Estava escuro. Victoria não sabia quanto tempo estava naquele guarda roupa velho. Não sabia quanto tempo estava se escondendo de sua irmã... Helena.

Victoria estremeceu ao lembrar-se do que havia acontecido. Apertou os olhos, mas algumas lágrimas insistiram em cair. Ainda conseguia ouvir a voz de sua mãe. Apenas em sua mente. Ela havia sido morta friamente por Helena. A própria filha.

Victoria continuava lembrando. Tentava não lembrar, mas era impossível. E se culpava. Culpava-se por ter sido fraca e não ter salvado sua mãe.

– Querida, como foi seu dia? – A mãe perguntou, sentando-se na cama e cobrindo Victoria.

– Foi estranho. ­– Ela cochichou. – Helena voou hoje.

– Como assim, meu amor?

– Bom, eu tentei voar e subir na árvore como ela, mas cai. Eu queria ser normal, sou um desastre assim.

– Não, você ainda irá conseguir. Só precisa acreditar em você mesma e se concentrar. Não faça tudo que sua irmã faz. – A mulher deu uma olhada para Helena que dormia na cama ao lado.

– Mãe, ela é melhor em tudo. Ela sabe usar os poderes que tem.

– O que adianta saber usá-los se não os usa para o bem, hein? – A mãe deu um sorriso triste. Sabia do que Helena era capaz, tão jovem, mas tinha uma mente absurdamente assustadora.

–

Victoria não conseguia dormir. Era assim todas as noites. Tinha medo de Helena. Helena era sua irmã gêmea com poderes incríveis. É claro que Victoria também tinha poderes especiais, mas ainda não conseguia controlá-los totalmente. Mas conseguia com total sucesso bloquear Helena de ler seus pensamentos. Era o único que conseguia e isso era ótimo. Pensava coisas terríveis de sua irmã sem que ela entrasse em sua mente para lê-los.

Por um momento havia esquecido que sua irmã estava na cama ao lado, porém, a ouviu sentar-se na cama. Victoria que estava virada para o canto, fechou os olhos rapidamente. Ouviu passos e a porta se abriu. Logo a bateu tão forte que fez o quarto balançar.

O barulho foi tão alto que fez a garotinha pular de sua cama. Sentou-se na cama e procurou suas pantufas. Não achou. Mesmo assim andou até o corredor. Viu as duas portas de costume, banheiro e quarto de sua mãe.

Estavam abertas. Olhou para o andar de baixo e uma onda de terror percorreu seu corpo. Sua mãe estava morta envolta em uma poça de sangue. Havia arranhões pelo corpo e sua cabeça estava virada totalmente para trás.

Victoria soltou um grito de horror. Correu até a escada, porém, Helena apareceu na porta do quarto de sua mãe com um sorriso no rosto. Victoria deu dois passos para trás. Estava sendo covarde? Sim, mas não havia nada a fazer para ajudar sua mãe. Ela estava morta. E agora Helena a mataria.

Victoria correu de volta ao seu quarto, mas Helena foi mais rápida. Levantou a mão e Victoria caiu. Foi como se alguém houvesse colocado o pé em sua frente.

– Aonde você pensa que vai, irmãzinha? Sabe o que a mamãe disse. Que você consegue usar seus poderes. Vamos, levante e lute!

Helena soltou uma gargalhada vendo a irmã no chão.

– Vamos, Victoria. Levante!

Ela estendeu novamente a mão e fez Victoria flutuar. A garota balançava as pernas tentando se safar da força invisível de sua irmã.

– Você é fraca, Victoria. Fraca.

Num instante, Victoria soltou o mais alto grito de sua vida. Os vidros das janelas quebraram, fazendo um barulho perturbador. Helena, com a força do grito de Victoria, foi empurrada para trás, e Victoria caiu no chão. Ela imitou sua irmã. Levantou o braço em direção à porta e a puxou, fechando-a.

Engatinhando até a escada e com um pouco de dificuldade conseguiu levantar. Desceu as escadas e olhou sua mãe. As lágrimas eram incessantes. Então abaixou a cabeça e com passos silenciosos, abriu a porta da sala pensando em enganar sua irmã. Voltou e correu na ponta dos pés até o quartinho de hóspedes. Ninguém entrava lá há um bom tempo. O guarda roupa estava velho e empoeirado. Abriu a porta com cuidado e se agachou, ficando em absoluto silêncio.

Poucos minutos depois, ouviu sua irmã bater os pés no assoalho.

– Cuidado, Victoria! Ainda vamos no encontrar! Sei que está por aqui.

–

O sol aquecia as flores. O dia estava lindo, mas não para Victoria. Sua vida estava destruída. Chorara como nunca chorara antes.

Por um instante pensou que ouvira passos. O barulho ficava mais intenso. A garota abraçou os joelhos e quase prendeu a respiração com medo de que fosse alto o suficiente para ouvirem. Concentrou-se ao máximo para “ver” quem estava lá. Aquilo foi inútil. Por mais que tentasse usar seus poderes, não conseguia.

O barulho dos passos ficava cada vez mais alto. Até que silenciou. O clarão invadiu o guarda roupa. Victoria olhou o gordo policial que a olhava com tristeza.

– Oi pequena, venha, não irei machucá-la.

Victoria sabia que era um bom homem. “Coitada”, ela leu na mente dele. Era o que todos iriam pensar. Então ela o abraçou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.