Guilherme Mello e o Poço do Tártaro
2 A Queda
Notas iniciais
– Nove dias – disse Ingrid.
– O quê? – disse Kailson, desesperado.
– Nove dias de queda até o Tártaro.
– Que ótimo – ele falou – Vamos morrer de fome antes de sermos devorados por monstros.
Ingrid tentava se manter centrada, como toda filha de Atena, mas dava para ver o medo estampado em seu rosto. Ela era aquele tipo magrinha, baixinha e quieta, mas não se leve pela aparência. Na última captura da bandeira ela deu uma surra no time inteiro do chalé de Ares por chamarem a Taylor Swift de Slender Man. Além disso, era super rápida, boa com estratégias.
Kailson era aquele tipo de amigo chato e irritante, mas que você não consegue viver sem ele. Como todo filho de Hermes, era ágil, piadista e bem trollador, além de ter suas feições características. Era muito bom com o arco e muito habilidoso com fogo grego (Joanna Zen que o diga!). Adorava tirar a Ingrid do sério. E sempre conseguia. Era o pior pesadelo da menina. Apesar disso, era muito leal aos amigos e protetor.
Eu.... bem... sou eu. Uma prole improvável dos deuses Atena e Poseidon. Isso é impossível, eu sei, já que os dois deuses se odeiam. Porém, segundo Quíron, na época em que Atena criou a carruagem todos exaltaram sua inteligência, porém, não havia como movê-la. Poseidon apareceu e criou o cavalo da espuma do mar, resolvendo o problema. Atena ficou enfurecida pelo fato de ser a deusa da sabedoria, mas não ter pensado naquilo antes. Porém, no meio daquele ódio todo, havia uma pequena centelha de admiração pela esperteza do deus do mar. E foi essa centelha que me gerou, já que os filhos de Atena nascem pelo amor à sabedoria do pai.
Fiquei desaparecido por um tempo, dormente, até acordar no meio de uma caverna com uma voz sonolenta me dando ordens. Descobri que Gaia havia me despertado e queria me usar como uma arma secreta, mas quando soube disso, fui correndo procurar ajuda. Foi quando conheci Annabeth em uma floresta. Ela me levou para o Acampamento Meio-Sangue me ajudou a me instalar.
Lá eu fiz amizade com Kailson e Ingrid, os únicos que não me achavam estranho por ser um "deus". Depois de um tempo Caio, filho de Apolo, se aproximou e viramos o quarteto fantástico. Caio sempre dizia que eu, Kailson e Ingrid parecíamos o Harry Potter e sua gangue: a inteligente, o atrapalhado e o líder. Eu, líder? Ok.
Os outros eu conheci depois da Profecia dos Sete e a união dos acampamentos. Victor era filho de Plutão, Anna era filha de Vulcano e Jéssica, de Vênus. Joanna era grega, filha de Hades, mas mal falava comigo no Acampamento. Na missão, novamente me escolheram como líder. Mas o que e sei sobre liderança? Fala sério, só sou um mané imortal que gosta de uma garota que não está nem aí para mim.
Ok, voltando ao fato de que estamos caindo... Ingrid parecia fazer cálculos de velocidade e aceleração para ver se teríamos alguma chance. Kailson resmungava algo sobre matar Ingrid. Eu só ficava observando.
No rosto de ambos era expresso a saudade. Fazia um mês desde que saímos do acampamento e ficar longe dos entes queridos era chato. Ingrid sentia saudade de sua irmã, Ravena. Kailson de sua coleção de cds e, por mais que não admitisse, também sentia falta de Juliane, sua amiga.. Anna tinha saudade de Ulisses, seu companheiro. Caio sentia a falta de Billy, seu namorado. Joanna não gostava de pensar que deixou o seu ficante para trás e Jéssica deixou Heloísa, seu amor. Eu, pois, não namorava com ninguém, mas não significava que eu não gostava de alguém. Tinha uma paixão secreta por Annabeth, mas ela não parecia me notar.
Ingrid quebrou minha linha de pensamento.
– Ok. O tempo passa diferente no Tártaro. Meu celular pifou, mas eu acho que estamos perto de chegar ao fundo.
– E o que tem no fundo? – perguntou Kailson.
– Olha, se eu soubesse eu não estaria tão desesperada!
– Ei, não desconta e mim o faro de você ter sido burra o suficiente para se jogar no Tártaro!
– Burra? Como ousa me chamar de burra? – ela sacou seu punhal.
– EI! – intervim – Se matar e ficar discutindo não vai melhorar nossa situação! – eles dois abaixaram a cabeça – Ingrid, quanto tempo falta até o fundo?
– Não sei ao certo, mas acho que estamos caindo há uma semana.
– Uma semana? – falei.
– E, tipo, com a velocidade que estamos não viraríamos poças de semideus quando chegarmos ao chão? – falou Kailson.
– Olha, ele tem um cérebro! – falou Ingrid – Sim. Mas eu tenho um plano.
– Que plano?
– Bom, todos os rios que correm no Mundo Inferior deságuam no Tártaro. São cinco: Cócito, Flegetonte, Estige, Lete e Arqueronte.
– Continue – falei.
– Eu pensei que... – ela foi interrompida por um gemido de Kailson.
– O que foi? – perguntamos em uníssono.
Ele apontou para baixo e nós vimos. Nuvens vermelhas e acinzentadas e um gás tóxico preenchiam o ar. Chegamos ao Tártaro. Todos gritamos.
– GENTE, GENTE, ESPERA! – Ingrid falava acima dos gritos – EU TENHO UM PLANO!
Mais gritos.
– CALEM A BOCA VOCÊS DOIS! – ela gritou e nós nos calamos. Ela continuou – Está vendo? – ela apontou lá para baixo – Aquilo parece ser água corrente. Talvez um rio. Gui, será que você conseguia convocar um jato e amortecer nossa queda?
Eu estirei a mão, fechei os olhos e me concentrei. Estava sentindo a água e quando ia invocá-la Kailson segurou minha mão.
– O que foi? – perguntei.
– E se for o Lete? – ele falou – Não sei vocês mas eu adoro ter minha memória.
– Ele tem razão – eu disse.
– Mas não temos escolha – disse Ingrid –Se for o Lete, bom. Vamos ser mortos sem a memória de que o mundo depende de nós para ser salvo e isso é, bem, tentador. Precisamos arriscar.
– Tudo bem.
– Tem certeza que você foi reclamada pelo deus certo? – falou Kailson para Ingrid.
Eu estendi a mão e invoquei a água. Estávamos muito alto, e o vento nos meus ouvidos incomodava.
– Guilherme...-falou Ingrid.
– Não me apresse! – falei.
– Acho que seria uma boa ideia lhe apressar! – falou Kailson.
Um grupo de três demônios voadores estavam acompanhando nossa queda com as presas arreganhadas. Eu fechei os olhos com mais força e coloquei toda minha energia na minha mão. O jato veio como um gêiser e nos envolveu, desacelerando nossa queda e guiando-nos firmemente até o rio. Caímos na água com estrondo e só me lembro de ter ouvido a canção mais triste da minha vida.
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