Notas iniciais
Primeiro, desejo a todas um Feliz Ano Novo! Hoje é o primeiro dia do ano e aqui estou postando mais um capítulo pra vocês. Tudo de bom pra todo mundo, pra quem perdeu meu discurso no wpp, obrigada mesmo pelo carinho de todos vocês. É, galera. Esse aqui ta grande DEMAIS. Superou o 69 kkkk Cara, desculpe a demora, mas vocês vão ver no que deu. Espero que fiquem satisfeitos.

~ Duas semanas depois.

Eu nunca demorei tanto em um banho, mas eu sabia que aquele podia ser o meu último, então resolvi aproveitar ao máximo. Enxuguei-me com as mãos e pernas trêmulas, respirando o vapor da água do chuveiro para me acalmar. Eu devia ter tomado banho frio. O lugar para onde eu estava indo já era quente o bastante. Pensei seriamente em voltar para o chuveiro e tomar uma ducha fria, mas eu sabia que estava só arrumando uma desculpa para ficar enrolando. Fui até o espelho e avaliei meu rosto, meus olhos violeta, meus lábios inchados e minhas bochechas coradas.

“O inferno vai se alimentar de você e de seus medos.” Dissera Jared, na eficaz tentativa de me motivar.

Suspirei alto e balancei a cabeça. O que seria da minha vida? Encarei a cicatriz em meu dedo e continuei tentando me convencer a não desistir daquela ideia suicida. Voltei para o quarto e me surpreendi com Jared sentado na beira da cama, calçando suas botas. Ele não reparou que eu estava ali, ou então simplesmente me ignorou. Seu rosto estava tenso e de alguma forma eu podia sentir sua ansiedade em meu próprio corpo. Foi uma sensação estranha porque eu estava morrendo de medo enquanto Jared estava... sentindo algo próximo da animação.

“Vá se arrumar.” Ele disse friamente olhando rapidamente para mim e voltando sua atenção para os cadarços das botas. “Estamos atrasados.”

Sem me importar com sua presença, vesti-me ali mesmo e tentei ser rápida, já que ele me pressionava a cada três segundos. Eu já estava ficando tão irritada com ele que emperrei o zíper da minha calça. Fiquei puxando o zíper, forçando a subida, mas nada acontecia. Xinguei entre os dentes. Em poucos segundos, dedos longos e pálidos assumiram o controle e com um simples puxão ele fechou meu zíper e depois os botões.

“Você está nervosa.” Ele disse sem me olhar nos olhos. “É melhor relaxar, eu já te alertei sobre como o inferno vai ser hostil. Isso pra não dizer coisa pior.”

Seus olhos verdes encontraram os meus. Estavam sérios e firmes. Ficamos nos observando durante algum tempo e eu só desviei minha atenção quando ele passou a língua nos lábios. Sem pensar muito, aproximei minha boca da sua, um gesto tão natural quando piscar. Para minha surpresa (e decepção) Jared engoliu em seco e ergueu o queixo, olhando-me de cima e desviando seus lábios dos meus.

“Precisa dar um jeito nesse seu nervosismo.” Disse ele com frieza na voz. Não havia provocação, apenas impassibilidade e isso me assustou. Ele nunca me rejeitava assim.

Jared soltou o ar pela boca, piscou umas duas vezes e se afastou. Pegou uma camisa cinza que estava sobre a cama e a vestiu com desenvoltura e precisão.

“Pegue suas coisas.” Disse ele passando a alça de sua mochila sobre o ombro. “A gente se vê no carro.”

Ele me deu uma última olhada e saiu do quarto. Encarei a porta fechada, o vazio que se instalou no quarto de repente. Senti um frio na espinha. Jared estava certo, eu precisava dar um jeito no meu nervosismo. Há dias eu estava lutando contra o pânico, mas o que eu podia fazer? Eu estava a caminho do Inferno! Eu seria louca se não me apavorasse. Mas eu tinha esperança de sair viva de lá. Eu não estava sozinha, afinal. Peguei minha mochila juntamente com minha coragem e fui.

Jenna estava na sala andando de um lado para o outro cantando preces murmurantes quando eu desci da escada. Ela ouviu o som dos meus passos e se virou de repente, me encarando com seus olhos aflitos e cheios de lágrimas. Terminei de descer os últimos degraus e Jen correu em minha direção para me abraçar.

“Kate... Querida, eu...” disse ela soluçando enquanto me puxava para seus braços. “Como eu queria que você ficasse. Ah, como eu queria.” Soluçou, chorosa. “Que Luna a proteja daquele lugar horrível.”

Ela pôs as mãos em meus ombros, suplicando com o olhar para que eu ficasse. Ela tinha esperança de que eu ficasse. Quando não fiz nenhum movimento, ela começou a balançar a cabeça murmurando, por favor, por favor, por favor em um claro sinal de perturbação. Senti uma vontade enorme de chorar ao ver o que eu havia causado a ela.

Isaac deve ter percebido meu transtorno, pois veio imediatamente ao meu socorro. Ele pegou Jenna e a afastou de mim, dizendo coisas em seu ouvido. Jen o olhava nos olhos quando ele começou a falar e a princípio pensei que ele estava usando persuasão outra vez, mas não. Ele estava simplesmente tranquilizando-a. Para a surpresa de todas, Jen retribuiu a atenção com um beijo na bochecha e um abraço que pedia consolo. Tive que me conter para não deixar meu queixo cair. Eu teria admirado muito mais aquela cena se minha cabeça não estivesse a mil.

Aproveitei a distração de Jenna e deixei-os à sós fazendo meu caminho até o carro. Joguei minha mochila no banco de trás, onde estava Owen. Jared estava no banco do carona e parecia distraído e entediado. Ele ligou o rádio, que começou a tocar uma música de Red Hot Chili Peppers, e aumentou o volume ao máximo. Argh. Olhei para Owen e ele parecia incomodado e apreensivo, mas manteve seus sentimentos para si.

“Ei.” eu disse para Owen quando me sentei ao seu lado.

“Ei.” Ele não deve ter me ouvido por causa da música alta, mas percebeu que eu o havia cumprimentado e por isso sorriu e me cumprimentou de volta.

Olhei para fora do carro, pela janela aberta, e vi que Jenna estava acenando para mim da entrada da casa. Seus olhos estavam avermelhados, seu rosto uma desolação que era de partir o coração. Acenei de volta e me forcei a sorrir para tranquilizá-la, mas não soube dizer se deu certo. Logo em seguida Isaac estava conosco no carro e então seguimos em direção ao aeroporto.

