Guerreiros intergalácticos
3 O reencontro dos amantes
Notas iniciais
Enquanto Sílvio se formava comandante, condecorado por “00”, o mundo “L de ALPHA” enlouquecia de vez. Cesio tinha que classificar os 10 tenentes de cúpula e para isso convocou a todos os tenentes — campeões entre os campeões — das “Universidades de Guerra” de todo o planeta, para os testes de classificação, em campeonato aberto.
Os 80.000 soldados que viajariam com Sílvio já estavam escalados, metade deles homens, a maioria tenentes, metade mulheres, a maioria soldados rasos. Entre os sargentos era meio a meio. Alguns tenentes casados viajavam com sua esposa, que, como não era soldado, era escalada para trabalhar dentro das naves, naquilo que sabia fazer, como cozinheira, lavadeira, ou na profissão que tivesse. Mas, mesmo assim, metade da frota era masculina e metade feminina.
Diana e Arethi, as recordistas em prêmio entre as mulheres, já eram amigas íntimas de tanto se enfrentarem no tatame. Aruma, Miguel e Alessandro eram os invencíveis, depois que Fábio trocara os campeonatos pelo amor sem fim. Mas, das outras cidades, começou a chegar gente que nunca tinham visto na vida. Havia dois homens de pele amarela de olhos puxados, que, orgulhosamente, mostraram aos organizadores 5 malas cheias de medalhas. Só por isso, Enzo e Mitsuo já se destacava entre os corredores da escola, e as mulheres os olhavam com curiosidade. Eram enigmáticos, e sorriam com moderação.
Fábio e Helena saíram de casa correndo e se juntaram aos amigos para os treinos. Ambos já estavam formados como tenente, só haviam perdido a forma nos esportes. Natália começou a preparar Helena nos golpes, Diana na espada, enquanto Aruma exercitava Fábio, afinal era o único que conseguia desmaiá-lo numa pancadaria.
Sílvio foi ressuscitado numa cúpula de Lua desse mundo. Já recuperado, forte, bem alimentado, subiu numa nave e voou até o aeródromo de sua cidade. Desceu no aeródromo através de um raio de luz, carregando a tartaruga Lalo numa bolsa, e puxando uma mala gigante ao lado, com as coisas que trouxera desse outo mundo. Abraçou seus pais e seus sogros que o cercaram eufóricos. E rindo lhes perguntou:
— E cadê a banda de música, minha namorada, meus amigos?
Cesio lhe respondeu:
— Não se ofenda filho, pois ninguém sabe que você voltou. Estão todos no ginásio ou em frente à TV assistindo as lutas, pois este mundo está um caos e a culpa é toda sua.
— Minha?
— Sua! Seu amigo Fernand chegou por aqui com 100 repórteres de “D a “V” de nosso sistema, mais uns 5 “Sacerdotes estelares”, sei lá de onde. E estão aqui todos os diretores de todas as “Universidades de guerra”. Tenho 50 hotéis flutuantes lotados de hóspedes. Eles me perguntam sobre tudo... quantos robôs vão acompanhar os guerreiros, o que vão comer, o que vão vestir, está uma baderna terrível...
— O que eu faço?
— Vá para sua casa e assista tudo pela televisão. Arethi e Diana estão no ginásio há horas se enfrentando sem sequer um aranhão. O pessoal nem respira assistindo-as na luta de esgrima.
E Silvio seguiu o conselho à risca, respirando o ar puro, doce, cheio de pássaros em revoada, enquanto seus pais e seus sogros corriam de regresso ao ginásio.
