Gênesis

23 Nami no Kuni – Ressurreição.


Notas iniciais
Eu não demorei tanto assim… acho. Esse é um dos raros capítulos em que depois de terminado, eu me sinto muito satisfeito. Simplesmente foda. Curtem ae, esse é o final do arco das Ondas. E o começo do começo...

A morte era nada mais que um breve e simples instante de dor, e depois só havia uma eterna e escura penumbra cinzenta… onde a única coisa que sentíamos era o gélido bafo da eternidade e o assustador vazio…Ele sabia disso melhor do que ninguém.

Ele, na sua curta vida, já havia assassinado muitas pessoas…ele já havia observado os olhos de uma pessoa à beira da morte, dois orbes, que iam vagamente perdendo o seu brilho enquanto eram, lentamente, acalentados pelos gélidos braços da morte… ele sabia muito bem disso… mas então… se ele estava morto, porque raios é que o seu corpo todo doía?! Porquê é que o seu estômago roncava, ansiando ser alimentado?! Na sua concepção do que era a vida e a morte, aquilo não fazia o menor sentido… a menos que… que ele ainda estivesse vivo… quando ele se apercebeu disso, sentiu uma singela réstia de esperança se iluminando no seu interior… talvez… talvez ele não estava morto…

Mas ele logo repreendeu esse pensamento… tolice ele havia visto… aquela colossal e paralisante serpente vindo em sua direcção, sendo acompanhado pelos raios do próprio Raijin… ele, até naquele instante, podia ouvir o som dos raios afiados que envolviam aquela serpente divina, trazendo consigo o som da própria morte…

— Aquele garoto não podia ser humano… — Ele se assustou com as palavras que ouviu saindo da sua boca, mas mesmo assim ele viu que aquelas palavras tinham todo o sentido do mundo… ele ainda tinha gravado a fogo na sua mente, aquela estranha imagem que tivera do loiro, e até naquele momento, ele ainda sentia a estranha sensação de submissão grudada na sua pele, como um perfume… espera… palavras?! Ele estava tão absorto que nem reparou que ele, na verdade, não havia pensando, mas sim falado.

Essa constatação, fez com que uma chama se acendesse no seu peito. Então, ele tentou abrir os seus olhos… as suas pálpebras estavam muito pesadas e grudadas, mas ele considerou aquilo um bom sinal… depois de mais algumas tentativas, ele viu a repentina luz queimar as suas retinas. Ele levou o antebraço, instintivamente diante do rosto, em uma tentativa de se proteger.

— Mas que merda…?

Branco. Ele só via um intenso branco, que queimava intensamente as suas retinas como se tivessem jogado ácido nos seus olhos e o cheiro salgado da brisa do mar. Ele se sentia como um verme que passou a vida toda se escondendo na escuridão, e agora havia saído à luz. Mas fora isso, ele considerava aquilo um bom sinal, o seu corpo, ainda que muito dorido, indicava que ele ainda estava vivo. E agora que reparava, ele sentia o seu coração batendo freneticamente no seu peito, bombeando sangue para que ele pudesse continuar vivendo… somente alguém que escapara da morte era capaz de apreciar aquele melodioso e poético som…

— Oh… você finalmente acordou…

Haku sentiu as suas finas sobrancelhas se franzirem em confusão. Mesmo que sentisse cada parte do seu corpo rangendo de dor, como se milhares de agulhas tivessem sido enfiadas na sua pele, ele ergueu o seu tronco, deslizando os brancos lençóis para o seu quadril, e então, ele pôde notar o garoto sentado de pernas cruzadas — e com uma espada sob as pernas, no outro canto do quarto. O seu olhar era duro e penetrante. Nem parecia ser uma criança.

— Quem… — Haku não conseguiu terminar de falar, levou à sua mão até a cabeça, ela estava doendo como se tivessem enfiado uma Kunai no seu ouvido. Ele decidiu baixar o tom de voz, passando a um sussurro – é você?

O garoto ficou um longo período em silêncio, antes de falar.

— Inari… — Ele respondeu, em um tom rígido, apesar de o seu punho ter apertado mais firmemente o cabo da sua espada.

E Haku se apercebeu que ele estava se controlando para não atacá-lo.

— Inari… — Haku repetiu, tentando ver se o nome o lembrava alguma coisa particularmente importante, — então, Inari… onde eu estou?

— No país das Ondas…

Haku estreitou os olhos, tentando ver se ele estava brincando com ele, mas pelo olhar firme no rosto dele, Haku concluiu que ele realmente achava que aquela era uma resposta satisfatória.

— Eu sei disso… — Ele tentou controlar o tom de voz, não queria assustar a única pessoa que podia lhe dizer onde estava – mas onde estamos, pra ser mais exacto?

— Na casa do Tazuna-San… o construtor de pontes…

— Tazuna-San…? – Haku franziu o cenho – Ah… o Tazuna-San… e o que eu estou fazendo aqui?

Inari não respondeu, apenas continuou encarando Haku. E ele apenas suspirou profundamente.

— Certo… certo. Onde está… o Uzumaki?

— O Naruto-Sensei? – Haku estranhou o "Sensei", mas ainda assim, assentiu lentamente. Inari apontou para o outro lado do quarto, meneando a sua cabeça.

A princípio, Haku não entendeu. Mas quando ele virou o rosto para outra extremidade do quarto, ele sentiu o seu coração falhar uma batida.

— Uzumaki Naruto… — Haku murmurou, ao avistar a figura pálida e adormecida do loiro… ele estava em um pequeno colchão, com o corpo parcialmente coberto por um fino e branco lençol, a cálida luz do sol estava banhando a sua pele, a levando a ter um brilho dourado… enfim, ele parecia tão… frágil e indefeso, e até Haku duvidou, por um instante, que aquele garoto o tinha derrotado…

Naruto, a pessoa que ele tanto odiava, estava tão perto e indefeso… não custaria nada partir o pescoço de Inari e rasgar a garganta de Naruto com os próprios dentes… seria tão fácil quanto pisotear uma flor… Mas então a voz gélida de Inari o tirou dos seus devaneios…

— Nem pense nisso… — Inari deslizou um centímetro da espada, exibindo uma lâmina prateada e brilhante, como a própria lua – Eu cortarei a sua mão muito antes de você se mexer…

E então Haku piscou, se apercebendo da expressão macabra que o seu rosto provavelmente tinha. Ele se repreendeu mentalmente. Ele realmente estava pensando em matar um garoto de seis anos?! Apenas por pura vingança?!

