Há beleza no inverno
3 O gelo
Notas iniciais
Eu estava na sala de aula, mais uma vez distraída. Desta vez, porém, era diferente. Muito diferente. Eu estava distraída por causa do misterioso menino albino sentado ao meu lado.
Nós não parávamos de conversar e trocar bilhetes a aula inteira. E, quando não estávamos conversando, eu sentia que ele me olhava. Ele deve ter visto meu rosto pálido avermelhar-se o tempo inteiro. Ele deve ter visto como eu não parava de enrolar o dedo na ponta da minha trança, nervosa. Ou como eu o espiava pelo canto do olho enquanto escrevia ou desenhava em meu caderno.
Meu Deus, eu estava ficando a fim dele. Pela primeira vez na minha vida, eu estava a fim de uma pessoa.
Eu não sabia o que isso poderia fazer com meus poderes.
É que eu não sou uma garota normal. Eu tenho esse meu fardo, essa minha maldição que me acompanha em todo lugar. Por isso eu não poderia me dar ao luxo de me aproximar muito das pessoas, quem dera de me apaixonar por alguém. Eu poderia acabar perdendo o controle de meus poderes e causar algum acidente. Se eu machucasse alguém... Eu não consigo nem pensar nisso.
Por isso, essa coisa com Jack precisa acabar, antes mesmo que comece.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Quando a aula acabou, fui até o ringue de patinação da escola. Vesti minha roupa de treino e calcei meus patins. Patinar no gelo sempre me relaxava, em uma maneira incrível. Era bonito e irônico o fato de o gelo ser a fonte dos meus problemas, e também a solução deles.
Começo a patinar, dando umas voltas no gelo. Dou um salto simples seguido de um duplo, quando, de repente, eu vejo que Jack está lá também.
– E aí, loura – ele diz, entrando na pista.
– O que você está fazendo aqui? – pergunto, surpresa. Eu estava fugindo, tentando esquecer um pouco dele. E agora, isso.
– Eu treino patinação artística – digo – O que você está fazendo aqui, garoto novo?
– Eu estou praticando. Vou me escrever para o time de hóquei no gelo da escola. – ele diz – Faz algum tempo que não patino.
De repente, me esqueço da minha resolução de não-vou-mais-me-aproximar-de-Jack-Frost, e digo:
– Bem, que tal praticar com uma profissional? – rindo, eu seguro as mãos dele e o puxo. Vamos deslizando juntos pela pista, em perfeita sincronia. – Eu posso até ensinar uns passos de dança.
Ele me gira, e começamos a patinar sincronizados. E é tudo tão perfeito. É como se mais nada existisse, como se mais nada importasse. Nós giramos e deslizamos, e eu me esqueço de meus problemas, de meus poderes... Só existe aqui e agora.
Subitamente, nós paramos de frente um para o outro. Ele está com as mãos na minha cintura, e me olha fundo nos olhos, do mesmo jeito que fez no primeiro dia de aula e no ônibus.
Eu me afasto rápido dele, lembrando-me do que poderia acontecer... De por que eu não sou uma menina normal. Fico com medo, e vejo um único floco de neve cair sobre a minha cabeça.
Saio apressada da pista, ouvindo Jack me chamar confuso atrás de mim. Mas não olho para trás, só continuo indo em direção ao vestiário, longe dele.
–x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x
Chego em casa e encontro Anna empanturrando-se de chocolate. Com a cara toda suja, ela sorri para mim. Não consigo me segurar e caio na gargalhada.
– Anna, você está toda suja! – digo.
– Ah, eu... Que vergonha, Elsa – ela diz, limpando-se.
– Nem se preocupe, irmã – digo, sentando-me a mesa. De repente, lembro do que aconteceu entre mim e Jack, e fico triste de novo.
Anna, é claro, percebe.
– Elsa, há algo errado com você – ela diz, e não é uma pergunta. – O que aconteceu?
Minha irmã era realmente um amor. Ela sempre parecia estar preocupada comigo, por mais que eu sempre fosse fria com ela. Acho que, apesar de tudo, ela se importava com meus sentimentos.
Obviamente, porém, eu não poderia contar para ela o que realmente estava errado. Isso envolveria contar sobre meu segredo, minha maldição e, por mais que eu quisesse muito compartilhar isso com ela, meus pais foram bem claros. Eles disseram que eu não deveria falar para Anna, pois ela ficaria confusa. E, quanto menos pessoas soubessem, melhor seria.
– Nada, irmã, — digo, enfim – é só... Um garoto.
Ela arregala os olhos.
– Um GAROTO?? Elsa, ele te magoou? Sabe, eu posso dar um soco bem forte na cara dele!
Eu sorrio. Ela sempre parecia saber a coisa certa a dizer.
– Ele não me magoou, Anna, não é isso. De qualquer forma, obrigada por ouvir.
Vou para o meu quarto, deixando-a sozinha. Eu me sentia péssima, mas não poderia destruir a vida de minha irmã com meus problemas. Não seria justo com ela.
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