Notas iniciais
Salve, salve, gente. Aqui está o capítulo 70. Bom, a Musa foi assaltada, e tal, e lá se foram os capítulos 70 e 71. Por isso, demorou um pouquinho pra reescrever, mas assim que recebi, editei com muito carinho pra vocês. Acho que não tenho nada a dizer sobre esse capítulo em especial e é mais um capítulo de transição do que qualquer outra coisa. Então sei lá, aproveitem.

“Hmmm” Jared ronronou sem separar nossas bocas, aproveitando prazerosamente um de seus desejos. Não pude evitar um sorriso que interrompeu nosso beijo.

Abri os olhos e vi Jared passando a língua pelos lábios coloridos pelo corante do cereal. Observei seu queixo firme, sua pintinha próxima à linha de seu lábio superior, seu nariz delineado e arrebitado, seus olhos verdes escondidos pelas pálpebras fechadas. Ele abriu os olhos e franziu o cenho para mim.

“Algum problema?” perguntou ele deixando a cabeça tombar para o lado.

“Não.” Eu ri e balancei a cabeça imitando seu movimento de tombar a cabeça.

“Então por que parou?” franziu o cenho outra vez e sua voz soou arrogante. Ele estava claramente insatisfeito por ter sido interrompido em seu momento de fantasias. Revirei os olhos.

Agarrou-me pela parte de trás do cabelo sem qualquer gentileza e puxou minha cabeça para trás. Aproximou seu rosto do meu erguendo as sobrancelhas e me olhando nos olhos.

“Está revirando os olhos pra mim, Katherine?” perguntou ele, desafiando-me com o olhar. Sua boca se moveu lentamente ao pronunciar meu nome e quando ele umedeceu os lábios com a língua tentei morder sua boca.

Ele afastou o rosto rapidamente, meus dentes fizeram um barulho quando morderam o vazio. Ele sorriu de forma atrevida e provocativa, instigando-me.

“Você é um babaca.” Falei sem conseguir mover a cabeça. Seus dedos ainda estavam entrelaçados com firmeza em meus cabelos da nuca. Novamente ele aproximou seu rosto, olhando-me nos olhos e roçando a ponta de seu nariz ao meu.

“Eu sei.” Sussurrou e puxou meu lábio inferior com os dentes. Enfiei a língua em sua boca voltando ao beijo açucarado, mas ele se afastou logo para me dar mais uma colherada de Froot Loops.

Jared sorriu, satisfeito com a cena, e me beijou outra vez, saboreando minha boca. Meus dedos encontraram a parte de trás de sua cabeça e segurei seus cabelos, puxando-os como ele estava fazendo comigo. Puxei-o para perto do meu corpo, sua mão soltou meu cabelo e desceu pelo meu pescoço e mais abaixo, apertando-me por onde passava. Senti meu corpo se arrepiar sob seu toque. Arqueei as costas, entregando-me a ele. Jared inclinou seu corpo por cima do meu, deitando-me contra o sofá. Enrolei minhas pernas ao redor de sua cintura, pressionando-o mais contra mim. Ele queria mais uma e eu já estava pronta para outra. Uma das mãos de Jared foi parar entre minhas pernas e ele fez algo com o dedo que me pegou totalmente de surpresa. Soltei um gemido alto que soou quase como um grito. Ri entre um beijo e ele espelhou meu riso. Já estava quase anoitecendo e aparentemente a noite com Jared estava apenas começando...

Pelo menos foi isso o que eu pensei até sermos bruscamente interrompidos. A porta se abriu de repente fazendo um estardalhaço. Nós nos sentamos rapidamente, recuperando a compostura poucos segundos antes de encontrarmos os olhos preocupados de Owen e o sorriso entendido de Isaac.

“Ela parece bem.” Disse Isaac olhando para nós divertidamente por um instante e logo desviou o lugar ao perceber o quanto eu estava envergonhada.

“Mas que merda vocês estão fazendo aqui?” perguntou Jared, muito irritado. Afastei-me dele mais um pouco, separando meu corpo do dele e isso o deixou ainda mais puto. Fez uma careta pra mim.

“A-Ah...” Owen começou a gaguejar. Seu olhar vagava entre Jared e eu, e sua expressão era uma confusão de sentimentos. Incredulidade, raiva, decepção, desgosto. “A Kate não atendia o celular então eu pensei que...”

“Pensou em porra nenhuma!” Jared o interrompeu. “Quem você pensa que é pra interromper nossa foda?”

