Há beleza no inverno
14 Reino de Gelo
Notas iniciais
Deitada na neve fofinha e rodeada pelas borboletinhas de gelo que eu havia criado, em um mundo onde tudo o que há de ruim parecia apenas não existir. Em meu próprio reino de gelo, tudo o que eu desejasse era possível, e eu finalmente me sentia livre, em paz. E, por mais solitário que fosse, sempre parecia haver algo com o que eu me ocupar! Andava por meu castelo acrescentando cada vez mais detalhes, decorava o exterior e o que eu havia chamado de jardim de gelo, além de cuidar das criaturinhas de gelo que eu criara. Era como ser dona de seu próprio mundo – um mundo onde eu pudesse ser quem realmente sou, e sem machucar ninguém.
Mas às vezes, flashes de minha vida antiga voltavam. Eu me lembrava de Jack, a única pessoa no mundo com quem eu pudera me abrir e que me entendera. Lembrava de como eu havia ido embora sem ao menos me despedir, e em como, naquele dia, eu não trocara nem uma palavra se quer com ele. Lembrava de seus beijos calorosos no meio do frio e do inverno dentro de mim, de suas mãos pelo meu corpo que ansiava pelo dele.
– Jack? – pergunto, em meio aos beijos.
– Hmmm? – ele diz, o corpo deitado em cima do meu, o rosto enterrado em meu pescoço, beijando-o. Tento ignorar o formigamento que isso me trás.
– Você acha que... – começo a dizer, mas logo me interrompo – Jack, eu tenho medo.
Ele para de me beijar e me olha nos olhos. Seu cabelo está despenteado, a camisa aberta expondo seu peito nu. Não devo estar muito melhor que isso, afinal.
– Medo de que, minha linda? – pergunta, afagando meus cabelos e a curva de meus seios por cima de meu sutiã.
– Medo... disso, eu acho. De te machucar caso nós... avançássemos um pouco mais. Não que eu não queira, eu quero muito, mas e se acontecer alguma coisa...
– Elsa – ele interrompe, rindo – Não se preocupe, está bem? Nós não faremos nada enquanto você não se sentir pronta. Eu não vou apressar as coisas.
Ele me da um selinho.
– Bem, eu não quis dizer que não me sinto pronta para, sabe, nada mesmo... – ele ri e, quando vejo, está beijando meu pescoço, meus ombros, seus lábios descendo cada vez mais. Ele explora meus seios, minha barriga, e eu arfo...
Abro os olhos, surpresa com a intensidade da lembrança. Sento-me no chão de neve, e tento focar na vida que eu tenho agora, e não na que eu deixei para trás. Entro no castelo, e vou para os meus aposentos no andar superior. Apoio-me na minha sacada e observo a vista, o horizonte ao meu redor.
E é quando vejo.
O vulto andando pela neve aproxima-se cada vez mais, até que torna-se impossível não reconhecer que aquela pessoa é a minha irmã. Nem começo a me perguntar como ela conseguiu me encontrar ali, em meu refúgio. De alguma forma, eu fico feliz que ela esteja aqui.
Desco as escada e logo a vejo no hall de entrada do castelo.
– Elsa... wow – ela diz. – Você está diferente.
Eu rio.
– Eu me sinto diferente, Anna. Me sinto melhor.
– Nós precisamos conversar, Elsa. Escute, tudo bem você não ter me contado de seus poderes e tudo mais, mas agora é diferente...
Começo a ouvir o que ela diz, mas logo me vem a cabeça aquela lembrança. O dia em que eu a machucara, tantos anos atrás. O lado de meus poderes que ela precisava enxergar.
– Anna, tudo bem, sério. Mas eu preciso ficar aqui, onde eu posso ser quem sou... sem machucar mais ninguém. Você entende? – respiro profundamente – Você viu o que eu estava prestes a fazer com aquela garota no banheiro, não viu? Você sabe o que eu sou, o que eu posso fazer quando perco o controle...
– Elsa. – ela diz, aproximando-se de mim. – Eu não tenho medo de você. Você é a minha irmã, eu sei que você nunca me machucaria.
Aquilo me dói como uma facada. Quer dizer que ela não sabia.
– Não, Anna, desculpe, mas não vai dar. – digo, dando às costas – Você precisa ir embora, por favor...
Começo a sair, quando ela diz:
– Quer dizer que você vai me deixar sozinha de novo, Elsa? – sua voz parece magoada, abatida. – Todos esses anos me mandando embora, sempre que eu tentava ajudar, e agora você faz isso de novo?
Viro-me para ela, e vejo que seus olhos estão cheios de lágrimas.
– Deixe-me ajudar, por favor.
E eu sinto que, depois de todos esses anos escondendo quem eu realmente era de minha própria irmã, eu a devo uma explicação. Eu tenho que contar toda a verdade.
Falo da história que o Homem da Lua me revelara, sobre nossa infância com Jack e do que havia acontecido. Falo do medo que eu tenho de me descontrolar e machucar os outros, e de como esse medo havia me guiado minha vida inteira.
Uma vida inteira se escondendo dentro do próprio quarto, como se ele fosse um mundo à parte. Vivendo sob o olhar desaprovador dos pais, sentindo que eles temiam a própria filha e o que ela era capaz. E querendo compartilhar isso com minha única irmã, mas sendo constantemente impedida.
– Elsa. O que quer que tenha acontecido no passado está no passado, está bem? – ela segura minha mão e me olha fundo com seus gigantes olhos azuis. – De qualquer forma, eu perdoo você. E eu quero que, a partir de agora, não existam mais segredos entre nós. Você pode confiar em mim, sempre. – ela respira fundo, como se precisasse de coragem para me dizer o que está prestes a dizer – Eu amo você, Elsa.
Pisco, confusa. Isso não era o que eu estava esperando.
– Amor? – tento lembrar da última vez que alguém havia me dito isso, sem sucesso. E sinto algo como uma luz brilhando dentro de mim, me amolecendo por dentro. Sinto que a resposta que eu estava procurando, o ponto de equilíbrio para os meus poderes, era algo muito mais simples do que ter de me isolar do mundo. Eu não precisava disso para ser livre, para ser eu mesma. Anna estava me dando a resposta. – Sim, amor. – digo, finalmente, rindo.
Eu a abraço muito forte, e ela me retribui. Lágrimas vêm aos meus olhos e descem pelas minhas bochechas, e me sinto inteira. Ou, pelo menos, quase inteira...
– Anna! – digo, me afastando – Que dia é hoje??
– Ah, sábado, eu acho... – ela diz, confusa.
– Meu Deus! Hoje é o dia do Baile de Inverno. Nós precisamos voltar, e rápido.
Ela ri e se levanta, empolgada. Precisávamos chegar lá antes que o Baile terminasse. Eu precisava encontrar Jack.
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