Gênesis

62 Interlúdio II – O Monstro Sentado no Trono de Fogo (Um)


Notas iniciais
Uma olhada fora de Konoha. Aproveitem.

Tori Masao ajustou sua postura diante do espelho no meio do quarto luxuoso. Era difícil não pensar em um rato dissimilado ao olhar para seu rosto afiado e seus olhos negros e astutos, mas ele compensava com seu eterno sorriso inofensivo. Seus dedos esguios ajeitaram seu terno fino e caro, adornado com detalhes dourados em meio ao tecido roxo.

Penteando seu curto cabelo castanho para trás, ele aumentou seu sorriso ambíguo. Ele estava pronto.

Seus pés cobertos de sapatos envernizados percorriam a sua bela mansão. Um sentimento de profundo contentamento o percorria enquanto ele via os móveis caros e os corredores luxuosos da sua residência. Ele tinha conseguido.

Inicialmente, ele havia nascido como um nobre de baixo escalão, mas ainda assim superior à maioria das pessoas. Isso foi até que ele completou Quatro anos, e finalmente analisou seus pais. Sua mãe era a filha dócil e submissa de um comerciante, e seu pai, era um bêbado imprestável e libertino que esgotou suas riquezas em putas e vinho, e tinha um gosto peculiar em bater na sua esposa.

Eventualmente, sua dócil mãe não resistiu e morreu em silêncio, como a boa esposa que era. Seu pai era um inútil, mas era um inútil Nobre. Ninguém se importou com sua esposa desaparecida.

Até que um dia ele cometeu um tabu ainda maior, algo que revoltou toda nobreza: Ele casou com uma puta. Aquilo foi um suicídio social. Sua reputação escassa foi jogada completamente na sarjeta e os nobres o ridicularizavam todos os dias. Não havia nada demais em um nobre dormindo com mulheres do prazer, mas casar com uma? Só um tolo faria isso.

Tori se lembrava, ainda hoje, o quanto ele era ridicularizado diariamente na Academia Real por outras crianças nobres. Ele era chamado Filho de uma puta. Literalmente.

A primeira coisa que ele fez quando aquele pai imprestável finalmente morreu de tanto beber, foi ordenar aos guardas que dessem aquela megera que ele chamava de esposa aos cachorros antes de sufocar seu meio irmão bastardo no berço com suas próprias mãos.

A sensação de alívio que ele sentiu quando viu a vida se esvaindo nos olhos daquela criança...era sem igual.

Depois de se livrar daquela sujeira, ele passou os dez anos seguintes consertando a reputação do Clã Masao. Não foi fácil. Foi preciso muita bajulação, e sussurros em ouvidos de certas pessoas, até que ele subisse para o cargo de um Oficial do governo. O que necessitou de ainda mais bajulação até que seu nome chegasse aos ouvidos do Ministro das Finanças, e esse o tomasse como seu secretário devido ao seu talento. Essa era uma posição que garantiria que suas mãos estivessem sempre cheias de moedas. E de repente, ele era aquele que era diariamente bajulado.

Isso continuo até que o velho Ministro, misteriosamente morresse enquanto dormia. Uma paragem cardiorrespiratória por um veneno indetetável. Depois disso, ele só teve que garantir que o Daimyou soubesse do seu talento em convencer pessoas a gastar dinheiro, para que ele fosse nomeado o novo Ministro das Finanças, no auge dos seus trinta anos.

Quando ele saiu pela porta da frente, dois samurais surgiram calmamente ao seu lado, seus movimentos corporais exalando nitidez de guerreiros de Elite. Tori olhou para o seu pátio, com uma pitada de satisfação.

Uma fileira de lindas empregadas e formidáveis Samurais estavam enfileirados em um caminho até ao portão. As costas de Tori eram retas enquanto ele caminhava até a saída da Mansão.

