Gunslinger
3 Capítulo 02
Notas iniciais
O homem manteve-se de cabeça baixa, fitando as botas coturnos de padrão deserto levemente sujo. A porta do consultório fora aberta e Matt despertou de um pequeno devaneio, levantando seus olhos para o soldado que saía da sala e o homem que também vestia uniforme aparecer à porta.
Estava pronto para sair dali e ir para casa, mas como sempre precisava passar pelo psiquiatra do exército. O local não era agradável a Matt, as paredes eram pintadas de branco, a bandeira dos Estados Unidos decorava o local, tal como o símbolo do exército espalhado por ele. Levantou-se lento, dando passos em direção ao homem ao ouvir seu nome.
Adentrou a sala e sentou-se na cadeira frente a mesa do homem, ainda em silêncio. Não estava sendo capaz de falar muito desde que voltou do Oriente Médio, não estava sendo capaz nem mesmo de pensar.
– Sanders, certo? – Disse o homem ao sentar atrás de sua mesa de madeira, com várias fotos e medalhas de anos servindo ao exército. Estava tentando sentir-se confortável, mas tornou-se um homem tenso demais. Até o psiquiatra pode perceber.
– Você está há quantos anos no exército? – Perguntou o homem, lendo a ficha de Matt enquanto esperava por uma resposta. Deslizou os dedos pelos cabelos brancos, olhando para o rapaz por cima dos óculos.
– Sete.
– Sete anos – Confirmou o homem, repousando novamente o papel sobre a mesa. – Você tem família? Algum contato com ela?
O homem analisou a expressão dura de Matthew, julgando que o mesmo não estava muito confortável por estar ali. Seria difícil e levaria muito tempo até que uma confiança fosse pega, entendia pessoas como ele, afinal, havia tratado várias.
– Eu tenho a minha mãe – Fez uma pequena pausa e engoliu a seco – E a minha irmã mais nova, Amy. Moram em Huntington Beach, na Califórnia.
– Eu entendo. O que lhe fez se juntar ao exército?
Matt pressionou os nós dos dedos, fechando o punho. Fitou o chão por alguns segundos, levantando seus olhos ao homem que lhe fitava curioso e anotava algo que não julgou de importância para ele, em um papel que estava ao lado de sua ficha.
– Meu pai serviu ao exército a maior parte da sua vida. Ele era um homem admirável e eu tinha muito orgulho dele – Engoliu a seco e sentiu-se uma criança pelo tom em que contava. Tentou relaxar seu corpo sobre a cadeira dura, mas mal conseguiu se mover – Eu sonhava em ser um cara importante como ele, e desperdicei toda a minha infância brincando com armas de água ou de plástico, até receber a noticia que meu pai estava morto em uma missão.
O homem respirou pesado assim como Matt, pois o ambiente pareceu pequeno demais. Pensou em falar algo, entreabrir seus lábios ressecados mas Matt resolveu continuar.
– Por causa dele eu me tornei um cara muito patriota e achei que deveria continuar o que ele começou. Meus amigos tentaram me fazer desistir da idéia na minha adolescência, mas aos dezoito junto a eles eu me alistei.
– E como foi para você a partir daí?
– Minha mãe chorou quando soube. Disse que não queria perder mais uma pessoa para a guerra e que eu não tinha mais escolha. Mas eu me sentia orgulhoso, como se meu pai se sentisse assim de onde ele estivesse – Abaixou seu olhar novamente, sentindo um nó na garganta. Não queria demonstrar-se chateado na frente do homem, mas estava ali para ser analisado e desabafar. – De fato, quando eu vi o que era a guerra, eu não podia voltar atrás.
– Você se arrepende de ter se alistado?
O homem perguntou com sua voz não vacilante e Matt levou um grande tempo para processar a pergunta. Lembrou-se de quantas pessoas inocentes viu morrer, e de James. De certa forma aquilo era sua culpa, se alistaram juntos porque Matthew não quis desistir da idéia.
