Gênesis
46 Chuunin Chiken – ESPECIAL - Flocos de Neve.
Notas iniciais
Sou um floco de neve nessa tempestade
Aonde tem bastante ventania
Mas não restam folhas nas árvores
~X~
—Lemilesi.
XXXXXXXXXXXXXXXXXX
‟Estava escuro, e frio, como se toda a fonte de luz, e de calor simplesmente tivessem desaparecido, e o mundo fora engolido pela densa e assustadora escuridão. A mais completa ausência de luz e calor.
Aquele tipo de cena, deveria ser assustadora para qualquer um. Mas não para ele. Aquele lugar escuro e insano era estranhamente familiar.
Tão familiar, que ele não se surpreendeu quando aquela esfera de pura luz apareceu diante dos seus olhos. Brilhando em um tom dourado e emitindo um calor que o deixava estranhamente...reconfortado, como se de repente todas as sensações ruins causadas pela escuridão desaparecessem... Era uma sensação parecida com... o abraço de uma mãe, ou acordar ao lado da pessoa que você mais ama no mundo.
Bom, não que Naruto já houvesse experimentado qualquer uma daquelas sensações, mas ele achava que seria exatamente semelhante às sensações que aquela esfera o provocava...
Ele ficou encarando aquela esfera por minutos, simplesmente esperando que ela fugisse, e ele tivesse que ir atrás dela, como de costume, mas, daquela vez, foi diferente.
A esfera não se movia.
‟Você...não vai fugir...?ˮ
‟Não...pequeno herdeiro...ˮ
‟Por quê...?ˮ
‟É chegada a hora...ˮ
Os seus olhos, outrora azuis estavam estranhamente...dourados e hipnotizados, enquanto encarava aquela esfera cintilante como se não fosse ele realmente ali. Como se...aqueles olhos pertencessem à outra pessoa.
‟Eu...não entendo...ˮ
‟Se aproxime, criança. Hoje a tua existência completou a sua Décima Terceira volta ao redor do Amaterasu-sama...é a hora. Se aproxime...ˮ
Aquela voz...era como se Naruto fosse um viciado, e aquela voz fosse a droga, sussurrando docemente no seu ouvido, para que ele se aproximasse. Para que ele desse um passo. Só mais um passo...
Ele esticou a sua mão. A esfera flutuou, pousando delicadamente na palma da sua mão.
Imediatamente, uma corrente elétrica percorreu o seu corpo. Naruto arregalou os olhos...aquela sensação era...estranha, mas boa.
E parecia se infiltrar em cada molécula do seu ser, o preenchendo com uma sensação doce e quente, como mel.
Antes que ele percebesse, os seus dedos se fecharam ao redor da esfera.
Ele viu a esfera se esvair no ar, como se fosse feita de uma névoa dourada.
Enquanto flutuavam no ar, pareciam...pequenas estrelas, voando de volta para o céu prateado e negrume.
Antes de desaparecer completamente, aquela voz sussurrou uma última coisa:
‟Termine...termine o que você havia começado.ˮ ˮ
XXX
Olhos dourados acenderam no escuro.
A primeira coisa que Naruto reparou, quando abriu os olhos, era a estranha sensação que o permeava. Como de costume, ele não conseguia se lembrar exatamente daquele maldito sonho, mas...dessa vez...a sensação que o permeava era...diferente... meio difícil de colocar em palavras...
Que nome ele poderia dar para aquele sentimento? Aquele enorme buraco que havia no seu coração? A saudade de alguém que ele ainda não havia conhecido? Ou o sentimento de...ter perdido alguém...que ele sequer lembrava o nome...ou o rosto?
Aquele sentimento...era real, e parecia engolir completamente o seu coração.
Ele arregalou os olhos ao sentir o seu rosto gélido e molhado por lágrimas.
Ele...ele estava chorando...?
Ele passou a mão pelo rosto, enxugando as lágrimas.
Naruto respirou profundamente, e sentiu as suas narinas doerem. Estava frio.
Não era aquele frio agradável, como uma brisa gélida do outono, que fazia as folhas mortas e secas levitarem, mas sim, um frio intenso, que lentamente penetrava a sua pele, a sua carne, os seus ossos...o deixando estranhamente dormente e anestesiado.