Entrou numa área espaçosa de seu lar, com vidros que permitiam apreciar a beleza do jardim. Soltou a tartaruga macho Lalo entre o canteiro de verduras de sua mãe, hipnotizado para não fugir desse jardim, pois queria que Arethi visse como estava grande e malcriado. Mordia-o por qualquer motivo. Depois ligou a TV para ver as lutadoras mais lindas desse mundo. Diana que era linda de verdade e Arethi, que além de linda, era o amor de sua vida. Seu coração começou a bater enlouquecido. Arethi estava com um uniforme branco grudado como luva, que mostrava cada curva desse corpo perfeito, pois ela estava convertida numa explosão de sensualidade. Carregava uma espada de esgrima. E a viu dando cambalhotas, atacando com firmeza, parecia mais uma artista do que uma lutadora. O seu estilo era único, nunca visto nesse ginásio, colocava uma mão na cintura e atacava a adversária com movimentos ousados. Depois olhou para Diana e ficou apavorado, pois ela estava com 20 dias de gravidez e uma estocada na barriga seria fatal para o bebê. Chamou com telepatia para Aruma, aos berros, e depois fez Diana desmaiar que nem passarinho. Ela caiu em câmera lenta, de joelhos, de lado e finalmente ficou de costas no chão. Depois viu Arethi levantando os braços de campeã, enquanto seus sogros corriam como crianças para abraçá-la.
No fim do dia todos os ganhadores fizeram fila em frente aos organizadores, para receber as medalhas. Arethi estava com a boca inchada, pois perdera para Natália no Box. Ela estava com uniforme verde, cabelo solto e calçava tênis. Quando viu um tumulto na entrada, olhou com atenção. A gritaria era diferente desta vez, pois estavam todos aplaudindo. Quando viu seu lindo homem todo vestido de branco, abrindo o caminho até ela, desmaiou como Diana, ali mesmo. Miguel conseguiu segurá-la no ar enquanto Natália e Zezé começavam a gritar e Alessandro corria para abraçar seu irmão. E tudo foi uma grande bagunça, pois Fernand já estava fazendo entrevista ao vivo, desta vez abraçado ao comandante. E todas as mulheres ao redor desejavam beijar Silvio. Ele terminou por fazer um breve discurso para a televisão intergaláctica e depois pediu licença para beijar sua noiva.
Arethi acordou de seu devaneio com o beijo mais doce de sua vida. Os curiosos contavam os segundos observando a cena e assim que Aretni sorriu para o público, todos voltaram a gritar e aplaudir, pois ninguém jamais soube que Arethi era o amor do comandante. Depois, Silvio a carregou nos braços e caminhou entre todos, se abrindo passo até um carro aéreo, para se perderem com destino desconhecido.
Silvio entrou num hotel flutuante vazio, apenas com um robozinho cozinheiro em cada suíte. No dormitório fez Arethi flutuar no ar, levitando-a até que sua barriga ficasse em frente de sua boca. Começou a beijá-la, descendo-a aos poucos, e assim que a beijou na boca Arethi o abraçou, acariciando lhe os cabelos loiros como raios de Sol, enquanto seu amado lhe falava com telepatia palavras ternas, que a fizeram começar a chorar de emoção. Silvio secou suas lágrimas com beijos, e em seguida a deitou docemente sobra a cama. Deitou junto dela, sorrindo, pois a felicidade de estarem juntos estava apenas começando.
Arethi dormiu abraçada ao seu homem, assim que ambos desmaiaram de amor. Quando acordaram, sentaram na cama para o desjejum, comeram ovos mexidos por cima de panquecas com manteiga, salada de frutas com creme branco, suco de uva, sobremesa de bolachas recheadas com caramelo, pastelão de cebolas, pastéis de maçã e chã de ervas. Afinal, os robozinhos desse hotel liam a mente dos visitantes assim que entravam nas suítes e programavam o cardápio de acordo ao que eles mais gostavam. Assim que os hospedes acordavam, o banquete chegava à porta fumegante. A única coisa que Arethti não percebeu, durante esse reencontro de amor, é que Sílvio também lhe amadureceu dois óvulos para engravidá-la de gêmeos.
Olhando para a televisão, souberam de tudo que acontecia nas disputas para tenente de cúpula. O primeiro nome que Fernand anunciou para a rede interplanetária foi de Aruma, que venceu todos os campeões de todas as cidades. O seguiam na classificação Mitsuo, Fábio, Natália, Enzo, Miguel, Alessandro, Helena, Zezé e Diana, que ficara em último lugar, pois fora eliminada das últimas lutas por causa da gravidez. Arethi estava no 11º lugar por ter abandonado o ginásio. Seguiam na lista a tenente Anhna, Isaías, Belizário, e Maristela, que entrariam na cúpula se fosse necessário.
Sílvio perguntou para sua amada:
— Estás triste por ser a número onze?
