Notas iniciais
Silvio abriu os olhos um dia qualquer. Depois as lembranças de seu mundo o inundaram e, aos berros, chorava as lágrimas da solidão. Sua boca começou a babar, seu nariz entupiu de muco e um robô correu a aspirar-lhe tudo para ele não se afogar. Quando a histeria terminou, todas as sondas que o mantinham vivo foram sendo retiradas e foi banhado com panos úmidos, rodeado de robôs enfermeiros.

No mundo “B de ALPHA” Silvio foi descongelado aos poucos, enquanto era amarrado com cordas firmes, pois trazia junto com ele um diagnóstico de: — “histeria forte na hora da ressurreição”. Colocaram-no num carro aéreo e foi imediatamente levado para ser internado numa clínica médica.

Após passar 40 dias em coma, com mangueiras de alimentação injetadas no estômago, embaixo de um arco íris luminoso, Silvio abriu os olhos um dia qualquer. Depois as lembranças de seu mundo o inundaram e, aos berros, chorava as lágrimas da solidão. Sua boca começou a babar, seu nariz entupiu de muco e um robô correu a aspirar-lhe tudo para ele não se afogar. Quando a histeria terminou, todas as sondas que o mantinham vivo foram sendo retiradas e foi banhado com panos úmidos, rodeado de robôs enfermeiros.

E os dias transcorreram, sendo alimentado com colher e banhado por robôs. Seu corpo era massageado com óleos todos os dias e suas pernas e braços alongados, com exercícios próprios para quem estava saindo de um estado de morte. Seu intestino era esvaziado por ele mesmo. Concentrava a mente no seu cólon cheio e desintegrava seu próprio cocô, juntos aos gases que saiam sem som, mas com fedor. Em seguida fazia o mesmo com a urina.

Assim que recobrou os seus movimentos corporais, 5 alunos de Astronomia chegaram para visitá-lo. Eles entraram com uma bandeira branca nas mãos e falaram que vinham em paz.

Silvio deu sua primeira gargalhada nesse novo mundo e recebeu com alegria os abraços desses novos amigos. Eram jovens como ele, que adoravam acampar na floresta, fazer festas barulhentas e namorar todas as mulheres possíveis. Johan, que seria seu vizinho, falou que era cineasta amador e já estava sabendo que ele trazia documentários de um amigo chamado Alessandro. Silvio fechou a mente para telepatia, pois estavam lendo sua cabeça como livro aberto. Respondeu perguntas sem poder evitar falar de Arethi, sua namorada, enquanto uma lágrima fugia de seus olhos sem conseguir se controlar.

Nos dias seguintes começou a exibir melhoras. Tomava Sol na varanda, nadava na piscina do hospital, comia tudo que era trazido para ele, comidas diferentes, mas deliciosas, e começou a correr numa pista entre os jardins. Quando lhe deram alta, ele tirou finalmente sua camisola de doente, vestiu seu uniforme de guerreiro e saiu abraçado nesses novos amigos com destino a seu novo lar, um apartamento minúsculo, próprio para quem vive sozinho.

O residência possuía uma sala com uma cama flutuante, que podia ser levantada até encostar-se ao teto, ou alinhar contra uma parede, e um sofá com rodas, para colocar onde quisesse. Na parede maior escorria uma cachoeira de águas mornas, que serviam para tomar banho, e na parte de trás dessa correnteza, havia uma paisagem pintada com animais selvagens em meio ao matagal. A cachoeira podia ser desligada, quando ele fosse assistir televisão ou estudar um livro. A TV ocupava uma parede completa, onde se podia colocar um documentário de seu mundo e se sentir em casa. Além dessa sala havia três cômodos minúsculos, um deles era dormitório com armário, outro era cozinha e o terceiro tinha um vaso sanitário, pois nesse mundo era obrigação fazer cocô para não ter problemas intestinais.

Silvio caiu na gargalhada e perguntou para Johan, seu vizinho:

— Mas, tenho que defecar todos os dias?

— No mínimo a cada cinco dias.