Lancei um olhar alarmado na direção de Jared, mas ele me ignorou. Passei a mão no rosto, aquilo era muito constrangedor. Ele definitivamente tinha o talento de tornar as coisas piores. Owen fechou a cara para Jared imediatamente e Jared retribuiu o olhar sem rodeios.

“Como pode ver,” disse Isaac para Owen, segurando-o pelo braço por segurança. “A Kate não atendeu ao telefone porque estava – hm, – ocupada.”

“Do jeito que você queria estar com Jenna, imagino.” Debochou Jared. Isaac assumiu uma expressão séria, mas ele não corou, nem fez qualquer comentário em resposta.

Filho da puta! Olhei para Jared com muita reprovação, mas ele não estava olhando na minha direção e por isso não viu meu olhar, mas o de Isaac bastou.

Jared suspirou, ainda irritado, e se levantou do sofá. Ele estava vestindo apenas uma calça cinza de moletom. Senti-me estranhamente incomodada de repente e então percebi que os olhos de Owen estavam sobre mim. Ele me encarava sério e com uma expressão triste. Seu olhar me fez sentir muito mais envergonhada e um pouco culpada. Desviei o olhar.

“E então, Boneca-de-porcelana.” Disse Jared parando de frente para o irmão com uma postura relaxada. “Saia do meu apartamento ou vou ser obrigado a quebrar sua unha.”

Owen passou por Jared como se ele não fosse nada além de um grão de poeira no seu caminho e foi até mim. Olhei para ele e ele me avaliou franzindo o cenho, a preocupação estampada em seu olhar. Esticou a mão para me tocar e eu recuei sem saber o que ele estava tentando fazer. Ele parou imediatamente com a mão estendida no ar, sem quebrar o contato visual. Sem dizer uma palavra, ele pediu minha permissão para se aproximar. Relaxei o corpo deixando-o avançar, mas ainda estava um pouco hesitante. Ele virou minha cabeça, olhando para o meu pescoço e puxou levemente para o lado o colarinho da camisa de Jared, que eu estava usando, expondo meu ombro nu. Estremeci sob seus dedos ásperos enquanto sua expressão suave escurecia até se tornar pura fúria. Virou-se de repente para encarar Jared que já estava atrás dele.

“O que você fez com ela, Jared?” vociferou Owen direcionando toda sua raiva ao irmão. Vi uma veia saltar em seu pescoço pálido e percebi o quanto a coisa ficou séria pra ele.

Voltou-se para mim, pegando meus pulsos nervosamente, mas ainda assim examinou meus braços e o outro lado do meu pescoço com cuidado. Havia marcas arroxeadas, mordidas e muitos arranhões. Senti meu rosto arder de vergonha e puxei minhas mãos para junto do meu corpo fazendo-o me soltar.

“Owen, para com isso.” Eu disse a ele com expressão séria.

Jared olhou para mim por cima do ombro do irmão, sorriu orgulhosamente e deu de ombros.

“O que eu fiz?” perguntou ele abafando um riso. “A gente fodeu, seu idiota. Dei orgasmos a ela. O que você esperava?”

Isaac me olhou com um olhar de apreensão enquanto nós dois pressentíamos que outra briga estava por vir. Eu odiava o jeito como Jared falava de mim, de nós e minha vontade era cortar fora a língua dele para ele parar de falar assim. Mas eu sabia que ele estava provocando Owen, o que não era nada bom, já que as provocações estavam funcionando perfeitamente.

Owen empurrou o peito de Jared fazendo-o dar dois passos para trás, mas ele não chegou nem perto de perder o equilíbrio e aquilo só o estimulou ainda mais. Jared provocava porque gostava de uma briga. Ele era um infeliz encrenqueiro.

“Como pode feri-la desse jeito?” esbravejou Owen dando passos firmes em direção a Jared. Vi um filete de sangue escorrer pelo seu nariz, seus olhos estavam ficando escurecidos enquanto ele era tomado pela ira. Jared encarou o irmão com o queixo erguido e os dentes cerrados, seus olhos verdes faiscando.

“Ela não está ferida, seu imbecil! Deixa de ser tão virgem! São marcas de trepadas. Deixo marcas nela porque ela é minha, caralho!” Jared gritou para o irmão. Os dois estavam cara-a-cara, a míseros centímetros de distância.

