Guerreiros intergalácticos
11 A fábrica da beleza
Notas iniciais
Depois de um desjejum abundante, com ovos mexidos, café com leire de cabras, frutas, panquecas com queixos, molhos vermelhos, repolho roxo, imitando o que os outros comiam, 002 estava recuperado. Não havia mais carne nos cafés da manhã desse hotel, parece que as dietas alienígenas estavam fazendo efeito, pelo menos ali. Só sentiu falta das tortas de cremes com morangos, e dos sorvetes com bolachas de chocolates. Pegou um taxi e se encaminhou até a imobiliária. Passou o dia olhando fábricas, mas, quando chegaram numa fazenda falida que vendia galinhas, encontrou o que era mais do que perfeito. Podia-se limpar tudo, construir uma empresa com laboratórios, e cultivar porcos, pois o creme seria feita com banha de porcos, pelo menos isso seria escrito nas embalagens, disfarçando a mistura certa que era à base de babosa. Chamou Guilherme pelo celular e lhe pediu para se encontrarem para conhecer o lugar.
O que Guilherme nunca soube, é que embaixo da terra, os alienígenas cavariam um subterrâneo para esconder 2.000 guerreiros.
Guilherme trouxe junto seu primo Bernardinho, seu testa de ferro, pechinchou no preço com o vendedor da imobiliária, e antes desse dia terminar os papeis de compra estavam no poder de todos, assinalando 002, ou seja, Ricardo Prado como gerente, Bernardinho como diretor geral, e Guilherme não aparecia em lugar nenhum, pois ele seria um fantasma naquela empresa. Para festejar, Guilherme invitou 002 a conhecer sua esposa. Chamou para ela no celular, e junto com Bernardinho se encaminharam ao lugar onde ele vivia.
No enorme apartamento, o último de um edifício de 30 andares, onde se podiam contemplar as estrelas e as luzes da cidade, 002 apertou a mão de Alberta, que estava vestida de vermelho fogo, penteado igual à Ruth, joias parecidas, e maquiagem à vontade. Não teve como impedir se engasgar com a surpresa. Guilherme lhe disse:
— Ela não é linda, cara?
— Maravilhosa!
E enquanto os convidados se deliciavam com puré de batatas e costelas de porco, que 002 teve que engolir para manter o disfarce, Alberta perguntava detalhes do creme e fez questão de ver a mão depilada. Ela olhou e disse-lhe:
— Eu acho que você é um alienígena!
E a seguir ela caiu na gargalhada, pois desta vez 002 engasgou como nunca, mais uma vez. Em seguida Guilherme falou-lhe:
— Eu ainda acho que os teus pelos vão crescer... Disse-me quanto tempo dura essa depilação?
— A vida toda...
— Então eu não posso fabricá-la, não seria negocio, temos que vender algo que dure uns 60 dias, mais ou menos, depois eles compram mais uma vez... Isso sim que seria negocio bom...
— Não gostarias que tua esposa nunca mais se depilasse?
— Hum... Adoraria, mas eu sou empresário, tenho que ganhar dinheiro, devo continuar sendo rico... Esse é o espirito da coisa...
Bernardinho interveio e disse:
— Mas, primo, podemos fabricar um creme que permaneça ativo uns 30 dias, outro que dure 60, mais um de 90 dias e um que perdura a vida toda. E por este último, cobramos uma fortuna. Atingiríamos as Classes A, B, C, e D.
Guilherme repensou e perguntou para sua mulher:
— Amor, quanto pagam suas amigas por uma cirurgia plástica?
— Tem as que pagam até “10.000 drinks” por um peito avantajado...
— Então, o que vocês acham de vender o pote mais caro, com 200 gramas, por uns 15.000 drinks?
002 falou na hora:
— Eu diria que tu eres um ladrão...
E desta vez riram em coro, todos eles, pois o futuro parecia promissor. Mas 002 teve que perguntar com telepatia para Arethi, o que eram classe A, B, C e D. Depois soube que eram milionários, ricos, medianos e miseráveis. Era assim que os homens se dividiam nesse mundo terrível, numa desigualdade social que se arrastavam desde que eles aprenderam a falar, nos tempos mais remotos da história.