Enquanto riam, Johan abriu uma garrafa de vinho para celebrar a amizade e Silvio saiu para a varanda a olhar esse mundo fantástico. Quando sentiram um cheiro de comida preparada por um robozinho, sentaram nessa varanda para alimentar-se. Dava para ver toda a cidade, majestosa, gigante, pois os edifícios se perdiam no horizonte. O que mais chamou atenção de Sílvio foi a falta de animais. Só havia pessoas, em carros voadores, ou caminhando. Johan explicava que ele tinha um gato e que a maioria preferia um cão, mas bestas selvagens ele só encontraria fora da cidade.

Antes de sair, Johan prometeu levá-lo para conhecer seus pais, que moravam num sitio fora daquele emaranhado de edifícios e que poderia andar à cavalo e comer ovos frescos do galinheiro. Sílvio deu-lhe um abraço de irmão, fechou a porta e foi dar uma olhada numa caixa ainda fechada, com certeza cheia de presentes de seus amigos e da família. Primeiro retirou suas roupas, todas bem esticadas e ordenadas. Mais embaixo os presentes, todos embrulhados com embalagens artísticas. Miguel tinha colocado um álbum com fotos dos dois, desde os tempos de jardim de infância. Já Alessandro enviara 30 filmes pornôs. Começou a rir sozinho. Sua mãe colocara uma mini geladeira com 5 bolos congelados, que ele adorava. Sua sogra enviara 30 sanduiches, também congelados, numa outra mini geladeira portátil. Arethi mandou o Lalo, sua tartaruga macho, em estado de hibernação, com indicações de como se convive com um bicho desses, sua dieta, hora dos banhos e 20 latas de ração.

No mundo de “L de ALPHA” Arethi tinha passado por um tratamento diferente. Ela se tratou com uma psicóloga que arrancou de sua alma todas as amarguras da separação. Havia sobrado apenas a saudade e o amor, um amor tão forte que teria que enfrentar todas as provas que o destino colocasse no seu caminho. Já de regresso a sua casa, os irmãos fizeram uma festa com banda de música, uma faixa de boas vindas e um bolo para recebê-la. Ela só caiu na choradeira quando abraçou Miguel, pois ele estava também tomado pela emoção e já sabia que Silvio seria seu cunhado. Depois viu que seu quarto tinha sido redecorado com uma foto gigante de Silvio, colocada ali por Alessandro. E Aretti se entregou ao amor familiar, que foi o melhor remédio para seu coração partido.

Dali em diante ela se concentrou em estudar e, de vez em quando, ia para um acampamento com a turma de Miguel. Começou a escrever cartas para Silvio todos os dias, pois a cada 30 dias um correio interespacial viajava para “B de ALPHA”, por inúmeros motivos. Quando recebeu o primeiro pacote enviado por Silvio, ela abriu com mãos trêmulas. Encontrou um álbum com fotos de Lalo tomando banho de cachoeira, dormindo dentro de um sapato, e na varanda tomando Sol com as perninhas esticadas, o que a fez dar boas gargalhadas. Colocou na televisão um documentário com Silvio falando-lhe coisas lindas, sorrindo para ela e pedindo que lhe enviasse fotos com biquíni minúsculo. Também recebeu joias, óleos para fazer massagem, perfumes e várias revistas com fotos de “B”.

Depois que Arethi se formou como “Auxiliar de enfermagem” na escola de medicina, ela correu para a Universidade de Guerra para fazer testes de admissão. Ficou frente a frente a um robô que lhe fez 98 perguntas. Quando Arethi viu sua pontuação, ficou eufórica. Depois de tantos fracassos como médica, agora poderia escolher o grau de soldado que bem quisesse. Correu pelos corredores em direção à recepção, entregou seu título da escola de medicina e seu teste de admissão para uma jovem, igual a ela, que lhe falou:

— Parabéns, nota de gênio. Hum... O que deseja ser?

— Comandante!

— Essa é boa, nós já temos um...

— O que segue depois de comandante?

— Tenente de cúpula. São 10 tenentes escolhidos entre os melhores dos melhores e um deles assume a chefia se o comandante vier a falecer.

— É isso aí que eu vou ser, pode apostar!

