Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa

14 Capítulo Especial - P.O.V. Georgia


Notas iniciais
"O medo te limita. Enfrenta-o." - ?

Passamos a manhã seguinte sem incidentes. Estávamos tranquilos em relação aos suprimentos, que perdurariam por um bom tempo. Apesar disso, havia certa inquietação nos que haviam conhecido Sophie, que dissera que ela própria tinha uma grande quantidade de suprimentos — e que tudo se incendiou. O tal leão gigante não deu sinal de vida — coisa pela qual agradecemos, e muito. O fato de haver um grande e belo sol brilhando sobre nossas cabeças ao invés de uma névoa escura e assustadora era bem reconfortante, mas, apesar do ambiente ser extremamente agradável, eu estava um pouco perturbada por dois motivos principais. Um: uma calmaria sempre antecede a tormenta. A qualquer momento algo terrível aconteceria e ficaríamos tão assustados quanto antes. Dois: o meu medo incondicional de palhaços. Ridículo e infantil? Talvez, mas sincero. Mesmo os mais amigáveis, que ofereciam flores e contavam piadas inofensivas. Não sei bem porque, mas aquelas bocas e narizes avermelhados podiam fazer com que eu passasse noites em claro. Não contei a ninguém, porque não queria parecer idiota, e procurei me distrair conversando com Russel. O garoto, de dezessete anos e meio, tinha sangue de circo. Seus antepassados haviam sido ciganos, que viajavam pela Europa sem casa fixa e, apesar de admirarem e encararem uma parte dos europeus, eram abominados e perseguidos por outra. Seus bisavós haviam estado em campos de concentração alemães, e os avós haviam se escondido na América, onde acabaram se instalando e fundando um circo. Vários outros ciganos e americanos juntaram-se a eles, e assim seus pais, Jack e María, se conheceram e nasceram ele e sua falecida irmã, May. Nada sabia sobre a experiência de viver em uma casa fixa, ir a escolas, faculdade... Havia sido educado pelos pais e avós, que, segundo ele, "ensinaram somente o que realmente importa". Sabia todo tipo de truque, mas apesar de ser carismático e divertido, optara por não se tornar palhaço — o que foi um alívio para mim. Estava abalado por conta da morte da irmã gêmea, mas disse que estava feliz por ela. Era católico, e dizia que sem sombra de dúvida ela estava no céu festejando com "Nuestra Señora" como ele a chamava, por seus avós terem o espanhol como língua materna. Usava um terço de madeira ao redor do pescoço, e dizia que não tirava por nada. Era muito bom vê-lo naquela tranquilidade, e desejei sentir-me da mesma maneira. Vanessa juntou-se a nós, e eu a observei. Realmente parecia ser uma pessoa legal, o que era ruim para Gwen. Mas eu tinha confiança no amor de Henry. Afastei-me um pouco para esticar as pernas, e assim que me distanciei decidi que não havia sido boa ideia. Sem mais distrações, os narizes e bocas vermelhos ocupavam a minha mente por completo. Estava tão dispersa que não notei Nicholas em meu caminho, e acabei esbarrando nele com certa força.

– Perdão! — exclamei. — Estava distraída, e não notei você, desculpe-me!

– Calma! — ele riu, ajeitando os óculos. — Não há problema.

– De qualquer maneira — respondi, distante — Sinto muito.

Ele ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços, olhando para mim como se eu fosse um problema a ser resolvido.

– Você está bem? — perguntou — Está distante, e um pouco pálida.

– O quê? Estou bem. — disse, um pouco bruscamente. — Quer dizer, perdão, estou bem, obrigada por perguntar.

– Não acredito em você — ele respondeu.

– Aí temos um problema — eu disse, e comecei a andar para a frente. Ele segurou o meu braço, e senti um arrepio na espinha.

– Isso é sério, Georgia. — ele sabia o meu nome? — O que há de errado com você?

– Diga você, já que está tão obcecado com essa ideia — respondi, tentando sorrir. Sem sucesso.

– Vamos, Georgia, você pode confiar em mim.

– Acho que você só está muito aborrecido porque acha que tenho um problema e, mesmo com sua mente brilhante, não consegue descobrir qual é. — provoquei, sorrindo. Ele abriu a boca e a fechou, como se o "sistema" tivesse falhado. — Pare de me perguntar se estou bem e venha caminhar comigo, se estou certa.

– Está bem — ele disse, um pouco confuso. Então recomeçamos a andar. Sem notar, já havíamos nos distanciado um bocado dos trailers. Conversávamos sobre qualquer banalidade ou simplesmente ficávamos em silêncio, imersos em pensamentos Eu observava as plaquetas diante de cada tenda. Encantador de serpentes, aquela que tudo vê… Estremeci e me detive involuntariamente diante de uma tenda cuja plaqueta dizia: “Venha se divertir com os mais engraçados palhaços da América!”. Não sabia bem se havia sido minha imaginação ou não, mas eu ouvira algum som saindo daquela tenda.

– Algum problema? – Nicholas olhou para mim.

– Ouvi algum barulho saindo de lá – apontei para a tenda. Ele estranhou.

– Vamos ficar em silêncio e ver se você ouve outra vez – sugeriu, e assenti. Ficamos quietos por alguns instantes, e ele já abria a boca para dizer que havia sido fruto da minha imaginação quando se repetiu. Uma espécie de baque e um sussurro. Olhei para ele assustada. – Dessa vez eu ouvi.