Owen grunhiu de raiva e acertou Jared com um soco no maxilar. Jared virou o rosto sob o impacto e quando se ergueu pôs a mão onde havia sido acertado e em sua boca havia um pequeno corte que sangrava. Jared sorriu, seus dentes ligeiramente pintados de vermelho.

“A Kate faz melhor que isso na cama.” Disse Jared com a voz grave, o sorriso ainda estampado em seu rosto. “Talvez você queira ver as marcas que sua princesinha deixou em mim também.”

Chega! Eu disse pra mim mesma.

Owen estava prestes a dar outro golpe, mas eu o impedi ficando entre os dois, de costas da para Jared. Olhei no fundo dos olhos de Owen até que ele se acalmasse.

Owen, para!” pedi a ele, com a palma da mão em seu peito que subia e descia rapidamente. Ele olhou para Jared e depois para mim, parecia confuso, lutando contra sua raiva. “Não deixe ele te irritar. Olha o que isso faz com você.”

Dei um passo em sua direção e toquei seu rosto. Abri os botões de sua camisa quadriculada e a retirei com cuidado deixando-o apenas com uma camiseta branca sem mangas por baixo. Ele franziu o cenho pra mim, e com sua camisa vermelha comecei a limpar o sangue de seu nariz. Owen fechou os olhos, a tensão em seu corpo de esvaindo sob o meu toque cuidadoso. Sorri disfarçadamente. Jared sempre enrijecia o corpo, me xingava e me afastava quando eu tentava cuidar dele assim. Era bom não ser impedida. Os olhos dele se abriram e encontraram os meus. Ele sorriu.

“Você é um anjo.” Ele disse segurando minha mão que não estava ocupada. “Não devia ser tratada desse jeito.” Os músculos de seu rosto se enrijeceram e ele murmurou um gemido baixo de dor.

“Shhh” sibilei. “Não se preocupe com isso. Eu lido com Jared depois.”

Atrás de nós, ouvi Jared rir.

“É claro que ela vai lidar comigo depois. Ela adora fazer isso.” Disse ele, provocando-nos. “Estaríamos fazendo isso agora se vocês não tivessem chegado.”

Dessa vez, quem ficou puta fui eu. Devolvi a camisa para Owen e me virei para encarar Jared. Ele me encarou com um olhar intenso e um sorriso perigoso.

“Acho que posso lidar com você agora.” Eu disse. “Com ou sem eles.”

Ele ergueu as sobrancelhas e seu sorriso se alargou.

“Quando foi que você ficou tão exibicionista?” Ele riu. No mesmo instante acertei-lhe com um soco no queixo.

A sala ficou em silêncio por um instante e então ouvi Owen abafar uma risada. Jared olhou para mim de soslaio e ele estava muito nervoso. Mas com certeza não mais que eu. Jared avançou em mim e eu já estava esperando por isso. Preparei-me para me defender, mas Isaac chegou primeiro e segurou Jared pelos ombros, puxando-o para trás.

“Jared, não.” Disse Isaac. Jared respirou fundo algumas vezes e sacudiu os ombros para se soltar.

“Idiota.” Eu disse a ele com frieza. Trocamos olhares venenosos e então me virei com raiva, saindo da sala.

Fui direto para o meu quarto e me tranquei lá dentro, sentindo-me uma completa imbecil. Encostei meu ouvido contra a madeira da porta e ouvi os homens conversando. Isaac tentou fazer com que Owen fosse embora com ele, mas Owen protestou não querendo me deixar sozinha com Jared. Quando ouvi a porta da sala se fechar, soube que Isaac conseguiu convencê-lo. Respirei fundo, tentando controlar minhas emoções.

Bati a cabeça na porta e grunhi de raiva. Como ele podia fazer isso? Ele me fez parecer uma piranha na frente de Owen e Isaac! Dei mais um soco na porta e corri para o meu banheiro, trancando a porta atrás de mim. Olhei para o espelho, vendo cada marca de mordida, cada hematoma. Oh, Luna. Eu me lembrei de como elas foram feitas e isso me machucou mais do que qualquer dor física. Nós éramos um campo minado. Podíamos estourar a qualquer momento. Isso era tão estressante, tão cansativo. Eu não aguentava mais!

Tomei um banho para me acalmar, lavei o cabelo e coloquei roupas limpas. Isaac tinha razão ao sugerir que mantivéssemos a casa estocada com suprimentos e roupas. Segurei a camisa de Jared que eu estava usando perto do peito e reprimi um palavrão. Depois do que fizemos há poucas horas, eu podia jurar que ele se comportaria de maneira diferente comigo. Por que ele tinha que ser tão idiota.