— Vai ser difícil com seu tamanho, vai ter que enfrentar guerreiros com mais de 2 metros.

— Hum... Posso morrer?

— Pode! Mas na escola de medicina os ressuscitam a todos eles. Nunca viu uma cirurgia dessas?

— Não. Rodei em muitas matérias e cirurgia foi a pior delas, nunca acertei sequer uma extração de nódulos...

— Bem, se suportar a segunda rodada de exames, quem sabe cumpra seu sonho... Você vai ter que ir à sala de testes físicos e mostrar que é forte.

Nos laboratórios Arethi levou um susto, pois ali só havia gigantes. Homens carregando um carro nos ombros e mais outros puxando um caminhão cheio de pedras. Ela só acalmou quando soube que cada teste era conforme as capacidades individuais. Ela só teve que ficar em pé com uma barra de 30 quilos sobre os ombros, pelo tempo que desejasse e carregar nas costas um pacote de pedras com 50 quilos. Também quebrou a patadas umas barras de madeira, e foi só. Foi inscrita nas aulas para tenente e saiu correndo para contar tudo a seu pai.

Entrou na sala do diretor e como ele estava sozinho correu para abraçá-lo, enquanto gritava:

— Me dê os parabéns, pai!! Agora vou ser sua aluna...

— Ótimo, filha! O que é que você escolheu?

— Tenente de cúpula...

— O que é que você foi fazer, meu docinho! Tenente de cúpula luta na frente de um batalhão de 8.000 soldados e é o primeiro a morrer. O Silvio vai ficar viúvo, desesperado, e vamos perder essa guerra. Ainda bem que Miguel vai fazer Pós-graduação, para cuidá-la.

— Mas, ele não queria ser só sargento?

— Sim, mas mudou de ideia. Ele e Alessandro vão entrar na turma de Aruma e Diana.

— Diana? Ela vai ser minha colega?

— Vai! E ela não pode saber nada de seu namoro com Sílvio. Pode lhe enterrar uma espada no peito...

— Pare de brincar, pai...

— Ah! Como eu gostaria de estar brincando. Só hoje enviamos 40 alunos para escola de medicina, todos eles mortos e desclassificados... De a notícia com calma para sua mãe, pois ela não vai aguentar... Coitada, seus dois filhos querendo se matar na primeira linha de combate...

Já todos reunidos em casa, Aretti contou sobre sua carreira de tenente. Mahaia desmaiou na hora. Césio a sentou no colo e Miguel trouxe água para ela se recuperar. Depois ela começou a gritar:

— Que mania de querer morrer é essa? De onde é que vem esse instinto selvagem? Porque não escolher ser soldado, filha, na última fila, lá onde se está mais longe das bombas primitivas.

Miguel a tranquilizou:

— Fica fria, mãe, o Silvio vai engravidá-la e a tenente só vai dar de mamar aos filhos nessa guerra.

— Mas, é claro, como não pensei nisso antes? Ela só vai dar de mamar, mas que alívio, filho!

Arethi ficou de cara fechada e disse:

— Obrigada pelo apoio... Fracassei na medicina e agora meu destino vai ser dar de mamar... Não acredito nisso!

E Mahaia lhe disse:

— E isso é porque vocês dois ainda não viram o “filme de Adão” no cinema. Vão lá, observem como são os mundos selvagens, as torturas, os massacres, conheçam a “Terra”, pois é ali que vocês verão para os infernos que estão viajando.

Cesio terminou o drama:

— Agora lembrei, tem um casal nesse filme igual a Silvio e Arethi, né amor?

— Tem, sim, eles morrem a caminho de uma guerra...

— Ok, vocês venceram. Vou ver sim e não precisam inventar histórias, não. Vamos ao cinema, mano?

— Vou pensar.

E dali em diante, Arethi mudou completamente sua rotina, saía de casa de madrugada, cabelos trançados, de agasalho, tênis macio e corria pelas ruas para ganhar força física e começar sua primeira matéria, “desintegração de materiais” com um só olhar.