Construir a empresa com Bernardinho ao lado foi terrível, pois tudo teve que ser ao estilo primitivo, com homens suando embaixo do calor misturando cimento, colando tijolos, com desenhos realizados por engenheiros de “Y”, acostumados a explorar a classe C e D. Ricardo Prado encomendava marmitas para eles, enquanto Bernardinho mexia a cabeça e lhe dizia:
— Assim tu vás terminar sendo pobre, cara, eles têm que trazer comida de casa...
E Ricardo Prado terminou lhe colocando um dedo na testa, para ser magnânimo e pagar tudo pela empresa. Depois, 002 passou a discutir com Alessandro e Zezé como fazer o esconderijo.
Em surdina, durante a noite, os construtores de “L” cavariam o subsolo com desintegração de terra, a uns 300 metros embaixo do solo. Instalariam os laboratórios verdadeiros e os dormitórios para casados, com peças trazidas pelos mecânicos de “L”. Tudo cairia durante a noite como chuva. Oxigenariam o subsolo com antenas catadoras de vento na superfície. Iluminariam de dia e de noite com antenas solares, e a entrada seria um elevador de serviço, instalado dentro dos depósitos de alimentos para porcos.
Fazer o subsolo em trabalho noturno demorou 9 dias, levantar a empresa na superfície demorou 90 dias. Nos laboratórios da superfície se fabricavam cremes com banha de porco. As verdadeiras, feitas com babosa, possuía o mesmo desenho nas embalagens, os mesmos tamanhos, tudo igual. E trocavam durante a noite, para Bernardinho e 002 contabilizar, registrar, guardar, na espera de Guilherme fazer a festa com os amigos para testar o milagre do século e inaugurar a empresa em frente à mídia. As amostras com banha só ficaram nas estantes para avaliação dos órgãos que chegariam a os inspecionar.
A empresa tinha entre secretários, gerentes de produção, gerente de vendas, gerente de contabilidade, e químicos, uns 80 empregados, dos quais o único homem de “Y” era Bernardinho. No subsolo mais uns 40 casais, prontos para vender o creme nas ruas da cidade, e uma dúzia de químicos que preparava os cremes com babosa, que havia em abundância nesse planeta. Aliás, os jardineiros que enfeitaram tudo em redor com vergéis encantados, plantaram todos os componentes dessa formula mágica.
Arethi começou a ver periodicamente os endereços onde se construíam as naves espaciais sobre montadoras gigantes. Além disso, descobria outras fábricas que construíam misseis cada vez mais sofisticados, pois a cada dia aparecia um modelo mais eficaz para derrubar o inimigo. Os mais perigosos eram as armas de raio lazer, que matara Silvio. E, como gatunos, os guerreiros saiam da fabrica de cremes durante a noite, pulavam arames farpados, hipnotizavam guardas armados, se alastravam até janelas para olhar dentro de galpões gigantes. De um olhar o deixavam vazio, sem um alicate sequer. As mulheres trabalhavam em dupla, uma delas conversava com os guardas, se fazendo de boba, enquanto a outra repetia a façanha. Antes de Bernardinho e 002 fazer a festa de inauguração da empresa de cosméticos, havia 50 fabricas de armas falidas em aquele lugar.
Enquanto os generais dessa cidade enlouqueciam contra um inimigo invisível, possivelmente vivendo entre eles, Bernardinho e seu sócio Ricardo Prado reunia aos amigos mais íntimos, numa mansão, para fazer uma demonstração do que seria a revolução nos tratamentos de beleza. E Guilherme era mais um convidado, de braços dados com Alberta. Alessandro e Zezé chegaram como amigos de Ricardo Prado junto aos especialistas em beleza da empresa. O banquete era primitivo, churrasco de porco, salsichas, pães de alho, cebolas asadas, maionese, saladas de tomates e alface, farofa, bolos de cenouras, e gelatinas. Muitas cervejas geladas, vinho à vontade, pois, afinal, quem comia carne humana eram as classes C e D desse mundo.