Aquilo era um símbolo de status. Poucos nobres eram permitidos ter soldados privados, e muito menos tantas elites. Ele ajeitou seu terno, enquanto seu mordomo abria a porta da sua carruagem luxuosa. Ele se sentou no confortável assento de veludo. Seus dois samurais subiram depois, ocupando o outro assento. Ele bateu suavemente na cobertura da carruagem, e logo ouviu os cavalos trotando pelas ruas da Capital.

A Capital da Nação do Fogo, apelidada de Honokami ou Chama Divina, sendo a principal Cidade das Treze Províncias do País do Fogo, tinha uma população na casa dos milhões.

Era enorme, ocupando uma grande parte do território no centro do País do Fogo. As ruas eram largas, com inúmeras carruagens as percorrendo e o chão era pavimentado com pedras negras perfeitamente esculpidas, que brilhavam à noite e refletiam às estrelas, dando a sensação de caminhar sobre um pedaço do céu noturno.

Havia um frescor nas suas ruas iluminadas por postes com lamparinas vermelhas penduradas, enquanto uma procissão de nobres e comerciantes ricos desfilavam em ternos e quimonos coloridos e extravagantes. A viagem de minutos terminou quando a carruagem de Tori parou diante de um colossal castelo oriental negro com telhas vermelhas. Era tão alto e majestoso, quanto um dragão de escamas vermelhas perfurando as nuvens dos céus, e era rodeado por uma muralha inexpugnável. A muralha brilhava em um vermelho doentio, como se o sangue dos inimigos ainda estivesse escorrendo por elas, mesmo depois de tantos anos.

Era o Palácio Imperial. Também conhecida como a Fortaleza do Dragão Vermelho.

Mesmo mostrando seu selo de Ministro, Tori ainda passou por uma rigorosa inspeção pelos samurais estacionados na entrada. Pelas suas auras afiadas, era óbvio que os samurais estacionados eram todos a elite da elite.

Quando ele finalmente foi liberado, ele finalmente pode adentrar os portões. Estacionando sua carruagem na entrada do castelo, ele ordenou que seus subordinados esperassem sua saída. Vendo as outras carruagens opulentas estacionadas, ele obviamente não foi o primeiro a chegar.

Ele seguiu um dos soldados no castelo até chegarem à sala do Trono Imperial. Seus olhos se fixaram na monstruosidade no meio da majestosa sala do Trono. Um trono gigantesco feito de aço negro e incandescente. Um brilho vermelho emanava da cadeira de ferro incandescente, como se fosse metal mergulhado em um vulcão. Havia rumores que o Trono havia sido feito de um minério especial, e as chamas eternas esculpidas nele eram as chamas de uma fénix. Ainda queimando mesmo depois de mais de mil anos de Império. Qualquer um que se sentasse nela e não tivesse sangue Hinokami, seria derretido em cinzas pelo trono.

Vendo que o soldado continuava esperando por ele, Tori balançou a cabeça, e o seguiu até outra porta no canto da sala do trono. A sala do Conselho.

Como o Daimyou estava ausente, era muito provável que algum outro oficial deveria estar presidindo essa Reunião noturna.

Suspirando, Tori colocou seu melhor sorriso, antes de entrar na Sala do Conselho e ele logo ficou chocado. Uma longa e dourada mesa estava no centro, adornada com dezenas de assentos. Mas não foi isso que o deixou chocado. Quando ele viu a pessoa sentada no alto da Mesa, em uma imitação do Trono de Fogo, seu sorriso falhou por um instante, antes de ele mascarar suas feições e dobrar seu joelho.

—Eu saúdo a Coroa de Fogo.

—____________________________________

O Kimono branco do Oficial Honoki estava encharcado de suor quando ele finalmente chegou à porta da Sala do Conselho. Ele estava atrasado. Honoki amaldiçoou o nobre que o parou nos corredores do Castelo com conversa fiada. Respirando fundo para acalmar sua respiração, ele ajeitou sua roupa, antes de empurrar a porta prateada adornada com detalhes de uma fênix dourada.