Quão insano eu estou ficando?!

Ele suspirou profundamente, e desviou o seu olhar do inerte e tentador corpo de Naruto. E Haku não pôde deixar de pensar no quanto ele estava cada vez mais parecendo o homem que ele mais odiava no mundo… e não era Naruto.

— Eu… — Haku sussurrou, mas ele não fazia realmente ideia do que dizer – desculpe…

Inari olhou profundamente para Haku, ainda com a mão no cabo da espada, o avaliando, pelo que pareceu ser minutos. Mas ele logo deslizou a espada, novamente, para a bainha, provocando um som gutural e profundo, como se milhares de garras estivessem roçando no metal.

Inari assentiu, como se estivesse o permitindo viver por mais alguns segundos.

Haku o analisou atentamente. Ele era, sem dúvida alguma, uma criança, mas ele já possuía uma aura maculada e sufocadora… e os olhos… eram profundos e escuros como o mar em uma noite de tempestade, reflectindo o céu sem estrelas… e, o mais assustador, era o brilho nos seus olhos, o brilho de alguém que já havia matado… mesmo sendo ainda uma criança. Haku se perguntou: quão forte e assustador ele seria, dai há alguns anos?!

Mal ele sabia, que independentemente do quanto a sua imaginação fosse fértil, ele nem sequer imaginaria metade do que aquele garoto se tornaria… e o quanto abalaria o mundo Shinobi…

— Então, onde você conseguiu essa espada? – Haku perguntou.

Inari olhou atentamente para ele, com uma expressão pensativa, que apenas se tornava surreal no rosto de uma criança.

— Era do espadachim que eu matei… — Inari falou, com uma calma que assustou Haku.

— Entendo… er, é uma bela espada… — Haku falou, com um sorriso constrangido no rosto.

— Obrigado… — Inari murmurou, em um tom meio mecânico.

— Certo… certo… sabe, eu também tenho… quer dizer tinha uma espada…

— E depois? – Inari perguntou, como se realmente quisesse saber qual era a relevância daquela informação.

Haku apenas sorriu.

— É… nada. Então… como ela se chama?

Inari franziu o cenho.

— É suposto ter um nome?

— Não necessariamente… mas eu acho que ajuda a criar uma ligação mais profunda com ela… o meu mestre costumava dizer algo como: Não treinamos com uma espada, nos devotamos a ela.

Como se estivesse concordando, a espada pareceu brilhar, pelo que pareceu ser um segundo, mas logo voltou ao normal.

— Nesse caso… que tal… — Inari pareceu pensar por um longo instante — chuta-bundas?

Haku gargalhou. E então se lembrou do quanto aquele som era… prazeroso.

— Naa… eu acho que o nome deve ser algo que… sei lá, nos faça lembrar porque razão desembainhamos a nossa espada…

Inari fez uma expressão engraçada de confusão.

— Qual era o nome da sua espada?

Dantou Kubikiriboucho… A lâmina do carrasco…

— Um nome assustador…

— É… a Névoa sangrenta não tem muita criatividade…

— E se fosse Nami…? — Inari sugeriu.

— Onda? – Haku perguntou. Inari assentiu — É… é um bom nome…

E então houve o silêncio.

— Então… onde você aprendeu a usá-la?

Inari olhou para ele de um jeito estranho. Mas Haku não tinha muita experiência com crianças. Por isso supôs que ele estivesse com vontade de ir ao banheiro.

— Com Naruto-Sensei…

Haku assentiu. Ele estava prestes a perguntar alguma coisa a ele, quando ouviu um som estranho atrás de si. Ele se virou. Era Naruto bocejando.

— Bom dia, Haku-San… Inari.. – Ele se espreguiçou prazerosamente. E a luz cálida iluminou a pele do seu tronco desnudo. Haku se apercebeu que a pele de Naruto estava repleta de pequenas linhas avermelhadas. Eram finas feridas. E Haku tinha certeza que não fora ele que o ferira.

A sua boca se abriu, e Haku estava prestes a perguntar como foi que Naruto se ferira, mas ele logo voltou a se lembrar o quanto odiava Naruto e queria matá-lo. Por isso, Haku nada disse, apenas continuou a encarar Naruto com uma expressão que ele sentia que era muito engraçada.

— Naruto-Sensei! – Inari gritou, se levantando alegremente. Haku apenas franziu ligeiramente o cenho, quer dizer, aquele garoto parecera estranhamente sério… mas agora... parecia realmente uma criança — Eu…

— Sim, sim Inari… — Naruto murmurou – eu sei que você impediu esse idiota de tentar me matar… por isso, obrigado…apesar de eu achar que ele não conseguiria… depois me lembre de te ensinar um Jutsu de Nível A…

— Hai! – Inari gritou, feliz como se tivesse ganhado doces.

Naruto sorriu, mas logo depois franziu as suas sobrancelhas ao ver o olhar abobado de Haku.

— Err, isso está ficando meio estranho. Cara, você está me encarando desde, tipo… que eu acordei. Olhe, eu sei que eu sou lindo e tudo… mas eu pensei que você tivesse dito que era um garoto…

— Eu… — Haku gaguejou, ainda com um olhar vidrado. Mas depois pareceu despertar — eu sou um garoto!

— Você… ah, entendo… — Naruto murmurou, em um tom de quem finalmente se apercebia de algo.

— Você entende o quê?!

— Quer dizer, eu tinha as minhas suspeitas… mas agora… — Naruto sorriu lascivamente – quem diria… você…

Haku olhou fixamente para Naruto, os olhos faiscando de irritação.

— Eu não sou… deixa pra lá. Não tente me distrair. Eu vou matar você!

Naruto apenas bocejou novamente, e levantou do seu colchão.

— Não, você não vai me matar…

— Como você pode ter tanta certeza?!

— Bem… vejamos: Você é mais fraco que eu. Você está mais ferido do que eu. E, nós – ele apontou para Inari, que tinha uma fina baba escorrendo do canto da boca, enquanto murmurava algo como: eu vou aprender um jutsu foda. Mas podia ser uma coisa completamente diferente (é que a sua boca estava cheia de baba) – err… somos dois.

Haku sentiu como se o seu cérebro fosse envolvido por névoa. Mas ele apenas sentiu a sua raiva aumentar.

— Eu te odeio, Uzumaki Naruto. – Haku fixou os seus olhos raivosos no rosto de Naruto — Eu te odeio. Você me transformou em uma ferramenta quebrada, sem dono. Uma obra imperfeita.