Um som, alto e agudo, semelhante à um gemido de dor, alcançou os seus ouvidos, e o despertou dos seus devaneios.
Naruto, enfim, reparou que as suas costas estavam deitadas em algo macio, e que um teto áspero o cobria. Ele não precisou pensar muito para notar onde estava.
Ele estava, aparentemente, deitado no beliche que havia naquele bunker onde eles haviam se instalando.
Ele ouviu novamente aquele gemido de dor.
Erguendo o seu tronco, Naruto enfim conseguiu identificar a origem do som.
Era Sakura, apoiada em um saco cama, com uma Ino tentando, sem sucesso, fazer um curativo no seu ferimento.
Imediatamente, Naruto sentiu o seu olhar escurecer, enquanto era invadido por memórias do que havia acontecido.
Sakura havia...perdido o braço esquerdo. E era...era sua culpa, de novo. Eles estavam atrás de si. Ele era patético, nem havia conseguido matá-los...
Os olhos esmeraldas de Sakura se moveram em sua direção, quando o som das suas sandálias pousando no chão ecoou por aquele bunker.
Um pequeno sorriso cruzou os lábios rosados de Sakura, embora fosse meio...triste.
—Nossa...o que aconteceu com você?
Naruto, apenas retrucou, com o princípio de um sorriso nos lábios. Mas ele não sorriu. Não conseguia.
—O que aconteceu com você?
Ela soltou um riso nasal. Meio forçado, na opinião de Naruto. Os olhos dela, outrora no mais brilhante tom de verde, estavam meio...opacos, distantes.
Naruto suspirou, se aproximando dela.
—Tá...tudo bem...? Você sente alguma dor ou...?
Ela balançou a cabeça, mas depois fez uma pequena careta quando Ino passou uma gaze naquele ferimento.
—Porra, Ino! Você quer me matar?!
—Sinto muito...
Foi tudo o que a loira sussurrou, em um tom tão baixo, que mal parecia que havia falado. Mas os olhos de Naruto se arregalaram. Aquela era...era a primeira vez que ela falava desde...desde aquilo.
—Não...tudo bem. Eu não...devia ter gritado. Me desculpe.
Lágrimas se acumularam nos cantos dos olhos esmeraldas da rosada, e Naruto tinha uma estranha impressão que não era pela dor que ela sentia. Pelo menos não a física.
Ino apenas assentiu, ainda com a sua expressão de...nada. Ela não expressava nada.
Sakura parecia tão...frágil. A pele estava pálida como mármore, os cabelos róseos curtos caíam como nuvens ao redor do seu rosto, os seus lábios se curvavam em sorrisos de canto, mas...não esboçavam qualquer sentimento, e os seus olhos verdes...estavam sem brilho. Ela parecia um fantasma de Haruno Sakura.
Aquilo fez Naruto se sentir pior, e afundar ainda mais no poço negro que ele havia construído para si.
—Sakura...-ele sussurrou, com a voz incrivelmente baixa- Me des-
—Pare com isso. –Ela o interrompeu, os ombros dela estavam para baixo, e as suas olheiras eram incrivelmente profundas- Só...pare de fazer isso. De se culpar. Isso não é culpa sua. Nada do que aconteceu é. Então...só pare de fazer isso...-Pelo seu tom de voz, era óbvio que ela havia repetido aquelas mesmas palavras para si mesma, vezes sem conta- Pessoas tomam decisões, e essas decisões têm consequências. E, às vezes, merdas acontecem. É a vida. Pare de se culpar pelas escolhas dos outros.
Ela completou em pensamento, sorrindo um tanto triste no final:
‟Sim, isso, muito simplesmente, é o resultado das minhas próprias decisões. Eu fiz isso comigo mesma. Eu mesma me quebrei.ˮ
Naruto apenas baixou os próprios ombros, com uma expressão incrivelmente indecifrável, e assentiu. De repente, ele parecia cansado. Muito cansado. Nem uma única palavra cruzou os seus lábios.
Sakura resolveu mudar de assunto.
