Notas iniciais
Arrastar-me pelo túnel ouvindo apenas as respirações ofegantes de meus companheiros – incluindo a minha própria – e batendo a cabeça a cada vez que eu estupidamente tentava levanta-la era algo claustrofóbico e assustador. Jeremy, que era o maior entre nós, coubera por pouco, e para Henry valia o mesmo. As palavras de Tina continuavam ecoando em minha mente, mas eu tentava afasta-las a todo custo. Seu último desejo era que fosse tratada comumente, e eu faria tudo que estivesse ao meu alcance para honra-lo. Eu a conhecia há apenas alguns dias, mas sentia como se fosse a minha amiga mais próxima, mesmo entre as que estavam em casa. Casa. Estava tão próxima, era como se esticando a mão eu pudesse toca-la. Tinha um estranho pressentimento de que estava muito fácil – quer dizer, como uma pessoa que tinha estado ali há três anos nunca conseguira escapar? Mas a minha felicidade e a minha ansiedade eram tão grandes que esse pensamento era ofuscado. Ninguém ousava dizer nada, não só por estarem pensando e refletindo como eu mas também porque sentíamos que cada palavra era uma chance maior de sermos encontrados. Não sabia o que esperar, na verdade. Como seria o nosso raptor? Seria, na verdade, uma raptora? Uma equipe? Estávamos prestes a descobrir. Continuei rastejando-me pelo duto, olhando atentamente para a frente, quando os outros à minha frente foram se detendo, um a um. Imitei-os, e assim também o fez Georgia, atrás de mim.
– O que foi? – ela sussurrou, tão baixo que quase não escutei.
– Não sei – respondi, no mesmo tom de voz. Ouvi um ruído de pedra no metal que me arrepiou, como se alguém estivesse ali pronto para nos atacar.
– Vamos descer – Jeremy disse, alto o bastante para que todos o ouvissem mas, ainda assim, em um tom de voz bem baixo. – Vou ajuda-los.
Henry, na verdade, foi o único que não precisou da ajuda do caçador. Ele ajudava as meninas dos dutos e Henry as pegava onde quer que ele estivesse. Por fim chegou a minha vez. Olhei para baixo, e, para o meu alívio, não era muito alto. Jeremy segurou a minha cintura e me enfiou no buraco, e Henry logo me tomou. Sorriu e me colocou no chão. Estava em cima de uma mesa de metal. Observei o ambiente ao meu redor. Parecia uma espécie de sala de reuniões, com uma tela negra ao fundo e cadeiras de metal ao redor da mesa. O assoalho era de madeira e as paredes cinzentas. Não havia janela alguma. Lá era frio, apesar da ausência de ventiladores ou um aparelho de ar condicionado. O cheiro no ar era de hospitais, o que me incomodava um pouco e parecia que Henry sentia o mesmo. Jeremy logo colocou Georgia para baixo, descendo ele próprio em seguida. Estávamos todos ali.
– Muito bem – Jeremy tomou a palavra – Não fazemos a menor ideia do que nos espera agora. Então, juntos, vamos tentar achar a saída e fugir o mais rápido que pudermos. Talvez hajam seguranças lá fora, mas não temos outra opção. Pessoal, se algo acontecer... Quero que saibam que todos significam muito para mim...
– Não diga isso – interrompeu Tina, incomodada. Àquela luz, sua palidez exagerada não era tão notável. – Vamos logo. E boa sorte a todos. Inclusive eu.
