Eu via fúria em seus olhos quando ele se aproximou. Sua face escurecida e seu punho direito cerrado vindo em minha direção. Tudo ficou preto.

– Qual é o seu problema? Ela é apenas uma garota, não merece isso, ainda mais em seu aniversário! – ouvi minha mãe gritando enquanto eu despertava, optando por fingir continuar desacordada. Minha cabeça latejava como inúmeras vezes antes.

– Cala essa boca, mulher! Ela pediu pra apanhar – James cuspiu, claramente sob efeito do álcool ainda agindo.

– Ela me defendeu!

– É a mesma droga! Eu não sou obrigado a aguentar nem você, quanto mais ela.

– Você não é obrigado? – suas palavras carregavam sarcasmo e ódio, assim como o riso que as seguiu – Nós é que não somos obrigadas a aturar seus ataques. Se você quer sair pra beber, o problema é seu, mas resolve seus problemas com suas vadias de bar.

– Acontece, Jasmine, que a única vadia que me trouxe problemas foi você – seu tom agora era mais baixo e ameaçador. Pude sentir seu olhar caindo sobre mim durante um momento de silêncio, quebrado por Jasmine mandando-o embora.

O ranger da porta ao abrir e o barulho da batida ao fechar eram agonizantes, devido ao momento de tensão, e tranquilizantes por James finalmente ter ido embora. Jasmine gritou e deu um soco na parede antes de começar a chorar e se trancar no quarto. Me certifiquei de que estava realmente sozinha e me levantei. Fui até o banheiro e me deparei com meu reflexo contendo mais um hematoma no espelho quebrado. Mais um presente para a coleção e, por ironia, no meu aniversário. Lavei meu rosto rapidamente, sem me preocupar em achar um jeito de disfarçar as marcas. Em sete dias surgiriam outras no lugar, de qualquer forma.

O que aconteceu não é raro. Para ser sincera, é frequente até demais. James Oliver é meu pai — ou deveria ser. É claro que nenhum de nós gosta da situação. O ódio que eu sinto por ele é visivelmente recíproco e nossa relação baseada em brigas. Ele é usuário assíduo de drogas, arrisco dizer dependente, especialmente do álcool. Eu o vejo uma vez por semana, no máximo duas, que é quando ele aparece em casa após os fins de semana estendidos no bar. Sempre que ele dá as caras está alterado e acaba descontando em minha mãe ou em mim. Jasmine Schunts é minha mãe e, apesar de não chegar nem perto de ser exemplar, cumpre razoavelmente seu papel. Ela é dançarina de uma boate clandestina aqui em Los Angeles, onde ela conheceu James há dezesseis anos atrás. Depois disso ela engravidou e eu nasci, segundo as histórias que ela me contou. Embora todos nós saibamos que ele a trai, James evita a boate onde minha mãe trabalha para não ser visto com outras. Histórias a parte, ela faz o melhor que pode para ignorar isso e fingir que é feliz enquanto está em minha presença. Ela é mais como uma irmã – que me deu a luz – na verdade, e isso torna nossa convivência mais agradável. Mas, em meio a semanas turbulentas trazidas por essa pseudo família, há um porquê de eu continuar suportando tudo o que acontece. John Barker.

John é meu melhor – e único – amigo. Eu o conheci no primeiro dia de aula do fundamental e, desde aquele dia, venho me aproximando cada vez mais dele. Lembro-me da cena patética de uma garota sem entender nada no canto da sala enquanto todos faziam novas amizades. Fazia calor e eu era a única que usava moletom, no intento de esconder os roxos que se destacavam em minha pele branca pela falta de sol. Estava perdida em pensamentos aleatórios quando ouvi uma voz me chamando suavemente. Ao levantar o olhar, me deparei com dois olhos curiosos, cujas cores mesclavam entre verde e caramelo, me fitando. Não pude evitar um meio sorriso ao ver o dono dos olhos mesclados interessado em saber sobre mim e despejar um mar de perguntas sem fim. Acabei adquirindo confiança e um sentimento de segurança com ele, criando um laço forte que mantemos até hoje.

Sigo em direção ao meu quarto para descansar pois, apesar de ser meu aniversário e feriado do Memorial Day – homenagem aos militares americanos que morreram em combate –, amanhã ainda tem aula e já é a reta final, afinal. Claro que a vontade de ver John também conta como fator importante. Meu corpo não colabora na tarefa de me deixar dormir e insiste em não me deixar esquecer de nenhum dos lugares que bateram quando cai após o soco que levei, e a noite não é nem um pouco fácil. Acordo a cada 30 minutos ora por dores, ora pela sensação ruim que toma conta do ar, mas o cansaço acaba se mostrando mais forte e eu durmo como uma pedra após umas duas horas.

Notas finais
Oi, people! Espero que tenham gostado desse capítulo-introdução da história. É uma história pela qual eu tenho um certo carinho, até pq não sai da minha cabeça há um bom tempo, então decidi compartilhá-la com vocês. ♡
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.