***

Nosso voo foi surpreendentemente silencioso. Ninguém se atreveu dizer uma palavra que fosse para puxar conversa, nem mesmo Isaac ou Owen. Tudo estava tranquilo até passarmos pelas portas automáticas de vidro blindado do aeroporto e eu ser atingida em cheio pelo mormaço escaldante do México. Aquilo me lembrou o quanto eu estava próxima do inferno. O pensamento me paralisou por um momento. Isaac seguiu à frente, conversando com o taxista que nos aguardava. Owen deu um passo para segui-lo, mas parou em meio caminho para me olhar. Assim que meu olhar encontrou o seu, algo bateu em mim com força, lançando-me para frente e eu tive que usar as mãos para proteger meu rosto de atingir o chão.

“Porra, Katherine! Não fica no meio do caminho, caralho.” Disse Jared, mal humorado, olhando-me por cima do ombro brevemente e seguiu em frente ajeitando a mochila no ombro.

Owen olhou para o irmão com um desgosto palpável quando Jared passou ao seu lado e então veio rapidamente até mim, ajoelhando-se à minha frente e ajudando-me a ficar de pé. Ele limpou meus joelhos e meus cotovelos com as mãos e segurou meu queixo para avaliar meu rosto. Seu cenho estava franzido com preocupação.

“Kate, você está pálida. Está tudo bem?” perguntou ele.

Minha garganta e meus lábios estavam secos quando tentei falar, então apenas assenti para ele, envergonhada pela minha queda. Os lábios dele se estreitaram em uma linha fina.

“Você precisa de alguma coisa? Consegue andar?” perguntou ele, formal e gentilmente.

Afirmei firmemente e minha expressão deve ter denunciado o quanto me senti ofendida com a oferta, embora ele apenas estivesse sendo gentil. Eu estava irritada pela atitude de Jared, por seu silêncio, e por me fazer parecer tão patética e indefesa. Uma pessoa que não tinha a capacidade de andar sozinha na saída de um aeroporto não seria capaz de passar pelas portas do Inferno. Endireitei minha postura imediatamente e disse a mim mesma repetidas vezes que eu não uma garota qualquer e que eu não era fraca. Respirei fundo, esbocei um sorriso amarelado para Owen e então nós dois seguimos para o táxi.

Entrei no veículo, permitindo meu corpo relaxar e respirei fundo soltando o ar pela boca ruidosamente por causa do calor. Isaac estava no banco do carona e os gêmeos ocupavam minhas laterais. Owen me encarava, preocupado e atencioso, enquanto Jared se recusava a me olhar, distraindo-se com qualquer coisa que estivesse do lado de fora da janela. Reprimi minha vontade de chamar sua atenção, mesmo que fosse só para brigar com ele por ter me feito cair, e deitei minha cabeça no ombro de Owen até adormecer.

Meu celular tocou, despertando-me de um sono profundo. Olhei em volta, meio grogue. Eu estava em um quarto de hotel e não no ombro de Owen. Franzi o cenho para o celular na cabeceira, que tocava sem parar. Pisquei tentando fazer minha visão ficar menos turva e olhei para o visor do celular. Vi a foto e o nome de Emma e pensei: Merda.

“Oi, amiga.” Atendi com todo o amor.

“Sua puta desgraçada! Você não faz ideia de como eu...!” Afastei o celular do ouvido enquanto ela gritava uma jorrada de xingamentos.

“Emma! Emma!” chamei seu nome para interrompê-la. “Emma, calma!”

“Calma nada, sua cadela. Como você pôde fazer isso comigo? Você está indo pro Inferno e não me contou?” berrou ela.

“Em, eu ia te contar. Eu juro, amiga.” Suspirei.

“Agora eu sou sua amiga né, vadia. Eu também sou sua protetora, sabia? Faz ideia da encrenca em que você me meteu? Fora a minha preocupação, Kate!” sua voz começou a embargar em um princípio de choro. “Eu tinha que estar aí com você, Katherine! Eu tinha que saber!”

Meu coração se apertou quando ela começou a soluçar. Senti meus olhos arderem e as lágrimas ameaçando chegar.

“Desculpe, Emma. Eu não quis te colocar nisso.” Eu disse com sinceridade.

“Eu te amo tanto, amiga.” Ela disse. “É uma tortura pra mim, saber que você está aí e eu não posso fazer nada pra impedir.”

“Eu também te amo Emma, por favor, me perdoa.” Implorei.

“Só se você voltar pra casa com vida.” Ela fungou. “Mas se fizer isso de novo, eu mato você.”

“O.k.” eu ri baixinho em meio as lágrimas. Enxuguei-as com o dorso da mão.

“E vou matar aquele loiro desgraçado por ter te envolvido nisso.” Ela disse sem um pingo de humor. “Pode deixa-lo sob aviso que se ele ousar passar na minha frente, eu vou...”

“Amiga, relaxa. Ele não me forçou a nada.” Eu disse, interrompendo-a de seus exageros. Emma bufou, e o som causou um ruído na linha.

“Você o ama tanto assim?” perguntou ela.

Fiquei em silêncio. Aquela pergunta me pegou desprevenida e eu não consegui encontrar uma resposta.

“Não.” Respondi depois de uma pausa e engoli em seco. “Eu não o amo tanto assim. Ele me pediu ajuda e eu aceitei.”

“Sabe, isso me parece uma bela prova de...”

“Shiu! Cala a boca.” Sibilei. “Ele conversou comigo, esclarecemos algumas coisas e eu vi que podia fazer isso. Agora não me venha falar de romantismos porque quando se trata de Jared isso é cansativo pra cacete!”

“Tudo bem, tudo bem... Se você está dizendo.” disse ela e eu podia imaginar sua expressão e suas mãos erguidas. Emma suspirou e sua voz ficou séria e preocupada. “Eu só quero você aqui em segurança.”

Meu corpo se enrijeceu.

“Eu sei, amiga.” Eu sabia muito bem o perigo que estava correndo. “Eu sei. Agora preciso ir. Tenho que descansar.”

“Tudo bem. Eu te amo, Kate.” Disse ela.

“Eu também te amo, Em.” respondi, contendo o choro.

Assim que desliguei, deixei o choro vir. Levantei da cama, enxuguei as lágrimas e fui procurar a porta do banheiro. Havia três portas no quarto, então eu teria que adivinhar qual era. Tentei a primeira e era um closet vazio. Tentei a segunda e me arrependi imediatamente de tê-la aberto, pois dei de cara com Jared. Encaramo-nos durante alguns segundos e quando ele viu que eu estava chorando, me olhou com desgosto.

Retribuí o olhar e ele passou por mim, empurrando-me para o lado com o ombro para que eu desse passagem. Grunhi. Aquela porta dava para o corredor, não era o que eu queria. Fechei a porta e olhei para Jared e toda sua arrogância. Ele olhou para mim de canto e desviou o olhar. Ah, não. Ele não ia continuar com aquilo. Ajeitei minha postura e caminhei até ele com firmeza. Parei atrás dele, esperando ele me notar.

