Notas iniciais
Os “soldados faxineiros” desceram para desmaterializar todos os entulhos espalhados pelas ruas. Escombros de antigos edifícios que caíram ao chão matando muita gente. Em seguida limparam o ar de toxinas, do pó, de venenos ocasionados pelo cheiro da morte, tudo de um olhar. Depois saíram para a superfície, onde havia pouca coisa para se fizer. As areias do deserto terminavam de cobrir as antigas instalações de petróleo e sobre o planeta sobraram apenas algumas antenas solares, e mais nada.

Silvio suspendeu as reuniões, e junto a Arethi e Diana, se instalaram nos 3 telescópios para espionar esses confrontos entre os 3 mundos, em turnos alternados, para descanso e namoro. Diana estava tão boa na telepatia à distância que se concentrava nos cercos em meio do espaço, onde os mísseis saíam em curva em direção às tropas de Natália, Miguel e Fabio. Diana lhes dava um grito telepático e assim sabiam com antecedência de onde chegariam às naves carregadas de bombas e despontavam a intercepta-los.

Mitsuo, com trabalho em conjunto com Zezé e Helena sabia antecipadamente quem os atacaria desde “Y”, pois desse planeta os mísseis e as naves de combate saíam em bando como turbilhão de pássaros. E embora o trabalho de todos fosse perfeito, sempre um míssil os pegava de surpresa, eliminando um guerreiro. Silvio no fim do dia escrevia nos gráficos as baixas de guerra, e avisava da tragédia aos viúvos, ou aos namorados.

E, em “X”, enquanto Enzo fechava os buracos das torres petrolíferas, os “soldados mecânicos” chegavam para tampar os buracos das cidades, construir novos elevadores, e examinar as torres internas que sustentavam o teto de todas as cidades. Essas colunas eram ocas no interior com uma escada que chegava até a metade. Possuía janelas com saliências para ver a cidade desde o alto, e nelas também se armazenavam sementes para o plantio. Como essas colunas eram também hortas verticais, desde onde despencavam flores, frutas, verduras, os mecânicos as aperfeiçoaram com saliências maiores, para que o vergel se multiplicasse. As cobriram ao redor com uma pasta mole de metal liquido que ao esfriar ficou mais duro do que o aço. Era a “metalponita” um metal artificial que era fruto de uma “água regia” obtida de árvores e folhas.

Os “soldados faxineiros” desceram para desmaterializar todos os entulhos espalhados pelas ruas. Escombros de antigos edifícios que caíram ao chão matando muita gente. Em seguida limparam o ar de toxinas, do pó, de venenos ocasionados pelo cheiro da morte, tudo de um olhar. Depois saíram para a superfície, onde havia pouca coisa para se fizer. As areias do deserto terminavam de cobrir as antigas instalações de petróleo e sobre o planeta sobraram apenas algumas antenas solares, e mais nada.

Como ninguém desejava confraternizar com assassinos de guerra, Enzo terminou por congelar os prisioneiros de “W e de Y”, e guardou os corpos numa nave de carga, em meio do espaço. Um dia do futuro os enviava a todos para casa.

E foi desta maneira, que pouco a pouco o mundo “X” começou a ser evitado pelos inimigos. Nos planetas “W” e “Y” já era noticia que extraterrestres desconhecidos faziam desaparecer suas naves como fumaça no espaço, num cerco fechado em redor daquele mundo. Mas, para manter o poder, falaram para a mídia que “X” havia sido invadida por extraterrestres com uma tecnologia de morte superior, e que o planeta deles seria atacado da mesma maneira no futuro, para serem escravizados pela eternidade. E novos combatentes eram recrutados nos dois mundos para ir à guerra, enquanto as fábricas da morte trabalhavam dia e noite fazendo novos aviões, novas naves, novos mísseis, tudo em ritmo frenético.

Enquanto o caos tomava conta desses dois planetas, em “X” a felicidade começou a se espalhar. Sílvio desprendeu uma nave grande desta vez, e ela pousou no deserto com todos seus tesouros. Comidas feitas por robôs, agricultores robôs, e animaizinhos que iriam ser colocados em todos os zoológicos em pouco tempo. Os soldados trocaram suas suítes com amigos, pois as tropas de Enzo e Isaias passariam a dormir no mundo “X” e trabalhariam na recuperação desse planeta em todos os sentidos. Construtores iriam levantar novas casas, apartamentos, se recuperaria o funcionamento dos metrôs, médicos se dedicariam a curar doentes, e muitos guerreiros desejavam entrar nas Universidades para lhes ensinar a medicina superior e a engenharia geral.

