Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa

10 Capítulo Especial - P.O.V. Tina


Notas iniciais
"Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente." - Lya Luft

Ninguém estava conversando muito. A morte de Sophie realmente criara uma atmosfera triste e fúnebre entre o resto do grupo. Henry parara de socar a parede depois que Gwen falou com ele, mas a sua expressão carrancuda e obscura afastava qualquer um que não fosse ela. Nick se aproximara e fizera algumas perguntas, e era divertido ver como uma ruga se formava entre as sobrancelhas quando estava pensando, concentrado. Parecia ter tido um indício de ideia, mas ainda a estava desenvolvendo. Sentou-se próximo a mim, e como não tivesse mais nada para fazer, decidi que o observaria. Parecia não notar que meu olhar estava pousado sobre ele, ou simplesmente não ligava. Eu não gostava muito dele, era um fato. O seu ar de inteligência – por mais sincero que fosse – era um pouco arrogante e me irritava profundamente. Sem contar que chegara há pouco mais de um dia, e já considerava a si mesmo como o membro mais essencial do grupo. Ele finalmente se voltou para mim, erguendo uma sobrancelha.

– O que há de errado com você? Está me observando há uns quinze minutos. – disse. Corei instintivamente e balbuciei algo. Ele pareceu achar divertido, o que me irritou profundamente. Simplesmente bufei e cruzei os braços, e ele sorriu de canto.

– Você é patético – rosnei, entredentes. Ele balançou a cabeça negativamente, e olhou para mim de um modo ridicularmente galanteador e esnobe.

– Eu sei que não acredita nisso realmente.

– Novidade para você: acredito sim. – disse, sarcástica. – Mas tanto faz. No que estava pensando?

– Fiz algumas perguntas a Gwen... Aparentemente ela segurou a grade com as duas mãos, assim a corrente elétrica passou por uma mão e voltou ao metal pela outra. Se algum de nós tivesse força suficiente para arranca-la com apenas uma mão, não seria eletrocutado, pois a outra mão estaria na pedra – que não conduz energia elétrica. Logo, conseguiríamos sim escapar pelo duto de ar se o seu tamanho for suficiente para que nós passemos por ele.

– Me perdi no meio do raciocínio, mas ainda sim é incrível! Será que Jeremy tem essa força? Ele e Henry são os mais fortes aqui, mas as mãos de Henry estão feridas... – eu disse, esquecendo-me momentaneamente do meu ódio pelo meu companheiro.

– Talvez, mas ele precisaria de alguma pedra mais afiada para ajuda-lo, tenho certeza de que a grade não será facilmente arrancada – ele respondeu – Deveríamos tentar daqui a algum tempo, esperando apenas que nos recomponhamos devido à infeliz morte de Sophie.

– Sim, certamente – concordei. Talvez fosse um pouco egoísta, mas eu não conseguia deixar de me sentir extremamente feliz e ansiosa apesar da morte da inglesa. Sinceramente, qualquer possibilidade de fuga daquele lugar mórbido e doentio era como um oásis no meio do deserto. Depois de três anos presa ali, tudo o que eu queria era voltar para casa.

– Está aqui há bastante tempo, não é mesmo? – ele perguntou. Assenti lentamente. – Deve ser desesperador.

– É sim – respondi, baixinho, rolando a minha pedra esculpida para parecer um macaco entre os dedos.

– O que é isso? – ele perguntou, olhando-a com curiosidade. Corei e a escondi.

– Não é nada que importe.

– Deixe-me ver – ele disse, e a tomou delicadamente. Sorriu de canto e ajeitou os óculos, que estavam tortos. – Por que tem uma escultura de macaco?

– Meu pai gosta deles, e me faz pensar em casa – respondi, sem olhar para ele. Ele murmurou um “Oh” e comprimiu os lábios, devolvendo-me a pedra. Um pouco sem jeito, desviou o olhar e coçou a cabeça, bagunçando os cabelos castanhos.

– Devíamos descansar – comentou, um pouco aéreo. – Por que não dorme um pouco?

– Está bem – murmurei, e assim o fiz, segurando a pedra próxima ao coração.

Uma besta estava debruçada em cima de mim. Minhas costelas eram pressionadas por suas pernas fortes, e ela estava prestes a arrancar a minha cabeça. Os outros estavam ocupados demais salvando as próprias vidas, portanto eu estava sozinha. Não é a maneira mais agradável de se acordar. Respirei profundamente e forcei-me a manter a calma. Sempre quisera ser caçadora, e era hora de provar que eles haviam feito errado em não me aceitar. Ergui os joelhos para cima com força, acertando a criatura, e fazendo-a cair para o lado. Apalpei os bolsos em busca da pedra que usava para escalar o Santuário, e a encontrei bem no momento em que a besta se ergueu e pulou sobre mim. Perfurei o seu estômago e depois a enfiei em seus olhos, e ela caiu morta com um baque surdo. Passei para a próxima, que avançava sobre a ainda adormecida Georgia. Chutei-a para o lado com força, e o barulho da queda fez com que ela acordasse.

– O que houve? – perguntou, alarmada.

– Ataque de bestas – respondi. Ela olhou de mim para a besta.

– Eu cuido dessa! Nick está em maus bocados! – disse, e apontou. Nick tentava defender-se, em vão. Bufei e corri até lá, colocando-me à sua frente.

– O que está fazendo? – ele arfou. Notei o sangue em seu tórax, e imaginei que houvesse levado uma patada.

– Salvando a sua vida – respondi – Fique atrás de mim!

A besta avançou, e preparei-me para atingi-la com a pedra. Senti uma dor aguda no antebraço esquerdo, mas a ignorei. Ela se lançou em cima de mim e enfiei a pedra em seu estômago com toda a minha força, sujando a minha mão com o sangue quente da criatura. Ela caiu e rolei para o lado antes que me atingisse. Ofegante, fiquei parada ali por alguns instantes. O silêncio sugeria que a última besta havia sido morta. Sentei-me, observando os danos. Os dois caçadores tinham alguns ferimentos insignificantes, e Nick tinha o corte no tórax. Mas de resto, todos pareciam bem. Apoiei a cabeça nos joelhos, ainda ofegante. Nick ajoelhou-se ao meu lado.

– Tina... – ele sussurrou. O seu tom de voz era estranho, e olhei para ele com curiosidade.

– O que foi? Devia ir falar com Hout, ela pode cuidar do seu tórax.

– Ou disso – ele sussurrou, e ergueu o meu antebraço esquerdo com a mão trêmula. Sem entender, olhei do seu rosto contraído para o espinho comprido cravado no meu braço, o veneno esverdeado penetrando nas minhas veias. Empalideci e o arranquei lentamente.

– Oh, Nick – sussurrei – Estarei morta em uma semana.

Notas finais
Olá! Sim, postei rápido, e sim, é curto, mas muito importante. Tristes pela Tina? Eu com certeza estou. Mas muita coisa pode acontecer em uma semana. Gostaram do capítulo especial? Haverá mais de tempos em tempos, e com outros pontos de vista. Comentem, por favor!