Guilty Angels
3 Capítulo 3 - Almoço com a novata
Notas iniciais
Eu paguei um mico básico interrompendo a aula do professor mais casca grossa dessa escola, o Angelino. Ele vai me dar uma advertência categórica. Pelo menos consegui chamar a Shayera para almoçar. Poderei conhecer melhor a dona daquela letra maravilhosa.
Segui para a minha primeira aula que era de dança. E como faço parte da Vollux, nós temos que saber dançar bem e também sincronizados. Ensaiamos algumas coreografias durante as férias e iríamos apresentar nessa aula.
Como as aulas são mais focadas, as turmas são pequenas. Tem apenas uns cinco grupos, incluindo o meu, na turma.
O primeiro que foi mostrar a coreografia feita durante as férias foi Blush Girls, que é único grupo de meninas do meu ano. E olha que o grupo tem umas sete meninas. Elas são tão pop e kawaii que me dão nos nervos. Sempre com coisas cor-de-rosa e frases fofinhas. Porém, elas resolveram ousar dessa vez. Uma espécie de coreografia mais sexy e inspirada em Ice Cream da Hyuna.
E a líder do grupo, Karmen, fez toda a coreografia olhando diretamente para mim. Eu tenho um rolo com ela desde que entrei nesta academia. Porém, no começo eu era tímido demais com as garotas para poder me aproximar dela. Nós até já ficamos algumas vezes, mas nunca deu em nada.
Se fosse uns anos atrás ficaria bem vermelho com aqueles olhares, contudo são outros tempos (e muito ruins por sinal), então eu respondo na mesma moeda.
A coreografia das meninas terminou seguida de muitos aplausos. A professora deu parabéns a elas e chamou o próximo grupo, que era a Vollux.
Durante as férias nos reunimos algumas vezes para ensaiar as coreografias algumas vezes. E tínhamos feito uma nova também, inspirado em Identity de Mamoru Miyano.
Nessas aulas de dança são permitidas usar músicas que não sejam de autoria nossa, afinal, não é aula de composição. Ou seja, estamos usando a música de inspiração.
E eles acertaram em uma coisa aqui, me colocaram como vocalista. Os outros garotos só fazem vocal de apoio mesmo. Por consequência disso, eu tenho as aulas que mais gosto que são as de definição vocal.
Fomos a frente da turma, pegamos os microfones, aqueles que ficam na orelha e a professora soltou a música. Começamos a fazer a coreografia. Eu em alguns momentos parava para focar na letra, o que normalmente acontece mesmo.
Recebemos aplausos e congratulações da professora ao final.
Assistimos aos outros e tivemos mais uma aula depois disso: Comportamento com os fãs.
Sim, temos aula desse tipo de coisa. Ainda tem o “Comportamento com a Mídia” para sabermos como se portar em entrevistas e para evitar escândalos no futuro.
Se bem que eu farei um escândalo se tiver que continuar cantando pop pelo resto da minha vida ou por uns dez anos.
Enfim, o sinal indicou o final da tortura e a hora do almoço. Admito que estou animado para conversar com a Shayera. Esqueci de citar que ela é a caloura que eu aplaudi.
E lá estava ela, parada na porta do refeitório me esperando. Ela sorriu meio tímida quando me viu.
–Perdoe a demora.
–Tudo bem! Só vamos logo que eu estou com fome.
Arrumamos nossos pratos, já que era self-service, e nos sentamos em uma mesa mais lá para o canto. O engraçado era ver a cara dela ao perceber os olhares se voltando para nós. Uns anos atrás isso me incomodaria, mas eu acabei de acostumando e passei a ignorá-los. O que se pode fazer quando se faz parte de um dos grupos mais populares da Academia?
–Eu estou incomodada com toda essa gente me olhando. — ela desabafou assim que sentou
–Não ligue para isso. É porque você está comigo! É só fingir que eles não estão te olhando.
–Alias, obrigada por ter achado a minha letra... De novo!
–Ora, não foi nada. Admito, eu peguei o meu violão e toquei, tentando descobrir e conhecer como era a música. Sabe, eu a achei muito bonita, mas quando ouvi na sua voz achei mais ainda.
–Ai, não diga isso. Eu não tenho onde enfiar a cara.
–Estou falando sério. Desde que eu entrei aqui, nunca vi ninguém tivesse o talento que você tem. Bem, tudo bem que eu não te conheço tanto, mas a sua apresentação e letra foram o suficiente para me convencer.
–Me chamou para almoçar só para ficar me elogiando, Niels?
–Não só para isso. Eu queria saber mais de você, da sua história e coisa e tal.
–Só se você me contar a sua.
–Farei isso.