Quando ele se virou para mim, avancei nele e o prendi na parede, com o antebraço em seu pescoço. Ele protestou e fez um movimento para se soltar, mas antes que ele se afastasse da parede, eu dei um soco em seu peito e ele voltou, batendo as costas contra a parede. Eu o encarei nos olhos, ele estava irritado e eu ainda mais. Ficamos em silêncio e tudo o que ouvíamos era o trânsito lá fora e o som de nossas respirações. Seus olhos estavam brilhantes sob a luz fraca do quarto, o que aumentou meu desejo lascivo e sem pestanejar investi em seus lábios ferozmente.

Agarrei o tecido de sua camisa com as duas mãos e ele pressionou seu corpo no meu, retornando o beijo com a mesma intensidade que a minha. Com um movimento rápido ele inverteu nossas posições, de forma que eu estivesse contra a parede. Ele me ergueu em seu colo e eu cruzei minhas pernas em volta de sua cintura, puxando seus cabelos sem dó, numa crise de raiva e desejo. Ele se assegurei que eu estivesse firme em seu corpo e caminhou comigo até a cama, jogando-me sobre o colchão. Beijou-me de novo, possuindo-me. Afastei nossas bocas por um momento, arfando.

“Por que eu estou aqui?” perguntei, com a voz rouca e a respiração entrecortada.

“Porque eu pedi.” Respondeu e voltou a me beijar rápida e desesperadamente. Foi um beijo molhado, cheio de línguas, movimentos e atritos. Afastei-o de novo.

“Por quê?” perguntei.

Jared me avaliou e eu senti seu corpo ficar tenso. Ele demorou a responder.

“Porque eu preciso de você.” Ele disse quase inaudivelmente.

“Precisa?” sussurrei e rocei meus lábios nos seus.

“Preciso.” Ele virou o rosto e uma gota de sangue pingou de seu nariz sobre o lençol, ao lado do meu rosto.

“Diz pra mim por que você precisa de mim.” Insisti. Ele grunhiu de dor e pressionou o corpo ainda mais no meu, mordendo meu pescoço com força. Reprimi um grito, mas não o gemido.

“Por que você quer me machucar assim? Sabe que dói quando falo dessas coisas.” Perguntou ele, sua voz abafada contra meu pescoço.

“Se eu fizer uma lista de todas as vezes que você me feriu, você ia ver que não estamos nem perto de ficarmos quites.” Sorri e gemi mais uma vez quando ele mordiscou minha orelha. Sua risada grave ecoou em seu peito e contra minha pele.

“Quando estivermos lá em baixo, você precisa se lembrar do que você é e do que você faz comigo.” Sua expressão estava séria de repente e ele me olhava nos olhos enquanto falava. “Não importa o que eu dizer, ou o que qualquer um disser. Você não pode se esquecer disso.”

Engoli em seco e assenti prontamente. Ergui o queixo, oferecendo meus lábios. Jared me beijou lentamente, saboreando-me e contorcendo-se de dor e prazer em meus braços.

***

Tropecei em um galho e quase caí. Já era a terceira vez que eu tropeçava naquela trilha por falta de atenção. Eu estava me sentindo tão alheia. Embora meu corpo estivesse relaxado, eu ainda estava preocupada. Fiquei tentando me tranquilizar, repetindo mantras e palavras encorajadoras. Foda-se o ínfero! Eu já estava ali mesmo. Tropecei outra vez.

“Porra!” murmurei. Jared me segurou pelo braço, ajudando-me a manter o equilíbrio. Ele me puxou para perto dele e colou sua boca em minha orelha.

“Ainda está com as pernas bambas?” sussurrou ele. “E olha que eu peguei leve com você ontem.”

Mordi o lábio para esconder o sorriso e um arrepio percorreu minha espinha com seu sussurro e com a lembrança da noite anterior. Não nos prolongamos muito, porque tínhamos que descansar, mas foi diferente. Jared foi intenso, mas não foi bruto, de forma que o sexo foi revigorante e não cansativo.

Olhei para ele, e ele esboçou um breve sorriso torto e acenou com a cabeça para que eu prosseguisse. Na minha frente estava Owen e mais à frente estava Isaac. Caminhamos por mais quarenta minutos e finalmente avistei uma série de cavernas. A visão delas me assustou. A forma como estavam organizadas, dava a impressão de que formavam um rosto. Fiquei ligeiramente zonza de tão nervosa e cambaleei um pouco para o lado. Apoiei-me em Owen, que sorriu para mim.

“Está com medo?” perguntou ele em voz baixa.

Balancei a cabeça na negativa e umedeci os lábios. Owen sorriu simpaticamente para mim outra vez, sem mostrar os dentes.

“Tão linda.” Ele disse suavemente e esticou a mão para acariciar meu rosto. Assim que seus dedos tocaram minha pele, Jared passou por nós rudemente, afastando-nos. Owen grunhiu e eu segurei o riso.

Jared passou a nossa frente, tirou a mochila dos ombros, jogou-a indiferentemente no chão e avaliou o espaço antes de voltar sua atenção para mim e para Owen.

“Pelo visto você já está se oferecendo para o meu irmão.” Disse Jared. “Isso é bom. Significa que não está em pânico.”

Abri a boca para rebater, mas ele dispensou meu comentário com um gesto de mão e se voltou para Owen com um sorriso irônico.

“É uma pena que você não saiba aproveitar as oportunidades. Você poderia comer a Kate aqui e agora se você quisesse.” Disse ele.

Fechei os olhos e suspirei exasperadamente para me acalmar. Não valia a pena me estressar agora. Quando reabri os olhos, Jared estava bem na minha frente. Olhei para o lado e vi que Owen não estava mais lá, mas sim com Isaac, mais à frente, conversando e apontando para alguns pontos das cavernas. Olhei para Jared outra vez e ele segurou meu queixo com o polegar e o indicador. Seu toque bruto, como sempre.

“Não tem mais volta.” Ele disse para mim, com seriedade. Assenti.

“Eu sei.” Respondi, com igual seriedade. Ele respirou fundo.

“Não quero que entre em pânico. Vai dar tudo certo.” Ele disse e soltou meu queixo, enterrando a mão no bolso da calça.

“Qual é a diferença do pânico para o medo?” perguntei.

“O pânico pode te matar.” Ele disse. “O medo te deixa alerta.”

Tentei pensar em algo para responder, mas não consegui. Ele me encarou com a expressão firme e séria e eu me mantive em silêncio.

“Então, crianças.” Disse Isaac se aproximando de nós. Jared se afastou alguns passos. “Estão prontos?”

Todos os olhares se voltaram para mim. Eu odiava quando isso acontecia. Suspirei ajeirando minha postura e olhei para cada um deles e assenti.

“Ótimo.” Isaac bateu as mãos uma na outra e esfregou as palmas. “Vamos lá.” Disse tomando a frente.

Encarei Isaac, que trocava algumas palavras com Owen. Owen se afastou, olhou para mim de soslaio e seguiu adiante. Jared esperou que eu fosse à sua frente para me acompanhar. Estávamos descendo em direção às cavernas e eu senti meu coração palpitar, ecoando em meus ouvidos. Estávamos a poucos metros de distância e avançando. O chão já não era terra e grama, mas cascalhos e pedras que ruíam sob nossos pés.