— Não! Miguel me falou que você ia me encher de filhos e que eu só iria dar de mamar durante essa guerra...
Sílvio soltou uma gargalhada com gosto, pois seria assim mesmo. E lhe disse:
— Mas, quem escolhe o número dois, ou seja, meu sucessor é “00”! Adivinhe quem é.
— Hum... Natália, a demolidora?
— Não, ele escolheu você! E depois de vê-la na arena acho que ele escolheu muito bem. Estou muito orgulhoso de você, minha querida!
E Arethi começou a chorar. Ser a maioral significava que Sílvio tinha que deixá-la viúva e, só de pensar nisso a deixava desolada.
— Que é isso, amor? Ninguém está seguro numa guerra. Nós mesmos já passamos por isso em vidas passadas. Pode morrer a Natália, ou o Miguel e vamos ter que encarar. Além de que vou ficar em segurança nos telescópios, lendo a cabeça do inimigo, enquanto você dá de mamar aos meninos. Agora me deixe ver se já engravidou.
Sílvio colocou o ouvido no ventre de Arethi, mas não sentiu nenhuma vibração. Procurou nos armários da suíte por um vidro vermelho e o colocou por cima do útero, à procura de uma luz. Aguçou a mente, visualizou o interior desse útero e ali dentro só havia sêmen enlouquecido. Só podia haver uma explicação, os óvulos estavam desprezando os espermatozoides e fugindo como o rato foge do gato. E começou a berrar:
— Afinal, o que há com você? Seus óvulos fogem de mim, apavorados. Por acaso deixou de me amar?
— Se falar isso de novo eu arrebento sua linda cara.
— Falo, sim, por quantos homens foi beijada, afinal? E de qual deles gostou mais?
E não falou mais nada. Arethi deu-lhe um soco no queijo que o fez cair para trás e bater a cabeça contra uma cadeira. Desmaiou sangrando. O que foi um santo remédio, pois com o susto de ver Sílvio ferido ela engravidou imediatamente de gêmeos.
Sílvio começou a gemer, pois a dor de cabeça voltara muito forte e não estava Johan com suas agulhas para tirá-lo do sufoco. Arethi o tratou como médica, massagens nos pontos da dor, deu-lhe alguns golpes com o dedo médio, como se fosse martelo, para anestesiá-lo. Depois lhe disse:
— Você está doente, meu querido, essa dor nada tem a ver com meu soco.
— Eu sei, as tenho desde que cheguei a “B”. Fiz tratamento, mas elas voltam de vez em quando. Agora me consola.
Arethi acariciou seus cabelos loiros, beijou-o com amor, e depois o viu dormir entre seus braços como um bebê. O examinou novamente, e lhe fez outras massagens para tirar-lhe o cansaço. Afinal, ele havia atravessado o universo e isso mexia com o corpo todo.
Arethi e Sílvio saíram desse hotel quando 3 Espiões de “E de ALPHA” foram descongelados, ressuscitados e alimentados no aeródromo espacial. A pedido de Sílvio, no passado, eles traziam informações dos três mundos que entrariam em guerra no Sistema SIGMA e as respostas a todas as perguntas dos guerreiros.
Enquanto Cesio recebia os Espiões de “E de ALPHA” e os acomodava num hotel flutuante, Silvio desceu com Arethi direto ao templo para casar em frente a “00”, que confirmou para Arethi que ela era a segunda nessa classificação de campeões. Depois foram até a casa de Sílvio, para que Arethi visse Lalo e para repartir os presentes para a família.
Depois foi tudo confusão. Enquanto Arethi conversava com a tartaruga:- oi meu lindo, como você cresceu, o papai tratou bem você? Silvio chamava seus 10 primeiros tenentes para se reencontrarem. E em pouco tempo a sala dessa casa lotava, com Miguel e Natália, Aruma e Diana, Alessandro e Zezé, que foram os primeiros a chegar, abrindo garrafas de vinho de “B”, abrindo pacotes com joias para as damas e excentricidades para os homens. As mais esquisitas eram as cuecas. Sílvio explicava que o tecido esticava como uma camisinha de um mundo inferior, para não engravidar as mulheres. E entre risadas e sempre falando coisas triviais, Miguel lhe disse:
— Já estás sabendo que somos irmãos trigêmeos? Eu, tu e Alessandro?
