando você cumprir seu tempo, irá ser apontado a um novo Objeto.
Astarte sorri e belisca minha mão. Lúcifer e Lilith, em perfeita sincronia, se levantam e estendem suas mãos e os símbolos no dorso brilham como na primeira vez e eu não consigo evitar estender a minha própria onde minha marca incandescente fica cada vez mais e mais luminosa.
Fogo se espalha pelo meu corpo de onde nossas mãos se tocam.
Fim
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