Naruto apenas forçou um fraco sorriso, não era de escárnio, era quase como se estivesse profundamente triste.

— Eu sei… eu – Ele deu um olhar quase reconfortante para Haku – sinto muito por isso…

— Você sente?! Pois bem, então me mate!

— É eu poderia fazer isso… — Naruto murmurou, como se realmente ponderasse a questão, mas ele logo sorriu — mas não… eu tenho outra coisa em mente…

Haku franziu o cenho. E estava prestes a gritar uma outra coisa para Naruto, quando o loiro o levantou e o colocou apoiado em um dos ombros. E Haku apenas trincou os dentes. A dor que ele sentia… era simplesmente surreal. Era como se ele tivesse sido atingido por mil relâmpagos… ah esperem… foi realmente aquilo que acontecera…

— Mas que porra você está fazendo?! – Haku perguntou irritado, mas ele logo reprimiu um gemido, a sua dor de cabeça piorara.

Naruto sorriu, divertido.

— Nós vamos dar uma volta… — E então, Naruto fechou os olhos e se concentrar em achar o chakra de Tobirama. Ele segurou um sorriso. Tobirama estava no local que ele realmente precisava.

Haku apenas aumentou a sua carranca, e quando estava prestes a gritar um palavrão que deixaria Naruto traumatizado o resto da sua vida, o loiro sibilou:

Hiraishin no jutsu.

Haku sentiu o seu mundo rodar e se distorcer como água de privada. Depois do que pareceu ser minutos, ele sentiu o seu corpo cair em cima da grama úmida e fofa.

— Mas que… caralho! – Haku sentiu o seu nariz coçar intensamente ao sentir o cheiro combinado de centenas de plantas. Ele rodou os seus olhos pelo local. Eles apareceram na margem do rio que cortava a floresta das Ondas.

Naruto se deitou na grama. A sua respiração estava pesada e algumas das suas feridas sangravam.

— Eu… preciso… treinar… esse…jutsu…

Os olhos semicerrados de Naruto avistaram o vulto de Tobirama se movendo, flutuando, em sua direcção.

— Naruto! – Tobirama gritou, se aproximando do seu aluno – o que você está… — ele pareceu pensar melhor — não, finalmente você acordou… estava ficando preocupado.

Naruto olhou para o lado, avistando Haku ocupado, analisando umas ervas.

— Gomen… — Naruto murmurou.

Tobirama assentiu. — Tudo bem…

— Mas o que aconteceu, Sensei? – Naruto perguntou, em um sussurro — Eu só me lembro de ter carregado Haku até a casa do Tazuna-San e depois… bem, não consigo me lembrar de mais nada…

— Certo… três dias atrás, você simplesmente apareceu na casa do Tazuna-san carregando esse garoto nos ombros, as suas únicas palavras foram: não o matem. E logo depois você desmaiou. Foi difícil, mas o médico da aldeia fez os possíveis para cuidar de vocês… e já agora, essas suas feridas… não me diga que…

— Hai, eu usei aquele Jutsu…

Tobirama empalideceu. – Naruto, você sabe o quanto aquele Jutsu é uma faca de dois gumes… apesar de ser extremamente poderoso, desgasta deveras fisicamente o usuário…

— Eu sei… mas era um caso de vida ou morte…

Tobirama apenas suspirou, e voltou a assentir.

— Eu confio em você… mas devo dizer que estou curioso. O que você pretende fazer com esse garoto?

Antes que Naruto respondesse, Haku se aproximou de si.

— Uzumaki, o que nós estamos fazendo aqui? – Haku perguntou com dificuldades, ele estava mastigando alguma coisa verde, pastosa e fedorenta.

Naruto apenas perguntou.

— Oh… você consegue andar? – Haku assentiu a contragosto. As ervas, apesar de nojentas estavam fazendo efeito – isso é bom, mas voltando ao assunto: nós estamos colhendo ervas medicinais. Não sei se você reparou, mas nós estamos em pedaços.

Haku bufou insatisfeito. Mas não reclamou de mais nada, apenas apanhou uma folha de uma planta estranha e lilás e enfiou na boca. Ele fez uma careta engraçada. O gosto era simplesmente nojento. Sabia levemente a urina e concreto. Mas apesar de tudo, estava fazendo efeito.

— Garoto estranho esse… — Tobirama murmurou, com um olhar analítico sobre Haku – ele se parece seriamente com uma garota… até o seu chakra é um tanto suave e delicado… mas, apesar disso, eu consigo perceber que ele é realmente um garoto…

Naruto apenas assentiu em concordância.

Haku sentou pesadamente ao seu lado. Ele engoliu as ervas e olhou seriamente para Naruto.

— Você se arrepende de ter… matado Zabuza-sama?

— Não – Naruto murmurou – quer dizer, eu sinto muito pela sua morte, mas eu não me arrependo de o ter matado. Era ele ou os meus companheiros. Mas apesar disso, eu acho que se talvez, naquela altura eu fosse tão forte quanto hoje… forte o bastante apenas para nocauteá-lo… talvez… apenas talvez…

Haku nada disse, pelo que pareceu ser minutos.

— Sabe… o Zabuza-sama era um homem cruel. Eu sei perfeitamente disso. Mas… ele me acolheu. – Haku fez uma longa pausa, como se estivesse revivendo algo muito doloroso — Ele me acolheu quando o mundo inteiro me virou às costas. Quando eu, para comer, tinha que revirar o lixo com cachorros.

Naruto ouvia atentamente as palavras de Haku. Apesar de que ele sabia que não se devia confiar nas palavras de um homem com hálito de planta.

— Haku eu…

Haku não deixou que ele terminasse.

— Por isso… apesar daquilo que ele disse antes de morrer, eu tenho que vingá-lo. Essa é a única coisa que me mantém vivo nesse momento… Eu sei que isso deve parecer muito estranho e confuso. Mas eu não espero que você entenda as palavras de um homem quebrado.

Naruto sentiu uma enorme vontade de perguntar para Haku o que Zabuza dissera antes de morrer. Mas ao invés disso, ele apenas falou.

— Zabuza-san não quereria justiça ou vingança – Naruto disse, com um olhar entristecido — Não desse jeito.
Haku sentiu a sua expressão séria falhar, por um instante. Mas ele logo ficou com raiva.

— Você não o conhecia! – Haku gritou, com os lábios tremendo — Como você pode saber o que ele quereria?!