O que mais chamou a atenção dos alienígenas foi o luxo. A mansão da família de Bernardinho era belíssima, com abajures até com 200 lâmpadas caindo em cascatas. Os convidados chegaram elegantíssimos, as joias das damas eram diamante, safiras, rubis, esmeraldas com ate 50 cortes que as faziam brilhar de forma diferente. As roupas delas eram muito incrementadas, com mangas infladas, saias godê, longas, que as transformavam em sereias ao caminhar. E o banquete era servido em vasilhas de prata, sobre toalhas de fino gosto, e os garçons eram homens que se curvavam oferecendo tudo com movimentos gentis, sempre sorrindo. Era o trabalho deles, fazer a felicidade dos patrões.
E no fim do banquete Bernardinho apresentou seu sócio, seus empregados, e explicou que atenderiam nos dormitórios da mansão, para quem quisesse experimentar os cremes que retiravam os pelos “para sempre”. Tudo de graça. E muitos valentes correram para fazer a experiência, alguns homens bêbados de tanto beberem.
Os homens deixaram cavanhaque, pediram modelar as sobrancelhas de forma artística, grossa, mais separadas, deixaram alguns pelos no peito, outros ao redor dos órgãos sexuais. Mas, as mulheres tiraram tudo, principalmente entre as pernas para usar biquíni a vontades. Deixaram sobrancelhas artísticas, finas, e muitas fizeram implante de cílios longos. E por último os que eram casados beberam uma poção afrodisíaca para enfrentar novos dias de luxuria. Todos riam, mas assim que se tomou banho com ducha forte — com toca na cabeça — os pelos caiaram junto com o sabão e a água em forma abundante. A pele ficou lisa, suave, como recém-nascido.
Ninguém acreditava que essa depilação ia durar para sempre, então compraram alguns frascos para quando o efeito terminasse. Só nessa noite eles ganharam uma pequena fortuna, pois os ricos levaram para dar a família, aos mais íntimos, em ritmo de festa.
No regresso para casa, Guilherme desviou do caminho e entrou com sua mulher num motel. Ele sempre fazia isso depois de um festim quando ficava meio alto. Entrou cambaleantes numa suíte de luzes vermelhas, com música ambiental suave, uma tela de televisão com filmes românticos, e beijou Alberta sorrindo, pois a vida estava voltando a ser só de amor e felicidade. Quando Alberta acordou estava com seu amado roncando na sua orelha. Beijou-o no rosto, na boca e assim que ele abriu os olhos namoraram com paixão, mais uma vez. Depois Alberta saiu para tomar banho e esvaziar seu intestino. Já de regresso nessa cama, recuperada, recebeu beijos, caricias, como quem está iniciando mais uma rodada de amor. E perguntou-lhe:
— Você não vai trabalhar hoje?
— Nem hoje nem nunca mais...
— Estou falando sério... Amor, não esqueça que essa fabrica pode ir à falência sem você...
— Não da! Só vou sair daqui a 15 dias...
Nos dias seguintes, Bernardinho vendeu os cremes mais caros para os Shoppings e os mais baratos de mão em mão com vendedores ambulantes nas ruas da cidade, bem baratinhos, em potes de 100 gramas. Os mais caros possuíam embalagens decoradas com arte, em caixas de fino luxo. Os mais baratos em tubos parecidos a pasta dental, sem luxo nenhum.
Se os mais baratos venderam rapidinho, os mais caros começaram a ser adquiridos depois de uns 30 dias, graças aos amigos de Bernardinho que mostravam a pele para os amigos, sem sinal de pelos. Foi um sufoco, pois toda a produção esgotou do dia para noite.
