Híbrido
64 Weakness
Notas iniciais
"Mas tipo assim... vocês se pegaram?! E na cama?!" perguntou Emma com uma exagerada expressão de incredulidade. Estava sentada no chão com as pernas cruzadas, levemente inclinada em minha direção, eu estava sobre a cama. Revirei os olhos e assenti rindo e ela me tacou uma almofada que estava segurando. "E depois? Não me diga que..."
"Não!" gritei antes que ela pensasse alguma besteira. Bom, foi quase, mas... "Pior, Jared chegou!"
"O que?! Vocês fizeram uma ménage? MEU DEUS KATE! Há quanto tempo esse quarto é point pra suruba?" ela ria. "Por alguma razão eu não acho mais seguro ficar num mesmo quarto com você." Eu ri.
"Ah..." fiz um beicinho. "É uma pena. Eu tenho queda por loiras, sabe?" Emma arregalou um pouco os olhos, depois relaxou quando eu comecei a rir. "Estou só brincando. Acho que isso não vai mais acontecer."
"Tudo bem, mas você não terminou de contar." Ela grunhiu. "O que houve depois que o Jared chegou? E como ele teve coragem de vir aqui depois de quase ter te matado? Juro amiga, vou acabar com ele por ter te magoado!"
"Nós nos beijamos." falei numa espécie de murmúrio, com um suspiro exasperado.
"O QUE?!" ela deixou o queixo cair e bateu com as costas brutamente no armário. "Vocês transaram de novo? Kate..."
"Não, Jenna o expulsou a vassouradas" sorri por um momento, mas logo o sorriso se desfez de meus lábios. "Mas não vou mentir pra você, amiga. Durante esses três dias que se passaram, tenho entrado na mente dele enquanto ele dorme. Ele anda tendo..." fiz um gesto nervoso com as mãos. "Lembranças comigo. Algumas antigas, outras recentes." Bufei.
Emma me encarou com um olhar de pena. Eu estava sendo tão patética assim? Levantei-me e fui até o armário. Emma se sentou na cama enquanto eu procurava alguma coisa para vestir aquela noite. Era a noite da festa da empresa de Isaac, meu último fim de semana de férias.
"Não sei o que vestir." murmurei e Emma surgiu do meu lado mexendo junto comigo.
"Esse!" Ela tirou um cabide que segurava um vestido justo, com um decote cavado e com a bainha enfeitada por renda preta, assim como a alça grossa, a estampa de porcelana portuguesa em variados tons de azul com finas linhas lilás sobre o tecido marfim. Era lindo. Não me lembrava de tê-lo comprado. Emma me arrumou e arrumou Fleur.
Não sabíamos onde Jenna estava e Isaac ficaria decepcionado se ela não fosse. Fleur estava com um lindo vestido longo e azul celeste de cetim de alças finas e frente-única. A peça realçava seus olhos verdes e seus lindos cachos loiros. Emma havia posto meu cabelo para um lado só, e feito uma maquiagem escura, que intensificava o tom da minha íris, estávamos lindas.
"Obrigada amiga." falei num suspiro e sorri para o espelho, ainda me admirando. "Queria tanto que viesse conosco."
"Não, vou passar a noite agarrada com meu ruivo." Sorriu com satisfação.
"Aproveite lá por mim!"
"Uau, que lindas flores estou vendo aqui." disse Jenna atrás de nós. Nos viramos e meu queixo caiu. Jenna estava linda, vestia um simples vestido preto até um pouco acima dos joelhos, as mangas longas e soltas, num tecido transparente. Ela calçava sandálias pretas de salto-agulha, no pescoço pendia um colar, com uma pequena joia vermelha. Nos olhos um lápis preto e um batom super vermelho nos lábios.
"Ai meu Deus. Isaac vai ter um ataque." Falei pondo a mão sobre minha testa, sem desviar os olhos de Jen.
"Mãe! Onde conseguiu essa roupa?"