Não consegui deixar de rir baixinho, mas uma tristeza profunda me abateu. “Não é hora para isso” repreendi a mim mesma, em pensamento. Decidiu-se que Jeremy ficaria à frente do grupo e Henry atrás. Eu e Sarah ficamos no fundo, próximas a ele. Ninguém dizia uma palavra, e a tensão era tão grande que constantemente eu esquecia-me da necessidade de respirar e deixava de faze-lo. Era reconfortante saber que Henry ia atrás de mim. Seguíamos por um corredor iluminado por lâmpadas de led que falhavam a todo momento, tudo no mesmo cinza. As portas tinham uma pequena janela de vidro que nos permitia ver o que havia no interior. Reparando nelas, acabei ficando para trás de Henry. Ele olhou para trás e gesticulou para que eu me apressasse, mas algo chamara a minha atenção. Uma sala – destrancada – continha estantes cheias de frascos, tubos e comprimidos. Cada uma delas continha algo diferente. Inclusive remédios. Talvez houvesse algo para Tina ali dentro. Eu tinha que tentar. Sorri, com falsa tranquilidade para Henry, e disse que o estava seguindo e que se voltasse. Ele insistiu, mas acabou por ceder, contrariado. Assim que se voltou, abri a porta silenciosamente e me esgueirei para dentro do local. Comecei a procurar desesperadamente nas estantes. Tinha que haver algum tipo de antídoto para veneno de besta. Ouvi alguns gritos, murmúrios e passos, mas estava concentrada demais para dar a devida atenção àquilo. Estava imersa vasculhando na estante que dizia “De Extrema Importância” quando uma voz fez com que meu sangue gelasse e minha musculatura enrijecesse. Como a da Porteira, ela levemente metálica. Mas diferente da dela, era grave.
– Veja só o que temos aqui.
Engoli em seco e forcei-me a não entrar em pânico.
– Gwen Savage. Estou de olho em você há um bom tempo. Não sei se é a sua esperteza ou algo mais, mas há algo em você intrigante. Estou tentando descobrir o que é desde que te vi pela primeira vez e decidi que seria uma das adolescentes enviadas para lá.
Voltei-me lentamente e cambaleei para trás, batendo as costas na parede, ao ver que era a figura que me assombrara em sonhos. Talvez eu realmente tivesse visto aquele homem antes. Os cabelos escuros eram despenteados – matematicamente – e os olhos frios e vazios. Onde devia estar o seu nariz, havia uma pirâmide de prata. Vestia trajes sociais e era vários centímetros mais alto que eu.
– Quem é você e por que fez isso? – perguntei, tentando soar confiante. A julgar pelo riso sádico que ele deu eu seguida, considerei que havia sido uma tentativa falha.
– Acho divertido como vocês insistem na ideia de aparentar cheios de coragem quando na verdade é a única coisa que desejam ter. Sejamos sinceros um com o outro, Gwen. – ele disse, sorrindo assustadoramente – E quanto a mim... Por hora, basta que me chame por Nariz de Prata. Já os objetivos, não creio que seja o momento oportuno para revela-los. Aos negócios, pelo que sei, está aqui procurando por isso...
Ele retirou de um dos bolsos do paletó um pequeno frasco cheio de um líquido azulado, cuja etiqueta dizia “Antídoto para Veneno Bestial”. Prendi a respiração ao vê-lo balançar o objeto com negligência.
– Entregue isso agora.
– Ou o quê? – ele riu. – Não, Gwen, não tão fácil assim. Como já declarei, você me intriga e me fascina a um ponto que ninguém mais o fez. Não o confunda com infantilidades como sentimentos, faça-me este favor.
– O que está tentando dizer? – rosnei, estreitando os olhos.
– Não seja tão grossa, Gwen, ou posso mudar de ideia – ele repreendeu, com um sorriso de zombaria – Pilar já não serve mais para os serviços que desejo que realize. Não me satisfaz.
– Se por um instante pensou que eu faria o seu serviço sujo, talvez devesse voltar à escola primária – interrompi, bruscamente.
– Pense no que está dizendo. O que é isso? Pensa que assim pode proteger o seus amigos? Pensa que deve ficar ao lado deles? Não são amigos, Gwen. Assim que puderem, virarão as costas a você e vai senti-lo na própria pele. O que estou te oferecendo é uma oportunidade de se juntar ao lado vencedor e se tornar a minha companheira. É uma garota grandiosa, destinada a coisas grandiosas, e não ao pouco que esses a quem você chama amigos têm a lhe oferecer. Venha comigo, e terá tudo. Sei que conseguirá me satisfazer. Continuar a me fascinar.
– Eu nunca me juntaria a você! Nem por todo o dinheiro do mundo, nem para salvar a minha própria vida, nem para ter tudo o que quisesse! Você é um monstro nojento e abominável que acha que tem o direito de controlar as pessoas e tortura-las do jeito que faz, matou meus amigos e pessoas que não te fizeram nenhum mal! Antes lamber o chão, morrer a me juntar a você! – bradei, com uma coragem que desapareceu segundos após o discurso. Ele balançou a cabeça negativamente.