Instantaneamente, a conversa entre o conselho sentado à mesa dourada morreu, enquanto todos olhos se voltavam para Honoki.

Ele sentiu seu corpo travar, não sabendo o que fazer. A voz da pessoa sentada ao Trono no topo da mesa o despertou.

—Você está atrasado, Oficial Honoki.

Ele sentiu sua boca ficar seca, sem saber o que dizer. Todas desculpas evaporaram da sua cabeça ao ver aquela pessoa sentada no Trono.

—Felizmente, a Reunião acabou de começar. Sente-se.

Como se finalmente despertasse, Honoki se curvou ao Trono em constrangimento, antes de escolher uma cadeira livre e se sentar. Coincidentemente ou não, ele estava sentado no lado oposto ao Ministro das Finanças. Ele congelou quando viu Tori Masao o olhando com seu costumeiro sorriso que nada mais era que um esticar de lábios sem significado.

Sentado no lado direito do Trono, estava Bachira, o Conselheiro Imperial e Presidente do conselho na ausência do Daimyou. Ele pigarreou, antes de continuar a ler o pergaminho nas suas mãos com sua voz envelhecida.

—...Portanto, a moção para a substituição do sistema de esgoto no lado Sul da Capital, é então aprovada pelo conselho. –Ele pigarreou novamente, antes de pegar um outro pergaminho com seus dedos enrugados – A próxima moção, é proposta pelo Condestável da Província Emerarudo, Okami Kubo.

Aquilo despertou a atenção de Honoki. Condestável da Província Emerarudo?

O primeiro Imperador do País do Fogo distribuíu terras para seus seguidores leais, e essas Províncias (shoen) eram então supervisionados por Nobres conhecidos como Jitos (Governadores) e sob os Governadores Provinciais, estavam os Shugos (Condestáveis). Esses territórios eram frequentemente hereditários, pelo menos no começo. No entanto, com o passar do tempo, os Jitos e Shugos, comandando Terras longe da Corte Imperial, ganharam mais e mais poder, com vários deles se tornando grandes proprietários de terra (daimiôs) do seu próprio jeito, e com seus exércitos privados, eles desafiaram a autoridade da corte Imperial.

Isso fez com que Rebeliões fossem frequentes no País do Fogo. Isso levou, Quinhentos anos atrás, à chamada Restauração Meiji. Um período marcado pelo Imperador Meiji restaurando a autoridade Imperial sobre o território. Essa época foi acompanhada por um expurgo massiço de linhagens. Com famílias nobres rebeldes desaparecendo da noite para o dia, e corpos constantemente pendurados nas paredes do Palácio Imperial. O cheiro de sangue durava até hoje.

Depois disso, O Imperador Meiji decidiu nomear um único Daymiou, e organizou os nobres que o apoiavam sob esse Único Lorde Feudal leal a ele, que restringiria seus desenvolvimentos. Os Nobres ainda herdariam terras e cargos oficiais, mas o Daymiou sempre se certificaria de restringir seus desenvolvimentos. Esse foi o Sistema que manteve o País do fogo estável pelos últimos Quinhentos anos.

Seus olhos foram para o homem gigantesco que se levantou. Ele media facilmente dois metros, e tinha uma barba longa que o fazia parecer feroz. O Condestável Okami se curvou diante do Trono no alto da mesa, antes de começar a falar. Ao contrário do que se imaginava, sua voz era consideravelmente fina.

Ele começou a falar sobre o suprimento de Vinho da Província Emerarudo, agora que o Inverno se aproximava.

Entediado, Honoki passeou seus olhos pela sala, vendo outras onze pessoas sentadas com o mesmo distintivo de Condestável nas suas roupas.

Província Saikaidō, Província Chikuzen, Província Chikugo, Província Buzen, Província Toyo, Província Bungo, Província Hizen, Província Higo, Província Ōsumi e Província Tane, contando com o Condestável da Província Emerarudo falando, e o Daimyou que administrava a Capital, o único assento vazio era da Província mais à beira da fronteira com as restantes Nações Elementais, a Província de Konoha, cuja capital era Konohagakure e era governada pelo Hokage.