"Uma coisa velha e emprestada." Disse olhando para si mesma e sorriu para nós. "Vamos, a ‘limusine’ já está lá na frente." revirou os olhos e saiu andando.
A festa aconteceu em um hotel antigo. Uma música clássica estava tocando e o doce som da orquestra ecoava pelo extenso salão. Pisos decorados, assim como o teto, desenhos de anjos e homens sob o calcário branco e bem esculpido, anjos descendo dos céus com suas formas delineadas em dourado como uma aura de ouro. Suas feições eram rosadas e angelicais. Juntavam-se com, por algumas características de tamanho físico, os Nephilim. A história era contada através das imagens no teto, à medida que se caminhava pelo salão, mais se via.
Eles seguiam para uma guerra, um anjo de cabelos loiros empunhava uma adaga dourada e brilhante. Eu queria poder ver mais de perto. Bem depois, além do salão, estava um homem empunhando uma adaga de cor negra. Ele estava sozinho, aparentemente. Era possível ver as sombras no chão atrás dele.
"É a profecia." A voz de Isaac sussurrada em meu ouvido me pegou de surpresa e eu dei um salto fazendo-o rir. "Entre Luz e Sombra a batalha travará, e o destino do mundo, nas mãos da luz, estará." disse Isaac como se declamasse uma poesia. "Eu acho que é isso. Não tenho certeza." Deu de ombros.
"É a profecia dos gêmeos, certo?" perguntei.
"Sim, a criança da luz e a criança das sombras. O Equilíbrio."
"Por que a profecia está sendo retratada aqui, no salão desse hotel?" franzi o cenho.
"Esse hotel pertence à Harahel. Ele é um pouco dramático e gostava de ter a história sempre à vista, para que nunca se esquecesse do quanto é importante." tomou um gole de sua bebida distraidamente. "Então... Jenna veio?"
Sorri.
"Sim, ela veio." olhei em volta. "Está por aí. E se me permite dizer, ela está linda, Isaac."
"Ela sempre está." Disse ele suspirante.
"Falo sério." Eu ri. "É melhor tomar cuidado, ou pode ter um infarto."
"Obrigado pelo aviso, Kate." Respondeu ele sorrindo, mas não olhou para mim. Seus olhos dançavam pelo salão, provavelmente à procura de Jenna. "Acho melhor eu ir procura-la antes que outra pessoa o faça. Sinta-se à vontade, Katherine. A festa é sua." deu-me dois tapinhas no ombro. Ri e peguei uma taça de champanhe sobre a bandeja equilibrada pelo garçom que passava ao meu lado.
"Na profecia diz que a criança das sombras é promissora, forte e determinada. Um vencedor nato." ouvi a voz de Jared atrás de mim. O olhei por cima do ombro, ele encarava o teto, mas depois me olhou rapidamente de canto.
Segui meu caminho, e minha taça foi tomada de minha mão. Virei para protestar com Jared, mas ele já havia esvaziado a taça em uma única golada. Avaliou-me de cima a baixo e tentou esconder um sorriso revirando os olhos, desviando o olhar, mas por fim seus lábios não se contiveram e um sorriso floresceu fazendo meu coração disparar. Revirei os olhos e comecei a caminhar para longe dele em passos firmes, mas ele segurou meu pulso, impedindo-me de me afastar. Por que eu não fiquei surpresa?
"Me solta." pedi calmamente, porém firme, olhando-o nos olhos. Ele se aproximou e me olhou mais fundo. Os músculos de sua mandíbula se retesaram, seu cenho se contraiu. Sacudi meu pulso soltando-me dele, mas ele me enlaçou pela cintura, nos deixando cara a cara.
"Sem escândalo bruxinha, precisamos conversar." falou em um sussurro autoritário.