– O que fazemos? Não faço a menor ideia do que tem aí dentro, e se for o tal leão e voltarmos, talvez descubra onde estamos e nos ataque.

Ele concordou com um aceno de cabeça.

– Então sugere que entremos? – ele perguntou. Entrar? Eu nunca havia sugerido aquilo. Ele riu – Afinal, o máximo que podemos encontrar é um leão mortífero. Ou um palhaço.

Forcei uma risada, que saiu bem tensa e estranha.

– Vamos – eu disse, tentando ao máximo fazer com que minha voz não deixasse transparecer o quão aterrorizada eu estava. Andamos lentamente até a tenda, que era colorida como as outras, e era como se os olhos do palhaço no cartaz me perseguissem. “Vamos lá, Georgia. Força.” pensei. Entramos. O cortinado que deixaria a luz entrar estava fechado, então o interior da tenda estava escuro. Havia algumas fileiras de cadeiras perfeitamente arrumadas, voltadas para um palco de madeira. No pano que formava a tenda, estavam penduradas fitas, bandeirolas e pedaços de cartolina representando a cara de um palhaço. No palco havia apenas uma mesa com uma maleta e um marionete – não daqueles assustadores de filmes de terror, mas um simpático do tipo que uma garota ia querer a todo custo. Mesmo naquele lugar, não me assustava. Já os palhaços no pano…

– Parece que não tem nada aqui – Nick disse, erguendo uma sobrancelha. Assenti, em concordância.

– Então podemos voltar… — fui interrompida pelo ruído, que se repetiu e com mais intensidade. O sussurro estava mais claro, e concluí que era uma risada. Involuntariamente segurei o braço de Nick. Meu coração estava quase saindo pela boca, e a única coisa que eu queria era ir embora daquele lugar.

– Georgia, você está bem? – ele olhou para mim. Assenti lentamente. Caminhamos temerosamente até o palco, e olhei da maleta para o meu companheiro. Decidimos abrir. Fiz a tarefa lentamente, como se uma mão estivesse ali dentro e fosse agarrar o meu rosto. Mas havia apenas um pedaço de papel com algo escrito em letras grandes e escuras. Não conseguia ler direito, mas quando aproximei o papel dos meus olhos eu vi. “Bu”, era o que o papel dizia. A interjeição que se usa para… Assustar. Olhei para Nicholas, e depois para a marionete. Estava esperando algum movimento que me assustasse, mas então percebi que era obvio demais. Ninguém deixaria uma marionete supostamente assustadora ao lado do bilhete. Mal eu notara isso o barulho se repetiu, e notei que vinha debaixo do palco.

– Ah, meu Deus – sussurrei. Estava com tanto medo que quase chorava, mas não queria que Nicholas notasse que estava completamente desesperada. Abaixei-me lentamente, olhando para o chão de madeira. Foi quando um quadrado do palco, como a porta de um alçapão, foi lançada para cima por um par de mãos enluvadas, bem no local onde eu estivera com o rosto. Caí sentada, e Nicholas cambaleou para trás. As mãos enluvadas içaram o seu dono para cima, e gritei, tapando a boca com as mãos. O palhaço tinha a cabeleira avermelhada no típico penteado de sua profissão, o nariz e a boca – sorridente – e vestia um macacão com bolinhas coloridas. Os olhos. Onde estariam os olhos, haviam duas bolas negras. Ele riu – aquele sussurro – e eu não conseguia me mover.

– Saia daí, Georgia! – gritou Nicholas, mas eu simplesmente estava paralisada pelo medo.

– Você vai amar o espetáculo! – o palhaço disse, com voz mecânica. Em um movimento rápido segurou o meu pulso com força, e comecei a gritar desesperadamente. Fui lançada com força para o canto do palco, batendo a cabeça na quina. Senti o sangue escorrer de minha testa. Nick tentou atingir o palhaço, mas foi repelido com um empurrão. Este recomeçou a andar em minha direção, e tentei me arrastar para longe, mas não consegui. Ele se abaixou e virou a cabeça, como um cãozinho o faria, e riu outra vez. – O que foi, querida, não está gostando do espetáculo? É uma pena. Quem não gosta do espetáculo não deve ficar nele, não acha?

Tentei me desviar, mas o palhaço era muito veloz. Sua mão enluvada agarrou o meu pescoço com força, e começou a me levantar, até que meus pés sairam do chão. Então ele começou a apertar. Procurava ar desesperadamente, mas o palhaço não se movia. Pontos pretos começaram a surgir em minha visão quando ouvi um baque forte, seguido de mais uns três, e o palhaço me largou, caindo ele próprio e estremecendo. Um curto-circuito. Era um autômato.

– Georgia! – Nicholas largou a perna da mesa que ele segurava e correu na minha direção, ajoelhando-se ao meu lado. Afastou meu cabelo do corte em minha testa, e me abraçou delicadamente, sem dizer nada. Por algum motivo, o silêncio era o melhor consolo que ele poderia me oferecer. Após algum tempo, ele sussurrou – Vamos voltar, Georgia, e faço um curativo na sua testa.

– Não conte a ninguém – solucei – Não conte a ninguém sobre o meu medo, por favor, Nicholas…

– Não vou contar – ele garantiu. Então saímos dali.

Notas finais
Bom, primeiramente, gostaria de dizer que se você tem mesmo medo de palhaços, não deixe que esse capítulo boboca impeça você de dormir. Depois... Esse foi o segundo capítulo especial, e não será o último! O que acharam do Nick e da Georgia? Alguma opinião sobre a vida do Russel? Comentem!