Enquanto Arethi se perdia nos estudos, Miguel começou a se sentir órfão. Sem ela por perto, não tinha mais com quem conversar, pois seus outros irmãos, uma moça e dois rapazes, eram músicos, artistas que viviam tocando em baladas, festas e não se interessavam em guerras. Alessandro também desaparecera, pois agora ele corria como um cão atrás de um gato. Só que o gato era uma mulher escura como as sombras “campeã de Box”, de corpo afrodisíaco, que havia transformado seu melhor amigo em escravo. Ele sequer olhava para os lados, só babava por ela. E perguntou-se a si mesmo, o que é que havia acontecido com todos eles? Ou, com ele mesmo? Não havia mulher que ele gostasse daquela maneira. E para desvendar o mistério, foi ao santuário para se aconselhar com as almas.

E olhando para o grande espelho do templo, ele começou a chorar depois da primeira imagem, pois ele, Silvio e Alessandro eram irmãos trigêmeos. Seu pai verdadeiro era tão loiro como Silvio, enquanto ele e Alessandro haviam herdado a fisionomia do tio, um “Sacerdote Estelar” que viajava para salvar uns índios primitivos, num mundo lindo, cheio de selvas e animais gigantes. Depois viu o casamento de Silvio e Arethi, uma mulher de pele enegrecida, com lindos olhos lilases, filha daquele tio moreno. E depois viu a ele mesmo e Alessandro sentado em meio de uma tribo de gente dançando, em busca de esposas escuras como a noite. E viu sua escolhida: uma jovem de peitos nus, cabelos presos para o alto, cheia de brincos e colares, mexendo tudo. Que delírio! Fascinante! Mas, como é que ele iria encontrá-la? Arethi tinha nascido de pele mais clara, a negra de Alessandro mudara o nariz, os olhos e alisado os cabelos, pois a busca da beleza era um vício das mulheres dessa cidade. E saiu do templo mais confuso ainda.

Sentado no ginásio, Miguel viu Aruma entrar na arena para lutar com uma “morena assassina”. Esse era o apelido dela e todos estavam apostando nela. Ela entrou no tatame com capacete, luvas de Box, bustiê de proteção e calça que se ajustava como luva. Aruma estava de peito nu, short, luvas, e de cara amarrada, pois ele detestava socar mulheres.

Quando Aruma caiu de costas no chão com nariz sangrando, os juízes imediatamente apitaram para a ganhadora. Natália foi rodeada pelas amigas e carregada nos ombros. O ginásio estava enlouquecido, mais parecia uma briga de um mundo inferior. E foi ficando atônito, pois essa mulher, escura como as sombras, nunca fizera cirurgia plástica, tinha nariz de aborígene, cabelos crespos, boca grande de índia e corpo perfeito. Será que aquele demônio era sua alma gêmea? E como é que chegaria perto sem se machucar? Bem, ele poderia conquistá-la como um primitivo. Colheu umas flores no jardim da universidade, escreveu um bilhete e enviou para ela com o robô jardineiro.

Natália recebeu as flores em meio dessa bagunça e desintegrou-as imediatamente. Se o mulherengo do Miguel estava achando que ela perdoaria os galhos na cabeça com umas florezinhas, estava muito enganado, pois primeiro ela tinha que surrá-lo nos encontros da arena.

Naquela noite, cansada como nunca, Natália desmaiou na cama. Acordou com Miguel deitado por cima dela, falando-lhe que ela era a mulher que derretera seu coração. Natália tentou se livrar, mas, com a telepatia descobriu que ele estava fisgado como peixe, caído por ela, estupidamente louco por ela e Miguel era lindo de morrer. Pelo menos 80 mulheres estavam apaixonadas por ele. E pedoar era melhor que brigar.

Depois de dias de namoro ardente, pois Miguel a abraçava como com garras de urso assim que entrava no seu apartamento, Natália começou a perder algumas lutas e foi deixando que outras mulheres se destacassem. Zezé, a namorada de Alessandro também ficou em segundo lugar no Box. E Diana, a campeã, perdeu feio na esgrima para Arethi, uma caloura recém-chegada, que mal sabia desintegrar uma melancia com o olhar.