Lembrou-se do momento em que assinou aquele maldito papel e que sua vida estaria condenada pelo resto dos seus dias a correr risco de morte. Mas no fundo, não se arrependia do que havia feito, nunca fora um cara de realmente olhar para trás e ver os caminhos que perdeu.
– Não.
O homem analisou a expressão de Matt, anotando novamente em sua folha. Levantou-se da cadeira e sentou sobre a mesa, apoiando ambas as mãos sobre seu colo enquanto manteve-se ereto, fitando Matt.
Matt, por outro lado, sentia-se claustrofóbico, pois a sala cada vez mais parecia menor. Parecia necessário, mas não queria se lembrar do passado, e mexeu-se visivelmente incomodado.
– Você sabe porque está aqui, Sanders? – O homem franziu o cenho, esperando uma resposta que pareceu não muito verdadeira.
– Exame de checagem – Mentiu, Matt sabia o porque estava ali.
– Há muito pouco tempo no Oriente Médio seu amigo e companheiro de equipe faleceu em uma das operações – Disse o homem fazendo com que Matt começasse a suar frio dentro de suas vestes. Inclinou-se para trás, deslizando os dedos sobre os pequenos fios de cabelo castanho – Isso lhe causou um grande estresse e trauma, estou certo Matt?
– Eu não sei.
– Você sabe que sim. Pra eu te liberar, nós precisamos falar sobre isso – Matt engoliu a seco, não queria. Não queria relembrar a morte do amigo, pensou apenas em levantar e sair porta a fora para pegar suas coisas, mas seria tão imprudente e infantil. Poderia ganhar uma chamada. – Sanders, o que aconteceu naquele dia?
– Nós só estávamos cumprindo ordens, e James ficou para trás para cobrir a retaguarda – Falou em um tom baixo, sua voz se tornando cada vez mais um murmúrio. – Ele foi baleado primeiro no pé e depois no peito por um dos terroristas, ele morreu na minha frente.
Sentiu que as lágrimas já brotavam em seus olhos, não era um homem de chorar. Mas era seu amigo, tão próximo. Cresceram juntos, alistaram-se juntos e treinaram juntos para chegar até ali. Sentia que havia algo preso em sua garganta que não lhe deixava respirar quando lembrava dele.
Não queria sentir-se culpado, mas era impossível. Pensava na família de Jimmy e como iria encará-los quando fosse a Huntington Beach visitar a sua.
– Houve um erro na informação, procede?
– Sim – Matthew sussurrou, fitando o chão. Não queria mostrar ao homem suas lágrimas. – Eram bem mais do que apenas sete.
– Brian Haner, seu amigo, me contou que quando voltaram devido ao fato de que o senhor não estava obedecendo as ordens de se reagruparem novamente, lhe viu deitado sobre o corpo do soldado James e que você apenas havia informado que o mesmo estava ferido.
– Eu não soube o que fazer, no momento achei que ele estivesse vivo – Levou ambas as mãos ao rosto, e o homem percebeu o quanto aquele assunto lhe estava incomodando. Abriu sua gaveta e tirou de lá alguns lenços, os quais Matthew usou para enxugar suas lágrimas. – Eu errei, foi um erro meu.
– Eu já vi homens chorarem, Sanders. Fique a vontade — Deu um pequeno tempo para Matt se recuperar, sentindo-se triste por ter que continuar as perguntas. Deslizou os dedos grossos pela barba branca, fitando-o. – Como foram os dias seguintes? Como lidou com a situação?
– Nós não pudemos ir ao enterro do James, eu e os caras. Eu chorava muito, tenho diversos pesadelos e sinto-me culpado por tudo que aconteceu.
O homem deu um leve tapinha sobre o ombro do mais novo, dando a volta sobre a sua mesa. Escreveu uma receita rapidamente ao terminar a conversa, conduzindo Matt levemente tonto até a porta.
– Eu quero lhe ver daqui quinze dias, Matt. Tome esses remédios da exata forma a qual está escrito na receita, vai lhe ajudar com os pesadelos – Sorriu levemente, passando novamente os dedos pela barba. Matt agradeceu com um aceno de cabeça. – Vá descansar, rapaz. Você merece.