Quando Enzo foi informado que sua namorada explodira no cerco de “Y”, ele caiu em depressão, como todos os viúvos. Sílvio o trouxe junto, o fez dormir, e depois o colocou em mãos de um psicólogo para chorar sua dor. Para ocupar seu lugar chamou Belizário, um tenente na lista de sucessão.

E foi em meio desse trabalho de guerra que Olaf começou a se recuperar da dor de cotovelo. Uma guerreira de olhos puxados, de sua altura, ajudava-o em tudo, pois ela desintegrava sozinha 5 mísseis de um piscar de olhos, limpava o chão nas cidades e o ar ficava mais limpo. Quando ela começou a tirar o uniforme, ele ficou louco de paixão e dali em diante só desejava poder amá-la. Ela escolhia vestidos justíssimos para se vestir, com abertura para mostrar a perna, um decote que mostrava metade dos seios volumosos, apertava a cintura com cinto, pendurava brincos que se encostavam aos ombros, vários colares de perolas, flores na cabeça e soltava os cabelos que chegavam na altura das nádegas. Sorria com sedução, mexia os quadris para caminhar, e Olaf se perguntava se era de propósito para atormentá-lo.

Mas, o que enlouqueceu o povo em geral, muito mais ainda, foi à abertura dos modernos zoológicos. Arethi viu desde longe sua tartaruga Nani e seus filhotes sair da horta da nave, no colo de amigas, junto à passarinhões, tamanduás, coelhos, ratos brancos, corujas, gatos, cachorros, e depois recebeu as fotos delas nadando numa pequena lagoa, e sendo admiradas por meninos que não sabiam que um bicho como esse podia existir. E quando um casal de cavalos brancos entrou num recinto com capim alto para comer, as pessoas aplaudiram com felicidade. Como nunca haviam visto animais tão grandes nessas cidades, eles passaram a ser filmados, para que o mundo todo os conhecesse.

Foi num beco do metrô que a China perdeu a paciência. Ela sabia que Olaf era louco por ela, que não dormia pensando em fazer amor com ela, mas, essa educação onde os homens se ajoelhavam ante um Rei, o fazia perder oportunidades de se declarar. Ela simplesmente o pegou da camisa com duas mãos, e lhe deu um beijo. Depois ela soube como é que um primitivo namorava. Olaf lhe falava:- minha princesa, ou, paixão de minha vida, ou, minha amada maravilhosa, enquanto a beijava-a ternamente. Seus braços a cingiam com firmeza, mas como quem não deseja causar dor na amada. China o comparava a seus antigos namorados que a agrediam com brutalidade, nunca lhe falaram uma palavra de amor, e depois de um tempo a chamavam com telepatia para terminar o namoro. Assim que o viu desmaiando de amor em seus braços, se levantou, carregou-o no ombro e o levou para o hospital, onde seus amigos médicos riram e lhe falaram no idioma de “L”: — vocês vão matar esta gente mais do que os inimigos... Quantas horas de namoro ele aguentou?

Depois de sair do hospital Olaf era outro homem, pois poderia no futuro aguentar 20 horas de namoro sem desmaiar e sem que isso fizesse mal para sua saúde. China achou ótimo, pois ainda havia a possibilidade de fazê-lo dormir com um dedo na testa e amá-lo como bonecão de borracha, o que não faziam mal a ninguém. E abraçados, ele a convidou a ir ao cinema, pois era no escurinho que a juventude de “X” namorava, além dos becos do metrô. China riu com gosto. Ele pagou os ingressos com dinheiro, sentaram no canto mais escuro possível, com o braço dele atrás, onde ela pousou a cabeça para receber seus beijos doces. E como viver separados dali em diante seria algo impossível, Olaf a pediu em casamento dentro desse cinema. China se voltou para ele, e lhe disse:

— Eu caso, pois amo você de verdade, com todo meu coração. Mas, você teria que morrer comigo, pois desta guerra ninguém regressa. E não desejo ter filhos.

— Eu morro com você, e não quero filho nenhum, só quero amor até minha morte acontecer.

— Isso você vai ter, com certeza.