Kate...Sua voz me pegou de surpresa. Atentei os ouvidos para ver se ele estava do lado de fora da porta do banheiro. Depois de alguns segundos, percebi que a voz vinha da minha cabeça. Vem aqui, vem. Eu só quero conversar.

Não, Jared! Eu ainda estou puta com você. Respondi em pensamento, sem ter certeza se ele podia me ouvir. Um som próximo de uma risada ecoou na minha cabeça. Não era exatamente um som. Era como se eu estivesse rindo, mas eu não estava. Era arrepiante. Eu estava sentindo o que ele sentia. Luna que está céu!

Quer parar de fazer pirraça? Você sabe que eu nunca vou mudar, Katherine. Você está se machucando sozinha com falsas esperanças e ainda diz que a culpa é minha. Ele disse.

A culpa é sua! Você é o babaca nessa história toda. Rebati.

Você diz isso como se não gostasse. Na minha mente, consegui visualizá-lo revirando os olhos. Agora vem aqui pra falar comigo. Eu odeio entrar na sua mente, tem sentimentos demais e está machucando.

Como assim? Você está na minha cabeça? Merda. Merda.

Infelizmente sim. Alguma coisa mudou. Mas vem logo pra cá, mulher. Se não vier, eu vou buscar e você não vai gostar.

Soltei um grunhido irritadiço, mas resolvi fazer o que ele queria e acabar logo com isso. Saí do banheiro e vi que Jared não estava no quarto. Voltei pra sala e ele também não estava lá. Olhei na cozinha, a tigela de Froot Loops estava vazia em cima da bancada, mas nem sinal de Jared. Ouvi o som de passos atrás de mim e me virei. Jared estava de cueca na sala, olhando para mim. Seu cabelo estava úmido e mesmo daquela distância eu podia sentir o cheiro do sabonete e de pele fresca.

Gostoso, pensei. No mesmo instante, Jared sorriu.

“Obrigado.” Ele disse. Arregalei os olhos e me lembrei de que agora ele tinha acesso a pensamentos assim. Merda.

Jared encurtou a distância entre nós com um sorriso divertido. Quando ele chegou muito perto, eu recuei até que senti minha lombar colidir com a bancada. Apoiei minhas mãos no mármore frio e senti o corpo quente de Jared irradiar calor contra minha pele. Respirei fundo, inalando o cheiro do sabonete. Fechei os olhos sem perceber e só os abri quando senti a boca de Jared roçar em meu pescoço causando-me arrepios.

“Eu ainda estou brava.” Eu disse, contorcendo-me sob seus beijos e mordidinhas.

“Eu sei.” Ele disse com a voz grave. “E eu adoro quando você está assim. Você fica mais selvagem.”

“Jared, para com isso, eu...” minha voz se perdeu em um gemido quando sua mão encontrou um ponto sensível do meu corpo. Ele riu baixinho no meu ouvido. [i]Desgraçado.

Fala mais. Ele disse na minha mente.

Abri os olhos e o empurrei pelo peito para longe de mim.

“Chega.” Disse eu olhando para ele com seriedade. Ele esperou um momento, avaliando-me e semicerrou os olhos quando percebeu que eu falava sério. “Você disse que só queria conversar.”

“Pra falar, a gente tem que usar a língua. E já que é pra usar a língua, eu prefiro enfiar ela na tua boca.” Ele deu de ombros. Trinquei os dentes.

“Eu prefiro que você fale logo ou então engasgue com a sua língua.” Eu disse. Jared bufou com exasperação.

“Isaac e Owen saíram do apartamento pra dar um tempo pra gente se entender.” Ele disse. “Então pensei que o melhor jeito seria falando menos e fazendo mais.” Encolheu os ombros de um jeito inocente.

Fiquei em silêncio e deixei o ar escapar da boca.

“E onde estão Isaac e Owen?” perguntei.

“Sei lá.” Deu de ombros. “Isaac disse que levaria Owen pra algum lugar, pra se acalmar enquanto a gente se resolvia. Mas eles devem chegar a qualquer momento.”

Meu queixo caiu.

“Eles vão passar por aquela porta a qualquer momento e você está querendo me comer na bancada da cozinha?” perguntei incrédula. Um sorriso torto tocou seus lábios.