— Olhe… eu apenas… sei. Zabuza era um espadachim orgulhoso… e eu o venci em uma luta justa… você… você está apenas manchando a sua memória…

Haku se calou, e pareceu ficar abalado com as suas palavras. Naruto apenas suspirou.

Ele sabia que o mais aconselhável seria matar logo Haku, enquanto ele estava fraco e ferido. Mas ele sentia uma vozinha, nos mais profundos recantos da sua mente, dizendo para não matá-lo. E ele normalmente seguia os seus instintos… mas o problema era que Haku não facilitava.

Ele olhou para o rosto inexpressivo de Tobirama, procurando por qualquer ajuda. Mas enquanto analisava o seu fantasmagórico Sensei, Naruto se lembrou de algo que Tobirama tinha lhe dito quando se conheceram.

"O tamashi no fukkatsu é um jutsu que permite invocar a alma de alguém morto, no mundo dos vivos."

— Eu sou… eu sou uma ferramenta quebrada – Haku murmurou, com uma expressão triste – sozinho… eu estou, novamente, sozinho.

E então ele soube, em um repentino lampejo, o que fazer. Segurando o bolo que se formava na sua garganta, Naruto olhou profundamente para Haku, e falou:

—Vamos perguntar para o Zabuza-san…

Naruto sentiu os olhos penetrantes de Tobirama fixos em si. E o céu pareceu escurecer de repente. Haku balançou a cabeça negativamente, e olhou para Naruto como se ele fosse louco.

— Isto é… é impossível…

— Não, não é… — Naruto falou, calmamente.

— É claro que é… — Haku franziu o cenho para ele, quase como se Naruto tivesse dito que voava — Zabuza-sama está morto…

— Você… confia em mim?

Haku abriu a boca em surpresa, mas ele logo tornou a fechá-la, e olhou profundamente para Naruto, por um longo tempo, como se estivesse realmente pensando no assunto. E a resposta de Haku surpreendeu Naruto.

— Eu… confio. – Haku disse, com uma expressão estranha no rosto – Apesar de odiá-lo, eu, estranhamente, confio em você. Meio confuso não?

— É… – Naruto concordou, com um singelo sorriso – É muito estranho.

— Enfim eu… eu vou tentar. O que temos que fazer?

Naruto pigarreou forçadamente, tentando esconder a sua surpresa… e buscou os olhos de Tobirama, procurando ajuda. O Nidaime suspirou, e começou a falar, calmamente, Naruto repetiu exactamente as suas palavras.

— Eu preciso de um pedaço do corpo de Zabuza. Um cabelo, uma unha ou qualquer outra coisa que contenha o seu ADN.

Haku pareceu pensar por um instante.

— Certo… — Haku murmurou, com um rosto pálido e pensativo — vamos caminhar.

Eles se levantaram do úmido gramado, e caminharam, calmamente, até a densa e escura floresta. Naruto achava que já conhecia a floresta, mas Haku tomou caminhos e trilhos por ele desconhecidos, se embrenhando cada vez mais a fundo. A medida que andavam, mais escuras as árvores se tornavam, dando a sensação de estar de noite. Naruto olhou franzinamente para as costas enfaixadas de Haku. Ele não se preocupava com um possível ataque de Haku. O discípulo de Zabuza ainda estava muito fragilizado, seria praticamente um suicídio.

A floresta poderia ser considerada silenciosa, se não fosse o som do farfalhar das folhas e da grama quebradiça sob os seus pés. A voz de Haku quebrou o silêncio sepulcral.

— Uzumaki… – Naruto murmurou um "hum?", indicando que estava ouvindo – O que… não, que Jutsu foi aquele que você usou no final da nossa… err, pequena disputa?

Naruto pareceu pensar por um instante.

— Hum… foi o Doku myoken

— Doku myoken? – Haku perguntou.

— Hai, e não me pergunte o que significa. É uma língua muito antiga. – Ele sorriu meio que enigmaticamente – enfim, é um Jutsu… diferente…

— O que é que ele faz? – Haku perguntou.

— É um Jutsu muito avançado. Somente um usuário da Raijin no Ken ou um Shinobi com domínio extraordinário no Raiton conseguiria executá-lo. Esse é um Jutsu completamente moldável, ele é nada mais do que a materialização da própria vontade do usuário. Quando usado correctamente, ele conjura uma força imensa em forma de um animal, que varia de usuário para usuário. Enfim… ele só consegue destruir aquilo que o seu conjurador desejar.

— Um Jutsu assustador – Haku murmurou, abismado – Então… é por isso que eu ainda estou vivo… você, no fundo, não me considera um inimigo… — Ele não sabia exactamente como lidar com essa informação, por isso apenas tentou dizer outra coisa – a ponte… ela não foi destruída, pois não?

— Não… apenas a cúpula de gelo…

Haku assentiu, e então pareceu se lembrar de algo. A visão que ele tivera do loiro antes de desmaiar. Mas ele decidiu não perguntar, ele tinha a estranha sensação de que até o próprio Naruto não conseguiria respondê-lo.

— Uma serpente… — Haku murmurou.

— O quê?

— O seu doku myoken tem a forma de uma serpente… porquê será?

— É porque eu… ah chegamos…

Haku, a princípio não entendeu, mas logo depois se apercebeu que estavam diante de uma pequena cabana. Ela estava tão profundamente entrelaçada com as árvores enegrecidas e com longos e escuros cipós, que muitos provavelmente nem notavam a sua existência.

— Bem, lar doce lar… — Haku murmurou, em um tom melancólico.

— Err… meio acolhedor, não? – Naruto tentou sorrir. Haku apenas olhou para ele de cenho franzido. — Foi uma… esquece.

Haku quase revirou os olhos. Ele caminhou até a cabana, e realizou alguns simples selos de mão. A pequena porta se abriu. E Naruto imediatamente sentiu o metálico cheiro de sangue que provinha de dentro da escura cabana.

Haku demorou uns dois minutos para sair, com um pano vermelho – que Naruto suspeitava que já fora branco. Provavelmente ensopado de sangue.

— Qual é a história disso? – Naruto perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Sempre que Zabuza-sama se feria, eu costumava limpar ele com esse pano…

Naruto omitiu o quanto ele achava aquilo esquisito, e apenas assentiu.

— Certo…

Haku entregou o pano para Naruto, hesitantemente, como se fosse deveras doloroso se livrar daquilo.