Não era incomum ver aquele assento vazio, já que a maioria da nobreza desprezava os Shinobis e não gostavam que eles estivessem envolvidos nos assuntos da Capital. O Assento era mais como um acessório decorativo. Exceto o dia em que Senju Hashirama e Uchiha Madara vieram pedir permissão à Corte Imperial para construir uma Vila Shinobi no território esquecido por deus na borda da fronteira, nenhum outro Hokage alguma vez entrou nessa sala.

O Continente das Nações Elementais era enorme, e as Seis Grandes Nações, ocupando mais da metade do território do continente, tinham tamanhos colossais.

Cada uma das Nações era tão extensa que um civil, a pé, demoraria meses para viajar por todo o território. O País do Fogo, por exemplo, tinha uma população que beirava quase os Cinquenta milhões, distribuída em Treze Províncias. A província de Konoha, onde a única Vila Oculta Shinobi do País do fogo estava localizada, Konohagakure, era apenas uma das dezenas de província, propositadamente na fronteira com outras Nações Elementais vizinhas. Sendo eles a vanguarda contra as Vilas Ocultas das outras Nações, Konoha estava razoavelmente próximo da borda das fronteiras, além de ser um sistema de defesa, também servia para melhor receber pedidos de missões de países e vilas estrangeiras, já que não seria fatível para os clientes viajarem milhares de quilômetros no interior do País do Fogo, apenas para fazer um pedido de missão.

Tendo isso em conta, Honoki se sentiu terrível sabendo que ele havia chegado atrasado em uma reunião com tantas figuras importantes. Aquilo foi um golpe terrível para a sua futura carreira política.

Mas pelo menos não era tão terrível quanto o Condestável da Província da Emerarudo fazendo um discurso sobre reduzir o suprimento de vinho diante da pessoa sentada no Trono de Fogo.

— ...Combinando com a diminuição da caçada esse ano, e a fome e a praga que assolou algumas das aldeias na nossa província, A Província Emerarudo não pode garantir o abastecimento de vinho do Império como nos anos anteriores, uma vez que o Inverno se avizinha. Espero que a Corte Imperial consiga reduzir temporariamente as necessidades de abastecimento de vinho em 30% este ano. Como Condestável, eu garanto que essa parcela será reposta no ano que vem. Estas são as moções propostas pela Província Emerarudo. Espero que todos...

Enquanto falava, Okami olhou ao redor. Nenhum dos membros do Conselho ao longo da mesa respondeu. Todos pareciam indiferentes ou o observavam friamente.

Todo o local estava tão quieto que o deixou um pouco ansioso.

O idoso e encurvado Conselheiro, Bachira, nem mesmo anunciou que a moção havia entrado na fase de votação. Ele apenas voltou seu olhar para o embaixador da Província Emerarudo e sorriu calorosamente enquanto dizia com uma voz cheia de entusiasmo:

—Você não consegue pensar em outra maneira? Você deve saber que a maior parte do vinho que o País do Fogo importa da Província Emerarudo todos os anos não vai para as adegas dos nobres da Capital, mas é vendido para o Arquipélago do País da Água além do Mar. Esta é uma parte importante do comércio exterior anual do Império e também é uma parte importante do nosso acordo de trégua com eles. Este assunto não pode ser encarado levianamente.

Okami cerrou os dentes.

—Sua Excelência, sob a influência da praga, a produção de uvas este ano diminuirá em pelo menos 50%. Solicitar uma redução de 30% no fornecimento já é resultado de nossos melhores esforços.

Uma jovem Oficial interrompeu.

—Isso é porque você cultiva muito pouca terra. A Província Emerarudo, é claramente a terra com a o solo mais fértil no Continente, e sempre foi o maior motivo de nossos conflitos na fronteira Leste com o Imperador do País do Trovão. Mas você só a usa para plantar árvores. Na minha opinião, se você cortar metade das árvores naquela floresta, a terra adicional pode pelo menos triplicar a produção anual de uvas. Não haveria necessidade de você temer o Inverno.

