Notas iniciais
Estávamos todos em silêncio, perdidos em pensamento. A única que não estava sentada nesse estado de meditação era Sophie, que andava nervosamente em círculos, como se odiasse a ideia de não estar fazendo absolutamente nada de útil. Decidi que deveria falar com Jeremy novamente, pois este estivera muito quieto e com um aspecto abatido desde que eu falara com ele pela última vez, e sentia que tinha parte da culpa. Catherine nem ousara se aproximar. Caminhei até ele, que estava sentado a um pouco de distância do resto do grupo girando uma pedra entre os dedos e olhando para o nada. Sentei-me ao seu lado e fiquei em silêncio ali por alguns instantes. Formulei várias frases para lhe dizer, mas nada parecia satisfatório. Ou ele não notara a minha presença ou simplesmente a ignorava, e era terrível saber que a opção mais provável era a segunda. Então tomei coragem e me voltei para ele, sem saber ao certo qual seria a sua reação.
– Jeremy, me desculpe se te magoei. Não era a intenção, de maneira alguma. Eu nem sei porque disse tudo aquilo... Foi péssimo, e não quero que se sinta mal por minha causa. Eu sou uma idiota, não ligue para mim. E quero que saiba de uma coisa, e não me importo se você não acreditar, porque é verdade: eu sei, com tudo o que sou, que você mudou e agora é uma pessoa incrível.
Ele me encarou serenamente e balançou a cabeça lentamente.
– Fico feliz por isso, mesmo que me custe acreditar. Mas e quanto à outra pessoa? Esta não acredita que eu tenha mudado, ou falaria comigo como você fez.
– Ela acredita – sorri – Dentro dela, eu sei que acredita. Você só precisa ajuda-la a acreditar por fora também.
– Me diga quem é. Assim poderei fazer isso.
– Não posso dizer, Jeremy. – suspirei. Ele estreitou os olhos, pensativo, o que fez com que uma ruga surgisse entre as sobrancelhas. Então o seu rosto deixou transparecer uma ideia e surpresa. Seu olhar se pousou em Catherine.
– É ela, não é? Por isso age desse jeito estranho comigo desde que me encontrou, e vive me evitando. Diga, Gwen, é ela?
– Cabe a você descobrir – eu disse, embora estivesse aliviada por não ter de me preocupar mais com aquilo. Ele sorriu, também aliviado.
– Obrigado, Gwen. Você não faz ideia do quanto isso é maravilhoso. – disse. Despediu-se com u m aceno de cabeça e andou até Catherine. Resolvi dar a devida privacidade àquele momento e desviei o olhar. Agora, à caminhada estonteante de Sophie haviam sido adicionados alguns suspiros e ruídos que indicavam desapontamento e irritação. Parecia esquecer-se de que os outros podiam vê-la e ouvi-la. Já me acostumara com o ciclo de movimentos, por isso me assustei quando ela deteve-se de súbito. Como se fosse uma atitude perfeitamente normal, ela caminhou até a parede de pedra e começou a pressiona-la com toda a sua força e de todas as maneiras possíveis – de lado, de frente... Ela colocava todas as suas forças naquilo, e comecei a achar que uma semana naquele lugar havia afetado a sua sanidade. Os outros também notaram, e pareciam se divertir um pouco vendo-a empurrar com tanta força. Ela nos ignorava e continuava empurrando, e nós observando, até que não consegui mais me conter. Era simplesmente muito bizarro.
– O que exatamente está fazendo? – perguntei, erguendo uma sobrancelha. Ela não se voltou para responder, mas continuou com o seu trabalho.
– É lógico! A localização é muito estratégica. Vamos lá. No mesmo local estão as escadas, o duto de ventilação e o tubo da névoa escura. Se você controlasse esse lugar, ia querer que essas coisas estivessem ao seu alcance. Além disso, quando segui a porteira foi nesse ponto que ela desapareceu. É uma posição perfeita para uma porta! Deve estar escondida aqui em algum lugar, e se eu colocar bastante força nisso talvez eu consiga força-la!