Então ela me contou tudo. Que o pai dela morreu quando ela era pequena e que ele tinha um talento e acabou herdando isso e o sonho de ser cantora famosa dele também. Com muita ajuda da sua mãe, ela conseguiu ingressar na Academia.
–E você, Niels? — ela perguntou fazendo careta e colocando mais uma porção na boca
–Desde pequeno fui muito inteligente e também amava música. Sonhava em me tornar famoso e mudar o mundo com minhas músicas. Acabei terminando o colégio mais cedo com a ajuda do meu pai e entrei na Academia tem dois anos. Bem, isso em versão resumida.
–Pelo visto sua vida foi mais fácil do que a minha.
–Acho que sim. Mas não veja me dizer que é mais fácil agora.
–Claro que é mais fácil, Niels. Daqui uns meses estará com o pé na fama, fazendo shows, cantando e encantando muitas pessoas por ai.
Não pude evitar de fazer uma careta meio entristecida porque veio a minha mente todo este possível futuro que eu não quero para mim. E ela percebeu logo:
–Não é o que você quer, Niels?
–É o que eu quero, mas é algo bem mais complicado que isso... — coloquei a mão na testa – Acho que talvez você me entenda quando explicar melhor.
–Explica então.
–Não aqui. Não é um bom lugar para isso!
–É tão confidencial assim?
–É sim! Mas falamos disso depois.
Continuamos comendo e a conversar. E a nosso papo não terminou no almoço, se estendeu por toda a tarde, que por sorte para nós dois era livre. Ficamos em um canto mais isolado do campus, em um local com muitas árvores.
Soube que tínhamos gostos parecidos, tanto na música quanto em filmes, livros e muitas outras coisas. Acabei pegando meu violão e ficamos cantando também.
E eu tive o prazer de ouvir aquela, melhor até que a minha, voz maravilhosa. Uma afinação que só seria possível com muitas, mas muitas aulas.
–Onde aprendeu a cantar assim, Shay? — dei esse apelido a ela
–Ora, eu apenas fiz cantando, praticando.
–É mais afinada que a minha. Olha que eu faço aula há anos.
–Nil, — ela também me deu apelido — a sua voz é mais rouca. Não diria nem que é uma voz própria para pop e sim para rock.
–Eu também acho isso, sabia. — ajustei os dedos no braço do violão e completei – Mas aqui tem uns que acham que sabem mais do que a gente.
Eu ia começar a tocar outra música, mas fui interrompido por ela, segurando meu braço:
–O que quer dizer com isso? Tem a ver com que me falou mais cedo?
–Isso mesmo! — comentei, cabisbaixo – Quer que eu te conte?
Não sei o porquê, mas mal a conhecia e já sentia-me a vontade para contar isso que estava engasgado em mim havia um tempão. Nunca contei nem pra minha família e nem pros meus amigos. Eu realmente me simpatizei com ela.
–Conta. Me deixou curiosa.
–É uma coisa que nunca contei a ninguém, Shay. Tá engasgado em mim! — respirei fundo – O dia da “grande escalação” foi o pior dia da minha vida! E quanto mais o tempo passa, mais esse meu sentimento piora. Sinto que não poderei reverter isso se deixa passar.
–E o que é, Niels?
–Eu não estou onde quero estar. Não quero estar numa boyband. Não é o meu lugar! Eu quero ser um cantor de rock. Ter uma banda de rock. Poder mostrar as inúmeras músicas que escrevi ao mundo. E elas sendo tocadas com a melodia que eu fiz para elas. Estou fazendo uma coisa que não quero fazer!
–Nil... — ela olhou para mim – Quem diria que aquele garoto que me deu um susto na aula de composição pensasse tudo isso?
–Eu agradeço a você por escutar. — sorri – Só precisava desabafar.
–E não há como resolver isso? — ela perguntou
–Ainda é nova por aqui, por isso que não entende. Aqui é uma escola, mais além disso, é também uma produtora de novos artistas. E é muito rigoroso! O que foi destinado não pode ser mudado. É o nosso futuro no mercado musical! Sei que podia ter jogado tudo para o alto, mas já perdi tempo demais para tal.
–Não tem nada mesmo que pode fazer?
–Não! Melhor deixar como está, não quero prejudicar os meus amigos. Sem mim eles são apenas dançarinos e backing vocals. E reposicioná-los a esta altura vai prejudicá-los. Eles são meus amigos, não posso fazer isso com eles.
–Entendo. O problema não é só com você!
E percebemos que o Sol estava se pondo, era a hora de se recolher aos dormitórios. Era proibido sair durante a noite. Como se alguém respeitasse isso!
–Acho que está dando a nossa hora. — comentei
–Sim! E eu fico muito triste por você, Nil.
–Eu espero que o mesmo não aconteça com você, Shay.
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