Guerreiros intergalácticos
10 Guilherme, o empresário
Notas iniciais
O mais rico industrial dessa cidade, dono de uma fábrica de tecido e confecção, sofria nesse momento uma crise existencial. Sua esposa era linda, e ele a amava muito, mas ver na televisão Aruma amando essa deusa sensual de olhar excitante, era demais. O que é que aquele homem arrepiante possuía para merecer uma mulher dessas? Guilherme tinha pesadelos com Diana, pois ela lhe aparecia em miragens, estava ficando louco. Naquele dia saiu de casa disposto a paquerar a primeira loira que aparecesse no seu caminho. Sequer tomou café e saiu antes de sua esposa acordar.
Quando chegou a sua empresa, sua secretária entrou para lhe disser que um senhor muito importante estava-o esperando, seu nome era Ricardo Prado, e ela já havia sondado sua conta no banco, ele era um “milionário”.
Guilherme a olhou de cima para baixo e disse: — mas que droga, morena igual a minha mulher! Ela ficou surpresa, e lhe perguntou:
— O senhor está zangado hoje?
— Esqueça, faça-o entrar.
Ricardo Prado apertou sua mão, e sentou como faziam os homens desse mundo, um braço sobre o suporte dessa cadeira, perna dobrada sobre a outra, mão sobre essa mesma perna, e falou com entusiasmo que descobrira um produto que iria revolucionar o planeta, um creme que tirava os pelos para sempre. Puxou uma luva de sua mão e mostrou para ele. Guilherme olhou de perto, e viu que ele não era depilado, muito parecido a pele desses alienígenas lindos da televisão. Mas, examinou sua barba fechada, com pelos reais. Afinal, os gênios de “L” haviam caprichado nos disfarces. A barba colava por 20 dias. Possuía furos para a cútis respirar, o que simulava poros no rosto. E Guilherme falou finalmente:
— Mas, porque eu? Minhas empresas são de tecidos, eu não tenho nenhuma ligação com produtos de beleza.
— Me falaram que você se dá bem com a milícia. Além do mais, lhe ofereço metade de tudo. Montamos a empresa, vendemos e você entra com a parte burocrática, como dono, como empreendedor, paga os impostos e essas coisas legais. Você seria o administrador.
— Possui amostras disso tudo?
— Com certeza. No meu laboratório tenho 10 ajudantes que já se depilaram, e podemos fazer um teste em seus amigos. Organize uma festa. Tudo de graça. Eles vão ser nossa melhor propaganda, depois de conferir que não nascerão mais pelos em lugar nenhum.
Guilherme riu desta vez, pois esse homem era mais um charlatão que se cruzava na sua vida. Mas pediu a sua secretaria que anotasse tudo, hotel onde 002 estava instalado, numero do celular, identidade, e horários para encontra-lo.
Assim que 002 saiu entraram na sala de Guilherme, quase correndo, o nutricionista com o Chef de cozinha, que preparava o almoço dos empregados. E o Chef falou-lhe com entusiasmo:
— Senhor, eu gostaria muito mudar o cardápio, pois estão comendo capim que nem coelhos, que não custa nada, e estão desprezando a carne que custa ouro... O lixo está cheio de carne.
— Não acredito, na última vez compramos carne de coelho que custa uma fortuna... E o que mais sugerem?
O Chef respondeu-lhe:
— Massas. Inventei um talharim que com molho de tomate e manjericão fica ótimo.
— Estas copiando a comida dos alienígenas?
— Bem, estou tentando, né patrão...
Guilherme riu de novo, pois esse dia estava sendo diferente do que imaginava. E foi ali que entrou sua estilista de corte e confecção, carregada com desenhos, que espalhou sobre sua mesa. E falou com empolgação:
— Me autorize a fazer estes modelos, meu patrão amado. Copiei todos os vestidos das alienígenas, todas as toalhas de banho, os bordados, as toalhas de mesa... Vão ser tiro e queda, patrão. Estas toalhas estão na televisão, vamos economizar propaganda, pois esta tudo mundo olhando.
— Tá bom, manda braça, tu eres a terceira pessoa que entra por essa porta me pedindo para eu ficar mais rico... Vão todos a trabalhar e façam esse talharim, que eu também quero comer...
E a estilista falou-lhe:
— Aposte na cobra, patrão, vai dar na cabeça...