—Hanami, cuidado com suas palavras.

O Conselheiro Imperial rapidamente a cortou. Honoki apenas suspirou no seu assento. A Oficial Hanami havia sido muito apressada.

Entre os povos do País do Fogo, os da Província Emerarudo eram os mais fervorosos e religiosos, uma vez que o maior Templo do País do Fogo se encontrava lá. Quando alguém morresse, eles tinham o costume de cremar suas cinzas e plantar uma árvore sobre o local onde as cinzas eram jogadas. Eles acreditavam que os seus espíritos reencarnariam nas árvores que crescessem. Pedir para derrubarem aquelas árvores não era diferente de pedir que matassem seus ´´ancestrais´´, apenas para produzir mais vinho.

Okami cerrou os dentes, uma estranha pressão começou a ser emitida do seu corpo enorme. Quando parecia que ele estava prestes a atacar, a voz da pessoa sentada ao seu lado, um outro Condestável, o cortou.

—Chega, Okami. Você está diante da Coroa de Fogo.

Aquilo pareceu acalmá-lo. Ele se curvou para a pessoa silenciosamente sentada no Trono.

—Majestade, me desculpe eu...

O Velho Conselheiro o cortou, ao ver a pessoa no trono acenando com indiferença.

—Não se preocupe. A culpa foi da oficial Hanami. Eu prometo que ela aprenderá os costumes do seu povo ainda hoje. – Ele pigarreou, e a oficial se encolheu em seu assento- No entanto, a piada de mau gosto da Oficial Hanami me deu alguma inspiração. Senhor Condestável, você pode realmente tentar aumentar a área arável usada para cultivar uvas para compensar o impacto da praga na produção deste ano.

Vendo que o Condestável Okami estava prestes a explodir novamente, o Conselheiro logo completou.

—Por exemplo, a terra usada para cultivar os principais grãos de bagas e frutos de trigo da Província Emerarudo são adequados para o plantio de uvas. Você pode converter cerca de metade da terra para o cultivo de uva. Isso será suficiente para compensar a produção reduzida da praga este ano, antes que o Inverno chegue.

Okami fez uma expressão preocupada.

—Mas...se nós fizermos isso, temo que a comida armazenada não consiga alimentar nem metade da nossa população.

O Ministro das Finaças finalmente se pronunciou, com seu costumeiro sorriso gentil.

— Isso é simples. Use o dinheiro que você ganha com a exportação de vinho para comprar comida da Câmara de Comércio do Império. Nosso excedente anual de bagas e trigo é suficiente para suprir metade das necessidades da sua Província. Podemos garantir que podemos satisfazer o seu abastecimento de alimentos a um preço 10% abaixo do preço de mercado.

O Conselheiro Imperial assentiu, satisfeito com a intervenção desse jovem nobre talentoso. Ele se lembraria de falar uma ou duas palavras gentis sobre ele ao Daimyou.

—De fato. O que você acha dessa sugestão, Condestável Okami?

Um preço dez por cento abaixo do valor de mercado significava que haveria um excedente se o dinheiro ganho com a exportação do vinho fosse usado para comprar comida. Essa condição parecia boa, mas a intuição de Okami lhe disse que não era uma boa sugestão.

No entanto, ele não conseguia pensar em um motivo para se opor, especialmente tendo em conta a forma como todos estavam olhando para ele. Assim como ele estava hesitando sobre como responder, a pessoa no trono falou.

—Converta apenas 50% da terra usada para plantar bagas em uvas. O Vinho é um bem de luxo para os nobres e a família real. Não nos afetará muito se tivermos menos do que o normal. A chave é garantir as pessoas na Província Emerarudo estejam alimentadas e aquecidas durante o Inverno.

Quando a voz clara e fina da imperatriz de cabelos Negros e olhos laranjas no trono soou, todos no salão pararam de sussurrar e olharam para ela.