Mas a carreira de guerreira de Arethi estava só começando. Quanto mais se fortalecia fisicamente, foi sendo enviada a lutar corpo a corpo com calouras como ela. Helena, médica formada com louvor e sua amiga de longa data, entrara junto no tatame um dia qualquer, ambas com capacete, luvas, peitoril e sem sapatos, pois tinham que dar pontapés para se derrubarem mutuamente. Assim que Helena desmaiou, Arethi levantou os braços como uma campeã. Mahaia em meio ao público gritou alto, pois sua menina estava mostrando seu lado oculto. Afinal ela foi uma selvagem na vida anterior, de um mundo muito primitivo, talvez já enfrentasse outras guerras em vida passadas.

Enquanto o tempo transcorria e ganhava destaque na esgrima e nas lutas livres, Arethi foi chamando a atenção dos homens. Como Miguel não cuidava mais dela, o assédio se tornou um inferno. Era beijada de surpresa, ou um sem-vergonha passava a mão em seu corpo, pois os machos eram todos iguais, quando gostavam de uma mulher atacavam mesmo sem permissão. Arethi começou então a se aprimorar na hipnose. Afinal, funcionava com suas tartarugas, que a obedeciam em bando. Olhava fundo na cara dos paqueradores, deixava-os imóveis e depois, sem piedade, lhes dava um pontapé entre as pernas.

Mas o pior momento de sua vida, foi num acampamento. Com Miguel grudado em Natália, Arethi quase foi atacada por Fabio, a maior peste que cruzou em sua vida. Ele a pegava por atrás, num abraço de urso e a beijava no pescoço até deixar-lhe uma marca roxa. Depois a soltava, imune aos socos, pois ele era um gigante com corpo de aço. Quando Miguel deu as caras nesse acampamento, ela exigiu uma sova no descarado. E Miguel lhe disse:

— Irmãzinha, o elefante é campeão entre os campeões. Sequer Aruma está conseguindo ganhar dele.

— Não interessa! Ou levas uma surra dele, ou de Silvio quando ele voltar...

Natália falou-lhe com doçura:

— Vamos amor, eu ajudo você.

— Vamos, minha querida, com você ao meu lado eu enfrento um bando de mamute a céu aberto...

Quem cuidou de Fábio no hospital foi Helena, que estava de plantão. Ele tinha hematomas por todo corpo e havia deslocado um ombro. As pernas estavam inflamadas e tinha um olho fechado com um hematoma terrível, o que quase o deixou cego desse olho. Helena deu-lhe banho de esponja com sabão desinfetante e colocou-lhe compressas anti-inflamatórias. Quem colocou o ombro no lugar foi um médico cirurgião, que lhe deu mais umas pancadas sem dó. E Fabio se apagou de vez. Com certeza era um infeliz, pois nenhuma mulher gostava dele, já havia tentado todos os truques, paqueras com flores, com cartas de amor, com assédio, mas nada dava certo para ele.

Quando Fábio abriu os olhos, Helena estava ao seu lado novamente, com um prato de sopa. Fabio lembrou-se dela no ginásio, na cantina. Na verdade era uma mulher muito linda, loiríssima, olhos verdes, como é que não havia reparado antes? Será que deveria tentar conquistá-la? E começou a gemer de dor, pois quem sabe se fazendo de coitadinho teria, desta vez, sucesso no amor.

Enquanto Fábio se recuperava, Miguel casou com Natália numa festa em casa de Mahaia. Arethi olhava para Natália, que vestida de branco parecia mais morena ainda e se perguntava qual era o segredo do amor? Seu irmão lindíssimo, apaixonado por uma guerreira fera nos socos, nos pontapés e, com certeza, nas mordidas no cangote. Depois olhou para os convidados e viu Aruma, um gigante escuro como breu, que havia derretido o coração de Diana apenas com um beijo. E Diana nem lembrava mais de Sílvio.

Numa tarde livre, ela foi ao hospital para ver como estava Fábio. O encontrou submerso numa banheira de água verde, sulfurosa e espessa, para recuperar as forças. Ela sentou na beirada e lhe lançou uma flor. Fábio falou-lhe:

— Não necessitas falar nada, descobristes que sou o amor de tua vida.