E saíram correndo para um cartório. China passou a ser chamada dali em diante de China How, que era o sobrenome de Olaf. Para viver, Olaf comprou um apartamento em meio dessa cidade. A única excentricidade que China trouxe da nave gigante foi um assento erótico, que retirou do armazém dos mecânicos. E deitados de costas nessa maravilha tecnológica, Olaf só tinha um desejo, amar essa mulher para sempre. China, que lia seus pensamentos falou-lhe:

— Sabia que isso pode ser assim mesmo? Nunca mais, mas nunca mais beijar outra boca além da minha, de encarnação atrás de encarnação?

— Jura? E como isso pode ser possível?

— Fácil, podemos ir à nave de Sílvio, pois lá podemos chamar “00” e ele nos casa pela eternidade.

Desta vez Olaf caiu na gargalhada, como é que um ser espiritual podia ser chamado de “00”? E marcaram o dia com entusiasmo. Fariam uma festa de casamento dessa vez.

Depois de muitos dias internado, Enzo entrou nos telescópios para ver como estava “X” sem ele, ao lado de Diana, que estava em seu turno. E sorriu, pois não havia mais cidades abertas, e por cima delas os mecânicos haviam preenchido com cascalhos e pedras trazidas das encostas das montanhas. Todas foram impermeabilizadas com uma camada externa com uma massa plástica para fortalecê-las. Na superfície não havia nenhum poço de petróleo sequer, e todas as bocas mostravam entulhos e terra que tampavam para sempre os saques desse outro mundo. Só encontrou alguns buracos longe das cidades, que poderiam ser preenchidos com água. Chamou Isaías com telepatia e lhe pediu que lhe enviasse amostras da terra da superfície, das algas das praias dos oceanos, e um mapa das cidades e dos rios subterrâneos e dos aquíferos. Assim que Silvio apareceu nesses telescópios, ele lhe disse:

— O que achas de transformar “X” numa selva tropical?

— A bicharada ia adorar, imagina o tropel de cavalos correndo em meio disso... Só há um casal no zoológico, mas já temos uns 50 deles, além dos cervos, coalas, surikates, antílopes, capivaras e ariranhas... Nossa temos até zorrilhos fedorentos. Esses animais povoariam a terra, e seria um verdadeiro paraíso.

— É o que estou pensando. Acho que “00” colocou um dedo nisto tudo, ele sabia que nos íamos desejar fazer brotar o capim. Escolhe-me alguns biólogos e agricultores para estudar o que se pode fazer.

— É para já, e estas bem?

— Arrasado. Prepara-te, se ficar viúvo, tu vás a conhecer o que é o inferno.

— Claro que não, Arethi não sai daqui nem amarrada...

E riram em coro. Diana, que escutava tudo riu junto, pois seus dois homens com certeza que a amarrariam nesse telescópio para mantê-la em segurança. Depois deu um beijo no rosto em Enzo, um sorriso, um abraço, pois ele estava ruim mesmo. Sílvio o retirou temporariamente de qualquer combate, e o deixou responsável por uma única coisa, fazer crescer o mato no planeta “X”.

Diana caminhou para sua suíte a dormir, e acordou depois de 5 horas, suada, pois Aruma havia-a usado como boneca de borracha, mais uma vez. E como seu amado era realmente um homem muito feliz, não lhe deu bronca. Namoraram mais umas horas, pediram para os robôs trazer comida para eles num carrinho, e só saíram dessa suíte quando Sílvio chamou Diana para substituí-lo.

Os geólogos, junto aos agricultores, estudaram essa terra seca de “X” da melhor maneira, colocaram água doce por cima. Depois foram colocando sementes de feijão, de milho, mudas de uvas, de bananas, um pouco de tudo que eles cultivavam dentro das hortas das naves. Depois de 30 dias, mostraram para Enzo e Silvio, pois tudo crescia no dobro, ou no triplo, pois essa terra era cheia de minerais e ricas em nutrientes. Podia-se fazer crescer o maior matagal de todas as galáxias. Também molharam com água do mar, e o resultado era parecido, com mudas menores, pois o sódio não ajudava muito para a saúde desses brotos.

Com a aprovação de Silvio, Enzo pediu aos mecânicos que fizessem bombas para sugar água das profundezas, pois havia aquíferos gigantes embaixo do solo, longe das cidades e bombas para tirar água dos oceanos com varias usinas de dessalinização.