Colocou-me ao seu lado, guiando-me através da multidão. Tentei me soltar, seu toque me enojava, mas me mantive firmemente presa contra seu corpo. Um fotógrafo surgiu em nosso caminho, me dando apenas tempo de virar o rosto, evitando o forte flash que me feriu os olhos, mas encontrei os de Jared ao fazê-lo. Ele franziu o cenho e respirou fundo. Caminhamos pelo salão até chegarmos à varanda. Jared me jogou para o lado de fora e empurrou a grande porta de vidro atrás de si. Marchou calma e perigosamente até mim, havia um brilho estranho em seu olhar, mas ele estava bravo? Com o que?! Antes que ele pudesse me fazer qualquer mal, me defendi da única maneira que eu podia enviando-lhe as lembranças novamente, ele deu um passo pra trás soltando um grunhido, logo caíra de joelhos no chão.
Mantive as lembranças em sua mente, procurando mais e mais em minha própria mente.
"Pare!" grunhiu.
"Se eu parar, você vai me queimar de novo. Eu vejo nos seus olhos, eu não confio mais em você! Não vou deixar que chegue perto de mim outra vez!" exaltei.
Ele começou a engatinhar em minha direção, seus músculos fraquejavam e seus braços tremiam enquanto ele encurtava a distância entre nós. Continuei a enviar-lhe lembranças, aquelas que continham meus sentimentos mais vívidos e mais puros e ele grunhiu mais alto. O sangue escorria por seu nariz e para minha surpresa, agora saía de sua boca também, conforme ele tossia, engasgado, sufocado. Ele lutou para respirar. De repente, hesitei, cogitando se eu devia parar, sentar em seu colo e cuidar dele, acariciando seus cabelos, confortando tanto a ele quanto a mim. Mas eu queria que ele sofresse da mesma forma como eu sofri e ele não estava nem perto de passar pelo que eu passei. Esse pensamento alimentou meu ódio com uma fúria fria e sólida.
"Pare!" Ele implorava com urgência, embora sua voz não passasse de um lamento entrecortado. "Por que está fazendo isso?" sua voz tremia tanto quanto seu corpo, subjugado aos meus pés.
"Você merece pagar por tudo o que fez!" gritei, mantendo-me firme. Eu me sentia forte. Então ele começou a temer mais, mas ele não caía. Na verdade, ele se erguia.
Ele ficou sob um joelho, e tentou se levantar aos poucos, lutando a favor de sua própria força, contra o peso de sua dor que o empurrava para baixo. Ele estava resistindo. Com muita dificuldade e Jared se pôs de pé.
Olhei para ele assustada, eu não sabia o que fazer. Minhas lembranças simplesmente não lhe causavam nada. Não. Causavam sim. A dor ainda estava ali, eu via a dor que ele sentia em cada parte de seu corpo rígido, trêmulo, e em seu rosto ensanguentado. Ele estava suando frio e avançando cada vez mais em minha direção.
"Eu sempre soube que era você Katherine." falou e pude perceber sua dificuldade para falar, para conter o impulso de gritar e se entregar à dor. Sua respiração era fraca, mas ele insistia com tudo o que tinha. Em algum momento ele agarrou sua camisa e arrebentou os primeiros botões expondo a pele clara de seu peito também manchada de sangue.
Eu me vi prendendo a respiração. Eu estava imóvel, como se me preparasse para o ataque de um animal feroz e era exatamente assim que ele parecia enquanto se aproximava cada vez mais. Embora eu estivesse com medo, assustada e indefesa, não senti aquela sensação de calor que antecedia o real perigo. Fiquei perdida. Eu simplesmente não fazia ideia do que ele estava prestes a fazer comigo. Não consegui desviar meus olhos dos seus. Era como se ele me prendesse ali.
"Eu não posso ter pontos fracos." Ele prosseguiu. "É por isso que eu mato você todos os dias aqui" pôs um dedo trêmulo na altura de sua têmpora. Meus olhos ainda fitavam a intensidade dos seus. "E aqui!" trincou os dentes e cerrou o punho batendo com firmeza contra seu coração.