“Acho que temos tempo pra uma rapidinha.” Sugeriu ele e passou a mão em volta da minha cintura, apertando-me.

“Não, Jared.” Tirei sua mão de mim. “Não estou com vontade agora.”

Ele me encarou com raiva e eu fiz um sinal para que ele calasse a boca. Nem começa. É melhor calar essa boca.

Revirou os olhos pra mim e foi pro quarto, provavelmente pra vestir uma roupa decente. Enquanto isso, liguei para Isaac dizendo que ele podia voltar para o apartamento. Em poucos minutos Isaac, Owen e Jared conversando civilizadamente na sala. Eles haviam montado um grupo pra estudar e mapear todo aquele lance de “Viagem ao Inferno”.

Sentei-me de pernas cruzadas no chão entre o sofá em que Isaac estava e a poltrona em que Jared estava. Havia folhas com anotações e algumas fotos espalhadas na mesa de centro. Estava uma completa bagunça. Havia também, sobre a mesa, um mapa com marcações, destaques e algumas anotações em post-its coloridos. Peguei algumas fotos da mão de Owen e ele ficou um pouco receoso que eu visse, mas peguei mesmo assim. Eram imagens de criaturas meio humanoides pendurando mulheres nuas pelo cabelo em toras de madeira. Eles as estripavam e depois comiam seus órgãos internos. Outras fotos mostravam vultos, bichos voando. Na verdade, bichos não. Demônios. Pessoas degoladas e demônios se alimentando. Eram cenas horrendas e as devolvi para Owen que parecia estranhamente ruborizado.

“São as legiões.” Owen explicou pegando as fotos de volta e me deu um sorriso pesaroso.

“Astaroth já sabe onde Harahel está.” Disse Isaac pegando o mapa de cima da mesa e apontou para um lugar marcado com canetinha vermelha. Era a Venezuela. Olhei para ele fazendo uma pergunta silenciosa. “Ele está aqui na legião de Aamon.”

“Um Duque Infernal.” Disse Owen e me entregou uma outra fotografia. Parecia uma coruja, com corpo de... leão? Não havia patas traseiras, era uma cauda ou um tentáculo comprido. Era difícil dizer, aquela era uma criatura muito estranha.

“Dizem que é um lobo com cauda de serpente.” Disse Isaac enquanto eu examinava a imagem.

“É horripilante.” Murmurei e entreguei a imagem de volta para Owen. Ele riu baixinho.

“Você se surpreenderia com as coisas que tem lá em baixo.” Ele disse sorrindo, mas logo seu sorriso se esvaiu. “Eu sinceramente espero que você nunca venha a ver nada daquilo.”

Quando ouvi isso, olhei para Jared. Ele estava sério e em silêncio.

Você não contou a eles?

Ele olhou para mim, impassível, e desviou o olhar para as fotografias em suas mãos.

Não.

“É infelizmente, ela vai ter que ir com a gente.” Disse Jared, sem tirar os olhos das fotos. Ele parecia relaxado e casual.

O que?” perguntou Owen num salto. Jared levantou os olhos preguiçosamente para encarar o irmão.

“Foi isso o que você ouviu. A Kate vai com a gente.” Repetiu.

Todos os olhares se voltaram para mim e eu me senti incomodada por ser o centro das atenções. Todos me avaliavam. Olhei para Jared, sem saber o que dizer e ele balançou a cabeça para mim, dizendo em minha mente que eu não devia contar a eles o que havia acontecido naquela tarde. Ele queria manter nossa união em segredo.

“Olha, eu quero ajudar vocês e gostaria que vocês não me fizessem perguntas.” Gaguejei. Endireitei minha coluna, ficando mais ereta e confiante para falar. “Eu tenho meus motivos pra ir e isso já foi esclarecido com Jared. Apenas me digam como vai ser.”

Isaac ergueu as mãos, fazendo um gesto de rendição e começou a reorganizar os papéis sobre a mesa. Jared se encostou em sua poltrona e esfregou os olhos relaxando os ombros. Owen ainda me encarava com a expressão séria e balançou a cabeça em reprovação. Ignorei-o.

“Bom,” começou Isaac a explicar. “Existem seis entradas para o Inferno. Mas somente três dela dão passagem para corpo e alma.”

“O que quer dizer?” perguntei.