— Mas, o que é que eu tenho em comum com vocês? Eu sou lindo...
E as gargalhadas eram gerais, pois havia um ambiente de felicidade por estarem todos juntos mais uma vez e prontos para entrar em ação. Depois foram chegando Fabio com Helena, e os tenentes Mitsuo e Enzo, dois homens enigmáticos, sérios, que mal sorriam. Mas, de repente, Silvio teve uma dor de cabeça tão forte, que desmaiou no chão. Imediatamente o levaram para o hospital, todos assustados, pois o comandante não podia morrer antes da guerra. Estava fora dos planos.
Quem abriu os miolos de Silvio foi Mitsuo, que além de ser campeão em espadas primitivas, era o melhor cirurgião do planeta. Com um bisturi fez uma cruz para soltar a pele craniana, desgrudou-a e a segurou com pinças. A seguir cortou um pedaço de osso com o diâmetro de uma uva. O pedaço de osso levitou no ar e desceu numa tigela para desinfecção. Helena e Arethi, ao lado, vestidas de enfermeiras, mal respiravam. Mitsuo separou os miolos sem sequer tocar neles, pois abriu passagem com a energia que saia do dedo indicador, das duas mãos. A massa craniana foi se afastando, sem sangrar, sem lastimar uma veia sequer, até que um tumor do tamanho de uma ervilha ficasse nítido. Mitsuo soltou-o devagar, só com energia, fazendo-o girar como uma bolinha e o levitou no ar lentamente, fazendo-o viajar em curva, até cair em mais uma tigela nas mãos de Helena. Em seguida foi juntando a massa encefálica novamente e, por último, o pedaço de osso foi recolocado e colado. Finalmente a pele foi deitada por cima, a cruz foi costurada por Helena e Arethi passou-lhe uma tinta roxa por cima dos cortes.
Depois desse susto e de um descanso nesse hospital, Silvio mais uma vez chamou seus tenentes para se reunirem, desta vez com Fernand como convidado e os Espiões de “E de ALPHA”.
Cesio nessa altura havia condicionado um hotel especial, em cujo lugar havia suítes para todos, além de um refeitório comum com 10 robôs para cozinhar o tempo todo, e uma sala de conferência com mesa redonda e com assentos duplos para casados e individuais para solteiros. Também havia paredes perfuradas para grudar gráficos e fotografias, e no fundo da sala um projetor para colocar caixas de imagens, para mostrar filmes e documentários. Em frente ao projetor havia uma tela branca para ver as filmagens, junto a dois aparelhos de som, microfones, enfim.
E um a um os tenentes foram se acomodando nas suítes, e quando Sílvio os chamou para a primeira reunião entraram nessa sala seríssimos, sentaram nos seus lugares, e receberam os 3 Espiões de “E de ALPHA” com aplausos quando eles adentraram. Eram 3 homens sem nome, apenas código, um deles era 004, outro era 002, e o terceiro 006. Os 3 estavam vestidos de preto com uma capa nas costas, até altura da cintura. Tinham altura média de 1,80 m, eram magros, enigmáticos e sérios. Eles distribuíram revistas com fotografias dos três mundos, e disseram que começariam falando sobre o mundo “X de SIGMA”. Enquanto todos olhavam as revistas, 004 explicava as características desse planeta, numa voz pausada, calma, que todos começaram a escutar com curiosidade. Fernand, aos lados de todos, aprontou sua filmadora em frente a ele, para registar cada palavra para posteridade.