— Não se preocupe – Naruto sorriu, tranquilizador — Eu irei devolver.

— Oh… pode ter certeza que sim…

Naruto apenas fez um gesto para que Haku o acompanhasse. Eles andaram mais um pouco, até acharem uma pequena e muito escura clareira.

Naruto ouviu atentamente as instruções de Tobirama. Ele fez alguns selos de mão, e invocou um tinteiro negro com um pincel. Ele começou a desenhar um círculo de Kanjis no chão gramado, tão cuidadosamente, que até Haku se perguntou como Naruto fora capaz de fazer algo tão belo e detalhado, em tão pouco tempo. Quando terminou, o loiro limpou o suor com o seu braço desnudo.

— Certo… agora tenho que colocar esse pano no centro do selo…

Haku apenas observava tudo aquilo com um olhar maravilhado e assustado. Quer dizer, eles realmente iriam falar com Zabuza?!

Naruto começou a executar uma lenta sequência de selo, com toda a calma do mundo. Aquele era um jutsu difícil, exigia um apurado controle de chakra. Quando ele terminou, murmurou, em uma voz rouca e profunda.

— Inton – Tamashi no fukkatsu (Elemento sombra – Ressurreição da alma)

Então uma luz prateada e brilhante chamejou entre as escuras árvores. Cegando, momentaneamente, Haku e Naruto. Quando eles conseguiram abrir os olhos, o espectro de um homem alto se tornou visível. Momochi Zabuza.

— Olá gaki — Ele disse, polidamente. Ele tinha o mesmo olhar negro e intenso, que ele tinha quando estava vivo. Ele rodou os seus olhos pela clareira, quando ele se apercebeu da presença de Tobirama a sua forma fantasmagórica tremeluziu. – Esse é…

— Zabuza… — Naruto disse. Sua voz era grossa, e cautelosa. – Eu… sinto muito.

— Hmn… — ele murmurou, ainda fixo em Tobirama, Naruto olhou fixamente para Zabuza e murmurou: longa história, e ao que tudo indicava, Zabuza entendeu a deixa e não comentou. — Você não me deve pedir desculpas Naruto, eu fiz minha escolha, não
lamento isso…
— Zabuza-sama! — Haku gritou, tropeçando nos próprios pés. Mas ele não pareceu se importar, o seu olhar era assustadoramente admirado.

Zabuza se virou para o seu discípulo.

— Olá Haku… — Ele murmurou. Sua expressão estava triste como se toda sua felicidade tivesse sido drenada naquele momento.

— Zabuza-sama! Eu… — Ele não conseguiu terminar, lágrimas apareceram em seus olhos. – Eu tentei vingar o senhor…

— Você fez o quê? – O olhar no rosto de Zabuza se tornou um tanto feroz — Eu tinha esperanças que você cumprisse o que havia te ordenado… mas parece que você se deixou levar pelas emoções…

— Cumprir a sua ordem? – Haku soou com o coração partido — como você pode dizer
isso? Eu estava tentando honrar o senhor!

Zabuza abriu a boca, prestes a gritar com Haku, mas depois a sua expressão se suavizou.

— Você não pode Haku – Zabuza falou, com uma expressão que Haku nunca vira no seu rosto: Amor — Não faça isso. Naruto estava certo ao me matar. E a sua vingança apenas mancharia a minha honra como espadachim. Por isso é que eu te disse aquilo antes de morrer: Não mate Uzumaki Naruto.

Haku arregalou os olhos, mas logo depois a expressão de raiva voltou ao seu rosto.

— Não! Ele matou você! Ele não merece viver.
Zabuza levantou a mão como fosse tocar o rosto de Haku, mas ele era feito de névoa. A única coisa que provocou foi uma sensação gelada no rosto de Haku.

– Você deve me ouvir – Zabuza disse – guardar rancor é um erro fatal. Você deve perdoá-lo, me prometa isso.

Haku balançou tanto a cabeça, que Zabuza ficou surpreso por ela não ter saído do lugar.

— Eu não posso. Nunca.

— Zabuza-san… — Naruto murmurou, arfando pesadamente. Ele estava suando muito, tipo muito mesmo, as suas pequenas feridas quando em contacto com o suor, ardiam como se tivessem jogado ácido nelas. Aquele Jutsu era deveras difícil de se manter, estava acabando com o seu chakra tão rápido quanto doces acabavam em uma festa de crianças – acho melhor se apressar…

Zabuza assentiu, com a sua cabeça fantasmagórica.

— Não é com Naruto que você deve ficar nervoso, mas sim comigo.

— Não! Ele… ele tirou você de mim…

— Você está nervoso porque eu deixei você. Você está nervoso porque eu morri e o deixei sozinho. Desculpe-me por isso, Haku. Eu realmente sinto. Mas você deve superar a raiva e o ódio. E parar de culpar o Naruto por minhas escolhas, isso vai causar sua destruição.

— Porque você está defendendo ele em vez de mim? — Haku resmungou. — Não é
justo!

A expressão de Zabuza parecia estar a ponto de quebrar.

— Eu acho que a morte me fez bem, eu sinto que tive tempo suficiente para reflectir sobre, e eu acho que não fui um bom… pai para você meu filho

Imediatamente, toda raiva, ódio, rancor… enfim, todos sentimentos ruins se foram do rosto de Haku, deixando apenas o gosto das lágrimas salgadas.

— Zabuza-sama…

— Sim Haku… a verdade é que eu sempre o considerei como um filho para mim… me desculpe se… bem, me desculpe por tudo… — Ele sorriu e a sua forma tremeluziu ainda mais – bem… eu acho que o meu tempo está acabando…

— Não! Uzumaki, faça alguma coisa não deixe que Zabu… não, não deixe que meu pai desapareça outra vez!

Zabuza o repreendeu.

— Haku… já chega… seres antigos como eu, não pertencem a este novo mundo… não prolongue o meu sofrimento… não se esqueça Haku: você me perdeu, mas você não está mais sozinho… esse garoto, Naruto. Ele estava bem preocupado com você… ao ponto de arriscar a sua vida me ressuscitando… Ele pode ajudar você. – Haku abriu a boca, como se quisesse dizer algo, mas a sua voz não saía – Adeus… meu filho. Eu… te amo

E então, Zabuza desapareceu como névoa, deixando para trás nada mais que um Haku em lágrimas, no meio de uma escura e fria floresta.

E enquanto observava o rosto em lágrimas de Haku, Naruto desviou o seu olhar para o fantasmagórico rosto de Tobirama, e encontrou um sentimento que nunca imaginara encontrar: dor.