Retirou o casaco ao sair para o ar livre, respirou fundo e andou até seus amigos que estavam junto a suas malas e esperavam Matt no lado de fora. Aproximou-se devagar, recebendo um tapa amigável de Johnny em seu braço.
– E então? – Disse ele Zacky, levemente curioso com a receita que Matt levava em sua mão. Entregou ao homem para que olhasse menor e maneou a cabeça como quem discordasse muito de que aquilo faria algum tipo de efeito.
– Ele me mandou tomar esses remédios, mas eu não tenho certeza se isso vai adiantar alguma coisa.
– Não custa tomar, cara – Brian aproximou-se depositando um soco de brincadeira sobre o peito do amigo, o mesmo tentou se defender e riu com apenas um pouco de humor. – A gente te incentiva.
A conversa fora amistosa até o ônibus e parte do trajeto, pois Matt sentia-se cansado, resolveu dormir. Não era uma grande distância da base até sua cidade natal, mas o pequeno sono que tivesse lhe ajudaria em um pouco mais de disposição.
Acordou em uma posição desconfortável com um soco de Brian, espreguiçou-se e recolheu sua mala, andando para fora e despedindo-se dos amigos que veria só no fim de semana.
Procurou com os olhos o carro de sua mãe e suspirou em desapontamento a ser seu primo irritante a única coisa que encontrou. Andou vacilante em sua direção, estendendo sua mão para cumprimentar o homem que lhe puxou para perto em um abraço.
Adentraram o carro sem muitas palavras e Matt pediu para dirigir, era tanto tempo sem qualquer tipo de contato como esse. Queria sentir o ar bater contra seu rosto enquanto guiava o veículo de janelas abertas e ouvir suas músicas favoritas em alto e bom som.
– Cara, é tão bom ter você aqui. Sabe... De volta – O homem sorriu, balançando sua cabeça no ritmo da música. Matt deu um sorriso sem graça, pensando que seu primo poderia não ser tão irritante como era há um ano atrás. Ou talvez fosse apenas saudades de casa. – Nós podemos fazer tudo agora, tem uma festa na sexta. Na verdade um jantar, na minha casa – O homem riu, fitando o lado de fora rapidamente. – Eu estou saindo com uma garota e acho ela bem legal, o que você acha?
– Eu estou cansado, queria descansar – Disse Matt sem demonstrar muita animação, mas a idéia não lhe parecia de tudo ruim, se John estava organizando um jantar ao invés de uma festa, é que algo realmente interessante estava acontecendo. – Mas eu posso pensar.
– Vai ser bacana, cara. E você também está precisando dar uma volta, conhecer mulheres – Disse ele, cutucando Matt com seu cotovelo enquanto levantava a sobrancelha de forma ridícula. – Ficar no exército não parece tão divertido no sentido de...
– Sexo.
Trocaram mais algumas palavras antes de chegarem à casa da família Sanders e tudo pareceu quieto demais, o que Matthew estranhou. A entrada de sua casa continuava a mesma, apenas as flores que sua mãe costumava a pendurar sobre a madeira eram diferentes. Tinha certeza que havia avisado seu dia de retorno.
John precipitou-se a passar a frente e abrir a porta. – Eu deixei aberta antes de ir.
Matt pareceu não acreditar no que via. A casa estava toda decorada com faixas de boas vindas e sua família lhe esperava junto a uma mesa cheia de suas comidas preferidas. Deixou sua mala sobre o chão, envolvendo seus braços fortemente em torno de sua mãe, pequena em relação ao seu tamanho. A mulher chorou alto de felicidade e Matt havia entendido seu motivo de voltar para casa.
Sua irmã fora a próxima, Amy pareceu crescer enquanto estava fora. Estava mais bonita, abraçou a irmã por um longo período de tempo e logo em seguida elogiou o quão linda ela estava.
Era tão bom estar em casa.
Fale com o autor