E 004 falou que o mundo de “X” era pequeno, talvez a décima parte de “L de ALPHA”, e era uma sociedade que havia inventado uma forma excêntrica de viver, talvez por causa de desastres ambientais em períodos remotos de sua história. Todas as cidades eram subterrâneas, embaixo de uma superfície terrestre estéril, árida e escaldante. Havia oceanos, mas não havia rios percorrendo esse mundo para dar origem aos vergéis. Todas as quebradas entre morros estavam ressecadas pelo calor. No interior das cidades eles usavam energia solar para tudo, pois ela lhes chegava através de antenas solares espalhadas aos milhares na superfície. As águas para consumo eram extraídas dos rios subterrâneos. Possuíam estações de decantação das águas servidas e reciclagem de tudo que eles fabricavam. Nada se perdia. Tudo era reutilizado. As fezes de humanos e animais eram encaminhadas para a superfície para secarem ao Sol e depois as usavam como adubos nas hortas subterrâneas. Possuíam mini fazendas para criação de codornas, galinhas, pombos, que faziam parte do cardápio humano. Todas as cidades se comunicavam entre si através de trens e a arquitetura delas era belíssima. Não conheciam a criminalidade. Não tinham armas, nem soldados de guerra, sequer polícias de rua. O único retardamento que ainda existia era o acúmulo de dinheiro, o que fazia que houvesse pessoas muito ricas, ou seja, uma classe superior e outra inferior. Vivia-se uma média de 200 anos, conforme o calendário do planeta, e a velhice era sadia, quer dizer, se morria de velho. Altura média de 1,65 m. de pele amarela, olhos puxados, bem parecidos aos tenentes Enzo e Mitsuo.
As risadas brotavam em coro e Enzo ficou sem graça, enquanto Mitsuo se levantava e fazia uma reverência engraçada.
Sílvio lhes perguntou no fim:
— Sem soldados vão morrer como moscas em dia de chuvas, e quem os irá invadir?
002 explicou:
— O mundo de “W” é ladrão de petróleo, então podem chegar até “X” e perfurar o chão a qualquer momento. Mas, “Y” já é outra história, pois eles roubam bestas e homens. E vão fazer isso em todo canto que conseguirem alcançar, a indústria da morte deles é fortíssima e eles estão muito adiantados nos voos espaciais.
Todos falaram em coro:
— Homens? Para que roubar homens...
006 respondeu-lhes:
— Para comer! São canibais, por incrível que pareça. Eu fiz uma filmagem detalhada, e vão se assombrar quando virem às imagens, pois a tecnologia deles é muito evoluída, tem cidades tão lindas quanto as nossas.
A seguir 002 fez um discurso sobre esse planeta de canibais, mostrando fotografias que havia na parede junto a alguns dos gráficos.
As cidades de “Y” eram modernas, com ruas espaçosas, arborizadas, canteiros com flores, e gente muito bem vestida. Carros e aviões se disseminavam, tanto em terra como no ar, e os exércitos mostravam caminhões de soldados que percorriam as ruas para manter a ordem. Eles eram pessoas de pele branca, cabelos de cores escuras e eram muito cabeludos, os homens deixavam crescer bigodes, barbas, sobrancelhas grossas, e algumas mulheres mostravam que se barbeavam diariamente na luta contra os pelos. Altura média de 1,80 cm. Como eram carnívoros fanáticos, haviam consumido 80% dos animais desse mundo. O que restara era reproduzido em fazendas e vendido a preço muito alto, para consumo. Eram alérgicos a verduras e frutas, pois sofriam de dor de barriga e se adoecia de “magriça”, a pior doença desse mundo. Consumiam carne humana que era cortada, embalada, e distribuída assim que alguém morria nos hospitais de algo que não fosse infeccioso. Mas, havia um continente esquecido com gente faminta, os quais eram assassinados para que não faltasse carne nos açougue. A velhice deles era impiedosa, pois aos 60 anos, conforme o calendário deles, se ficava com os cabelos brancos, e muitos morriam de câncer galopante. Gente muito gananciosa, o que os dividia em muito ricos, e uma classe media dividida em vários patamares, além dos miseráveis que viviam nas periferias das grandes metrópoles.
Como todos os tenentes mal respiravam, como estátuas nos assentos, sem perguntas ainda, ele passou a palavra a 006 para que falasse sobre “W”.