E então, meio que magicamente, um pensamento passou pela cabeça de Naruto.

Se a alma de Zabuza tinha um tempo curto e limitado para ficar no mundo dos vivos, então… será que Tobirama também não tinha?

Esse tipo de pensamento nunca lhe ocorreu, mais agora que parava pensar… nada era eterno nesse mundo. E Tobirama não podia ser uma exceção. Mas ele logo repreendeu esses pensamentos. Quer dizer, Zabuza durou apenas minutos. Mas, por um desconhecido motivo, Tobirama estava naquele mundo há anos. Então, de algum modo, Tobirama era um espírito diferente dos outros. Naruto apostou numa possibilidade remota, mas era melhor do que não ter nenhuma e deixar a angústia consumi-lo. Talvez… talvez o fuuinjutsu no pergaminho de Tobirama o mantivesse vivo.

É… devia ser aquilo. Ele mal sabia o quanto estava errado.

***

Naruto achou que depois do episódio da floresta, o resto do dia seria uma completa maravilha. Mas, como sempre, a sua vida tinha uma tendência estranha de dar para o torto. O que aconteceu algumas horas depois realmente comprovou isso. Mas chegaremos lá na sua devida altura, no momento, eram apenas dois adolescentes, aparentemente normais, caminhando silenciosamente pelas ruas quase desertas do Nami no Kuni, sendo acompanhados por um espírito flutuante.

Quanto mais andavam, mais eles notavam os olhares indignados e reprovadores que eram dirigidos a eles, mas depois Naruto se apercebeu que ele e Haku, estavam vestindo apenas bermudas. Eles coraram fortemente, ao passar perto de um grupo de garotas adolescentes. Elas abafaram risinhos, enquanto cochichavam coisas demasiados… err, qual é mesmo a palavra? Ah! Sim, indecentes… (Naruto apostou que elas deviam ler demasiado Icha Icha).

— Eu disse que devíamos ter ido por outro caminho… — Haku murmurou, com a voz rouca pelo choro, enquanto colocava, distraidamente, uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. O seu rosto, outrora pálido, estava mais vermelho do que um tomate.

— Ah, cala a boca… — Naruto murmurou. Mas internamente concordou com as palavras de Haku.

Naruto quase suspirou de alívio, ao ver a casa do construtor de pontes se erguendo no horizonte e ao sentir o familiar cheiro da brisa salgada do mar. Era um bom cheiro.

Em vez de entrarem pela porta da frente, eles deram a volta a casa e entraram pela janela do quarto que partilhavam, o encontrando completamente vazio e frio. Naruto olhou ao redor, não via sinal das suas vestes. Provavelmente foram destruídas. Ele ainda continuava surpreso com a sua capacidade de destruir roupas. Já era a quarta vez, só naquela missão.

Com um selo de mão, ele invocou um pergaminho.

— Kai! – Naruto gritou. E em uma nuvem de fumaça, surgiram as últimas roupas que haviam restado, uma camiseta azul-marinho (com o Kanji Mizu em vermelho no centro) e um moletom verde-musgo.

— Tome… — Naruto entregou a camiseta para Haku e colocou o moletom, com dificuldades, devido as suas feridas – bem melhor…

Haku recebeu a camiseta, hesitantemente.

Naruto olhou para Haku atentamente. Ele tinha os olhos vermelhos e inchados pelo choro, e os seus lábios estavam ressecados. E apesar de Haku ser quase dois anos mais velho que ele, eles tinham praticamente a mesma altura, por isso a camiseta o serviu na perfeição. Mas logo depois Naruto franziu o cenho. Nem mesmo vestindo uma bermuda e uma camiseta Haku parecia mais masculino, ele continuava parecendo uma garota com roupas de homem…

— Você está uma gracinha… Haku-Chan… — Naruto murmurou, com um sorriso provocador no rosto. Haku apenas torceu o rosto, enquanto colocava, novamente, uma mecha de cabelo atrás da sua orelha.

— Vai se… — Antes que Haku terminasse de proferir aquelas palavras pecaminosas eles ouviram o som de batidas na porta do quarto.

E imediatamente toda felicidade se esvaiu das feições de Naruto quando ele sentiu os chakra´s por detrás da porta… Kakashi e Sakura.

Haku abriu a porta, dando espaço para que eles entrassem no quarto. Kakashi foi logo dizendo:

— Então…vejo que vocês já estão melhor... isso é ótimo… — Naruto e Haku assentiram, um tanto apreensivos – e agora, quero que me respondam: O que raios aconteceu? E é melhor que a resposta seja boa, porque a pessoa que feriu a mim e ao meu aluno gravemente, está bem diante de mim…

Haku se sentiu sufocado com a quantidade olhares que convergiram para si.

— Ah… eu – Haku gaguejou – me desculpem… eu sei que agi mal e não devia ter… é, é isso…

Sakura olhou para ele de cenho franzido.

— É sério?! É só isso que você tem a dizer depois de ter ferido o meu querido Sasuke-Kun?

Kakashi pareceu analisá-lo por um instante. E Haku se sentiu acuado sob o olhar intenso e Kakashi. Mas logo depois, o Jounnin sorriu com os olhos.

— É o suficiente pra mim… — Kakashi murmurou, com um ar desinteressado.

Sakura apenas olhou para ele incredulamente.

— S-sensei! Você não pode…

— Já chega, Sakura… — Naruto falou – ele já pediu desculpas. Fim da história.

Kakashi assentiu.

— Sakura, Naruto tem razão… é raro ouvir um Shinobi se desculpando pelos seus atos… além do mais: guardar rancor é um erro fatal.— Kakashi sorriu, um tanto enigmático. – não é, Haku?

Naruto e Haku se entreolharam nervosamente… Zabuza tinha dito aquela mesma frase na floresta… será que Kakashi havia os seguido?

Mas todos esses pensamentos saíram de suas cabeças ao ouvirem os seus estômagos roncando. Eles deram risadas nervosas. Não haviam comido nada desde que acordaram.

— Ah, é mesmo crianças… — Kakashi olhou para o sol cálido por detrás da janela – já é meio-dia, está na hora do almoço… venham comigo…

Eles desceram as escadas, indo em direcção a sala. Eles encontraram Inari ajudando Tsunami a pôr a mesa.