— Palhaço! Sou apaixonada pelo Sílvio.

— Palhaça és tu, esse cara deve estar comendo as loiras mais lindas desse mundo.

— Ah, é? E tu, não estás gostando da Helena?

— Com a sorte que eu tenho no amor, ela vai me fazer uma cirurgia sem anestesia. Aliás, foi a Natália que me deixou todo machucado, fala para o Miguel que fique longe dessa negra selvagem, pois ela vai comê-lo como uma canibal.

— Eu sei! Acho que o Miguel tem instinto suicida, imagina que casou com ela.

— Nossa! Deve estar sendo comido vivo. Achas que tenho chances com a Helena?

— Claro! Ela está matando aulas para ficar aqui contigo.

Arethi o deixou e desta vez lhe deu um selinho na boca, de irmão.

Ao entardecer, quando o hospital esvaziava e ficava apenas com os robôs, Fabio chamou Helena telepaticamente, pois seu olho estava doendo muito. Assim que ela entrou, ele abraçou-a com firmeza e deu-lhe seu melhor beijo. E com telepatia começou sua declaração de amor, seus elogios sobre a beleza de Helena, seu desejo de casar e fazer amor pela eternidade.

E a noite se alastrou com Helena presa ao fogo da paixão, pois Fábio era um gigante terno que nem gatinho. Falava-lhe palavras doces, abraçava-a com doçura, e seu olhar apaixonado a derretiam. Depois ela mesma deu alta para Fábio e foram ao templo para se casarem.

No mundo “B de ALPHA”, Silvio se inteirava dos acontecimentos através das cartas de sua amada, sorria com as novidades e depois se concentrava nos estudos. Mas a escola estava cheia de mulheres lindíssimas, que o assediavam. Como Miguel lhe contava tudo sobre como Arethi estava se livrando dos machos e sobre à surra que ele dera em Fábio, Silvio conseguia recuperar a sanidade e se manter fiel. A fidelidade era, sem dúvida, a pior prova que “00” lançava sobre eles. Pior que as aulas de telepatia universal.

Em “L de ALPHA” os guerreiros aprendiam a falar com telepatia de uma cidade para outra, com 50 pessoas ao mesmo tempo, como uma teleconferência via “espelho falante”. Mas em “B de ALPHA”, as crianças aprendiam a falar com o universo, desde pequeninhos. Parecia piada. Sua cabeça doía de tanto esforço mental. Para piorar, ele estudava numa sala cheia de moleques de 10 anos no máximo.

Mas teve que encarar os exercícios e, numa tentativa de projeção espacial, conseguiu visualizar nos telescópios o mundo de “C de ALPHA”. Tentou falar com alguém e esse alguém era uma cantora lírica, cantando uma ária de uma ópera daquele mundo. Depois ele desmaiou.

Mais tarde, Silvio conseguiu relatar para os mestres com quantos artistas havia conversado em “C de ALPHA”. Deu detalhes desse mundo narrando que não achou nenhum ser humano trabalhando na agricultura ou nas cidades, pois umas legiões de robôs faziam todo o trabalho desses artistas que viviam na farra e na boa vida.

Na segunda tentativa aconteceu algo estranho. Não viu nada, só escutou gritos de “socorro” de um mundo muito longínquo, que não estava no seu roteiro. Era da quinta Dimensão, de um mundo no “Sistema CHI”. Relatou para seus professores, e esses educadores conseguiram descobrir que ela era uma Santa de “Z de CHI”, um planeta que agonizava pela falta de tudo. Era um mundo a caminho da extinção. E Sílvio nunca iria nessa direção. Era melhor esquecer.

Enfim, após esses acontecimentos, teve uns dias de descanso e pode relaxar. Foi para a fazenda dos pais de Johan, onde andou a cavalo por um mato fantástico e onde fotografou tartarugas de 2 metros, para mandar para Arethi. Também fez um documentário dele mesmo, só de sunga, nadando, mergulhando e enviando beijos.