006 mostrou duas fotos que estavam na parede, uma mostrava um casal belíssimo, ricamente bem vestido, com um carro maravilhoso e no fundo uma mansão em forma de castelo. Ao lado uma foto de um casal seminu, junto a um barracão de madeira, magros, doentes pela falta de tudo. Depois foi explicando que “W” possuía duas superpotências mundiais que possuía 80% da riqueza mundial. Nesses dois países havia uma vida abastada, pois eram os donos do mundo, ambos possuíam um exército muito forte, com armas de destruição em massa. E em contrapartida existia 200 países famintos, onde se sobrevivia da agricultura, mas as doenças os matavam aos milhares, pois apresentavam uma péssima saúde. Existiam os homens de pele branca, altura média de 1.85 m e os de pele vermelha em algumas ilhas com tribos de homens seminus, um pouco mais baixinhos. E todos eles, ricos e pobres, tinham uma velhice terrível, eles morriam em média aos 70 anos, com doenças mentais sérias, câncer, fraqueza, pele enrugada, cabelos brancos e cegueira. O maior problema do mundo eram as energias. Haviam esgotado o petróleo e para substituí-lo estavam usando etanol, um álcool extraído de plantas. A energia nuclear estava começando a se expandir, sendo usada para gerar energia elétrica e para lançar foguetes para o espaço. O programa espacial era mais atrasado do que o de “Y”, então, o que se podia concluir, era que “Y” chegaria nesse mundo em primeiro lugar, e eles se defenderiam com mísseis de longo alcance. “W” possuía selvas com animais fantásticos, gigantes, que faria os carnívoros de “Y” invadi-los sem dó nem piedade, queimariam o mato, roubariam as manadas, iriam converter esse mundo num inferno.
Sílvio e os tenentes aplaudiram o trabalho desses Espiões de “E de ALPHA” e Sílvio pediu a Fernand que fizesse cópias desses discursos para as “Universidades de guerra” e que as filmagens fossem exibidas em todos os cinemas do mundo todo. Para eles mesmos, marcou data para se reencontrarem nesse mesmo auditório para ver os filmes. Em seguida saíram para uma praça, dentro desse hotel, com mesas grandes para que sentassem juntos. E depois deu folga para os Espiões. Fernand, que já se considerava em casa, se ofereceu para levá-los em roteio pelo mundo.
Dentro das suítes, estômago bem nutrido, Miguel beijou sua mulher preguntou: — qual idioma primeiro? E ela disse: — de “W”, pois é ali que quero chegar primeiro, nesses povos nativos de pele vermelha. Sentaram frente a frente numa cadeira dupla, com revistas e livros entre eles, enquanto escutavam o idioma vindo de uma caixinha. No fim do dia, ambos já dominavam o dialeto dos homens de “W” e começavam o chamego. Só falando com telepatia sobre o futuro, Miguel perguntou:
— Já passou pela sua cabeça a ideia de ser comida como bife?
— Já! Quem sabe, um dia, vou virar sopa de primitivos...
E entre risadas e beijos, namoraram até desmaiarem.
Aruma preferiu um assento com descanso para as pernas, para os braços, que os deixaram semideitados. Diana sentou junto, pegou uma revista, que estava escrita no idioma de “X”, com a tradução, e começou a estudar. Depois, namoraram, mas Diana desmaiou logo. Aruma colocou uma regata sem mangas, uma bermuda, e saiu em busca de comida. Tinha esquecido que ela estava grávida. Quando viu Sílvio buscando alimentação reforçada para Arethi, riu consigo mesmo. E preguntou para Sílvio o que é que devia levar para alimentar sua mulher. Silvio lhe deu um vidro com ovos de codorna, uma sobremesa de arroz doce, uma garrafa de leite de arroz, mel, panquecas de bananas e suco de laranja. Aruma foi colocando tudo numa bandeja e correu para alimentar seu futuro filho. Isso era coisa dele, com certeza um guloso que comia tudo que mamãe colocava para dentro.
Para ver os filmes, os Espiões haviam encostado a mesa no teto, e distribuído os assentos espaçados, para todos verem a tela branca sem que nenhum fizesse sombra para ninguém. Os casados nas cadeiras duplas, mais a vontade, com as esposas sentadas por cima, com direito a beijo no cangote, e os solteiros na frente. Sílvio gritou que quem não olhasse os filmes ia ser rebaixado a soldado. Miguel puxou um botão da camisa e o lançou no pescoço de Sílvio sem pena. Depois Sílvio recebeu um sapato nas costas, enviado por Alessandro. E entre gargalhadas generalizadas, as imagens de “W” ficaram nítidas na tela.