Na hora do almoço, Guilherme deu um giro entre seus empregados, no grande salão onde eles comiam de graça, pois Guilherme cuidava da saúde deles com atenção. Eram gente do povo muito mal alimentanda, e um trabalhador mal comido era péssimo numa empresa como a dele. E sorriu. O talharim estava fazendo sucesso. Repetiam, misturado a bolinhos de cenoura. Um ou outro comia coelho junto, mas não todos.
Já entre a mesa da diretoria, com seus amigos ricos, preferiu escutar as conversas, pois além de se lambuzar comendo talharim, eles estavam bebendo leite que nem recém-nascidos. E a conversa toda era ao redor de Diana e do macho de pele escurecida que aparecia junto dela. E eles falavam;
— Por uma mulher dessas, eu ficava até pobre...
— Eu comia com valentia dez pratos de agrião sem tempero...
— Viram que peitos, cara... Uauuuuuuu!
— E esse cara escuro como a noite? Se ela me conhecesse acho que ela gamava... Sou mais lindo do que ele...
— Eu vou fazer a barba, e vai ser com depilação a lazer...
Guilherme dava gargalhadas gostosas, e fazia cálculos do que iria economizar mudando o cardápio. Esse era seu dia de sorte, não havia dúvidas, ia mesmo apostar na cobra.
Durante a tarde seu pessoal não lhe deu sossego e esqueceu totalmente de seu desejo de paquerar alguém. Regressou para casa com vontades de cair de costas na cama e dormir durante um mês. Mas, assim que abriu a porta de seu luxuoso apartamento, uma loira deslumbrante, com um vestido dourado, decote em V mostrando parte dos seios, mostrava com sadismo suas curvas num modelo justo. Penteado metade para cima com uma trança enrolada, metade caindo em cascatas pelas costas, com implante de cabelos. E correu a seduzi-la, pois ela era sua mulher, recém-chegada do salão de beleza, toda depilada, maquiada e “tingida”.
Ela correu para tortura-lo um pouquinho. Guilherme a alcançou por atrás na cozinha, deu-lhe um abraço de urso e beijou-a no pescoço com cheiro de jasmim. Depois a levantou no ar e carregou-a para o dormitório, tomado pela paixão. Namoraram ardentemente até que o cansaço os apagou. Tomaram o café da manhã na cama, e quando finalmente saiu para trabalhar gritou-lhe que o esperasse com a mesma roupa mais uma vez.
Alberta entrou a tomar seu banho de espumas, e quando viu na televisão a Ruth, nesse vestido maravilhoso, chamou pelo celular a sua costureira aos berros, pois ela queria um vestido igual a esse, e lhe pagava o que ela almejasse. Depois tentou imitar o penteado de Ruth, e procurou joias parecidas para colocar. Passou batom vermelho fogo, pintou uma linha ao redor dos olhos, passou sombra nas pálpebras, delineou sobrancelhas, e sorriu. Guilherme ia ficar louco quando a visse desse jeito.
Mas, nem tudo era felicidade na vida deles. Quando Guilherme chegou a fabrica sua secretaria correu a falar-lhe baixinho que havia 3 generais do exercito fazendo vistoria nas empresas. Engoliu três pastinhas para o coração, e sentou-se à mesa com a cabeça entre as mãos. O que é que eles iam lhe exigir desta vez?
Um homem arrogante, de queixo para cima, botas altas, uniforme verde escuro, cheio de medalhas no peito, entrou nessa sala como se fosse o dono do mundo. Sentou-se sem cumprimentar sequer, colocou uma perna cruzada sobre a outra, e começou a falar de “patriotismo” e outras músicas celestiais que Guilherme sabia de cor. E finalmente, caiu por cima dele o “golpe” de sempre:
— Estamos com problemas graves, necessito que metade de sua produção seja destinada para uniformes, meias, cobertores, camisetas para os nossos heróis de guerra, deixei uma lista de tudo com sua secretária. E não esqueça que toda sua família está isenta do recrutamento obrigatório.
Guilherme respondeu-lhe de cara feio:
— Só vou cooperar se isentar todos meus empregados, só este mês perdi 300 deles e me parece que foram mortos no bloqueio no espaço.
— Claro que não, homem, eles estão na escola militar aprendendo pilotagem de guerra... Mas, aceito seu pedido, não vou levar mais ninguém que seja empregado seu... Enquanto ao que você está cobrando, quero 60% de desconto.
— Só 20%! É o que posso dar-lhe.
— Não abuse que posso exigir de graça desta vez...
— De graça? Eu iria à falência!