E com todas essas peças mecânicas prontas, Enzo subiu numa nave cargueiro e viajou de regresso para “X”. Como nessa altura não havia Rei, quem tomava as decisões eram Olaf e seus tenentes, que cuidavam das transformações das cidades. Enzo mostrou tudo que trouxera, e pediu autorização para instalá-las e construir uma empresa onde se continuariam realizando esses projetos, o que ia dar trabalho para muita gente. Seria também a ocasião de aprenderem metalurgia superior, a obtenção de metais com a mistura de cascalhos com troncos de árvores. Como em “X” não havia árvores, misturariam com as algas na beira do mar.

E esse trabalho foi longo, mas muito empolgante.

Enzo foi se curando dessa dor dilacerante, pois o mundo todo o acompanhou na empreitada. Desde o mar começou a fluir água, que entrava nas usinas para ser retirado o sódio, e saía como um rio molhando o chão escaldante. Começaram a se formar pequenos lagos sugando água de aquíferos, preenchendo buracos deixados pelas bombas de “Y”. Como tudo se transformava em vapor, as primeiras nuvens desse mundo começaram a escurecer os céus, combatendo o calor. Temperaturas começaram a mudar, e o frio ao redor das neves eternas dos polos começou a se expandir pela terra. E, um dia, finalmente começou a chover. Foi quando a contenção e o desvio das águas foi na corrida, para não abater os telhados das cidades subterrâneas. Tudo foi reforçado, e por sobre a terra foi disseminada mais uma camada de tinta isolante, grossa, e foi cavado um canal circular gigante, que desviava as águas em outras direções.

Assim que o capim selvagem começou a crescer sozinho, misturado a flores nativas de muitas cores, os veterinários que viviam em “X” fizeram cirurgia nos roedores, para condiciona-los a uma vida selvagem. Ganharam lentes nos olhos para suportar a luz dos Sois, e lhes ofereceram flores nativas de “X” para comer. E quem amava essa dieta foi sendo colocado na superfície. Depois os filmaram fazendo tocas no chão, iniciando uma nova etapa nesse mundo. Com o trabalho desses roedores o solo começou a respirar, arejar, acontecimento que deu passagem ao desabrochar de pequenos arbustos nativos.

Enquanto Enzo transformava “X” num paraíso tropical, plantando as primeiras mudas das árvores para fabricar a metalponita, em “W” não havia descanso. Fábio, Natália e Miguel se revezavam, mas as investidas contra eles nunca diminuíam, e os enfrentamentos em meio do espaço eram cada vez mais ferozes.

Silvio, desde longe consegui ver com clareza as fábricas da morte. A maioria era subterrânea. Escondidas, para o mundo não saber de como era gasto o dinheiro. Havia silos com tanta bomba, mas tanta, que era assustador. Começou a dar os endereços para Fábio.

Em num dia de descanso, ao lado de Ênio, que sabia tudo sobre esse mundo, com mapa nas mãos, Fábio, Natália e Miguel fizeram um plano para atacar dentro das cidades onde se fabricava tudo. Tinham que demolir cada arsenal desse mundo. Ênio lhes falou:

— Vão ver as naves de vocês desta vez, vão sair até na televisão, então podem morrer a qualquer momento.

Natália disse:

— A morte não existe amigo, apenas a separação. Né, amor?

E Miguel se arrepiou inteiro. Mas, os três entraram valentes nos combates. Formaram grupos pequenos desta vez, e saíram ao mesmo tempo a desintegrar arsenais. Depois olhavam para baixo, pois sobrava um buraco gigante, onde homens nus ficavam a espera de socorro.

Essa empreitada deu origem a muita gargalhada, pois a televisão de “W” não perdia detalhes de nada. Os soldados eram içados com cordas desde helicópteros, de buracos gigantes, e os donos desse mundo não conseguiam explicar nada do acontecido. E as perguntas dos homens da mídia eram sempre repetitivas: — esses extraterrestres não nos matam então, não podem ser amigos? Mas ninguém do governo respondia para eles, ficavam sem respostas, pois isso passou a ser “segredos de estado”. Os governantes simplesmente estavam atordoados, os alienígenas os matavam fora do planeta para que não invadissem “X” nem “Y”, mas também evitavam que as naves de “Y” os atacassem. Afinal, qual era o plano deles?