As primeiras tomadas eram ecológicas, para mostrar a natureza em todo seu esplendor, as montanhas nevadas, com cachoeiras altas e barulhentas, ou, com lagos azuis cristalinos, as praias com ondas gigantes, e em alguns lugares manchas pretas de petróleo. Hidrelétricas as havia em toda parte, levando energia para as indústrias. As usinas nucleares funcionavam em lugares isolados, mas, em entrevista, um engenheiro explicava que já houve, no passado, vazamentos que colocaram a vida dos homens em perigo. As fábricas desse mundo eram gigantes, até com 10.000 pessoas, suando em turnos de trabalho desgastante. As empresas nunca paravam de produzir, pois aparecia nas imagens uma rodizio de gente entrando e saindo em turnos rotativos. Mas isso era nas duas superpotências daquele mundo. Já nos países pobres as imagens eram de empresas menores, além de muitas delas serem familiares, onde se faziam tudo a mão, tapetes, tecidos e artesanatos.
Sobre o amor, nos países ricos os casais controlavam a risca a natalidade, no máximo 2 filhos. O documentário enfocou um casal num mansão linda, móveis decorados com gosto, brincando com os meninos. Numa outra cena se mostrou essa mesma mulher recebendo amantes mais jovens durante o dia em casa, enquanto o marido fazia o mesmo no escritório com as secretárias. E foi a vez da briga entre marido e mulher. Eles brigavam quando o marido descobria a traição. Davam-se socos, pontapés, e a polícia intervinha chamada por vizinhos. Depois viram cenas de namoros entre a juventude em baladas barulhentas. A seguir as filmagens mostraram lugares mais sinistros, lupanares com gente se drogando, bebendo, e outros onde havia prostituição. Mulheres e homens que ganhavam dinheiro vendendo o corpo. Muitos deles eram casados, pois a prostituição era considerada trabalho. Apenas isso. E por último se mostrou o interior das cadeias. Pessoas atrás das grades como animais, se agredindo uns contra outros e com mortes entre os presos com facadas violentas.
E na última parte das filmagens se enfocava como era a medicina de “W”. Nos países pobres, viu-se um hospital de campanha, com médicos tratando de uma epidemia, pois havia mosquitos que os contaminavam com 10 pestes diferentes e eles sequer tinham remédios suficientes para todos. Nos países ricos, os hospitais eram bem equipados. Ficou a vista os doentes com câncer sendo tratados com quimioterapias, com gente sem cabelos, enfraquecidas, também apareceram pessoas fazendo hemodiálise, e cenas que mostravam cirurgias sangrentas, cirurgiões fazendo transplante de órgãos, e os médicos que faziam abortos, pois o controle da natalidade se fazia matando a criança. Os bebes eram cortados em pedacinhos dentro do ventre da mulher e jogados no lixeiro, como dejetos.
Quando o filme terminou e as luzes acenderam, Sílvio e Aruma haviam desmaiado as mulheres para que não vissem os abortos.
Zesé, intrigadíssima perguntou:
— Mas, não encontraram o amor verdadeiro mesmo?
006 respondeu:
— Só entre gente humilde. Desses homens que morrem cedo e que são invisíveis para o sistema planetário. Nos países ricos as pessoas casam e descasam, e os filhos são criados às vezes pela mãe, outras pelo pai, ou os avôs, e tem as mulheres que engravidam nas festas, não sabem de quem é o filho e o criam sozinhas.
Zesé interveio:
— Mas, o amor poderia ser ensinado, ou não? Alessandro poderia filmar uma história de amor e passar para eles. Né, querido?
Alessandro respondeu:
— A vida imita a arte, isso é algo certo. Não trouxeram filmes deles? O que é que eles assistem nos cinemas?
— Trouxemos vários vídeos, “Garganta funda”, o “Exterminador”, “Assassinos perigosos”, mas, eles são para gente de estômago forte. No filme “Invasão intergaláctica” os alienígenas, quer dizer, todos nós temos rosto de animais e matamos com armas de fogo, é uma gozação...