—É mesmo...-Os lábios dela se alongaram em um sorriso, dessa vez, ela parecia menos...triste – Feliz Aniversário, Naruto-kun.
Naruto franziu o cenho, sem saber exatamente o que falar. Era...era seu aniversário?
—Que...dia é hoje?
A rosada pareceu ficar constrangida.
—Ah, é mesmo...eu esqueci de te dizer...você está dormindo desde ontem...então...esse é o oitavo dia dessa tribulação. E o décimo Terceiro ao todo. Ou seja...
—Hoje é...Dez de Outubro...-Os olhos de Naruto se arregalaram. Aquele era o penúltimo dia daquele exame? De repente, ele se lembrou das palavras daquela esfera dourada. Era o seu...Décimo Terceiro Aniversário... Mas então ele notou o olhar no rosto de Sakura e percebeu que estava sendo meio rude, ele forjou um sorriso- Ah, me desculpe. Muito obrigado, Sakura.
Então, algo ainda mais surpreendente aconteceu.
Ino, aparentemente concentrada em retirar as faixas que envolviam o que havia restado do braço esquerdo de Sakura, e trocá-las por novas e limpas, dispensou um olhar mínimo para Naruto.
—Feliz...Aniversário...
Naruto ficou sem saber o que dizer. Sakura apenas esboçou um sorriso meio nervoso.
—Ah, foi mal. Hinata nos contou. E eu acabei de me lembrar que isso deveria ser um segredo. Ela meio que...queria surpreender você. Você...pode fingir ficar surpreso? Eu e a Ino ainda vamos ficar aqui por um tempo...você sabe, ela tá me dando uma mãozinha.
Naruto apenas assentiu, com uma expressão indecifrável. Ele não conseguia rir daquela piada sem graça.
—Onde eles estão?
—Lá fora...acho que estão comendo a comida que vocês trouxeram...
—Agora que você falou...sinto cheiro daquele caldo instantâneo horrível...
XXX
Quando Naruto colocou os seus pés fora do bunker, ele finalmente percebeu por que estava tão...frio.
Estava nevando. Pequenos e solitários flocos de neve branca caíam daquele céu negrume.
Naruto apenas sorriu, meio triste, parecendo demasiado perdido apreciando os finos e brancos flocos que caíam do céu.
A neve era...única. Rara, um tanto efêmera e triste.
Cada um dos seus flocos era belo, sim, e único. E, quando dançavam em harmonia com aquela brisa gélida do inverno, eles acariciavam tudo com aquele seu manto monocromático e gélido. Era como se... eles arrastassem sentimentos com eles.
Aquela dança trazia consigo a melancolia das flores que não podiam florescer no frio. Era...meio triste.
Ver as flores lutando, por apenas mais um minuto de vida, mas não conseguirem, por estarem sendo abraçadas por um toque gélido que as deixava sem ar...
Exatamente como ele. Ele se sentia como uma flor. Sufocando naquele frio infernal...
Naruto amava a neve justamente por aquele motivo. Todo mundo ficava naturalmente melancólico. Assim como ele.
Tobirama sempre brincava dizendo que ele gostava de coisas tristes.
Bom, talvez fosse realmente verdade.
Automaticamente, as suas mãos se enfiaram nos bolsos do seu colete.
Era de noite, e estava escuro como o breu naquela terra árida. Mas, uma pequena e cálida fogueira dourada estava dançando há alguns metros de si.
Estreitando os seus olhos, Naruto conseguiu ver o rosto de Hinata, sendo banhado pela luz dourada daquela fogueira.
Ela estava sentada em um pedaço de tronco caído, e estava com uma expressão extremamente concentrada no rosto, parecendo demasiado focada na incrível, e milimétrica tarefa de...ficar encarando...as chamas daquela fogueira?!
Shikamaru, sentado em um outro tronco de frente para si, estreitou os olhos ônix quando o viu, mas Naruto fez um sinal para que ele ficasse quieto, enquanto ele se aproximava sorrateiramente.
Naruto fazia um esforço descomunal para que as suas sandálias, quando em contato com a neve branca e quebradiça, não produzisse nenhum som.