“Por exemplo,” disse Owen com a voz fria feito um iceberg. “Uma das passagens, é o Vulcão de Massaya. Por ela, você só entra no inferno com sua alma, pois seu corpo vai queimar. Mas se você escolher passar pela Spíti tou Ádi, na Grécia, você passa por... ‘etapas’” fez sinal de aspas com os dedos. “E se você conseguir passar por essas etapas, é possível que você consiga chegar lá com sua alma e seu corpo físico, sem precisar morrer.”

Assenti, mostrando que eu havia entendido.

“Mas nós vamos por Xibalbá.” Disse Owen entregando-me outra folha. Havia a foto de um paredão de pedras cinzentas, com três buracos que formavam uma figura parecida com um rosto. Olhos e boca. “Fica em Yucatan, no México. Tem um trilha até essa entrada. O lugar já foi explorado por arqueólogos, mas nunca chegaram aos obstáculos das Casas.”

Continuei encarando-o, esperando que ele continuasse.

“De acordo com as lendas Maias, para chegar à Xibalbá é preciso passar por cinco casas.” Ele levantou uma das mãos e começou a enumerar as casas com os dedos. “Casa da Escuridão, Casa Fria, Casa dos Morcegos, Casa das Navalhas, Casa dos Jaguare e a Casa Quente.”

Algo na minha expressão deve ter me denunciado porque Owen ficou logo incomodado e engoliu em seco.

“O que esses nomes querem dizer?” perguntei num murmúrio.

“Os nomes são autoexplicativos.” Disse Owen com pesar. Olhei novamente para Jared, sentindo-me enjoada e nervosa com a menção à última Casa.

“Nós vamos dar um jeito.” Disse Jared olhando-me firme. Assenti, engolindo em seco. Peguei os restos das imagens para ter algo para me concentrar.

“Falem sobre Aamon.” Pedi para ninguém em especial.

“Como foi dito, ele é um Duqu Infernal.” Disse Isaac. “Ele conhece o passado e o futuro, mas somente das pessoas que tem suas almas oferecidas e entregues aos demônios.”

“Ele é um dos setenta e dois demônios.” Disse Owen.

“Acho que me lembro disso. Ele tem um Anjo que é seu oposto, eu acho. Algo assim.” Comentei.

“Sim. De cada palavra dita por Deus, saiu um anjo e um demônio.” Disse Isaac.

“Entendo.” Eu disse. “Mas... Por que ele é um Duque? O que isso significa?” perguntei.

“Hierarquia infernal. Reis, príncipes, duques...” respondeu Isaac encolhendo os ombros. “No céu a hierarquia é Arcanjo, anjo, protetor e vigilante.”

Olhei bem para ele. Havia algo diferente em Isaac quando ele falava dessas coisas, principalmente do céu. Eu quase havia me esquecido que ele era um anjo caído e meu coração se apertou.

“Você era um anjo-da-guarda, não é?” perguntei com cuidado.

“Sim.” Ele assentiu. “Eu era um Protetor, para ser mais preciso.”

“E Harahel era um Arcanjo.” Eu disse, mas estava apenas pensando alto. “Ele veio das setenta e duas palavras, então.” Isaac fez que sim com a cabeça. “Você não?”

“Pareço tão velho assim?” perguntou ele, sorrindo. Eu ri. Naquele momento, reparei bem. Isaac não parecia ter mais que trinta anos. Se eu fosse dar um palpite, eu diria vinte e seis.

Continuei folheando a bagunça que estava concentrada na mesinha e me deparei com uma foto que fez meu sangue gelar. Ou pior, se aquecer. Era o desenho de uma sala vermelha e tomada pelas chamas. A sala era feita de pedras em pleno fogo. Aquilo me arrepiou e eu senti a cor ser drenada de meu rosto. Minha mão tremeu com a visão daquela sala e antes que eu pudesse ter qualquer outra reação, a imagem foi tirada bruscamente da minha mão. Jared amaçou a folha e a jogou para longe.

“Não pense nisso.” Ele disse olhando-me nos olhos. “Eu já disse, nós vamos dar um jeito.”

Jared se levantou e voltou para sua poltrona. Owen olhava para nós com um mal contido. Isaac estava distraído em seus pensamentos enquanto lia algumas anotações. Olhei para tudo aquilo sobre a mesa e balancei a cabeça. O Inferno era perigoso. Será que eu estava mesmo preparada? Em que eu havia me metido? Olhei para a cicatriz recente em meu dedo e senti um aperto no estômago. Não tinha mais volta.