Senti um aperto firme no braço, que me fez parar de andar com um puxão e então eu estava de frente para Jared novamente.

“Ai.” Gemi de dor por causa de sua mão no meu braço. Franzi o cenho para ele, mas ele não se importou.

Soltou meu braço e segurou meu rosto com as duas mãos fazendo com que eu olhasse diretamente para ele e só para ele. Colou sua testa na minha e suspirou.

“Não se esqueça do que conversamos ontem. Não se esqueça do que eu te disse, por que eu não vou repetir.” Disse ele decididamente.

Olhei dentro de seus olhos verdes e lhe roubei um beijo casto. Ele me roubou outro e o finalizou com uma mordidinha. Sorri para ele.

“Não vou me esquecer.” Garanti. Ele assentiu e fez um gesto para que continuássemos.

Pisei na boca da caverna e me senti insegura por um momento. Olhei para trás e vi que Isaac me encarava de um jeito emocional. Eu não havia me despedido dele e nem ele de mim. Não fiz isso porque eu não quis pensar em uma despedida como se aquilo fosse algo definitivo. Eu sabia que a probabilidade de não voltar era enorme, mas pensar nisso ou agir como se fosse acontecer, só pioraria as coisas. Ele assentiu para mim, encorajando-me a dar mais um passo, e por isso prossegui.

Owen já estava lá dentro, eu podia ouvir sua voz ecoando e chamando meu nome, dizendo-me que era seguro. Apesar de escuro, não estava um completo breu porque ainda estava cedo e a luz entrava por algumas brechas nas rochas. Mesmo assim peguei minha lanterna para ver onde eu estava pisando. Owen me chamou outra vez e eu o alcancei.

“Dê-me sua mão. Está mais escuro aqui.” Disse Owen estendendo sua mão para mim.

“Estou bem, Owen.” Eu disse tranquilamente, embora a última coisa que eu estava era tranquila. “Eu tenho uma lanterna.” Mostrei a ele o objeto em minha mão.

Owen entortou um pouco a boca. Ele poderia estar sendo gentil e cuidadoso, ou apenas arrumando um pretexto para segurar minha mão. Eu estava sim com medo, e queria segurar a mão de alguém, mas esse alguém não era ele. Não que eu me importasse, mas ainda assim, fiquei hesitante.

“É melhor economizar. As coisas podem ficar... desagradáveis lá na frente.” Ele tentou soar apaziguador, mas não deu totalmente certo.

Por esse lado ele tinha razão. Eu ainda achava que ele só queria segurar minha mão, mas o que ele disse era uma grande verdade. Eu provavelmente precisaria da lanterna mais do que eu precisava agora. Desliguei-a, ficando no escuro e aceitei sua mão, que me guiou. Continuamos andando por um tempo e eu percebi que estávamos em uma espécie de descida que começava sutil e se tornava cada vez mais íngreme e sinuosa. Notei também que as paredes estavam ficando mais estreitas até que formaram um corredor que não nos permitia andar lado a lado. Owen liderava o caminho à minha frente, ainda me guiando pela mão, a qual eu apertava nervosamente de vez em vez quando me sentia insegura. Jared vinha logo atrás.

De repente Owen nos mandou parar. Ficamos em silêncio e tentei perguntar o que havia acontecido, mas Jared me pediu para ficar quieta. Ouvi o som de areia escorrendo, algo esfarelando, pedrinhas rolando.

Jared... Chamei-o na minha mente e estremeci. Ele não me respondeu, mas eu ainda sentia sua presença atrás de mim.

Owen gritou algo que não compreendi, pois sua voz se perdeu ao longe, ficando cada vez mais distante e ecoada. Gritei seu nome e dei um passo à frente e de repente o chão sumiu sob meus pés. Mal tive tempo de gritar quando a adrenalina invadiu meu corpo. Uma mão firme segurou a minha, mas não foi o bastante para me puxar de volta. Senti o peso de Jared desaparecer quando ele caiu junto comigo para o desconhecido. Havia poeira em meus olhos, meu corpo estava no vazio e a gravidade me puxava para baixo. Minhas mãos tatearam o ar até que encontrei a camisa de Jared e consegui agarrá-lo. Ele me abraçou, protegendo-me com seu corpo.

Batemos em algo, em rocha maciça e lisa. Ouvi Jared grunhir de dor pela colisão. Eu, ao contrário, não senti nada, pois ele amorteceu minha queda. Não atingimos o chão. Escorregamos ainda mais para baixo, rolando um sobre o outro em uma confusão tremenda de pernas e braços, até que Jared conseguiu me segurar com firmeza de forma que ele ficou de baixo de mim. Finalmente paramos em uma freada brusca que levou nossos corpos para frente e mal tive tempo de esticar os braços para proteger o rosto. Senti uma dor aguda no cotovelo, na lateral do corpo e meu queixo ardia. Eu tinha quase certeza de que eu estava sangrando. Jared estava ao meu lado, ainda me segurando junto a ele.

“Owen?” chamei e minha voz fez um eco que se propagou para bem longe. Estremeci e Jared me segurou com mais força.

“Estou aqui!” ouvi o eco da voz de Owen. O eco também se propagou, mas ele parecia estar perto.

“Eu não consigo ver nada.” Eu disse para Jared. Eu não o estava vendo, mas eu podia sentir o calor de seu corpo e sua respiração.

Me desvencilhei do abraço de Jared lenta e cuidadosamente. Ele não queria me soltar e protestou alegando que seria perigoso caso nos separássemos. Tateei seu corpo rígido no escuro e ele riu. Ignorei seu bom humor fora de hora e agarrei a frente de sua camisa para que não ficássemos longe um do outro enquanto eu tateava o chão de pedra. Cheguei a uma extremidade que parecia uma ponta rochosa e eu não fazia ideia do que tinha embaixo. Continuei tateando até que minha mão tocou algo quente e macio, o que me assustou. Antes que eu pudesse recolher a mão pelo susto, algo segurou meu pulso com força.

“Kate, calma. Sou eu.” Disse Owen. “Estou aqui em baixo. Desça.”

Regularizei minha respiração ofegante e afrouxei meu aperto na camisa de Jared enquanto eu descia por aquela ponta rochosa. Era como um degrau ou o final de um escorregador gigante de pedra, mas não era muito alto. Assim que desci, Owen me segurou firme pela cintura e me puxou para um abraço urgente, afagando meu cabelo.

“Owen, eu estou bem.” Eu disse, tranquilizando-o. Ele se afastou de mim com cuidado e mesmo que eu não pudesse vê-lo, percebi pelo seu toque que ele parecia hesitante e sem jeito.

“Desculpe-me.” Disse ele. “Precisamos de luz. Onde está sua lanterna?” perguntou.