Foi quando cinco generais apareceram nessa empresa a fazer vistoria. Bernardinho branco de medo, falou para 002 no ouvido que estavam investigando nos livros de contabilidade se havia ligação com Guilherme. 002 colocou um dedo na testa dos 5 militares e os enviou de volta por onde haviam chegado, com amnesia total, pois nunca mais passariam perto daquele lugar e esqueceriam totalmente que essa empresa existia. Bernardinho, mais atônito do que nunca, recebeu outro dedo na testa, para esquecer que esses militares estiveram ali.
Mas, os generais estavam a cada dia mais bravos, pois não havia duvidas que essa cidade estava cheia de alienígenas, e numa decisão inteligente, espalharam espiões disfarçados de mendigos para as favelas, pois eles só podiam estar entre os mais miseráveis.
Arethi imediatamente enviou Aruma com sua frota, carregado de armas manuais, pois o confronto corpo a corpo estava cada vez mais próximo.
Aruma Júnior acompanhou seu pai até o hangar, como um herói, junto aos gêmeos, as gêmeas, e Diana. Ele estava sem disfarce, pois com essa pele não enganava ninguém, além do que, o planeta inteiro o conhecia. Ele atuaria em meio da noite, e se ocultaria durante o dia no subterrâneo da empresa de 002. Aruma Júnior se abraçou emocionado ao seu pai, pois se ficasse órfão ia morrer em vida, igual aos gêmeos, que haviam perdido o brilho do olhar. Diana o abraçou tentando-o confortar: — não esqueça que ele não é comível, filho... Mesmo assim uma lágrima escorregou pela cara de Aruma Júnior e abraçado aos amigos, ele perguntou para mãe: — mas quando é que vamos entrar nessa bagunça, mãe? Diana preferiu rir, pois ela era capas de amarra-lo a deixa-lo ir para essa matança.
Arethi estava com terríveis problemas desta vez, pois não podia tirar soldados em redor da neve, nem retirar gente de “W”, e necessitava mais gente para “Y”. Olhou para “X” em busca de mais gente. Sorriu. Esse mundo estava muito mais lindo do que antes da guerra. Seus soldados estavam nas universidades ensinando tudo, e só encontrou soldados nas torres de vigia em meio do espaço, sempre de olhos num possível novo ataque. Fez contato telepático com Enzo, pediu para deixar os viúvos nesse circulo em redor de “X” e enviar todos os solteiros para ela, para ganhar disfarce e viajar para “Y”. 002 os estaria esperando em lugar assinalado por ele mesmo.
Enzo aproveitou para lhe contar que estava com um problema dos grandes. Olaf e seus tenentes haviam esgotados as riquezas reais, e não sabiam como continuar pagando os médicos, os professores, nem ninguém. Estavam na beira de um caos econômico. O Rei havia falado na televisão que governar era uma arte, e que esses tenentes esqueceram-se de cobrar os impostos. Olaf nem fazia ideia de como fazer isso, e Enzo muito menos. Era a única coisa na qual os guerreiros eram completamente ignorantes. Arethi lhe respondeu: — faz uma prova, como as que fazíamos na “Universidade de guerra”. As pessoas mais pontuadas serão Reis. Eles vão saber como cobrar isso ali. Riu com ela mesma. Finanças primitivas era uma matéria na qual todo mundo se dava mal em seu mundo. Ninguém conseguia entender dos porquês que o dinheiro existia nos mundos inferiores.
Professores de “X” ajudaram Olaf e Enzo a elaborar o teste para medir o QI e a capacidade de administrar um reinado. Um gênio em informática criou um programa especial, com desenhos, gráficos, perguntas esquisitas, que foram sendo respondidas nos laboratórios de informática das Universidades desse mundo. Para saber sobre a aptidão de administrar riquezas, despeças, lucros, foi feito perguntas sobre matemática superior. Cada pergunta tinha tempo limitado para responder, terminado o tempo passava para a próxima pergunta, e assim por diante ate terminar. E como a televisão acompanhou dia a dia os resultados, parecia mais um bingo do que nada, pois a pontuação saia em listas todos os dias.