— Oh, finalmente acordaram – Tsunami sorriu carinhosamente para Naruto e Haku. E Naruto se sentiu extremamente aliviado por Tsunami, aparentemente, ter esquecido a pequena discussão que tiveram – Sentem-se crianças…

Como os bons garotos que eles eram, Naruto e Haku se sentaram.

— Natsu-Chan! Você já pode trazer o almoço! – Tsunami gritou.

E então Naruto se lembrou do quanto ele era idiota. Quer dizer, ele havia se esquecido completamente da existência daquela garota.

— Hai, Tsunami-Sama! – Ela gritou de volta. Tsunami apenas balançou negativamente a cabeça.

— Eu já falei pra ela não me chamar de Tsunami-sama, mas ela não me ouve…

— Como ela está, Tsunami-dono? – Naruto perguntou, polidamente.

— Ah… ela vai bem, é claro que eu tomei um susto quando o seu clone apareceu com ela… mas ela é uma boa garota, foi fácil se acostumar a ela… e já agora, você não precisa me chamar de Tsunami-dono

Naruto sorriu levemente.

— Hai…

— Tsunami-Sama! Eu preciso de ajuda. – Natsu gritou.

— Eu vou… — Kakashi se levantou e foi pra cozinha, e só então Naruto se apercebeu que o Jounnin não estava mais usando muletas. Porém, o seu andamento era estranho, ele mancava levemente.

Cerca de um minuto depois, Natsu e Kakashi entraram na sala de jantar, carregando uma tijela descomunal e fumegante. Naruto sentiu um cheiro maravilhoso e estranhamente familiar… aquilo era…

— Eu não acredito… — Naruto murmurou, com uma expressão parecida a uma criança quando ganhava doces – isso é… ramén...

— Sim! – Inari gritou, com um sorriso imenso dividindo o rosto – eu pedi pra mamãe cozinhar a comida preferida do Sensei, mas é claro que isso não implica que ele deve me ensinar alguns Jutsus… como o Kage Bunshin…

Naruto gargalhou. O seu discípulo era um génio. Naruto serviu uma porção na sua tijela e depois de uma pequena prece, ele experimentou… e ele sentiu um sabor maravilhoso explodir na sua boca… Deuses! aquilo era… simplesmente maravilhoso.

— Não se preocupe, por essa refeição maravilhosa, eu te ensino quantos Jutsus você quiser… simplesmente divinal…

Ao seu lado, Haku se remexeu desconfortavelmente.

— O que foi? – Naruto perguntou.

— Ah… nada. É só que… — Haku olhou para Naruto com uma expressão muito engraçada – eu não faço a mínima ideia do que é isso e como comê-lo… quer dizer, o que há de errado com as pessoas? Eles inventam coisas realmente confusas. Esse tal ramén… tem massa e carne de porco, logo é sólido, mas também tem caldo, logo também é líquido, o que levanta a pergunta: é uma refeição líquida ou sólida? Eu não consigo entender…

Todos olharam para ele com gotas enormes. Naruto balançou a cabeça.

— Olhe… Haku, isso não faz qualquer sentido…

— É, eu sei – Haku concordou – mas é algo com que eu não consigo viver…

Naruto apenas deu de ombros e voltou a se concentrar na sua comida. Depois de um longo período de silêncio, Tsunami decidiu se pronunciar.

— O seu nome é Haku, certo?- Haku assentiu, com um olhar confuso – A primeira vista você se parece muito com uma garota… mas você é realmente um garoto… a Sakura e a Natsu-Chan ainda não se recuperaram do choque de vê-lo… bem, você entendeu…

— Elas o quê?! – Haku perguntou, mais vermelho do que um tomate.

— Ah sim – Tsunami murmurou, como se fosse algo normal e casual – você estava muito ferido e as suas roupas estavam em frangalhos, e eu, pensando que você era uma garota, pedi a elas que trocassem a sua roupa…

Haku olhou para Sakura e para a garota que ele achava que devia ser a Natsu (por uma razão desconhecida, ele sentia que já a tinha visto em algum lugar), elas haviam se encolhido nos seus assentos. Antes que ele ultrapassasse o nível normal de vermelho, ele viu os rostos de Naruto e Kakashi, eles pareciam estar a ponto de ter um ataque de risos.

— Vocês me viram… — Ele murmurou incredulamente – Vocês me viram…

E então ele se sentiu meio sufocado com tantas pessoas o encarando. Ele colocou uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Naruto notou que Haku fazia isso sempre que estava nervoso. Haku decidiu mudar o assunto da conversa.

— Onde está o… qual é o nome mesmo? Ah Tazuna-san…

— O meu pai foi terminar a ponte… — Tsunami disse — apesar da vossa pequena batalha, a ponte não foi muito danificada… por isso… ele deve terminar hoje…

Naruto e Haku assentiram, aliviados.

Naruto se perguntou se o dia poderia se tornar melhor… quer dizer, sendo Shinobis, eram raros aqueles momentos em que podiam ficar apenas conversando e relaxando, e aquele parecia ser um desses escassos momentos… mas então, como sempre, o dia começou a dar errado…

Foi depois de apenas cinco minutos. Todos estavam rindo de uma piada boba (provavelmente contada por Kakashi) quando o fantasmagórico Tobirama fez uma expressão de estranha concentração no rosto espectral. E Naruto apenas o olhou interrogativamente.

— Isso é estranho… — Tobirama murmurou, parecendo a ponto de ter um ataque – muito estranho… mas não pode ser verdade… — ao ver a expressão interrogativa do seu aluno, Tobirama falou. – Norte, duzentos quilómetros…

Naruto percebeu que eram coordenadas. Mas ele não conseguia sentir assim tão distante. Porém, pela expressão de urgência no rosto de Tobirama, ele deu o seu máximo. Mas o que ele sentiu fez o seu estômago se embrulhar… aquilo não podia ser verdade…

— Merda… — Naruto murmurou, de olhos fechados – oh, merda…

Todos imediatamente se calaram, e apenas franziram o cenho para o loiro.

— O que foi Naruto? – Haku perguntou, desfazendo o seu sorriso.

— Eu consigo sentir… — Naruto murmurou, mas pelo silêncio sepulcral da sala, todos puderam ouvir — dezenas, não, centenas de Shinobis entrando velozmente no país das Ondas…

— Oras, Naruto devem ser apenas Shinobis indo em uma missão… — Kakashi falou, mas a sua voz estava um tanto hesitante – provavelmente não deve ser nada…

Naruto balançou a cabeça, ainda de olhos fechados.