“Tenho que contar a Jenna.” Murmurei. Na verdade, eu queria esquecer daquilo tudo. Queria que a gente não precisasse fazer aquilo. Queria fofocar com Emma, sair para festas e namorar. Queria que Jared fosse um namorado normal e que ficasse comigo, cuidasse de mim enquanto trocássemos beijos com gosto de Froot Loops.

***

Jenna gargalhou.

“Claro que eu deixo, querida. Mas só quando o sol ficar verde e eu for louca o bastante pra me casar com o Coca-Cola aqui.” Apontou para Isaac com o queixo.

“Tia, é sério! Eu vou com eles.” Falei o mais firme possível. Ela se aproximou, avaliando-me . Sua expressão mudou de divertimento para puro favor.

“O que deu em você, Katherine?” perguntou ela, cobrindo a boca com as mãos em horror. “O que aquele Negativo fez com você?”

Bufei e revirei os olhos como uma adolescente rebelde.

“Ele não fez nada, tia Jen. Estou fazendo isso porque eu quero. Essa luta também é minha.” Eu disse.

“Não é não!” protestou ela. “Kate, você não tem minha permissão pra ir.”

“Jenna, calma.” Interviu Isaac.

Calma? Como você tem a audácia de me pedir calma? Você tem seus problemas pra lidar, mas não tem que envolver minha família também. A Kate é uma criança! Como pôde deixar isso acontecer? Eu sabia que você só traria problemas!” berrou ela, descontando toda sua raiva em Isaac. Ele recuou uns dois passos e eu senti pena por ele, sabendo que a culpa era minha.

“Tia Jen, eu vou. Quer você queira ou não.” Desafiei-a e chamei sua atenção novamente para mim. Ela estava furiosa. Eu nunca a tinha visto daquele jeito, nem mesmo lutando. “Como você, Katherine, eu sou uma bruxa e sei muito bem como prender alguém de forma que não tem como fugir.” Seu tom era arrepiante e ameaçador.

Ela respirou fundo e começou a andar de um lado para o outro murmurando coisas como Eu não acredito! Minha sobrinha quer se matar!

“Eu não vou deixa-la se queimar.” Disse Jared, falando pela primeira vez desde que chegamos lá.

Jenna parou de andar e lançou um olhar frio e odioso na direção dele.

“Você queimou minha sobrinha. Acha que não me esqueci disso, garoto? Eu tenho a consideração de deixar você entrar na minha casa mesmo sabendo a ameaça que você é e você ainda me diz que vai protegê-la?” vociferou ela.

Jenna estava desesperada. Naquele instante Fleur chegou e viu o teatro que estava rolando. Ela pegou as mãos trêmulas de sua mãe e a levou para se sentar. Isaac tomou coragem para se aproximar e por sorte, Jen não o expulsou a vassouradas. Ele a pegou pelos ombros, depois pelo queixo, fazendo com que ela o olhasse nos olhos enquanto ele dizia coisas tranquilizadoras a ela. Jenna ficou calma de repente e assentiu a tudo o que ele falava. Nem parecia a mesma pessoa. Fiquei confusa.

“Persuasão.” Murmurou Owen em meu ouvido. “Anjos caídos fazem essas coisas.”

Oh. Era a primeira vez que eu via Isaac fazer algo assim.

“O que está acontecendo?” perguntou Fleur, para mim.

Peguei-a pela mão e a levei para longe dali, para o corredor, distante dos outros. Expliquei tudo a ela da melhor maneira que eu podia. Ela também se opôs, como eu já esperava, mas respeitou minha decisão.

“Mas... Tem mais uma coisa que eu quero saber.” Disse ela.

“O que?” perguntei, franzindo o cenho.

“O que significam essas marcas?” perguntou ela maliciosamente apontando para os meus pulsos, passando o dedo sobre as marcas arroxeadas. “Esse Jared é bem empolgado, não é? Ele deve usar tantos brinquedos...” ela riu.

Recolhi minhas mãos, timidamente e sorri de volta para ela.

“Na verdade, ele não usa.” Eu disse, sentindo minhas bochechas corarem por estar falando sobre aquilo com a Fleur.

“Não usa?” ela ergueu as sobrancelhas.

“Não.” Respondeu a voz rouca e grava de Jared atrás de mim. Ele segurou minha nuca com uma mão e me puxou para ele. Mesmo atrás de mim, ele alcançou minha boca dando-me um breve e molhado beijo. “Eu tenho duas mãos e uma língua. Não preciso de brinquedos.” Sorriu lascivamente para ela.