Apalpei meus bolsos e fui ficando cada vez mais alarmada quando não encontrei minha lanterna.

“Merda.” Murmurei. “Eu... Eu não consigo achar.”

“Eu tenho uma.” Disse Jared atrás de mim, para o nosso alívio. Senti sua mão protetora na base das minhas costas e após algumas tentativas ele conseguiu por a lanterna na minha mão.

Tentei acendê-la, apertei vários botões e nada. Nem um único feixe de luz sequer. Comecei a ficar aflita, mais do que eu achei que fosse capaz, e para piorar, o calor ali era abafado e quase insuportável. Eu estava suja, ferida e suada.

“O que houve?” perguntou Owen com ansiedade.

“Não quer acender.” Grunhi, derrotada e entreguei a lanterna a ele. “Deve estar quebrada.”

“Isso é impossível.” Disse Jared, e mesmo no escuro eu era capaz de visualizar seu cenho franzido. “Essa lanterna é para alquimistas profissionais. Foi feita pra suportar grandes quedas.”

“Acho que chegamos à casa escura.” Declarou Owen com um suspiro. Meu coração se contraiu.

“E agora?” perguntei, sem fôlego.

“Bom, acho que é só seguir em frente e achar outra entrada.” Disse Jared.

“Ou descida.” Completou Owen.

“Você vai na frente.” Resmungou Jared.

Após certo tempo no escuro, senti que minha audição estava um pouco mais atenta, uma vez que isso era praticamente tudo o que eu tinha para me guiar no breu. Pude ouvir Owen dar o primeiro passo e por impulso segurei seu braço, impedindo-o de continuar.

“Não pode ser tão simples assim.” Eu disse. Abaixei-me, sem soltar o braço de Owen e passei a mão no chão rochoso e consegui achar uma pequena pedra que se encaixava perfeitamente na palma da minha mão. Não era grande o bastante para ser pesada, mas também não era leve o bastante para não fazer barulho. Levantei-me e me certifiquei de que nem Jared ou Owen estariam no meu caminho e arremessei a pedra para longe. Não ouve qualquer som imediato em resposta. Esperamos aflitos por algum sinal de onde estaria a pedra e depois do que calculei ter se passado três minutos, ouvimos finalmente um som distante de colisão.

“Jared, você pode iluminar o caminho?” pedi, mesmo sabendo o que isso significava. Fogo demoníaco.

Cheguei mais perto de Owen, preparando-me para o calor que me torturava, mas fiquei surpresa quando o que senti foi a sensação de uma brisa suave. Uma luz branca cresceu desde a mão até metade do braço de Jared, iluminando nossos rostos e ferindo nossos olhos. A luz estava fraca e parecia se esmaecer a cada segundo. Olhei para o rosto semi-iluminado de Jared e vi que ele estava fazendo um enorme esforço para manter aquela luz acesa. Por fim, a luz se apagou, Jared suspirou e a última coisa que vi antes da luz desaparecer foi um Owen boquiaberto.

“Não tenho força pra sustentar poder angelical aqui em baixo.” Disse Jared, com uma mistura de cansaço e preocupação.

Toquei a mão de Owen e antes que eu precisasse pedir, ele entendeu o recado. Ele gaguejou, dizendo que não sabia como fazer aquilo, mas que tentaria. Colocou-me atrás de si, sem tirar a mão de mim. Com a outra, repetiu o truque de Jared iluminando o caminho à frente com seu braço estendido. A luz também estava fraca, talvez por causa da influência infernal do lugar ou por falta de prática, eu não sabia dizer, mas foi o bastante parar ver com o que estávamos lidando.

Havia enormes crateras e buracos irregulares por toda a extensão do lugar que não parecia ter fim. A luz não tinha um alcance muito longo, mas até onde podíamos ver, os buracos eram profundos e daria uma bela queda-livre que fez meu estômago se embrulhar. As passagens entre as crateras eram extremamente estreitas, um filete de rocha que parecia qualquer coisa, menos seguro para atravessar.

“O Maia que conseguiu passar por aqui teve muita sorte.” Murmurou Jared ao meu lado.

A luz de Owen estava prestes a se apagar e ficamos todos exasperados.

“Kate, use o isqueiro.” Pediu Owen.

Cacei o isqueiro em meus bolsos e consegui acha-lo, mas infelizmente não consegui acendê-lo. Fiz diversas tentativas até sentir o cheiro do gás, mas nada de fogo. Grunhi e guardei o isqueiro de volta, não iria adiantar.

“Não tem como acender nada aqui.” Resmunguei. “Não assim tão facilmente.” Olhei para Jared com a pouca luz que nos restava, seu rosto estava pálido e um pouco escurecido em alguns pontos. Tentei imaginar qual seria minha aparência depois de ter rolado na pedra até ali e afastei o pensamento. “Aquele Maia deve ter contado uma história e tanto.”

A boca de Jared se curvou e o sorriso tocou o canto de seus olhos.

“Venha, Kate.” Disse ele pegando-me pela mão e me puxou para frente. Owen nos seguiu, com a mão estendida iluminando castamente o caminho.

Andamos pelos caminhos estreitos entre as crateras e a sensação foi de estar caminhando pela corda-bamba. O chão não tremulava, mas o risco de cair era o mesmo e eu precisava ser cuidadosa em cada passo. Um pé após o outro. Jared ainda me segurava pela mão, mantendo-me firme. Oh, Luna. Engoli em seco.

Em algumas partes, o caminho não era tão estreito assim e nos permitíamos uma caminha normal, embora cuidadosa. Eu estava cansada, com calor, alguns machucados começaram a dar indícios de dor que eu não havia sentido antes por causa da tensão e minha mão, a que Jared segurava, já estava suando. Dei um longo suspiro, o que foi um erro. Naquele instante, pisei em falso e me vi perdendo o equilíbrio, caindo em um daqueles buracos.

Dei um grito e tentei segurar a mão de Jared com mais força, mas minha mão estava suada e escorregadia. Meu pânico aumentou e eu senti meus batimentos cardíacos em minha garganta. Fechei os olhos com força enquanto as mãos de Jared e Owen me agarravam pelos braços. Tudo estava escuro outra vez, porque Owen havia parado de usar seu poder para me segurar.

“Vamos puxa-la.” Disse Owen.

“Não!” gritou Jared. “Não podemos puxa-la, seu idiota! Nós vamos cair com ela.”

“E o que pretende fazer?” perguntou Owen, irritado. “Solta-la?”

A ideia me passou pela cabeça, Jared me deixando cair, senti o medo se instalar ainda mais profundamente dentro me mim. Tentei encontrar os olhos dele, mas tudo o que vi foi a mais pura escuridão.

“Jared...” choraminguei seu nome, implorando.

Eu não vou te soltar.” Ele disse e me segurou mais firme.

Não vou deixa-la cair. Sua voz ecoou clara em minha mente, acalmando-me.