– Você me desapontou, Gwen. Eu esperava grandes coisas de você. Mas já que se limita à mediocridade, ela você terá. – ele disse, friamente, e soltou o frasco, que se espatifou em vários pedaços no chão. Gritei, sentindo o meu coração parar. Olhou para mim como um caçador para a presa, quando algo o atingiu na cabeça e ele cambaleou para o lado.
– Corra, Gwen! – era Henry. Apressei-me e atravessamos o corredor rapidamente. Ele me guiou até uma sala onde os outros estavam.– Você está bem?
– Sim – respondi, embora não conseguisse conter as lágrimas. Não só por medo, mas porque talvez o único modo de salvar a minha melhor amiga havia sido destruído para sempre. Ele me abraçou, e foi então que notei que Hout e Sarah não estavam ali. – Onde estão Sarah e Hout?
– Ambas foram capturadas – ele respondeu, com pesar. Tapei a boca com as mãos, e deixei que ele me abraçasse outra vez. Olhei para Nick, que mexia nas dezenas de computadores e botões da sala.
– O que ele está fazendo?
– Acha que consegue libertar quem quer que tenha sobrado naquele lugar, e está fazendo isso. – Henry respondeu. Uma notícia boa, ao menos. Todos pareciam bem. – Gwen, você está mesmo bem?
– Sim, estou – menti – É só que aquele homem me assusta muito... Ele me assombrou em sonhos...
– O que ele estava dizendo?
– Queria que eu me juntasse a ele, e falava sobre como eu o deixo fascinado e poderia substituir a Porteira... Também disse que vocês não eram os meus amigos, e que virariam as costas a mim assim que surgisse uma oportunidade.
– Isso é mentira, Gwen – ele disse, gravemente, e segurou minhas mãos. – Eu nunca vou virar as costas a você.
Sorri. Foi quando a porta se abriu. Estavam ali de pé Nariz de Prata, Sarah e a Porteira.
– Acabei com a festa? Meus pêsames – Nariz de Prata disse, tranquilamente. – Impressionante. Foi o mais longe que um grupo já chegou, devo assumir. Mas não é muito gentil mexer assim nos computadores alheios, Nicholas.
Nick gelou e encarou o outro com ódio. Este apenas ignorou o olhar.
– Sarah, você está bem? – Georgia perguntou. A curandeira desviou o olhar.
– Ela está incrivelmente bem – Nariz de Prata olhava para mim – Porque foi esperta o suficiente para aceitar a proposta que lhe fiz.
– O quê? – sussurrei.
– Oh, sim. Sarah é, a partir de agora, o meu braço direito. Ela os traiu, porque sabe qual é o lado vencedor, algo que nem todos vocês sabem.
– E eu? – a Porteira olhou para ele, contrariada. Parecia não conhecer os planos no chefe. Foi em questão de segundos. Em instante, ela estava olhando para ele com ódio. No outro, estava estatelada no chão, baleada na cabeça.
– Seus serviços não são mais necessários. – ele disse, friamente, e Sarah estremeceu.
– Como pôde nos trair? – gritou Georgia, e depois voltou-se para Nariz de Prata – Você pode ter achado que venceu por fazê-la tornar-se essa pessoa terrível, mas Nick já libertou todos os outros. Queira ou não, nós vencemos.
– Sim. – Nick completou – O seu circo já acabou.
– Mas que irônico – Nariz de Prata riu, consigo mesmo. Então encarou a cada um de nós. – Ah, meus queridos jovens. Os outros são os outros, e só. Realmente acreditaram que estariam aqui se eu não tivesse permitido? Ainda não se deram conta de que estão exatamente onde quero que estejam? Parecia-me realmente que eram mais sensatos. De uma maneira ou de outra, boa diversão.
A porta fechou-se bruscamente, e canos nas quinas das paredes que até então não haviam sido notados passaram a libertar uma névoa esbranquiçada. Tossi, e a última coisa da qual me lembrei foi Henry abraçando-me apertado.
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