Ele deu apenas mais um passo à frente. Foi o suficiente para que ficássemos cara-a-cara outra vez. Nossas respirações se chocavam, a minha beirava um suspiro e a sua lutava por manter os pulmões funcionando. Não ousei fazer qualquer movimento temendo que ele avançasse em mim e me machucasse. Seus olhos verdes estavam tão escuros quanto a noite sobre nós. Eram olhos verdes de ressaca, a verdadeira cólera do mar que me tragava pronta para me afogar. Sua postura aos poucos se tornou ereta e ele ergueu o queixo com arrogância e orgulho, encarando-me por cima, uma aura de autoridade crescia em volta dele. E mesmo que estivéssemos na mesma altura, senti-me minúscula, como se em um único gesto ele pudesse pisar em mim.
Não! Gritei para mim mesma. Reaja Kate! Afaste-se! Afaste-o! Beije-o... Mate-o! Qualquer coisa, mas acabe com essa tortura. Respirei fundo e estufei o peito, mas não houve qualquer diferença. Olhei para sua boca, sua boca perfeita, e de repente aquela vontade impulsiva de beijá-lo tomou conta de mim. Mas seus olhos me atraíram de novo, incentivavam-me a não fazer nada porque seria perigoso. Arfei temerosamente.
"Kate?!" ouvi a voz preocupada de Jenna. Avistei-a por sobre o ombro de Jared e Isaac logo atrás. Jared também se virou para encará-los. Em poucos segundos Jenna estava à minha frente, me segurando pelos ombros.
"Querida, você está bem? Oh Luna... Veja, está tão assustada!" Ela lançou um olhar raivoso para Jared "O que fez a ela?!" Ele me encarou uma última vez com a expressão séria, ignorando Jenna, mas apenas engoliu em seco e saiu andando, dando as costas para nós. Isaac o interceptou no caminho e pelo olhar de Jared, vi que ele não gostou.
"Responda." Disse Isaac em tom autoritário. Senti-me patética por ficar ali parada, mas eu ainda estava perplexa com as palavras de Jared, com o modo que havia socado o próprio peito, como se quisesse arrancar o próprio coração para estancar a dor.
"Você é um mentiroso!" gritou Jenna apontando para Isaac. Desde então as coisas se passaram em câmera lenta. Jenna discutia com Isaac, enquanto Jared acendia um cigarro. Ele não olhou para mim até então. As vozes de Isaac e Jenna foram sumindo, até que tudo foi reduzido a nada. Pisquei os olhos e gritei:
"Parem!" Todos me encaravam. Alguns segundos se passaram em total silêncio, mas eu podia ouvir minha respiração chiar em meus ouvidos. "Jen, Jared não me faz nada. Agora. E o Isaac não tem culpa por..."
"Ele mentiu pra mim!" protestou ela. "Ele jurou que esse demônio não estaria aqui! Colocou você em perigo!" Jenna olhou para Isaac e respirou fundo. "Venha Kate, vamos embora." pegou-me pelo pulso, tirando-me dali. Fomos até a saída e esperamos um taxi. Fleur havia preferido ficar na festa.
"Jenna, use o meu carro." pediu Isaac. Jenna grunhiu com irritação e impaciência. Um Saab prata parou bem na nossa frente.
Isaac pegou as chaves com o manobrista e jogou na direção de Jared, que as pegou no ar.
"Entre." mandou e olhou para mim, pedindo-me silenciosamente para ajuda-lo com a tia Jen.
Abri a porta da frente e entrei sentindo o nervosismo me dominar. Jared estava ao meu lado e embora eu não sentisse seu olhar sobre mim, havia um clima de tensão que nos separava feito uma grossa parede de tijolos. Hesitante, Jenna entrou no carro e logo Isaac também. Jared deu partida e eu o olhei de canto quando ele o fez ao mesmo tempo, surpreendendo-me e fazendo com que eu desviasse o olhar rapidamente. Isaac tentava se desculpar com Jenna, que colocava mais obstáculos no romance deles. Jared tamborilava com os dedos no volante e acelerava o carro, como se a velocidade espelhasse sua perturbação.