— Comece a cobrar aos seus empregados pela comida, ou diminua o salário deles, é fácil evitar a pobreza... Que tal 50%?
— Só 30%, e isto esta terminado...
— Vamos então fechar em 40%.
E o general saiu sem falar mais nada, fazendo essas botas bater no chão, como se fosse um martelo na cabeça de Guilherme. Ele finalmente chamou aos gritos sua secretária:
— Me dá essa lista e chama nossos contadores... Vai logo, corre, que estou a ponto de um enfarte.
E com 8 empregados que cuidavam das finanças, calcularam tudo, quanto iriam economizar tirando fora metade da carne nos cardápios, o que poderiam ganhar com as roupas alienígenas, e o que podiam desviar na contabilidade para enganar a declaração de impostos. Mesmo assim, Guilherme ficava numa situação crítica. Vender com 40% para o exercito o deixava na beira da falência. Lembrou-se de Ricardo Prado e gritou para sua secretaria marcar um encontro. Depois solicitou para seus contadores calcular o que se podia ganhar vendendo cremes.
O Chefe de contabilidade perguntou-lhe:
— Que tipo de cremes?
— Elas terminam com os pelos, para sempre...
— Isso seria uma mina de ouro, patrão... O que deseja que façamos?
— Nada, pois ela vai ser “invisível”. Como posso enganara os generais desta vez?
— Procure um parente. Faça tudo no nome dele.
Como não tinha cabeça para pensar em mais nada, Guilherme foi para casa. Sempre que a milícia aparecia nessa empresa, eles terminavam com sua vontade de viver. Alberta desta vez o tratou como um menino, tirou-lhe as roupas e deu-lhe banho de espuma e o acompanhou até a cama. Ele dormiu sem fazer amor desta vez, triste por esse dia terrível.
Desde os telescópios, Arethi sorria feliz. Guilherme dali em diante ia ser o melhor aliado nesse mundo, melhor até do que Ênio em “W”. Assim que Diana apareceu para tomar seu lugar, se abraçou nela e lhe contou sobre tudo. Diana riu que nem criança. Pediria para suas amigas começar uma produção gigante, pois inundariam esse planeta de beleza. Arethi lhe disse:
— Vou deslocar Zezé para acompanhar 002 em tudo, e me escolhe uns 2.000 guerreiros teus, para descerem juntos.
— Considera realizado, da escola de beleza há mais do que isso, mas e as casadas?
— Inclui os maridos nesses 2.000. Com certeza vão ser vendedores de rua....
E riram juntas, imaginando tudo isso.
Já dentro da suíte Arethi tomou um banho demorado, comeu uma torta de legumes trazida por um robô com um suco de laranjas, e deitou na cama, ainda de cabelos molhados, apagou as luzes na máxima escuridão, e falou na onda 50, onde os espíritos se comunicam:
— Cadê você, meu querido?
Imediatamente sentiu mãos suaves a acariciando no corpo, uma boca encostando-se à sua, e palavras doces de amor. Começou a se apagar, enquanto Sílvio lhe falava: — vai dormir comigo junto, vai comer nesta cama comigo ao lado, só vou deixa-la na hora do trabalho...
Enquanto isso, Diana enviava sua frota de expertas em beleza para “Y”, cada uma com sacolas de potes de creme, e dava um berro para 002 encontrá-las nos desertos desse mundo, onde se deixariam cair como uma bala em meio da escuridão.
002 alugou um comboio de trailers, os maiores que encontrou, os lotou de mulheres cabeludas, e homens mais cabeludos ainda, e os foi disseminando pelo caminho em alguns campings que iam encontrando na beira do caminho. Afinal, nesses lugares estava a frota de Alessandro já fazia alguns dias, todos disfarçados de homens muito feios. Entre os que chegavam estava Zezé, rindo, pois ela se perguntava como ia ser dali em diante namorar com essas peles que ficavam grudadas como chiclete.
002 não dormiu nada durante essa noite. Já de amanhecida, enquanto entrava no seu hotel, seu celular tocou enlouquecido dentro de seu paletó elegante. Tirou-o para escutar Guilherme que se comunicava através de um telefone de rua, como um espião, falando baixinho: — encontrei 5 fabricas falidas a preço de banana, vai sozinho que a milícia está no meu calcanhar me espionando. 002 decorou os nomes e endereços e pensou com ele mesmo: — nossa, se Guilherme soubesse no que está se metendo, caía duro de parada cardíaca.
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