Fleur riu.

“Duvido que seja tão hábil com a língua quando eu.” Disse ela e eu fiquei muito chocada.

“Eu posso te provar que está errada.” Ele disse mordendo o lábio distraidamente.

Opa. Ele estava flertando com a minha prima lésbica na minha frente?

“A imagem de você entre minhas pernas me enoja, mas a Kate pode me dizer como você se sai...” disse ela piscando pra mim divertidamente. Grunhi.

“Ou pra qualquer outra garota que goste do que ele tem pra oferecer.” Resmunguei. “Ou qualquer garota hétero do Texas. Tenho certeza de que ele já comeu.”

Jared riu do meu comentário. Eu não. O celular de Fleur tocou e ela se afastou para atender. Falou algumas palavras e logo passou por nós dizendo que teria que sair. Afastou-se com o celular grudado na orelha e falando sem parar. Virei-me para Jared com a expressão séria. Ele ergueu uma sobrancelha.

“Eu sinto sua tensão. Acho que o pacto funcionou.” Ele disse.

“Só estou com medo. Está com medo?” perguntei e ele sorriu.

“Longe disso.” Respondeu. Bufei e encarei minhas botas, de frente para as de Jared. Ele pôs uma mecha de cabelo desajeitadamente atrás da minha orelha e senti seu hálito em meu rosto.

“Vamos pro quarto. Eu quero ver uma coisa.” Ele disse. Olhei para ele e semicerrei os olhos.

“Não tenho nada aqui que você não tenha visto antes.” Eu disse. Ele riu com divertimento.

“Pela primeira vez na minha vida, não é disso que estou falando.” Pegou-me pelo pulso e um flash da noite passada se passou pelos meus olhos.

Puxou-me escada acima, até o quarto. Quando eu fui acender a luz, ele me deteve.

“Não vamos precisar.” Disse ele com a voz arrastada e rouca. Franzi o cenho. “Não estou com más intenções, juro.” Ele fez uma pausa. “Não totalmente.” Sorriu e tirou a camisa.

“Ah, estou vendo.” Passei as unhas nas suas costas.

“Não provoca...” ele disse ameaçadoramente.

Levantei as mãos em forma de rendição e o observei em silêncio. Olhei para ele de perfil, seus cílios estavam iluminados, suas pálpebras avermelhadas por causa da luz em seus olhos. Seus bíceps também irradiavam uma espécie de luminescência, mas aos poucos foi enfraquecendo. Jared se concentrou um pouco e a luz começou a tomar foco e forma. As formas meio que emergiam de sua pele e se estampavam seu peito, barriga, costas, ao longo da coluna. Apareceram também em seus ombros, bíceps e antebraços. Eram letras. Letras estranhas, que eu não conhecia. Não era nada que eu tivesse visto e com certeza não era Wicca.

“Harahel me abençoou quando eu era bebê. Ele sabia que a profecia se encaixava na nossa situação e que eu tinha muito poder.” Ele começou a dizer. “Ele sentia que meu poder atrai tanto o bem quanto o mal. Anjos e Demônios viriam atrás de mim, de nós. Então antes de ser realmente banido dos céus, ele pegou algo no livro de Enoch, uma escritura de proteção. O que você está vendo são letras aramaicas. Estão em meus ossos, brilham porque estou usando o Ofuscamento. Por isso elas refletem através da minha pele.”

O corpo de Jared era esculpido como as obras de Michelangelo e estava marcado com tatuagens luminosas. Aquilo era uma visão incrível. Passei a mão delicadamente onde elas estavam e a superfície era fria ao toque.

Notas finais
E aí, gente... Jared safado desde sempre? Comentem, comentem. O que será que vai rolar? Queremos saber o que vocês acham que vai acontecer, o que vocês acharam do capítulo. Queremos motivação pra continuar. Ainda tem treta pra rolar e você são extremamente importantes pro desenrolar do enredo. Não deixem de mandar Reviews. E tenho uma coisa legal pra falar pra vocês. Híbrido esta em um grupo no What's app!! Quem aí quiser entrar, conversar com os outros leitores e COM AS AUTORAS, basta fazer uma coisa: Diga "Eu quero entrar no Jaredelícia" na review! É SÓ ISSO. O resto é comigo. Qualquer dúvida, só falar. Beijared, a todos, até o próximo capítulo ~Monique