Já estávamos na estrada fora de Dallas quando um carro passou à nossa frente em alta velocidade e rodopiou cantando pneus, fechando nosso caminho. Jared tentou dar ré, mas outro carro nos bloqueou e Jared teve que dar uma freada brusca que me lançou para trás contra o banco do carro. Olhei em volta, novamente nervosa, tentando compreender o que estava acontecendo, mas ninguém ali parecia saber. Alguns caras saltaram dos carros. De repente senti a mão de Jared no meu pulso e por instinto puxei meu braço para perto do meu corpo. Ele não olhava para mim e então entendi que ele estava apenas afastando minha mão para soltar meu cinto e então senti seu corpo pesar com tudo sobre mim enquanto ele me empurrava para baixo. Tudo pareceu acontecer no mesmo segundo e eu ouvi vários barulhos de tiros contra o metal e o vidro do carro rachou em diversos pontos, mas não houve estilhaços, a não ser pelos buracos deixados pelas balas ao atravessarem. Uma onda de adrenalina subiu pelo meu corpo e eu agarrei a camisa de Jared.
"Eodem!" ouvi Jenna gritar. Então eu ouvi apenas o barulho dos disparos, mas as balas não mais colidiam contra a lataria do carro, não mais nos atingiam.
Olhei para o lado, pela fresta no banco e vi que Jenna tocava o teto do carro, sua joia brilhava em seu pescoço. Isaac a contemplava com uma mistura de surpresa, admiração e preocupação. Ela desceu o rosto devagar em minha direção, e quando abriu os olhos notei que estavam verdes flamejantes.
Jared saiu de cima de mim, deixando-me respirar e ambos olhamos para fora. Nephilim ou Baalihans, não era fácil dizer, mas eu sabia que não eram humanos por conta de seus físicos. Eles continuavam atirando, mas agora por pura frustração.
"Não podemos ficar no carro pra sempre." disse Jared. Um canivete surgiu entre nós. Jared o tomou da mão de Isaac que assentiu para ele.
"Katherine, abra as pernas." Jared ordenou escondendo um sorriso.
"Não é hora pra brincadeiras, Jared!" eu o censurei. Ele revirou os olhos e impacientemente separou meus joelhos sem nenhuma delicadeza. Perdi o fôlego por um momento quando ele cravou o canivete no banco, bem entre as minhas pernas e fez um longo rasgo até a ponta.
Rapidamente ele retirou uma boa camada de espuma fazendo um estrago no estofado e enfiando a mão no rasgo que ele fez, foi retirando adagas e algumas armas, jogando-as para mim. Tive que controlar a respiração enquanto ele caçava mais alguma coisa descendo com o braço bem lá no fundo do banco.
"Me dá as armas!" falou Jenna. Seus olhos estavam incrivelmente verdes, eu não sabia como me acostumar. Ela passou a mão pelas armas murmurando um Omnia.
Senti algo diferente se acender em mim. A princípio achei que fizesse parte da adrenalina, mas depois comecei a me sentir sufocada, meu coração acelerou. Ao meu lado, senti que Jared estava esquentando e transpirando enquanto respirava pesadamente pela boca.
"Mande ele parar." disse Jenna, e assim como eu, ela pareceu estar ficando sem ar. Aos poucos a respiração dele foi desacelerando o ritmo até se regularizar. Enfim pararam de atirar.
"Negativo, saímos juntos." Disse Jenna para ele. "Kate, você fica no carro. Isaac, quero que venha logo atrás de nós." Sem parar para ouvir meus protestos, Jenna levou a mão à porta.
"Sim, querida." Ouvi Isaac murmurar, mas Jenna já estava do lado de fora.