Depois de 7 dias em que esse mundo enlouqueceu, com centos de candidatos fazendo as provas nas faculdades desse mundo, os vencedores foram anunciados com suspense. Três homens e duas mulheres eram os mais inteligentes do planeta. Como havia 6 palácios abandonados, 5 palácios foram destinados para esses 5 Reis, pois o sexto castelo era o lar da princesa Xixin, e Enzo não conseguiu persuadir ninguém que não era necessário guardá-lo para ela. Muito menos convencer Olaf que fora cão de guarda dela no passado. Inclusive esse castelo estava passando por mais uma limpeza geral, para que tudo estivesse brilhando no dia glorioso que a princesa regressasse ao seu lar; desde as lâmpadas com as mil lágrimas, até suas joias de esmeralda, diamantes, ouro, enfim.
Depois dessa coroação empolgante, os Reis conseguiram controlar a economia, mas desta vez com reuniões periódicas com todos eles presentes, para que o mundo todo usufruísse das mesmas mudanças. Cada Rei governaria durante 20 anos, e ganharia o salario equivalente a um Juiz, o cargo mais alto nesse mundo. Como eram gênios, calcularam o que se deveria pagar aos reinados com um imposto único, e o que seria devolvido ao povo. Como sobrava uma margem positiva, ela foi destinada para ser distribuída naqueles com renda básica, quer disser, com o menor de todos os salários. Nesse mundo cada profissional tinha um salario diferente e era um sonho desses novos Reis, que algum dia todos os homens desse planeta ganhassem o mesmo ordenado.
Mas a maior preocupação dos reinados eram os problemas sociais. Depois dessa guerra haviam sobrado poucas famílias inteiras, pois a maioria perdera o marido, ou os filhos, ou os filhos perderam os pais. E para ajudar o povo a sair dessa dor, os Reis pediram para Olaf e seu grupo de construtores que construíssem novos orfanatos mais alegres, com muito brinquedo e muita cor, e casas de diversão para os viúvos. Também casinos e casas de jogos, com muita sofisticação, luxuosos, cheios de esculturas, cores douradas, e muitas luzes coloridas. Como os empreendimentos seriam atributo dos reinos, o que entrasse como lucro nos jogos dos casinos sairia como benefício para equilibrar os gastos com as novas melhorias.
Enzo, que acompanhava as mudanças de perto, viu os orfanatos se erguerem em meio de lugares mágicos, com pequenos teatros em meio aos jardins, balanços, escorregadores e um trenzinho que percorreria a cidade com um robô disfarçado de palhaço. E ele próprio ajudou nos planos de construção, deu ideias, enquanto o povo aceitava tudo com um sorriso na boca, mas sem luz no olhar. Havia um luto generalizado. Faltavam risadas, faltava alegria. E nisso nenhum guerreiro tinha o que fazer.
Depois da inauguração dos orfanatos, Enzo ficou ainda mais triste de seu luto. Ele ficou cara a cara com meninos de todas as idades, que sequer tinham uma avó, ou um tio que cuidasse deles. Muitos olhavam para um lugar vazio. Alguns sem uma perna, ou sem um olho, na espera de uma cirurgia. Ficou tão arrasado, pois ele mesmo era como um homem desse mundo. Um viúvo. Se houvesse casado, encontraria a esposa na encarnação seguinte, mas, como nunca casou, sua namorada perdeu-se no universo com destino desconhecido. Nunca mais a encontraria. Olhou para uma garotinha de 5 anos, tomou-a no colo e lhe perguntou se já conhecia as tartarugas. Depois pediu licença aos professores e saiu com ela de passeio. Foram até o zoológico, onde lhe mostrou que as tartarugas gostavam da água e da areia. Pegou a Nani no colo, hipnotizou-a para não dar mordidas, e lhe fizeram carinho e deram beijinhos. Depois foram ver as capivaras, os gatos malhados, e o casal de cavalos brancos, que eram montados por meninos maiores com horário marcado, pois todos queriam subir neles. E, o mais lindo de se ver, era um cavalinho recém-nascido, que mamava das tetas da égua.
No fim do passeio Enzo a carregou no colo e levou-a de volta.