A lógica até que fazia sentido, mas a ideia de uma porta se abrindo a empurrões da inglesa era muito absurda. E não seria tão fácil. Chegava a ser ridículo, vê-la ali pensando que podia abrir alguma porta daquele jeito. Balancei a cabeça negativamente, mas nada disse. Achava que se dissesse, ela se irritaria devido à sua personalidade explosiva. Olhei para Henry. Parecia achar a situação engraçada, e via-se que continha o riso. Sim, chegava a ser cômico, mas eu conseguia me conter. Ele não. Chegou um momento que simplesmente não era possível para ele segurar o riso, e então o liberou. Riu discretamente, a um volume que seria inaudível se estivéssemos conversando. Mas não estávamos. Sophie parou imediatamente o que estava fazendo e se voltou para ele, fuzilando-o com o olhar.
– Pode me dizer que é tão divertido? Gosto de rir também, sabe? – ela disse, ironicamente. Ele sorriu, tranquilo, como se esperasse que ela entrasse no clima. Ah, Henry.
– Me desculpe, é só que é um pouco engraçado.
– O que exatamente?
– Você tentando empurrar a parede.
Foi como um vulcão em erupção. O sangue lhe subiu à cabeça, e ela cerrou os punhos com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram. Endireitou-se, o que a fez parecer um pouco menos miúda, e o encarou com todo o ódio que existia dentro dela.
– Ah, mas é claro. Que conveniente. Estão todos parados como umas moscas mortas, ou plantas fazendo fotossíntese, e pensando na vida como se estivessem na praia tomando sol. E eu, querendo sair desse ócio e me sentir menos vagal e inútil, tive uma ideia que talvez pudesse nos tirar daqui. Todavia, quando tento executa-la, não só não recebo ajuda como também sou humilhada pelas risadas e olhares de desdém de meus companheiros, que por mais presos que estejam aqui, como também eu estou, nada fazem além de desprezar à única pessoa que tenta ser útil. Muito conveniente. Você é o tipo que pessoa que considera isso tudo como muito divertido, não é? Está quase rolando de rir aí. Pois eu não acho isso divertido, de maneira alguma. Chega a ser infantil, irritante e inconveniente a maneira como faz troça de tudo, ri de tudo, faz piada nos momentos mais sérios e que requerem concentração. Não sei se os seus outros amigos toleram isso, mas eu não tolero. E sabe por quê? Porque não está na universidade ou em Miami, surfando tranquilo com os amigos. Não. E é isso que não entendo. Eu tinha uma vida lá fora. Estava terminando a faculdade, tenho familiares e amigos, uma irmã mais nova de quem, por sinal, sou a madrinha... Estou noiva, meu Deus! Sim, eu ia me casar! E tenho certeza que todos tinham uma vida também, mas mesmo assim, ficam aí parados enquanto eu tento fazer alguma coisa. Não, pior que isso, acham ridículo e riem das minhas tentativas. Não é porque estão aqui há mais tempo que eu que querem sair desse lugar mais que eu, na verdade, parece ser exatamente o contrário!
Ela não respirou por nenhum momento durante o discurso, e ao mencionar a irmã mais nova e o noivo começou a chorar. O silêncio que se seguiu foi terrível. Ela balançou a cabeça negativamente e se afastou. Henry abriu a boca para dizer algo, mas ela saiu antes que o fizesse. Desceu as escadas com cheiro de queimado e sentou-se em um dos degraus mais baixos. O caçador estava completamente sem jeito, e me aproximei.
– Eu vou falar com ela – sussurrei. – Ela só está nervosa, é só isso.
Ele comprimiu os lábios e assentiu. Senti pena, mas tinha que falar com Sophie. Então desci as escadas e sentei-me ao seu lado. O cheiro de queimado estava mais intenso lá em baixo. Suspirei. Para a minha surpresa, foi ela quem rompeu o silêncio.
– Acha que exagerei lá em cima? É só que... Eu não sei, estou muito nervosa e... É simplesmente horrível ficar aqui embaixo, e quero fazer alguma coisa, mas... Eu sei lá. – ela suspirou.
– Ei, é claro que você está nervosa. Quer dizer, está presa em um lugar horrível quando estaria se casando. A verdade é que te acho muito forte. Na sua posição, eu nem consigo imaginar o que faria.
– Só está dizendo isso para eu me sentir melhor. Eu sou irritada, e sabe disso. Mas obrigada por vir até aqui, Gwen. É que fico pensando em James... Imagine, deve estar desesperado atrás de mim. É tão bom e agora talvez me perca... É terrível. E a pequena Sybbie? Eu sou responsável por ela...