— Você não está entendendo Sensei… pela fronteira que eles estão atravessando… eu tenho certeza que são de Kirigakure no Sato. Provavelmente… oinin´s.

E Haku sentiu o seu mundo girar. Não era preciso ser um génio para se aperceber do porque de eles estarem vindo para o Nami no Kuni. Só havia um Shinobi de Kirigakure naquele país… Haku.

— Naruto… você tem certeza? – Haku perguntou, com a voz rouca e falha. E por mais que lamentasse, Naruto assentiu. – Quanto tempo, antes de eles chegarem?

— Pela velocidade… duas horas…

Haku ficou rígido como uma estátua. Duas horas eram praticamente nada. E ele tinha certeza de que a sua expressão provavelmente estava muito estranha e engraçada. Uma mistura de confusão, choque, surpresa, medo e vergonha passava pelo seu estômago. E o olhar preocupado de Tsunami realmente comprovava isso.

— Eles estão vindo atrás de mim… — Ele se sentia tonto como se tivessem congelado o seu cérebro — é melhor eu…

— Olhe, isso não interessa… – Tsunami sorriu docemente para ele, um sorriso que parecia dizer: vai correr tudo bem, e Haku não pôde deixar de se lembrar de sua mãe… ela tinha aquele mesmo sorriso — apenas termine o seu ramén… depois pensaremos o que fazer…

Apesar de o sorriso de Tsunami ter aquecido o seu coração e ter feito os seus olhos arderem, Haku sentia que já havia abusado demasiado da hospitalidade dela. Ele já havia causado sofrimento suficiente à aquelas pessoas. Não queria que eles se machucassem por sua causa.

— Bem… Tsunami-san… — Haku tomou o estranho cuidado para soar o mais polidamente possível – eu agradeço a hospitalidade, eu realmente agradeço, mas eu…

Novamente, ele foi interrompido, dessa vez por Kakashi.

— Haku, apenas coma…

Mesmo sentindo os seus olhos ardendo, ele decidiu obedecer. A comida tinha um sabor amargo.

***

Sabe aquela ideia de que o tempo passa mais lentamente quando estamos ansiosos? Pois é, não acredite nisso. As duas horas seguintes se passaram rapidamente, quase como se eles estivessem se divertindo.

E, no meio de uma clareira na densa e escura floresta do País das Ondas, Haku gostaria de dizer que estava preparado para o que desse e viesse. Mas aquilo seria uma completa mentira. Ele estava tão preparado quanto um porco caminhando para o matadouro, aguardando a sua execução. Haku sentia os segundos se arrastando rapidamente, enquanto o seu coração se comprimia contra o seu tórax. A sensação de espera… era simplesmente agonizante. A ideia de não saber o que o reservava era assustadora. Apesar de não demonstrar, ele estava com um pouco… não mentira, ele estava com muito medo… quer dizer, e se em vez de capturá-lo eles simplesmente o matassem, como um animal? Ele podia aceitar, ainda que relutante, ser encarcerado, mas não conseguiria suportar a morte…

Eles estavam perto… até Haku, apesar de não ser um Shinobi sensor, conseguia sentir os chakra´s completamente nojentos e deprimentes daqueles Shinobis se aproximando… Ele sentiu as suas mãos ficarem muito suadas, e a sua boca extremamente seca.

Ele sentiu a mão de Naruto apertar levemente o seu ombro e ele quase relaxou. Olhou a volta daquela clareira. Naruto e Kakashi estavam ai com ele, o protegendo caso algo desse errado. Ele sentiu os seus olhos arderem. A não ser Zabuza e sua mãe, ele nunca teve ninguém que se preocupasse, minimamente, consigo.

— Estão chegando… — Naruto sussurrou, de olhos fechados e uma estranha expressão de concentração – dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois...um.

Quase que magicamente, cinco Shinobis mascarados surgiram nos troncos das escuras árvores que os cercavam. E imediatamente a clareira se tornou muito fria. Eles trajavam quimonos azuis-marinhos e máscaras brancas com formas escarlates. Eram Oinin´s. Shinobis cuja função era, basicamente, localizar e eliminar nukenins… E imediatamente todos se sentiram tontos.

O chakra que eles emanavam era simplesmente nojento e nauseante. Eles conseguiam sentir… o chakra de cada um daqueles Shinobi não eram singulares. Tipo, literalmente. Eram uma estranha e muito bizarra mistura de centenas de diferentes chakra´s, em apenas um. Meio confuso não?

Parecia que a cada vítima que eles matavam, fagulhas do Chakra dessa mesma vítima se mesclavam, de alguma forma, com o chakra do seu executor. Dezenas… não, centenas de diferentes chakra´s em um único corpo. Simplesmente nojento e nauseante. Naruto quase conseguia ouvir os gritos silenciosos que os chakra´s emitiam, era um sentimento muito deprimente. E então ele soube o porque sentira centenas de inimigos vindo… não eram centenas de inimigos eram centenas de chakra´s.

Devem estar pensando que eles deviam ter um plano simplesmente brilhante e maravilhoso para escaparem daquela situação, em que eles derrotavam aqueles Shinobis e fugiam em direcção ao pôr-do-sol, pois não? Mas a verdade era completamente diferente. Eles não tinham qualquer plano. Haku se entregava. Ponto final.

O que parecia ser o líder dos Oinin, pousou delicadamente no chão gramado, tão silencioso quanto um felino. A sua máscara era branca como a neve, e tinha um raio escarlate atravessando os olhos.

— Yuki Haku… — Ele falou, em um tom baixo e gélido, completamente desprovido de emoções. – eu sou Kaminari, o chefe do esquadrão de busca e execução de Kirigakure no sato…

— Porque alguém importante como o senhor veio me… — Haku pareceu pensar melhor – me capturar?

— Te capturar? – Kaminari sussurrou, mas ele tinha uma estranha habilidade de fazer todo mundo calar a boca, por isso a sua voz era tão poderosa como se estivesse gritando. — Oh… nós não viemos capturar você… longe disso…

E então Haku sentiu o seu mundo parar.

Notas finais
já tenho o outro capítulo quase pronto só falta alguns pequenos ajustes, e além do mais, eu achei melhor fazer um capítulo um pouco emocional e engraçado, antes da fase um tanto sombria que está pra vir, e se vocês repararam algumas pequenas (mais importantes) perguntas foram levantadas nesse capítulo… as respostas virão em breve… é isso ai… comentem, favoritem e quem quiser, recomende…