Dali em diante, cada vez que havia alguma inauguração de algo, Enzo ia busca-la para passear. Às vezes levava dois ou três meninos junto, pois foi com essas crianças que ele começou a melhorar de sua aflição. Aprendeu que uma família podia nascer apenas do afeto com semelhante desconhecido, pois de alguma maneira ele amava esse povo que era parecido com ele em muita coisa.
Como a televisão estava sempre entre as festas, uma repórter perguntou para essa menina: — qual seu nome? Miranda. E quem é ele? – É meu pai... Enzo caiu na gargalhada ali mesmo, e só então acordou para essa ideia fantástica. Podia ser papai sem casar. Mas, é claro, teria que pedir aos Reis uma nova lei, que permitisse a adoção de meninos órfãos por solteiros como ele.
Essa nova lei foi tão bem sucedida, que os órfãos desapareceram na corrida. Principalmente viúvos solitários encontraram o consolo na adoção dessas crianças.
Olaf, teve que transformar todos os orfanatos em escolinhas para meninos de 3 anos e fazer mais uma festa de inauguração barulhenta. Enzo e sua filha o acompanharam naquele dia, ao lado de Reis e de soldados. Nessa altura Enzo era algo assim como um “Deus vivo” entre os homens, e muitas mulheres sorriam tentando-o conquistar. E foi naquele dia, que ele viu o que seria sua nova paixão, uma antiga concubina de um príncipe, que ele mesmo colocara na rua num dia fatídico, rodeada de 3 filhos sem o pai presente. No fim do dia agitado de festas e discursos, ele a invitou educadamente a jantar com seus garotos, na sua casa, numa reunião familiar.
E esse encontro foi apoteótico. Os três meninos eram bagunceiros, barulhentos, e sua filha Miranda os amou desde o primeiro momento. Mostrou-lhes seu computador com 7 jogos diferentes, sua casa de bonecas, e seu robô que fazia tudo que eles pediam, dava saltos, sentava, trazia bolachas, e podiam montá-lo como um cavalo. E enquanto os meninos se divertiam Enzo a invitou a jantar sentados em almofadas encostadas no chão, em frente de uma mesa baixinha, ao estilo de “X”. Em pouco tempo Enzo ficava sabendo que ela era irmã de Xixim por parte de pai, e filha de uma concubina. O parecido com Xixim era enorme, menos elegante que a irmã, pois agora vestia roupas simples, com joias de bijuterias. Mesmo assim ela usava vermelho fogo nos lábios, um penteado artístico, rímel generoso nos cílios, sobrancelhas delineadas, flores na cabeça, o que a deixavam fascinante.
No fim da noite ele a invitou para dar um passeio pela cidade. Como os guris dormiam nos sofás, hipnotizados para 15 horas, Gabi saiu a lhe mostrar os encantos noturnos. Entre cada edifício dessa cidade sempre havia um arbusto amigo, ou assentos embaixo de uma luz tênue para sentar a namorar. Já nos becos do metrô a escuridão era a preferida, onde os jovens perdiam a virgindade escondidos dos pais.
Sentados numa praça, Enzo deu-lhe um beijo suave, doce, e perguntou-lhe se era solteira. Ela falou:
— Sou! Eu nunca casei, e não amo ninguém.
— Namoraria comigo?
— Mas, só por uma noite?
— Isso em meu mundo não existe. Namoramos até o dia que alguém descobre que é casado pela eternidade com outra pessoa. Isso por causa da amnesia.
— Isso eu não entendi. Se eu namorar você, corro esse risco?
— Não! Sou solteiro de todas as vidas e você também é...
— Então me beija de novo...
Já no dormitório, Gabi soube o que era ser amada de verdade. Enquanto se apagava no devaneio do amor, lembrou por breves instantes sua vida passada, quando o príncipe jamais se preocupara com sua felicidade, em encontros fugazes que duravam no máximo 10 minutos. Nunca escutara palavras de amor e era a primeira vez que seu coração era arrebatado daquela maneira. Era como se ela não fosse mais dona de si mesma. E dormiu com um sorriso na boca.
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