Todas essas incógnitas fizeram reagir a muita gente do povo, pois havia um boato que corria de boca em boca sobre uma “ilha misteriosa”, que desaparecia e aparecia nos radares das antenas espaciais. Também todos se perguntavam de onde vinham essas naves? Os generais sabiam que chegavam do espaço, mas havia as que apareciam do nada, como se estivessem dentro do planeta. Mas, como a ilha era “invisível” as frotas de “L” que desciam na ilha eram tão invisíveis quanto ela. E cada vez que se enviava um submarino nessa direção a espionar, eles desapareciam de todos os radares e nunca se encontravam destroços nem sobreviventes.

Muitos antigos amigos de Ênio lembraram que ele se refugiara naquele lugar. E um a um eles começaram a organizar grupos de refugiados e com ajuda de ONGs a remar mar adentro. Um ar de rebeldia estava voltando e a esperança de mudanças enchia o peito deles, mais uma vez. Como Sílvio os envolveu com numa nuvem cor de rosa, essas barcaças ficaram invisíveis, e nenhuma televisão falou dos fatos. Depois avisou Natália para ficar de olho nesses refugiados que chegariam nessa ilha, todos na beira da morte pela fome.

Quando Ênio, ao lado dos Chefes tribais, foram recebendo essas pessoas, Ênio se derreteu inteiro, chorando com soluços, abraçado aos velhos camaradas. Era emoção demais. Em redor, mulheres guerreiras especialistas em ressuscitar pessoas, pegavam os meninos nos braços, e corriam para deitá-los embaixo de um lugar ermo. Homens faziam o mesmo com as mulheres e as carregavam quais bebes, pois elas eram tão magras, tão esqueléticas, que não pesavam mais do que 40 quilos. Já os homens caminhavam mancando, com ajuda de um bastão, e sorriam mostrando uma boca com muitos dentes podres. Algumas guerreiras se emocionavam e os olhos se preenchiam de lágrimas que escorregavam pela cara sem pedir licença. Por mais que soubessem sobre desnutrição, estavam atordoados, esses bebês eram esqueletos com pele que morria aos milhares no mundo todo. Isso que estava em frente deles era apenas uma amostra do trabalho futuro. Sílvio calculava que no mundo todo havia uns 2 bilhões de gente agonizando pela falta de tudo.

Imediatamente Sílvio pediu para Anaha correr para essa ilha e tomar conta da ressurreição de todos. Ela escolheu os médicos de sua frota, os nutricionistas, as enfermeiras, e alguns robôs cozinheiros. Desceram as naves individuais durante a noite, para não serem detectados pelos radares de “W”. Todas em redor da ilha, nas praias, esticando pernas metálicas, para que essas naves ficassem na altura do mato, com a sombra delas por cima das areias. Eram naves cor marrons, ligeiramente alaranjadas, que se confundiam com a paisagem natural dessa ilha.

A recuperação dos menores foi em camas infláveis, na sombra de um arbusto generoso, pois respirar o ar puro dessa ilha fazia parte do tratamento. Como não tinham estomago forte, os fizeram dormir, e uma sonda foi-lhes colocada no baço para enriquecer o sangue, outra no estomago, com uma dieta liquida gota a gota. Os banharam com panos húmidos, e lhes passavam cremes para fortalecer a pele. Nos tratamentos dos adultos, eram caricias sobre o abdome para desintegrar as fezes, todas cheias de vermes desse mundo asqueroso, e introduziam lhes no baço uma sonda finíssima com nutrícios para fortalecer o sangue. Mas tarde davam uma cumbuca com uma “papa” misteriosa nas mãos. Eles sentavam no chão com colher, e comiam sem reclamar, pois era gostoso. As jarras de plástico transparente com sucos de frutescências estavam penduradas desde os galhos das árvores, elas possuíam uma manivela que abria a passagem do liquido, em tempo integral. As frutas maduras estavam embaixo de árvores frondosas, em cestos de palha seca, em tempo permanente. Eram maçãs suculentas, mamão, bananas, cerejas, pêssegos, melões cortados e melancias que se podiam comer quando se desejarem. Afinal, o mato estava cheio de melões, morangas e melancias, desde que Natália chegou naquele lugar. Ela havia ensinado aos nativos, que todas as sementes deviam ser guardadas como se fosse ouro, secar no calor e espalhar entre o mato.