Hinata não pareceu notá-lo, não até que ele estivesse há meros centímetros dela.
—Eu sei que você está aí, Naruto...
Ele apenas suspirou, enquanto se sentava naquele pedaço de madeira onde ela estava sentada. O tronco rangeu quando o seu corpo se sentou, como se reclamasse do seu peso.
—Você devia ter cuidado com o que come. Você tá enorme. — Hinata sequer dispensou um olhar para si, ainda parecia demasiado concentrada em encarar aquela pequena fogueira. — Até esse tronco concorda comigo...
Naruto apenas sorriu de canto.
Os seus olhos de repente se dilataram, enquanto ele tentava enxergar o rosto de Shikamaru naquela noite escura. Ele estava em um outro tronco, há alguns metros de si.
Naruto viu os olhos ônix de Shikamaru se afiarem, quando ele notou que Naruto olhava para ele fixamente. E, então, surpreendendo Naruto, as mãos deles se moveram de forma rápida, porém, firmes:
‟Fico...feliz que estejas bem...E...-ele pareceu enfrentar um pequeno dilema, antes de suspirar profundamente — Feliz Aniversário...ˮ
Naruto não soube dizer se foi pelas sombras projetadas pela luz dourada da fogueira, mas ele teve o vislumbre de um sorriso de canto no rosto de Shikamaru. Bom, talvez tenha sido só impressão sua...
Naruto gesticulou de volta:
‟Obrigado e...é, é isso aí...ˮ
A aquela distância, Naruto finalmente reparou que havia um recipiente metálico no meio da fogueira, sendo banhado pelas chamas. Ele franziu o cenho ao ver que havia nada mais do que água fervendo.
Ele se voltou para Hinata, que parecia demasiado focada naquela fogueira.
—Como foi que você...notou que eu estava vindo?
Ela finalmente desviou o olhar das chamas, e olhou para si. Os olhos perolados dela pareciam...mais misteriosos, refletindo a luz dourada daquela fogueira.
—Bom...o seu cheiro.
—Meu...cheiro? –Ele franziu o cenho- Eu estou...fedendo?
Hinata balançou a cabeça.
—Não...você tem um cheiro único...algo meio adocicado e cítrico, como...canela e limão.
—Nunca ninguém me disse isso... E...é bom?
—Estranhamente...bom.
Naruto ficou sem saber o que dizer. Ele sentiu um estranho formigueiro na pele da sua face. Ele achou que fosse o frio.
Eles caíram em um longo silêncio novamente. Naruto desviou o seu olhar para Shikamaru, sentado em um outro tronco. Ele estava com os seus olhos ônix presos nas chamas da fogueira, e parecia perdido em pensamentos, como se estivesse enfeitiçado.
Era o mesmo olhar que ele fazia quando ficava observando as formas das nuvens. Naruto sabia que ele podia ficar horas assim, preso naquele mundo, e não notaria o tempo passando.
Naruto suspirou, vendo a sua respiração no ar, como uma grossa fumaça branca. Ele se virou para Hinata.
—Você...também...
Ela demorou alguns segundos para responder.
—Eu...também o quê?
—Você também...cheira bem. A lavanda, na verdade...
Ela sorriu de canto, antes de ajeitar uma mecha do seu cabelo atrás da sua orelha. Aquele simples movimento espalhou pequenas gotículas dos resquícios do shampoo que ela usava no cabelo. Naruto sentiu o seu nariz sendo invadido por aquele aroma suave e doce, que sempre o fazia sorrir. Tinha cheiro de... felicidade. Tinha cheiro de Hinata.
O cabelo dela havia crescido, um pouco. Então, aquele simples movimento fez com que a pele do pescoço dela ficasse à descoberta.
Naruto viu a cicatriz. Aquela enorme e ramificada cicatriz em forma de estrela, que ela tinha no pescoço, brilhar com a luz dourada que vinha da fogueira. Por mais estranho que pudesse soar, era bonita até...aquela cicatriz.
Naruto percebeu que ficou demasiado tempo a encarando, quando viu os seus olhos perolados se voltarem para si.
—O que foi...?
—Nada...
Foi tudo o que ele disse antes de estender as suas mãos para a fogueira, procurando aquecê-las.