Na volta às aulas, teve que se comunicar com o mundo “D de ALPHA”. E o viu nitidamente, um gigante, 10 vezes o tamanho de “C de ALPHA” e o dobro de “L de ALPHA”. Na primeira tentativa de comunicação telepática escutou nitidamente a voz de um repórter interestelar, num outro telescópio igual ao dele. Sílvio imediatamente fez um acordo entre amigos. Pediu que lhe contasse tudo sobre seu mundo e Sílvio lhe contaria tudo sobre a “guerra dos três mundos”. O repórter aceitou, mas queria ir junto nessa guerra. Sílvio caiu na gargalhada... isso só se ele desejasse o suicídio. Mas poderia convidá-lo a visitar “L de ALPHA” quando os guerreiros estivessem prontos para partir. Ele mesmo seria seu anfitrião.

O mundo de “D de ALPHA” era uma sociedade dedicada ao trabalho, ao contrário de “C” que era o mundo de artistas onde pouco ou nada se trabalhava. A engenharia era o trabalho principal, construíam coisas fantásticas, belíssimas, tanto para morar como para diversão. Havia tanto carro voando, que parecia um bando de pássaros, subindo, arremessando para fora do planeta. E além de carros eles usavam motos voadoras, patinetes voadores, assentos voadores. Entrecruzavam-se no ar, ou circulavam em ruas aéreas que pareciam cobras se contorcendo entre edifícios. Sílvio visualizava tudo por imagens transmitidas da cabeça do repórter Fernand para sua cabeça, junto às explicações detalhadas sobre o material usado para tudo isso.

E foi então que Sílvio foi ao templo para falar com “00” pela primeira vez. E timidamente, em frente ao seu chefe supremo, perguntou até onde ia sua autoridade como Comandante e se era possível solicitar cooperação interplanetária. “00” sorriu para ele e disse que seu pedido seria uma ordem, e que qualquer “Sacerdote Estelar” de todo o Sistema “ALPHA” estaria orgulhoso de lhe servir. Imediatamente outras figuras começaram a se materializar no espelho, um Sacerdote de “D de ALPHA”, mais um Sacerdote de “E de ALPHA” e uma mulher cantando para ele. E, entusiasmado, começou a pedir coisas. Do mundo “D de ALPHA” desejava uma nave interestelar que tivesse uma nave central com 10 naves menores ao redor, em forma de aranha, com encaixe perfeito para 80.000 guerreiros e com pilotagem humana. Para o mundo “E de ALPHA” pediu três espiões com trabalho imediato no Sistema SIGMA, onde deveriam estudar as pessoas dos planetas “W, X e Y”.

De regresso ao seu lar, fez um relatório completo para Cesio, pois tudo isso lhes pouparia bastante trabalho para ambos. Não necessitavam mais construir as naves nem preparar os pilotos.

Nos messes seguintes olhou para “F de ALPHA”, um planeta minúsculo, onde também não havia gente trabalhando, só encontrou pessoas na farra, no teatro, no cinema, na dança e nos namoros. Só que esses artistas percorriam, nas suas naves espaciais, todo o Sistema “ALPHA” fazendo shows, entretendo todos os mundos em ritmo de festa. Eram esperados, bem recebidos e regressavam para casa carregados de presentes.

Para suportar o esforço mental, Johan lhe fazia acupuntura, um tratamento medicinal de mundos selvagens. Cheio de agulhas, Silvio contava as novidades desses outros planetas e Johan achava graça, pois ainda faltava ele conhecer os Sistemas BETHA, GAMA, DELTA, EPSILON, que eram os mais próximos. E em cada um teria que visualizar mundos com homens civilizados, ou selvagens. Johan lhe explicava que a diferença entre civilizado e inferior, estava no comportamento humano. Apenas isso. “C de ALPHA” tinha cidades simples, apenas tecnologia robótica, mas não existia a ganancia, nem a criminalidade. Muito menos o dinheiro. Já os mundos selvagens tinham uma tecnologia fantástica, mas eram egoístas, gananciosos, e assassinos. E adoravam o ouro, as joias, o luxo e o dinheiro. Não se amavam entre eles, mas por um bom dinheiro matavam a própria mãe. Sílvio dava boas gargalhadas, pensando que era piada, mas, lá no fundo lembrava vagamente que um dia nascera num planeta muito inferior. Só não sabia aonde.