“Katherine.” Disse Jared com uma suavidade forçada. “Você precisa subir sozinha. Não podemos te puxar, só te segurar.”

Entendi o que ele queria que eu fizesse. Juntei todas as minhas forças, engoli em seco e procurei um apoio para o pé. Pus o pé esquerdo com firmeza contra a rocha e dei o primeiro impulso. Os músculos do meu braço se retezaram e tremeram, causando-me uma dor terrível. Grunhi.

“Vamos, Kate.” Disse Owen, encorajando-me. Eu sentia seu esforço. “Você consegue. Estamos aqui.”

Sob o efeito de sua voz, tomei outro impulso, com o outro pé. Senti as mãos firmes dos gêmeos em meus braços. O aperto deles doía e escorregava, então fiz um esforço extra para me puxar para cima. Continuei, dando tudo de mim. Eu estava quase lá. A mão de Owen alcançou um ponto acima do meu cotovelo e ele me puxou com toda a força contra seu corpo. Meus pés estavam firmes outra vez. Arfei, cansada. Eu queria encostar minha cabeça contra aquele peito firme e adormecer. Meu corpo estava mole e fraco de repente.

Murmurei um agradecimento timidamente e quando senti as mãos de Jared soltarem meu braço, procurei por sua mão outra vez. Eu sabia que era um gesto patético, mas agi sem pensar e ele não recusou.

Obriguei-me a continuar andando, Owen voltou a iluminar o caminho e Jared continuou a me guiar pela mão. Eu estava cansada, mas consegui redobrar minha atenção, pois meu medo de cair de novo em um daqueles buracos era maior do que todo o medo do mundo. Andamos por um bom tempo, fraquejamos em alguns pontos, mas conseguimos passar pelo pior.

Quando finalmente conseguimos nos sentir um pouco mais confiantes, aceleramos o passo e logo encontramos o que eu achava ser uma saída. Era um portal retangular, anguloso e irregular com algumas partes quebradiças. Ao me aproximar, com a ajuda da luz de Owen, vi que havia alguns desenhos cravados no portal, mas não pude distinguir o que eram ou o que significavam. Tudo o que consegui reconhecer foi uma rocha que formavam o formato de um par de asas. Ignorei aquilo, embora tenha me arrepiado.

Passamos corajosamente pelo portal e nos deparamos com uma escadaria em espiral que descia.

“Agora vem a casa fria.” Ouvi Jared dizer. “Olhe!”

Ele apontou para uma tocha tosca e torta presa à parede. Ao lado dela havia outra e outra, que formavam uma fileira de tochas intercaladas por colunas. A primeira se acendeu e em seguida as outras, iluminando nosso caminho. A luz de Owen se apagou quando não havia mais necessidade e ele pareceu aliviado. Jared desceu o primeiro degrau e eu apertei sua mão fazendo-o olhar para mim.

“Acha que é seguro?” perguntei, encarando-o nos olhos.

“Prefere voltar?” sua cabeça tombou para o lado e ele me encarou com um olhar divertido que não correspondi. “Tem alguma ideia melhor?”

Encarei a escada mais uma vez e neguei com a cabeça.

“Vamos experimentar pra ver.” Disse ele, estimulando-me a segui-lo.

Dei o primeiro passo, descendo o primeiro degrau logo atrás dele e ao passar ao lado da tocha, me encolhi. Aquela sensação de abafo, um aperto dentro de mim, eu senti que o perigo me cercava. Era fogo demoníaco, é claro. Eu não devia estar ali e eu sabia, mas como eu já havia decidido antes, não tinha mais volta. Senti uma breve falta de ar cada vez que passava ao lado de uma tocha e foi assim até chegarmos ao pé da escada.

Foi uma longa decida e eu me sentia extremamente cansada, exausta. O suor deixava minha roupa ensopada e aquilo me agoniava. O que eu não daria por um banho? Seguimos adiante e nos deparamos com outro portal a cerca de seis metros à frente. Jared soltou minha mão e avançou, deixando-me com Owen. Tentei segui-lo, mas Owen me segurou e me fez caminhar com ele. Quando nos aproximamos, Jared estava parado diante do portal, de braços cruzados, observando. Ficamos os três em silêncio por algum tempo, e eu lutava contra a sensação que as tochas provocavam. Senti uma mão em meu ombro. Owen.

“Tudo bem?” perguntou ele em voz baixa e ligeiramente grave.

Assenti e esbocei um fraco sorriso enquanto ele me avaliava. Aproximei-me de Jared, dessa vez sem a intervenção de Owen.

“O que há?” perguntei a ele.

“A questão é o que não há.” Respondeu ele estreitando os olhos. Olhou para mim de repente, pegando-me de surpresa. “Está com frio?” perguntou.

Neguei, franzindo o cenho.

“Exatamente.” Disse ele. “Deveríamos estar na casa fria. Tem algo muito errado aqui.” Jared foi até a fachada do portal e passou os dedos por cima das figuras cravadas e começou a sussurrar: “Demônios. Bestas aladas...” Seus olhos se arregalaram e ele se virou para nós. “Essa é a casa dos morcegos. KATHERINE, ABAIXA!”

Fiz o que Jared mandou imediatamente, com o coração batendo aceleradamente. Um vulto escuro passou por sobre minha cabeça feito um raio e soltou um grito horrendo e estridente. Depois daquele, outros começaram a aparecer. Mantive meu corpo contra o chão e vi que Jared e Owen haviam feito o mesmo. Peguei minha pistola, fiquei em meus joelhos, esquivando-me de uma ou outra criatura e comecei a atirar. Acertei dois no que eu chamaria de peito e outro na cabeça. Não avistei outras criaturas e relaxei os ombros, respirando com dificuldade.

Nós três nos levantamos e sacudimos a poeira do corpo. Ousei chegar perto de uma das criaturas que sofria um espasmo e logo se aquietou. Uma espécie de líquido viscoso e escuro saía de seu corpo deformado, que me lembrou os demônios que eu tive de enfrentar com Jared em nossa luta com Alastor, mas estes eram um pouco maiores e portavam asas. Suas cabeças eram tortas, não tinham olhos, mas tinham dentes longos, afiados e cinzentos, como suas garras atrofiadas.

“Não era pra essa criatura ter morrido com algo tão terreno quanto simples balas de metal.” Observou Owen. “Como fez isso, Katherine?”

“As balas estão sob o feitiço do Omnia.” Limpei o suor da testa com o dorso da mão e respirei fundo. “O Omnia aniquila qualquer coisa demo...”

Uma confusão de garras passou pelos meus olhos e senti arranhões ardentes e torturantes em algumas partes do meu corpo. Gritei e senti meus pés serem tirados do chão. Fui arrastada para a escuridão, perdendo de vista Owen e Jared que gritavam por mim. Debati-me inutilmente. Seria um esforço vão e se as criaturas me soltassem, eu cairia no abismo escuro.