Seu corpo pálido, magro e frágil, parecia estranho sentado naquele Trono enorme. Suas mãos e corpo tinham uma tremedeira constante, como se ela estivesse com um frio terrível, mas quando ela falava, ninguém se atrevia a sequer sussurrar. Todos eles respeitavam à Coroa de ferro incandescente na sua cabeça.

Asahi Hinokami, aos Trinta e Dois Anos, era a Imperatriz Celestial mais jovem da história do País do Fogo.

Ela sofria de uma doença estranha e incurável desde a infância. Por esse motivo, ela havia sido criada em isolamento pelo Imperador anterior. Ela só apareceu na Corte Imperial quando fez Dezoito anos. Naquele momento, por motivos desconhecidos, o Velho Imperador renunciou ao Trono e se afastou das decisões da Corte Imperial, se isolando em reclusão. Na altura, excepto seus filhos, ninguém tinha permissão para incomodá-lo.

Não haviam notícias dele na Corte por anos.

Depois disso, Asahi- que nunca se envolveu com política e não tinha nenhuma facção na Corte Imperial- conseguiu obter o apoio do Xogun e das Treze Espadas da Corte Celestial do Fogo, em menos de um ano após aparecer no Palácio. Não muito tempo depois que o Imperador se afastou das decisões mundanas, ela esmagou seus dois irmãos que estavam no palácio por muitos anos e ascendeu ao Trono de Fogo. Ela foi coroada com a Coroa de Fogo e se tornou a atual Tennou do País do Fogo.

Após sua coroação, Asahi percebeu que seu Pai continuava em silêncio e era indiferente às disputas Imperiais. Então, um de seus irmãos foi exilado para servir como Monge no Templo do Fogo, no extremo norte do País, e o outro foi preso por traição contra o trono. Então, ela ignorou os apelos de todos os nobres e ordenou pessoalmente que seu irmão fosse enforcado.

Foi também porque ela era tão cruel com seus parentes de sangue que muitas pessoas a chamavam secretamente de Asahi Sinistra, ou a Imperatriz Sinistra.

Ao ouvir as palavras da Imperatriz, o Condestável rapidamente abaixou a cabeça, nem mesmo ousando respirar.

A Imperatriz parou por um momento antes de continuar.

—...Então, eu vou renunciar aos impostos sobre todas as terras que foram convertidas para cultivo de uva este ano. Além disso, os impostos para os próximos três anos serão reduzidos pela metade. Okami da Província Emerarudo, acredito que tais condições devem satisfazê-lo, estou certo?

—Sua Majestade, eu sou eternamente grato.

Okami respondeu apressadamente.

Isenção de quaisquer impostos por um ano seguido de três anos de 50% de impostos, além da possibilidade de comprar alimentos da Câmara de Comércio a um preço 10% inferior ao preço de mercado foi muito melhor do que o seu pedido para reduzir as exportações de vinho em 30%.

O Conselheiro Imperial então continuou.

—Tudo bem, então. A moção do Condestável da Província Emerarudo pode ser votada agora. Embora eu ache que é a mesma coisa se votamos ou não... Então, por favor, levante a mão se você concorda com esta moção.

O Oficial Honoki levantou a mão com hesitação. Então, ele olhou em volta e percebeu que a moção havia sido aprovada por unanimidade.

Mas foi realmente tão fácil? A praga não afetou apenas a produção de uvas. Para ele, não foi sensato tomar a iniciativa de reduzir a área de terra arável para alimentos básicos com um Inverno tão terrível se avizinhando.

Ele trabalhava para o ministro da Agricultura, que atualmente estava em Konoha com o Daimyou. Então Honoki se lembrava claramente que mesmo na Capital, onde a agricultura era a mais desenvolvida, durante o Inverno ainda resultava em uma fome de pequena escala no campo.

Será que a Câmera do Comércio realmente teria tanta comida estocada quanto haviam prometido? Mesmo se o fizessem, eles realmente o forneceriam à Província Emerarudo?