Sílvio falou na hora:
— Bem Fábio parece um elefante, Aruma um gorila, eles vão assustar todo mundo... Já imaginaram um filme de amor entre Aruma e Diana? Quem é que vai acreditar em “W” que uma lindeza se casaria com um gigante escuro e assustador como a noite?
006 respondeu-lhe, enquanto Aruma falava com telepatia: — isso merece uma surra... E os demais riam em coro:
— Aruma, isso é verdade, você vai aterrorizar esses homens. Não existem pessoas de pele tão enegrecida como a sua, nem homens cheios de musculatura, em nenhum dos três mundos. E agora, seria bom que as esposas grávidas fossem dormir, pois as cenas de “Y” são mais pesadas...
E Silvio tomou Arethi nos braços e foi saindo de fininho, enquanto gritava:
— Quem vomitar vai ser rebaixado a sargento...
E mais um sapato lhe caiu nas costas sem pena.
Os Espiões não entendiam como é que “00” havia escolhido um bando de palhaços para essa missão, só Enzo era um homem sério, pois Mitsuo já se havia contaminado e ria por tudo. E esperaram o regresso do Comandante para iniciar o filme.
A primeira sequencia que mostrava o mundo de “Y” era ecológica, com bosques com criação de madeiras para corte, de preferência, pois usavam a madeira para tudo, principalmente móveis e casas bem estruturadas. E, por incrível que fosse, nenhum mamífero em lugar nenhum, apernas lagartos, cobras, rãs, que os homens não gostavam de comer. Já nos centros das grandes cidades a construção mostrava edifícios tão altos, que eles os chamavam de “arranha céus”. Eram arquiteturas muito belas, luxuosas, com lojas comerciais que mostravam que nesse mundo um ser humano dispunha de tudo para viver no conforto. O mais feio, eram os próprios homens. Os mais ricos faziam corte de barba harmoniosa, já os mais pobres a deixavam crescer os pelos desordenadamente. Havia os que não mostravam a boca de tanto bigode. A maioria das passeios e os ônibus do transporte público. As pessoas mal se davam a mão quando encontravam os amigos em público, pois agrupamentos de mais de 5 pessoas era proibido.
A coisa mais surpreendente era que o amor existia nesse mundo. Os homens casavam com as mulheres que amavam e eram fiéis, num 80% dos casos. As mulheres também os reverenciavam, não abriam a porta de casa durante o dia e eram ardentes, carinhosas. Cuidavam dos filhos com dedicação, os acompanhavam até a escola todos os dias e só eram surpreendidos pela aflição quando eles começavam a namorar. O medo de um filho desaparecer numa festa juvenil era motivo do maior estresse entre os adultos. Controlavam a natalidade com uso de comprimidos e os homens faziam vasectomia quando não desejavam ter mais filhos.
Para encerrar, as câmeras haviam enfocado as festas dos magnatas, dos milionários, dos poderosos, a maioria militares, ou amigos de militares, junto a artistas famosos, escritores bem sucedidos, comerciantes e donos de empresas. Dentro de mansões gigantes, até com 80 suítes, os banquetes eram fartos e as bebidas nunca faltavam. As mulheres eram depiladas, tingidas de cabelos mais claros, maquiadas, e seus corpos eram lindos, graças a cirurgias plásticas e tratamentos caros de beleza. Todos riam felizes, mostrando sadicamente o contraste com as famílias humildes desse planeta. E com enfoque bem aproximado, mostravam pratos com orelhas humanas para deleite ao paladar.
Quando a luz acendeu, Silvio e Aruma riam das mulheres que saíram rapidinho para vomitar longe dali. Depois Sílvio marcou para outro dia ver as imagens de “X” e deu uma folga para todos. Saiu em busca de sua mulher e depois a levou para a casa dos sogros, para que ela fosse mimada pela família e para que Lalo se juntasse a sua família rastejante, de mais ou menos 30 tartarugas que havia nos jardins, algumas recém-nascidas, já outras enormes de 40 cm, e as que mediam 10, ou 20 cm. E falou para Arethi :
— Só pode levar na viagem um casal, meu amor, e escolha entre as mais bebezinhas...
— Obrigada, meu querido... Vou levar a Nani com um namorado...
Silvio caiu na gargalhada, pois todos os bichos dessa casa tinham nomes, como se fossem gente.
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