Então me vi caindo até que minhas costas atingiram o chão duro e quente. A aproximação daquelas criaturas me dava nos nervos. Uma vez que eu estava no chão, não perdi tempo. Por mais ferida que eu estivesse, alcancei minha pistola e saí disparando e mirando em tudo o que se movia. As criaturas berravam e eu as silenciava. Seus gritos agudos me davam dor de cabeça, principalmente quando morriam. Eu olhei em volta, procurando a luz das tochas que marcavam o portal pelo qual eu havia sido arrastada. Continuei atirando e procurando, tentando não baixar a guarda.

Jared!” gritei, mas não houve resposta. A ideia de estar completamente sozinha me aterrorizava. Eu já havia recarregado minha pistola duas vezes e dali a poucos minutos, não haveria mais balas. Eu estava sozinha e ficando sem munição.

Algo me mordeu na canela e no ombro. Berrei de dor e deixei minha arma cair. Consegui pega-la com a outra mão, mas uma dor agonizante se instalou em meu corpo e eu senti meu sangue arder. Comecei a chutá-los e atirar em todos os que se aproximavam demais. Mas haviam tantos.

JARED!” Eu chamava seu nome como um mantra, uma súplica. O choro forçava em minha garganta e eu continuava a gritar.

Eu estava perdida. Sozinha. As criaturas avançavam cada vez mais, fechando minha visão ao meu redor e eu só tinha mais uma bala. Caí em meus joelhos quando algo pulou em cima de mim, arranhando-me nas costas. Argh. Meus olhos estavam se fechando, eu estava desistindo de lutar, não havia mais forças.

No meio da escuridão, eu vi algo brilhar turvamente ao longe. Fui tomada pela sensação forte de sufoco, aquele calor infernal me enfraquecia ainda mais. Uma nova criatura se aproximava e provavelmente seria aquela que travaria minha morte. Resolvi não lutar mais. Eu estava na trilha do inferno e estava prestes a morrer. Não tinha mais motivo para lutar. Senti algo queimar meus braços, puxando-me para cima. Gritei.

Katherine! Katherine olha pra mim!” ouvi a voz de Jared e abri os olhos. Jared me segurava. Suas mãos não estavam em chamas, mas ainda estavam quentes e por isso me queimaram. Eu queria me afastar dele ao mesmo tempo em que queria abraça-lo por ele estar ali.

Não muito longe de nós estava Owen lutando com seus poderes. Minha visão estava fraca e turva, mas eu vi que ele sangrava. Jared me envolveu pela cintura, pondo-me de pé.

Kate, eu preciso que você lute. Eu vou ter que te soltar para usar o fogo sem te ferir.

O som de sua voz em minha mente era como água fresca, revigorando-me. Eu sentia sua energia e sua força fluir em meu corpo. Forcei-me a ficar firme e eu o vi sorrir fracamente para mim. Algo prateado cintilou diante dos meus olhos e reconheci minha pistola.

“Estou sem munição.” Eu disse quase sem voz.

“Eu recarreguei.” Ele disse e tentou de me firmar para me soltar. Fiquei de pé. Cambaleei um pouco para o lado, sentindo uma tontura e ele me segurou. “Atire, Kate.” Ele ordenou e eu o fiz.

Jared estava incendiando. Ele pegava os demônios pelo pescoço com as mãos em chamas e eu atirava nas criaturas para que morressem de vez. Eu sentia a sensação de sufoco pelo fogo demoníaco, mas percebi que não era pelo de Jared. Ele estava perto demais e o que eu sentia vinha de longe. O que me sufocava, era o fogo de Owen, que se aproximava de nós.

“Owen, cuidado!” Jared gritou. “O fogo! Não chegue muito perto.” Jared o alertou enquanto ele mesmo se mantinha em certa distância, embora eu não me sentisse ameaçada por ele.

“Kate, precisamos abrir caminho!” Owen gritou de onde estava e assenti.

Um dos demônios tentou puxar a mochila dos meus ombros. Eu não podia perder aquela mochila. Consegui afastar a criatura e puxei Jared para longe pela camisa. Ele ficou surpreso por eu ter conseguido tocá-lo, mas não disse nada. Corremos e demos de cara com uma enorme parede.

“Merda!” grunhiu ele ao meu lado, olhando para a parede. Ele tentou me puxar para longe com sua mão quente, para procurar outro caminho, mas me mantive ali, reprimindo a dor enfraquecida de sua mão em minha pele.

“Vamos seguir pela parede. Acho que temos a chance de achar uma abertura!” gritei para que Owen me ouvisse e fizesse o mesmo.

Seguir pela parede seria mais fácil, pois tínhamos uma base de caminho para nos guiar. Algumas criaturas tentaram atacar e puxavam meu cabelo, me arranhavam nos braços e graniam. Demorou cerca de vinte exaustivos minutos para encontrar a saída, mas finalmente chegamos lá.

Tombei no chão sobre meus joelhos, sentindo-me completamente esgotada. Meu corpo doía, tanto por dentro quanto por fora, pois eu ainda sentia o veneno daquelas criaturas correndo por minhas veias. Gritei quando minha cabeça latejou e minha garganta arranhou.

“Jared...” eu o chamei, mas não houve qualquer som. Tentei esticar a mão na direção dele, como se eu pudesse alcança-lo, mas não tive forças e deixei meu braço cair.

Na minha mente eu me contorcia de dor, mas tive consciência de que meu corpo físico estava imóvel. Chamei por Jared em minha mente, já que eu não conseguia mais mexer minha boca, mas ele me ignorou, ainda encarando o portal por onde passamos. Só então percebi que Owen não estava conosco. Tentei chama-lo mais uma vez, mas ao invés de simplesmente me ignorar, ele entrou na Casa dos Morcegos. Senti-me abandonada à mercê da tortura interna.

Alguns minutos se passaram, talvez horas, eu não sabia dizer, e Jared passou novamente pelo portal juntamente com Owen e com novos ferimentos que não tardariam a se curar. Jared olhou para mim, com os olhos arregalados e eu ainda não conseguia me mover.

“Cure-a!” ouvi Jared gritar para Owen e apontou para mim.

Owen correu para mim sem pensar duas vezes e pegou meu corpo amolecido em seu colo. Seu olhar estava simplesmente aterrorizado. Talvez ele temesse que eu já estivesse morta. Uma mão me segurou pela nuca mantendo minha cabeça no lugar, fazendo-me encará-lo nos olhos. Sua outra mão pousou logo acima do meu coração.

Onde antes ardia, agora congelava. Era como estar em um quarto fechado com o ar condicionado ligado. Depois foi como estar nua na neve. Não demorou muito até que eu conseguisse piscar e a mexer um pouco dos músculos do rosto e em seguida do resto do corpo. A dor diminuiu de pouco a pouco e fui recobrando minhas coordenações motoras e sensoriais. Eu vi que Owen estava fazendo muito esforço por mais que seu lado predominante fosse o angelical.

