Notas iniciais
"Não tenho medo de altura, tenho medo é do impacto da queda." - Vanilla Sky

Acordei com uma terrível dor nas costas. Havia tido uma péssima noite de sono, e uma figura misteriosa com nariz de prata assombrara a mim em meus sonhos. Embora eu tivesse a sensação de que já havia visto aquela figura, decidi esquecer disso. Já tinha problemas o bastante estando presa naquele lugar. Massageei os meus próprios ombros para tentar aliviar a dor proveniente da minha posição – que seria abominada por qualquer tipo de ortopedista – do sono. Olhei para os outros, já estavam acordados. Achei um pouco estranho que ninguém houvesse me acordado, mas não estava com vontade de me ressentir. Esfreguei os olhos e verifiquei que as luzes dos postes já haviam se reacendido, e Sophie havia apagado a da lanterna. Praticamente me arrastei até os outros, para ouvir do que falavam.

– ... havia mais um piso. Acho que são só esses três. – era Hout quem falava.

– Mas... O que havia no terceiro? Vocês entraram lá? – Georgia perguntou.

– Não. O cheiro não era nada convidativo, e quando estávamos ponderando sobre descer pensei ter ouvido algo como um silvo de cobra. Não, muito obrigada. – a holandesa respondeu. Estremeci ao imaginar como seria o local, mas nada disse. – Então acho que não é um bom próximo passo ir para lá. E o segundo, deve estar queimado. E aquelas malditas aranhas provavelmente sobreviveram. Elas sobreviviam a tudo que tentávamos fazer para n os livrarmos delas.

– Nesse caso – Jeremy tomou a palavra – Acho que a nossa única opção é manter o plano da...

– Gwen! – Tina olhou para mim– Finalmente acordou, Bela Adormecida. Vou ser franca, ainda acho que esse plano não vai dar em nada. Mas, na falta de opções...

– Algum dia você vai admitir que gostou do plano – pisquei. – Mas por ora, concentre-se apenas na sua resolução. Já vamos começar a andar?

– Mas que disposição para alguém que acabou de acordar – murmurou Nick – Eu ainda estou um pouco sonolento...

– Ótimo, assim ficamos poupados de suas observações – Tina disse. O mais velho limitou-se a revirar os olhos. Levantamo-nos. Começaríamos a andar imediatamente.

– Perdão – Sophie disse, antes que começássemos a andar – Caso não se lembrem, eu e minha amiga não estávamos com vocês quando Gwen fez o plano, motivo pelo qual este ainda nos é desconhecido. E acho que é de alguma importância saber o que estamos fazendo.

– Gwen sugeriu que caminhemos até achar um limite. Esse lugar não pode ser infinito.

– Oh, certamente não pode. Por isso há paredes de pedra o delimitando.

Todos se voltaram para a inglesa, incrédulos.

– Paredes de pedra? – Catherine disse, desanimada.

– Sim. Uma delas está razoavelmente próxima, é onde fica a escada para o andar inferior. – Sophie respondeu – Vocês realmente me surpreendem. Estou aqui há uma semana e sei mais sobre esse lugar que pessoas que estão há três anos.

– Então o que sugere agora, Excelência Gwen? – Tina se voltou para mim, e o seu ar vitorioso me irritou um pouco – Espera caminhar até lá e encontrar uma placa brilhante indicando a saída?

Foi quando uma ideia me ocorreu.

– Talvez não a placa brilhante, mas a saída...

– Do que está falando? – Henry ergueu uma sobrancelha.

– Qual é, pessoal. Pensem um pouco. Estamos todos respirando. Tina está aqui há três anos respirando. Como é que isso é possível, se estamos todos presos em um local fechado por paredes de pedra? Se não tivesse acabado, o ar pelo menos estaria gasto. Esse lugar estaria abafado. O que quer dizer...

– Dutos de ventilação? – Georgia ergueu uma sobrancelha – Sério? Vamos mesmo fugir pelos dutos de ventilação?

– E onde pretende encontra-los? – Tina cruzou os braços, mas não rejeitou a ideia. Acredito que após três anos naquele lugar, sentia-se um pouco aborrecida por nunca ter pensado naquilo, mas a ideia pareceu ser bem recebida.

– Na parede. Podemos caminhar até lá e alguém escala. Talvez haja um duto ali. No alto da parede.