No dia da recuperação desse povo, quando saíram do estado critico, só então, foram sendo levados para tanques de água a tomar banho. Sem nada de sabão, pois era uma mistura de desinfetantes para matar piolhos, carrapatos, feridas purulentas, manchas, acne, dedos tortos, e rugas. Depois vestia-nos estilo dessa ilha, uma tanga nos homens, e nas mulheres uma saia de fibras secas de cor bege e um bustiê. Quando elas reclamavam que deviam se tampar com panos na cabeça e cobrir o corpo inteiro, por causa das crenças religiosas, ganhavam um dedo na testa para esquecimento. Teve as que mostravam os seios dali em diante, com colares de sementes e flores na cabeça. Todas as suas roupas foram desintegradas com um olhar.

Natália filmou a ressurreição dos mortos vivos, gordinhos, pele dourada pelo calor, pele brilhando pela dieta, bailando em redor de uma fogueira durante as noites. Aos adolescentes os médicos lhes fizeram uma vasectomia provisória, com duração para 20 anos. Dessa maneira poderiam namorar, mas sem trazer ao mundo um filho fora do casamento.

Para esses casados Ênio lhes construiu uma casa de adobes de terra misturada com folhas secas, telhado de folhas de palmeiras, ao estilo dessa ilha, com uma rede para dormir, e uma porta para conservar a intimidade. Os filhos ficavam em outra casa igual a essa, longe dos pais, em colchoes infláveis, só de meninas, ou só de meninos, sempre da mesma idade. Durante o dia podiam se perder no mato para brincar, nadar, protegidos com os olhos vigilantes de robôs, para evitar afogamentos. Os homens solteiros tiveram que levantar suas próprias casas, e dormiam hipnotizados para não sair durante a noite a estuprar nativas. As mulheres solteiras ficaram em alojamentos maiores, com camas confortáveis, divididas com biombos. Todos os banhos passaram a ser no rio, e as necessidades em latrinas em meio do matagal. E as comidas, passaram a ser servidas em toalhas estendidas no chão, com todos sentados em redor, na moda dos homens desse lugar. Ênio e os Chefes tribais não desejavam nenhum vestígio de civilização naquela ilha, pois quem chegasse por lá tinha que viver como um nativo.

A tenente Anaha, que era bióloga e agrônoma, estava tão encantada com essa riqueza ambiental que começou a fazer mudas de tudo. Escolheu os jovens mais fortes desse grupo de refugiados, e os ensinou a cortar galhos e fazê-los crescer em potes de plástico com terra, junto aos nativos que já sabia plantar. Depois percorreu o mato em busca de sementes de mato nativo, e foram as inserindo fundo nas bolsas plásticas com muita água. Pouco a pouco as mudas estavam crescendo, eram pés de borracha, canelas, araucárias, seringueiras, pinheiros, coqueiros, aroeira, mogno, café, cabeludinhas, macieiras, e inúmeros outros, que se multiplicavam embaixo de uma lona grande, com a empolgação dos meninos. Os nativos se encarregaram de dar os nomes, tanto das árvores nativas como dos frutos.

Um dia Anaha deu um grito telepático para Silvio e lhe disse: — olha o que tenho para “X”, manda alguém buscar. E Enzo cruzou o espaço com a empolgação de um guri. Pegou uns dias de férias, nadou no rio acompanhado de uns 400 rapazes, que riam tempo todo, e bailou em redor de uma fogueira ao compasso de música de tambores e canções nativas, até tarde da noite. Natália e Miguel bailaram junto, pois estavam em seu turno de descanso. Além dos brotos de 20 cm, Enzo carregou com três sacolas com sementes de tudo.

Notas finais
Natália filmou a ressurreição dos mortos vivos, gordinhos, pele dourada pelo calor, pele brilhando pela dieta, bailando em redor de uma fogueira durante as noites. Aos adolescentes os médicos lhes fizeram uma vasectomia provisória, com duração para 20 anos. Dessa maneira poderiam namorar, mas sem trazer ao mundo um filho fora do casamento. Para esses casados Ênio lhes construiu uma casa de adobes de terra misturada com folhas secas, telhado de folhas de palmeiras, ao estilo dessa ilha, com uma rede para dormir, e uma porta para conservar a intimidade. Os filhos ficavam em outra casa igual a essa, longe dos pais, em colchoes infláveis, só de meninas, ou só de meninos, sempre da mesma idade.