“Você está bem?” perguntei meio rouca e ele riu para mim, como se a pergunta fosse um absurdo.

“Eu devia estar te perguntando isso.” Sorriu carinhosamente e parecia aliviado. “Meus poderes angelicais não funcionam muito bem aqui.”

Assenti lentamente em compreensão.

“Estou melhor, obrigada.” Eu disse. “Acho que consigo me levantar.” Me mexi e testei meus braços e pernas, ainda meio fracos, mas já era alguma coisa. Eu estava me sentindo muito melhor.

Quando olhei em volta e não avistei Jared, senti um medo enorme no peito. Então vi que ele estava jogado no chão. Arrastei-me até ele, coloquei sua cabeça em meu colo sussurrando seu nome e afastei da testa seu cabelo branco molhado de suor. Acariciei seu rosto por instinto e ele franziu o rosto.

“O que houve?” perguntei a ele e ele piscou lentamente para mim, esboçando um sorriso cansado e preguiçoso. Havia sangue seco em seu nariz e ele estava extremamente suado e sujo.

“Castigo.” Ele disse com os lábios ressecados. Engoliu em seco e fechou os olhos, respirando fundo e devagar. “Sou castigado quando sou bonzinho.” Ele riu baixinho e eu senti seu peito subir e descer. “Usar poderes celestiais nunca foi muito confortável pra mim.” Engoliu em seco novamente. “Muito menos aqui. Eu fico fraco. É doloroso.”

Seu rosto se franziu quando ele disse a última palavra.

“Shh...” sibilei para ele e o embalei com meus braços sem saber ao certo se aquilo ajudaria, mas eu não sabia o que fazer. Beijei sua boca, ambos estávamos muito fracos e exaustos.

Jared parecia ter adormecido. Levantei-me ajeitando sua cabeça com cuidado e fui procurar Owen. O túnel era longo e iluminado por mais tochas que me deixavam muito incomodada. Segui em frente, corajosamente, torcendo para encontrar meu caminho de volta caso precisasse e temendo encontrar qualquer coisa indesejável no caminho de ida.

“Acabaram os portais?” perguntei a Owen quando o encontrei ao lado de um paredão.

Quando cheguei ao seu lado ele pôs a mão diante de mim fazendo-me parar e só então percebi o quão distante o paredão estava e entre nós e o paredão, um enorme abismo que me tirou o fôlego.

“Vamos ter que descer?” consegui perguntar. Estiquei o pescoço para encarar e uma brisa tocou meu rosto e arrepiou minha espinha.

“Tem cordas na mochila de Jared. Vamos ter que descer de rapel.” Disse ele olhando-me de soslaio. “Lá embaixo está o portal pra Casa Fria. Você sente?”

Assenti para ele.

“Vou acordar Jared para continuarmos.” Eu disse sentindo o peso do meu próprio cansaço.

“Estamos descendo cada vez mais.” Disse ele em tom de comentário. “Cada vez mais próximos do inferno. Daqui adiante só vai piorar, Kate.” Ele me deu uma olhada séria. “Ainda mais pra você e isso me preocupa.”

Ele parou de andar e segurou minha mão, fazendo-me olhar para ele. Sua outra mão tocou a lateral do meu rosto, acariciando-me.

“Ainda tão linda.” Ele disse com sua voz suave, olhando-me nos olhos.

Senti um aperto no peito e uma súbita timidez.

“Hm... Eu acho que vou... acordar Jared.” Eu disse e me afastei, mas ele não soltou minha mão e me fez voltar.

“Não, espere.” Ele disse. “Por favor.” Owen chegou mais perto e eu não soube o que fazer ou como reagir, então apenas esperei como ele pediu.

Ele vestia uma camisa branca, que agora não estava mais tão branca. Seus cabelos escuros e ondulados estavam desgrenhados e destacavam sua pele pálida de forma impressionante. Seus olhos verdes estavam escurecidos, mas não como os de Jared, pois esses eram dóceis e os de Jared eram ferozes. Havia algo a mais na diferença entre os dois, mas eu não consegui me concentrar para identificar os pequenos detalhes naquele momento.

Owen me pegou gentilmente pelo queixo e me encarou, seu rosto a pouquíssimos centímetros do meu. Ele olhou para meus lábios e depois para os meus olhos, como se pedisse permissão para me beijar. Eu não sabia se queria beijá-lo. Seria diferente, mas não era o que eu queria. Não realmente. Permiti-me olhar para seus lábios por um momento e vi que eram diferentes dos do irmão. Tinham o mesmo formato, mas os de Owen eram mais carnudos. Mordíveis, pensei. Senti-me errada por desejar morder sua boca e me senti patética por me sentir errada. Não era como se Jared não mordesse a boca de outras o tempo todo. Ou pior. Sabe lá Deus por onde mais passava aquela boca.

Estremeci com o pensamento e fechei os olhos quando o nariz de Owen roçou o meu e lentamente senti sua boca tocando o canto da minha. Simples assim. Apenas um pequeno e suave toque no canto da minha boca.

“Se você fosse um pouquinho mais pra direita, teria acertado a boca.” Ouvi a voz de Jared atrás de nós e saltei de susto.

Owen respirou fundo, se afastou de mim e encarou o irmão. Não havia qualquer triunfo em sua expressão, apenas uma dureza repreensiva. Jared estava com minha mochila e com a sua e nos encarava na curva do túnel.

“Até de boca você é virgem, princesa?” provocou o irmão e caminhou audaciosamente até nós.

Ele não parecia estar com raiva, mas também não estava satisfeito. Parecia cansado, tenso e eu pude sentir essa tensão dentro de mim. Encarou-me ao passar por mim e eu revirei os olhos ousando aproximar-me dele sem um pingo de vergonha. Eu sabia que ele estava tentando me intimidar com o olhar, mas eu não permitiria. Virei-o de costas para mim e tirei de sua mochila as cordas e algumas outras peças necessárias para o rapel. Fui jogando tudo para Owen.

“O Maia que pulou daqui com certeza teve uma bela história pra contar.” Comentou Jared, encarando o abismo diante de nós. “Espero que ele tenha levado casacos de pele.”

Eu e Owen nos encaramos, mas não fizemos qualquer comentário.

“Vamos descer.” Eu disse com seriedade, para os dois.

Notas finais
Gente, e ai? Próxima etapa? Vamos ficar no aguardo do próximo! Pra quem já faz parte do grupo no What's app, valeu mesmo gente, tem sido muito divertido, muito dinâmico, é muito bom conversar com vocês. Pra quem não está no grupo ainda, O QUE VOCÊS ESTÃO ESPERANDO? Mande nos reviews "Eu quero entrar para o Jaredelícia" e venha participar de um "ask the character", um jogo de perguntas a QUALQUER PERSONAGEM da fanfic (Com exceção de Harahel que ainda ta no inferno). Isso aí, gente. Um Beijared a todos ;*