– Esse talvez não é muito encorajador – murmurou Sarah – Mas acho que devíamos tentar.

Os outros concordaram com o plano e começamos a seguir a direção indicada por Sophie, que sabia onde se encontrava a parede. Quando chegamos, olhei para o alto e só vi névoa escura. Era assustador. Ao nosso lado, havia as escadas que levavam ao piso inferior, de onde vinha um cheiro de queimado bem forte. Entreolhamo-nos.

– Então. Quem vai? – era Catherine, e com a pergunta parecia querer afastar a tarefa de si. Ninguém respondeu. Jeremy se prontificou, mas ele era indispensável. Se algo acontecesse, tínhamos de nos certificar de que a pessoa atingida era descartável. Um pensamento cruel e doloroso, mas necessário. Olhei para os outros. Henry estava ferido. Jeremy era o único caçador disposto. Tina era quem estava ali há mais tempo. Sophie e Hout sabiam tudo sobre o lugar. Nick era extremamente inteligente. Catherine estava tão assustada que a ideia de deixa-la fazer o que era preciso era inimaginável. Sarah era a única médica. Sendo assim, sobrávamos apenas Georgia e eu, e, sinceramente, Georgia seria muito mais útil que eu e meus planos falhos. Engoli em seco quando me dei conta disso, e esperei que ninguém tivesse visto. Os outros logo perceberam o queeu percebera e seus olhares se detiveram em mim e Georgia.

– Eu posso ir – ela disse, mas eu sabia que não podia deixar. Fechei os olhos e suspirei.

– Não. Acho que está claro para todos que eu sou a mais dispensável do grupo. Não faço nada além de ter ideias que dão errado noventa por cento das vezes – eu disse, antes que o meu medo me fizesse parar. Henry me olhou, preocupado, e evitei dar atenção a aquilo. Ninguém respondeu, apenas assentiram em silêncio.

– Vamos lá então – sussurrei, aproximando-me da parede. Henry tocou o meu ombro.

– Você não precisa fazer isso. Tem medo de...

– Não importa – cortei – Se qualquer outra pessoa for perdida vai ser algo péssimo. Não eu.

– Claro que sim! – ele protestou – Gwen...

– Com licença – eu disse, sem conseguir olhar para ele – Eu vou subir.

Retirei as duas pedras lâmina do bolso do macacão e as finquei na parede. Eu teria de fazer como os outros no Santuário. Lembrei-me dos movimentos estáveis e confiantes de André e tentei imita-lo. Para a minha surpresa, funcionou. Continuei a subir, e conforme os meus pés se afastavam do chão o meu medo aumentava. Estava com uma vontade absurda de vomitar, gritar, chorar ou qualquer coisa do gênero. Conseguia claramente me ver estatelada no chão com o olhar vazio, e a imagem fez com que me desequilibrasse. Consegui me estabilizar novamente, mas naquele instante consegui ver a minha distância do chão. Eu subira mais rápido que eu imaginara. Já estava pelo menos a uns cinco metros de altura.

– Meu Deus – sussurrei para mim mesma, lacrimejando. Os outros me observavam com um misto de expectativa, temor e preocupação, e me forcei a continuar subindo. Cada movimento era mais custoso que o anterior, e meus braços já estavam cansados. – Vamos lá, Gwen. Vamos lá. Quando você achar o duto e voltar para casa vai poder contar isso tudo para o seu irmão dando risadas...