Eles caíram novamente em silêncio, então ele viu ela puxando algumas tigelas metálicas, e logo despejando a água fervente.
—O que...-Naruto parou o que dizia, apenas para sentir uma lufada de ar gélido que acariciou a sua face- O que você está fazendo?
Ela apenas sorriu, antes de erguer uma tigela fumegante. Naruto arregalou os olhos ao sentir aquele cheiro encorpado e fumegante adentrar as suas narinas.
—Ramén... ou pelo menos acho que é...
Naruto, ainda meio surpreso, recebeu aquela tigela e ficou encarando aquele caldo delicioso durante minutos. Ele sorveu um pouco o caldo, e arregalou os olhos.
—Estou surpreso... Você... não sabia que você sabia cozinhar... sendo herdeira de um clã...nobre...
Ela riu pelo nariz.
—E realmente não sei. Quer dizer, estou tentando aprender com algumas empregadas, mas digamos que não está correndo muito bem... –Ela ergueu um pacote diante dos olhos de Naruto- Ramén instantâneo. Nunca falha. Achei no banquete. Acho que, no final, valeu a pena quase ter sido incinerada...
Naruto não evitou sorrir.
—Mesmo assim...foi você que preparou. Obrigado.
Ela apenas revirou os olhos, antes de retribuir o sorriso.
—De qualquer forma...feliz aniversário. Eu sei que...o momento não é nem um pouco ideal, e que você não gosta nem um pouco de celebrar esse dia, mas...eu achei que seria bom, por um momento, esquecer toda essa loucura, nem que fosse um pouco... céus, Naruto... Ontem você quase morreu...você tem ideia do quão...assustador aquilo foi?
A dor na sua voz era real e palpável. Naruto não sabia o que dizer.
—Me...desculpe...
Ela apenas assentiu. Mas os seus olhos ainda continuavam meio tristes. Era como se...sempre que ela fechasse os olhos, ela revivesse aquele exato momento, e fosse invadida pelo desespero, e sentisse aquele gosto ruim subindo lentamente pela sua garganta.
—Tudo bem. Já...passou...
Naruto a viu forçar um sorriso, e profunda olheiras apareceram ao redor dos olhos.
—Você aparenta estar cansada...você deveria dormir mais...
Ela apenas deu de ombros, como se realmente não se importasse. Ele suspirou, de repente parecendo demasiado interessado em observar aquela terra sendo tingida pelo branco da neve.
Antes que ele percebesse, aquelas palavras saíram da sua boca.
—O que você mais sente falta? Digo...antes desse exame...?
Ela foi rápida em responder.
—Banhos mornos...me entupir de chocolate...minha família...-ela forjou um sorriso- empregadas que, literalmente, morreriam por mim...enfim, a lista é longa...
—Como esperado da menina rica...
—Credo, Naruto...A Sakura infetou você...
Houve um longo silêncio, enquanto ela apenas se concentrava no som da fraca risada de Naruto naquela noite fria.
—Mas...de verdade...do que mais você sente falta?
—Música...
—Música...?
—É...eu te falei que o meu pai comprou um daqueles Gira-discos?! Foi meio...caro, não...espere. Foi muito caro, mas enfim. Todas as noites, depois de engolir aqueles amargos remédios para dormir, eu sempre me deito na minha cama, e coloco um disco de vinil qualquer, e deixo tocar. Me sinto viajando enquanto ouço aquelas melodias suaves...sinto as minhas pálpebras pesando e então...enfim adormeço...como uma pessoa normal...Sem pesadelos, sem rostos de pessoas que matei, sem pessoas me culpando...
Naruto apenas sorriu de forma triste, ao notar a expressão profunda no rosto de Hinata. Ele apenas suspirou. Era como se encarar no espelho.
—Como uma pessoa normal...é...deve ser...divertido...
E, aproveitando o silêncio agradável que pairava sobre eles, Naruto sorveu novamente aquele caldo.
Tinha gosto de casa. Tinha gosto de Tobirama.
O seu aniversário, sempre foi um dia...complicado para ele. Além de ser o dia em que os seus pais haviam morrido, também o lembravam daquele maldito orfanato.