Jared, que depois de retirar o blazer e jogá-lo rudemente em cima de mim, dobrou uma das mangas da camisa até a altura dos bíceps. Enquanto ele se ocupava com uma, ajudei-o dobrando a outra sem pedir permissão. Logo assim qu saíram, as mãos de Jared se inflamaram em um único movimento e os caras avançaram. Ouvi Jenna gritar Tardus e algo muito estranho aconteceu.
Os homens que vinham correndo, de repente pareceram estar em câmera lenta. Isaac desceu do carro e foi acertando um a um com as facas enquanto Jared os incendiava vivos. Vi o corpo de Jenna se inclinar levemente para frente enquanto ela tomava um longo fôlego e então lentamente eles voltavam com sua velocidade normal dando início a uma luta rápida e violenta.
Jared usava seu fogo e sua força na luta, como eu nunca havia visto. Um dos homens avançou para ataca-lo, mas com ligeira precisão, Jared se desviou do golpe e agarrou o homem por trás, prendendo-o em uma chave-de-braço. Segurou a cabeça do homem com as duas mãos em chamam, e este gritou até a morte. Um arrepio correu pela minha espinha ao assistir os olhos de Jared voltando a ficar negros e um sorriso maníaco iluminar seu rosto no meio às chamas.
Isaac se mostrou excelente com as adagas usando-as uma em cada mão. Ele correu cortando a garganta de dois dos homens e cravou uma adaga no esterno do outro. Em menos de um segundo, sacou outra adaga e continuou seu caminho deixando um vasto rastro de sangue. Jenna seguiu à frente, mas não a vi tocar nenhum dos homens. Eles corriam em direção a ela para ataca-la, mas antes que chegassem perto demais, alguns caíam no chão cobrindo os ouvidos, outros gritavam de desespero até não se ouvir mais nada e outros simplesmente tombavam como se não tivessem ossos no corpo.
Pelo espelho retrovisor, eu vi que mais carros chegavam. Jared, Isaac e Jenna pareciam estar cuidando da situação, mas eles não aguentariam os reforços. Inquietei-me por estar ali sem fazer nada. Não é como se eu quisesse entrar na luta, mas eu não podia ficar ali assistindo. Peguei uma pistola que Jared deixou comigo em segredo e saí do carro. Notei que os homens apontavam na direção de Jenna e Isaac. Abaixando-me na lateral do carro, ouvi o plano deles para encurralar Jared. Ergui a cabeça para ter uma visão clara e atirei. Percebendo minha presença, atiraram de volta e voltei a me abaixar para me proteger.
Eu levantava, atirava e me abaixava outra vez. Eu precisei de toda minha precisão para fazer isso, mas eu era boa em armas. Flagrei-me sorrindo enquanto atirava e senti a adrenalina me envolvendo. Derrubei cinco homens e Jenna os enfeitiçava. Procurei eliminar aqueles que se juntaram para rodear Jared, mas minha mira estava péssima ali. Minha pistola tinha cano curto e por isso, não tinha tanto alcance.
Suspirei. Eu não podia me aproximar demais, pois isso implicaria em sair de perto do carro e ficar indefesa, mas eu não via outra opção. Dei um passo para longe do carro, então voltei batendo as costas na lataria do carro quando minha visão mudou. Um homem partiu para cima de mim e eu gritei usando meus braços como escudo na frente do corpo, sem soltar a arma. Ouvi o homem dar seu berro de ataque, mas ele não me acertou. Abri os olhos, piscando confusa e percebi então que eu estava sozinha e protegida. O que eu havia visto era o que Jared estava vendo. Ele estava sendo atacado.