A Província Emerarudo sempre pareceu um grande pedaço de bolo pelo lucro que eles obtinham com a venda de Vinho. Na sua Opinião, essa ordem da Corte Imperial parecia uma manobra para a Imperatriz controlar firmemente o povo obstinado da Província Emerarudo com rações, enquanto enchiam o cofre Imperial ainda mais com a venda de Vinho.

Era muito provável que centenas de milhares morressem de fome durante esse Inverno.

Enquanto Honoki pensava nisso, ele de repente percebeu que o olhar da Imperatriz Asahi havia sido lançado para ele em algum momento. Olhos laranjas, como um sol nascente, o encaravam firmemente.

Uma pressão silenciosa, como um pequeno Sol, caiu sobre ele, o sufocando. Honoki se lembrou da vez que acompanhou o Ministro da Agricultura a Konoha, e conheceu o Sandaime Hokage. Ele se lembrava que a aura dele era profunda e pesada, comparável ao que ele sentia sempre que estava diante de uma das Treze Espadas da Corte Celestial. Mas comparado com aquele simples olhar da Imperatriz... ele se sentia como se o peso do mundo caísse sobre ele.

Então...aquilo era a pressão de um Tennou?

Ele teve uma visão, de um sol gigantesco no meio do vácuo, com chamas tão quentes que queimava tudo ao seu redor. De repente, uma fênix abriu suas asas, piscando através do vazio, antes de engolir o sol moribundo.

O Vazio rachou, enquanto pedaços do sol espiavam através das brechas. Um calor intenso iluminou o mundo, enquanto cinzas cobriam tudo.

E então a Imperatriz Celestial desviou os olhos. Honoki despertou, e ele percebeu que estava encharacado de suor. A voz dela soou do Trono.

—Oficial Honoki, você tem alguma objeção?

Ele gaguejou com horror.

—Ah? Não, não!

Havia rumores que Os Imperadores Celestiais eram existências que poderiam ler pensamentos através de um único olhar. Ele sempre achou que aquilo fossem exageros, mas agora ele tinha sérias dúvidas.

A Imperatriz não disse nada, e apenas olhou para o Conselheiro ao seu lado. O Velho sorriu.

—Como Sua Majestade comandou, o plano de conversão de Terra arável começará em breve. Oficial Honoki, eu me lembro que você serviu como subordinado do Ministro da Agricultura. Sua experiência seria de grande ajuda na Província Emerarudo. O que você acha?

A boca de Honoki ficou seca. Deixar o luxo da Capital e a oportunidade de subir na carreira, para dormir ao relento em uma Província subdesenvolvida? Aquilo era praticamente uma morte política para ele. Mas ele apenas sorriu, enquanto concordava. Ele sabia que havia sido feito de exemplo pela Imperatriz. Honoki foi esperto o suficiente para não reclamar, ou seu cadáver apareceria pendurado amanhã nos portões do palácio.

O Conselheiro Bachira sorriu, como se nada tivesse acontecido. A sua expressão ficou séria quando ele puxou um pergaminho lacrado. Ao ver o Selo no pergaminho, uma adaga negra, todos ficaram sérios.

A Unidade das Sombras.

Honoki logo percebeu que aquele pergaminho provavelmente havia sido um dos motivos chaves para aquela Reunião Noturna. A expressão do velho conselheiro era solene enquanto seus olhos enrugados abriam o pergaminho.

Notas finais
O Capítulo ficou pronto com 8 mil palavras. Por não ter nenhuma cena de ação e praticamente só conteúdo político e informações sobre a construção mundial, fiquei relutante em postar um capítulo tão grande com informações ´´chatas´´. Sem falar que ia ficar muito cansativo de ler. Então dividi o capítulo em duas partes. O próximo postarei ainda hoje à noite. Para quem ler isso quando o próximo estiver no site, faça uma pequena pausa antes de ler o próximo. Tem...muitas informações cruciais.