E o tempo foi transcorrendo para Sílvio, com aulas de astronomia, telepatia, estratégia de ataques e a memorização de cada mundo que conseguiu alcançar com o pensamento. O mapa universal ele teve que aprender em detalhes para calcular o tempo dessa futura viagem, os contornos entre todos os Sistemas e, principalmente, onde se localizavam as 3 estrelas de SIGMA. Quando as viu seu coração tremeu. Era um conjunto de estrelas brilhantes e planetas maravilhosos, com civilizações humanas no início de sua história, ou seja, haviam superado a transformação física, mas ainda lhes faltava aprender que o universo era governado pelo amor.

Quando viu de longe o mundo “Z de ALPHA”, Sílvio deu um suspiro de alivio, pois terminava seus exercícios telepáticos com louvor. E como era um mundo muito primitivo, só conseguiu falar com estagiários de outras civilizações, que viajavam para esse planeta para fazer teses de doutorado. Tinha estagiários de medicina, que cuidavam da saúde desses homens primitivos e havia estudantes de veterinária, pois o planeta era um gigante com os mais belos animais do universo. Conseguiu vislumbrar dragões voando, borboletas gigantes e uma manada de unicórnios correndo nas pradarias.

Intercalando todo esse aprendizado desgastante, o repórter Fernand de “D de ALPHA” nunca mais o deixou em paz. Fernand acompanhou a construção das naves e começou a enviar documentários para Sílvio pelo correio intergaláctico. Eram 500 engenheiros trabalhando abaixo de Sol, mecânicos fabricando peças para as naves, pois o trabalho era humano desta vez. Só o olho humano era capaz de ver um ajuste, um encaixe e só os homens sabiam reproduzir verduras e legumes no meio do espaço. Silvio olhava, anotava e enviava os documentários para seu sogro.

E a “guerra dos 3 mundos” entrou na televisão intergaláctica como uma das noticias mais quentes de todo o sistema “ALPHA”. Fernand percorreu vários planetas com seus documentários, dando palestras e foi premiado em “D de ALPHA” como o repórter do milênio.

A graduação de Silvio foi dentro do templo, sozinho, vestido de branco da cabeça aos pés, com “00” sério pela primeira vez, pois o ato era solene. E com um discurso breve, disse-lhe que agora ele era um “Comandante Supremo”, ou um “Supremo Sacerdote Estelar” e que dali em diante ele seria um Deus entre os homens. Todas as decisões que ele assumisse no futuro, deveria perguntar para si mesmo e escutar somente a sua consciência. Poderia se aconselhar com seus futuros tenentes de cúpula, mas a decisão final sempre seria dele e todos o obedeceriam cegamente. Sílvio levou um susto, pois ele era incapaz de mandar em alguém . “00” sorriu, pois sabia disso e lhe pendurou um medalhão no peito, que ficou gravado na pele brilhando como um Sol. Depois “00” encerrou o discurso com um conselho: — conte tudo que sabe para sua mulher, pois se você morrer ela vai sucedê-lo. E desapareceu sorrindo, acenando para ele.

Na saída do templo, seus amigos lhe jogaram uma chuvarada de ovos, sujando seu lindo uniforme. Aguentou firme a brincadeira e correu para casa para fazer as malas. Nada mais o detinha naquele mundo, poderia finalmente regressar para a felicidade da família e o reencontro do amor. Fez dormir a tartaruga Lalo, em seguida parou sua respiração e já morto o deitou num mini congelador, como um picolé. Depois foi colocando numa caixa suas roupas e os presentes que tinha empacotado para todo mundo.

Notas finais
Depois que Arethi se formou como “Auxiliar de enfermagem” na escola de medicina, ela correu para a Universidade de Guerra para fazer testes de admissão. Ficou frente a frente a um robô que lhe fez 98 perguntas. Quando Arethi viu sua pontuação, ficou eufórica. Depois de tantos fracassos como médica, agora poderia escolher o grau de soldado que bem quisesse.