– Pare de falar como se fosse sua culpa! – eu disse, irritada. – Você, nós, nunca pedimos para vir para essa prisão terrível.
– Será que não? Eu fico pensando, por que estamos aqui? Uma espécie de experimento, teste? Diversão para alguém que tem algum tipo de problema mental? Alguém teria que querer muito isso para fazê-lo: todo o dinheiro gasto na construção, fumaça, segurança, desenvolvimento dessas criaturas em laboratórios... O investimento deve ter sido absurdo. E ainda, dar-se ao trabalho de sequestrar a todos nós e apagar às nossas memórias, correndo risco de ser descoberto... Para quê? Simplesmente não faz sentido para mim. Sempre que tento pensar em alguma explicação, ela me parece absurda demais para ser real, e isso me incomoda demasiadamente! Chego a pensar que...
Os seus olhos se arregalaram, e ela gritou. Olhei para ela, assustada. Ela começou a gritar desesperadamente, soluçando, e segurando a própria mão esquerda. A aranha tinha o tamanho de um palmo. Movia-se rapidamente, e era negra com apenas uma listra esverdeada. Assustara-se com o grito de Sophie, mas começava a se recompor. Pisei nela com todas as minhas forças, e ela ainda não morreu. Continuei pisando, até finalmente conseguir esmaga-la. Os outros haviam se aproximado da boca da escada, alarmados pelos gritos.
– Precisamos sair – ela ofegou, entre os gritos – Antes que venham mais! Elas não sobem...
Jeremy desceu correndo e me ajudou a leva-la para cima. Com a luz mais forte, pude ver a picada. Parecia pequena e insignificante, mas o sofrimento visível de Sophie me fez temê-la e odiá-la com todo o meu ser. Eu estava desesperada. Ajoelhei-me ao seu lado, sem saber o que fazer.
– Temos que fazer alguma coisa – disse – Ela vai morrer!
– Não há jeito – ela soluçou, e tremia – Um garoto foi picado, estava comigo e Hout, e o veneno é muito veloz... Já estou morta... Era o que eu temia! Agora James vai procurar, mas nunca me encontrará... Queria pelo menos poder avisa-lo, assim poderá encontrar uma noiva melhor... Não queria morrer com essa idade, e picada por uma aranha! O que me consola é saber que conseguirão sair daqui e entregar o bandido que nos trancou às autoridades... A rainha não vai deixar que ele saia... – sua voz falhou, e ela estremeceu violentamente e empalideceu – Impune... Gwen, diga a Henry que o perdoo... Diga que...
– Diga o quê? — solucei, mas sabia que ela não responderia. Hout estava ao meu lado, e nós duas chorávamos. A holandesa fechou os olhos da companheira delicadamente.
As horas que se seguiram foram torturantes. Ninguém ousava abrir a boca, e o ar de melancolia no ar era terrível e estava me asfixiando. Henry estava socando e empurrando a parede há tanto tempo que as mãos sangravam. Com esforço, levantei-me para faze-lo parar.
– Henry, já chega. – disse, sem forças. Ele não respondeu, então repeti.
– Não! Não chega! – ele gritou. Dei um passo para trás, assustada, e ele vacilou. – Me desculpe, não sei porque estou gritando com você. Eu só tenho que...
– Sentar. Olhe para as suas mãos, Henry, está se machucando, para nada!
– A última coisa que eu disse para ela foi que parecia ridícula empurrando a parede, se não tivesse a aborrecido, ela nunca teria descido e sido picada e depois...
– Isso é absurdo! Pare de tentar se culpar por algo de que não é culpado! Deixar as suas mãos em carne viva não vai trazê-la de volta, Henry! Ela se foi! – minha voz falhou – ela se foi... E ela te perdoou. Antes de morrer pediu que eu dissesse que te perdoava.
– Ela talvez tenha me perdoado, mas eu nunca me perdoarei – ele sussurrou, e preparou-se para socar a parede, mas segurei o seu braço.
– Guarde os seus punhos – disse, com um ódio que eu não imaginava sentir – Para a pessoa que fez isso com ela. Com André. Com todos nós.
Ele olhou para mim e cerrou os punhos.
– Tem razão, Gwen. Não vou parar até ver esse desgraçado gritando como ela estava gritando agora.
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