Meus olhos vagaram pela confusão de corpos, tanto os caídos quando os que se movimentavam intensamente pela luta. Procurei por Jared e pelo homem que o havia atacado. De todos que estavam em posição de batalha, havia apenas um com uma postura ereta. Ele estava de costas para mim, mas vi que mantinha o queixo erguido com arrogância, enquanto observava Jared caído aos seus pés. Senti um frio na barriga. Eu precisava impedir que o homem de cabelo loiro-escuro e bem aparado ferisse Jared. Eu não sabia porquê, eu simplesmente precisava intervir.
Tirei os sapatos e corri na direção deles. Deixei um dos meus saltos cair e o outro que ficou na minha mão voou em direção ao rosto do homem loiro acertando-o em cheio antes mesmo que eu percebesse. Ele olhou em volta nervosamente, procurando por quem havia feito aquilo. Procurando por mim. Seus olhos cheios de uma raiva ardente encontraram os meus e então eu atirei. Por alguma razão, perdi meu foco e errei a mira, acertando seu ombro. Não o derrubei, mas foi mais do que o suficiente para deixa-lo terrivelmente zangado. Recuei alguns passos quando eu virei o foco de sua atenção. Comecei a envaiar cenas e lembranças violentas para Jared, instigando sua agressividade para que isso o erguesse. Eu precisava dele.
O homem sorriu para mim. Ele me encarava e atrás dele, vi que Jared começava a se levantar. O homem seguiu minha linha de visão e se virou olhando para Jared. No mesmo instante ele voltou a grunhir, a gritar e caiu de joelhos. Esforcei-me novamente a lhe enviar imagens e talvez um pouco da sensação de medo e adrenalina que eu ainda tinha em meu corpo. Jared precisava de força e eu já compreendia suas fontes.
Jared já não gritava, mas ainda se contorcia no chão, lutando para se levantar. Olhei rapidamente em volta e vi que Jenna e Isaac pareciam estar ganhando. Dois homens vinham em minha direção e atirei nos dois, acertando no meio da testa de ambos. Jared gritou e voltei meu foco para ele. Aquele cara estava tocando em um ponto muito sensível de Jared e eu mesma não sabia qual.
"Vamos embora Emmet!" gritou um Nephilim que passou por nós.
Emmet, o Nephilim loiro diante de Jared deu uma última olhada em mim e cuspiu no chão, ao lado do corpo caído Jared e então correu de volta para um dos carros juntamente com mais três de seus parceiros. O motor do carro rugiu, os pneus arranharam o chão levantando uma camada de poeira de fumaça, então foram embora. Merda! Por que diabos não atirei?
Corri para Jared e me abaixei ao seu lado tentando ajuda-lo a se levantar. Sua mão me segurou trêmula, mas ainda assim forte e ele me empurrou quase me derrubando no chão.
"Shh... Ei, sou eu." Falei calmamente.
"Eu sei." grunhiu e se pôs de joelhos, se levantando trôpego e recusando minha ajuda. Estava sujo de sangue, muito mais do que antes.
"Por que me empurrou?"
"Porque essa palhaçada toda culpa sua!" esbravejou e seu corpo foi para um lado, se desequilibrando, mas ele logo conseguiu ficar parado no lugar. Apoiou as mãos nos joelhos, cansado e me encarou enquanto se concentrava em respirar.
Ficamos nos entreolhando durante algum tempo. Ele com intensidade no olhar e eu na simples incompreensão. Jenna e Isaac se aproximaram e eu me afastei quando minha tia me segurou pelos braços virando-me para ela e começou a me avaliar por inteiro procurando por ferimentos. Sem olhar para trás, notei que Isaac e Jared discutiam.
"Vamos deixá-las em casa e ponto!" gritou Isaac. Ele estava bastante ferido e Jenna carregava apenas com alguns cortes.
Naquela luta havia muitos homens, talvez uns trinta. Cerca de vinte e quatro jaziam no chão, mortos ou agonizando. Era uma visão horrenda. Entramos todos em carro em silêncio, tentando ignorar os buracos de bala que enfeitavam o carro e esquecer toda aquela loucura até que estivéssemos em segurança, em casa.
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