Pensar no meu irmão me fortaleceu, e comecei a subir mais rapidamente. Já estava muito distante do chão quando a névoa escura se intensificou, mas continuei a subir. Então minha mão encontrou um cano que saia da parede, de diâmetro semelhante ao de um disco de vinil. De lá saía toda a névoa escura. Ri, um pouco boba. Não sei o que esperava, mas ver a névoa saindo de um cano a deixava bem menos assustadora. Ao aproximar o meu ouvido do metal, um ruído forte de pás girando fez com que eu me afastasse. As pás deviam empurrar a névoa para o local, e se parassem... Talvez a névoa parasse também. Conseguindo, a custo, equilibrar-me segurando no cano com um braço só – o medo fazia com que eu escutasse com clareza as batidas aceleradas do coração, mas não podia perder essa chance – icei-me para cima e consegui sentar no metal – seu comprimento era grande o bastante para que eu conseguisse fazê-lo. O cano entortou, mas não caiu. Eu teria de ser rápida. Apalpei o meu macacão, em busca de algo que pudesse jogar dentro do cano. Encontrei a pirâmide. Mordi o lábio inferior. Não queria me livrar dela. Mas fechei os olhos e consolei-me pensando que Tina poderia fazer outra para mim. Tomei-a em minha mão direita e aproximei novamente o ouvido do cano, escutando as pás. Se eu deslizasse a pirâmide com força, talvez ela chegasse no local desejado. Curvei-me e o cano entortou mais um pouco. Mais rápido. Posicionei a pedra na beirada do cano e a empurrei com força. Esperei alguns instantes com o ouvido colado no metal, ouvindo a pedra deslizar. A expectativa era tão grande que não notei que o cano entortara mais um pouco. Então um baque e o barulho das pás cessou. Não podia acreditar na minha própria sorte. Ri e constatei que não havia mais névoa saindo do cano. Deixei a cabeça pender para trás, sentindo-me vitoriosa. Então o cano caiu. Gritei e foi por questão de segundos. Finquei a pedra com tanta força na parede que os nós de meus dedos embranqueceram. Ouvi o cano caindo no chão, e pensei que por poucos segundos eu não caíra com ele. Tentei afastar as lágrimas, eu não havia terminado o meu trabalho. Assustada, continuei a subir, embora mais temerosa que antes. Então consegui ver o teto e as grades embaixo dele. O duto de ventilação. Era incrível. Estava tão próximo que eu quase conseguia toca-lo. Subi até ficar mais ou menos ao mesmo nível das grades de metais, e consegui sorrir. Estava ali. A minha passagem de volta para casa. Errado. Assim que toquei nas grades senti uma descarga elétrica percorrer o meu corpo e urrei de dor. Foi tão repentino que não tive tempo de me segurar. Comecei a cair. E cair. E cair. Um vão gigantesco se abriu no chão abaixo de mim, bem como naquela expressão “o chão desapareceu sob meus pés”, fazendo com que os meus companheiros fossem obrigados a ir para o lado e apenas me ver caindo. Era o que eu sempre temera. Não era da altura que eu tinha medo, e sim da queda. Mesmo caindo em alta velocidade, a queda parecia demorar uma eternidade. E eu aterrissaria. E me estatelaria bem como tinha imaginado. Ou não. Quando cheguei ao nível do chão, consegui me segurar na beirada do vão que se abrira. Como caí com velocidade, bati as mãos com força na pedra e cortei os meus dedos, que já estavam doendo por conta do choque. Não conseguiria me segurar por muito tempo. Comecei a chorar desesperadamente, quando um braço forte surgiu e a mão tomou o meu pulso. Henry, curvado sobre o vão, conseguiu me içar para cima com o braço bom e logo eu estava sentada na beirada, soluçando. Ele me aninhou em seus braços, como se eu fosse uma pequena criança, e enterrei o rosto em seu tórax, deixando que ele acariciasse o meu cabelo.

– Está tudo bem agora, Gwen – ele sussurrou, mas estava quase tão assustado quanto eu. A sua mão tremia, e eu tremia inteira. – Tudo bem...

– Eu ia cair – solucei – Ia cair e morrer lá embaixo, sem faculdade, sem sobrinho...

– Mas não caiu, porque eu te segurei. Nunca vou te deixar cair, Gwen Savage.

Notas finais
Vejam como eu sou uma boa e muito legal amiga. Já estou postando outro. A verdade é que esse capítulo ficou me perturbando na hora de dormir, e se eu não postasse logo provavelmente teria um colapso nervoso. Mas enfim. E aí? O que acharam? Pensaram que a Gwen ia se estatelar no chão? Sobre a Gwen: achei muito divertido ler as descrições de vocês, porque todos, sem exceção, a imaginam de um jeito diferente de mim. Quando a criei, me baseei em uma outra personagem minha mais antiga. Para mim, ela não é muito alta - mas não é gorda. Nem magra, para dizer a verdade, é um meio termo. Tem o cabelo loiro, sim, eu disse LOIRO, liso na altura dos ombros, mas geralmente o usa em um rabo de cavalo alto e bem feito - embora sempre hajam algumas mechas rebeldes. Usa óculos quadrados e grandes de armação azul marinha - o que eu mencionei em um dos capítulos - e tem olhos grandes. Surpresos? Pois é. Enfim. Até mais!