O lembrava das marcas roxas na sua pele. As mãos ásperas e nada gentis que passeavam pelo seu corpo. As lágrimas silenciosas que deslizavam pelo seu rosto. O hálito doentio no seu ouvido enquanto sussurravam para que ele não contasse nada. E o cheiro. Aquele maldito cheiro. Cheiro do seu corpo sendo manchado...
Por isso, aquela era uma data que sempre o deixava...uma mistura de sentimentos estranhos. Ele sempre se sentia como se estivesse se afogando. Mas nem tudo era escuridão. Mesmo no inferno, que era aquele orfanato, ele havia feito alguns poucos, mas muito valiosos amigos.
Sora...Hotaru...Shion...
Ele se perguntava como é que eles estariam, depois de todos aqueles anos...embora estes agora, provavelmente o odiassem...não mais do que ele se odiava, é claro...
Mas, ultimamente, haviam algumas poucas memórias boas.
Desde os seus oito anos, os seus aniversários eram a única época do ano em que Tobirama o deixava comer Ramén, ou como ele, carinhosamente apelidara, o caldo mortal que o levaria a ter um enfarte aos quinze anos.
Naruto sempre fazia um clone, e deixava Tobirama assumir uma forma corpórea, e eles iam para o Ichiraku, sempre. Claro que, Tobirama sempre fazia um jutsu de transformação.
E, depois de se entupirem de Ramén, eles sempre passavam em uma loja de doces — não uma qualquer, a melhor da vila — e compravam um monte de doces.
No silêncio do seu apartamento, eles se entupiam de doces até o sol nascer, enquanto Tobirama o contava as histórias incríveis da sua juventude...
Naruto sentiu os seus olhos lacrimejarem ligeiramente com aquelas memórias. Aquela foi a melhor época da sua vida. Tobirama era...como um pai para ele...
Naquela época, Naruto se lembrava de estar sempre sorrindo e fazendo brincadeiras idiotas. Mas...Tobirama foi o único a perceber os pedidos de socorro que se escondiam por detrás daqueles seus sorrisos de felicidade...
Eram tão artificiais, que ele se perguntava...como...como ninguém mais havia notado?!
Sinceramente, se ele não tivesse aparecido na sua infância...na época mais escura e complicada da sua vida...Naruto já teria quebrado, há muito, muito tempo... tanto pelos olhares frios que o encaravam todo o santo dia, quanto pelas manchas negras na sua alma, que ele carregava daquele maldito orfanato...
—Naruto, você está...
A voz de Hinata o fez finalmente perceber do gosto salgado das lágrimas que ele sentia nos seus lábios...
—Não, não é nada...-ele passou o dorso das mãos na pele da sua face, antes de erguer a cabeça, e ficar encarando o céu acinzentado do qual os flocos caíam — essa maldita neve...me entrou nos olhos...
—Essa maldita neve...
Hinata apenas sorriu, meio triste, antes de buscar a mão de Naruto que estava sobre o tronco, e se envolver sobre ela. Ao contrário do que ela achava...os dedos dele eram... estranhamente macios, meio suaves até, mas emanavam um calor que a deixava...meio anestesiada sobre tudo ao redor.
—Essa maldita neve...-Naruto repetiu, ainda com o rosto sendo acariciado pela neve fria- Obrigado...de verdade...por sempre...estar aqui.
Ela fez menção de largar a sua mão, mas os seus olhos se arregalaram quando ela sentiu os dedos de Naruto a impedirem. Se recuperando do choque, ela sorriu, antes de se inclinar e apoiar a sua cabeça no ombro de Naruto.
—Eu estarei aqui. Sempre. Eu prometo.
Ele não largou a sua mão, e Hinata não reclamou. Ela se perguntou qual dos dois pulsos era aquele que ela sentia batendo mais acelerado...
No dia seguinte, em uma noite fria, com a neve branca caindo e uma lua prateada como aquela adornando os céus, Naruto se lembraria daquelas palavras, daquelas mesmas palavras, e se perguntaria... Por que...por que os seres humanos sempre faziam promessas que nunca conseguiriam cumprir?
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