Guerreiros do destino
13 A Ratline de Baltasar
Notas iniciais
O poder insano de Lucius superou Oscar, Enzo e Krom. Se o deus Carapaucius, o da forja, não tivesse interferido teria sido o fim dos três.
Oscar resolve ir atrás de alguns de seus companheiros rebeldes que foram orientados a fugir de Lucius. O clérigo e o mago resolvem ir para as montanhas da dor em Jozz, reino distante de Laoo o lar dos rebeldes. Eles resolvem pegar uma das ratlines, que são rotas de bandidos e fugitivos, onde nenhum exército ousa ir.
– Tem certeza disso Krom?
– Sim. Mesmo que sejamos atacados por algum bandido às chances de vitória são maiores do que contra um exército. Responde o clérigo.
A ratline de Baltasar foi a escolha de Krom, pois fica em uma floresta de pedras no subsolo de Laoo indo até o centro do reino, desce ao sul de Laoo e entra ao norte de Jozz indo até o seu extremo sul, onde estão as montanhas da dor, uma viajem de uns dois ou três dias.
Os dois abasteceram seus mantimentos em Laoo com o que sobrou dos rebeldes, está um clima tenso no ar, pois Krom não aceita que Enzo tenha aprendido magia negra.
– Garoto, não quero que use magia negra.
Enzo sorri.
– Tá bom...
O local onde estão é cheio de pedras pontiagudas, são com estalactites vindas de todos os lados em volta da pequena estrada.
– Sabe Krom... Eu queria saber voar.
O clérigo olha com um pequeno riso para o menino.
– É sério. Quando lutei contra o draconiano na floresta negra, no momento que ele voou me senti tão impotente, tudo que aprendi se tornou insignificante naquele momento.
– Se alguém voar use flechas. Reponde Krom.
– Que coisa inútil hein. Acha que isso ia funcionar contra ele?
– Provavelmente não.
– E quando nos depararmos com alguém que use um dragão? Se o dragão voar já era.
Krom sorri novamente.
– Cara, você não me leva à sério mesmo né. Reclama Enzo.
Eles chegam em um ponto onde há uma grande cratera. Krom pára e coloca a mão na frente de Enzo para que este pare também, o menino tira a mão do clérigo da frente e se aproxima da cratera. Enzo chega bem perto, olha pra baixo e não vê nada, está muito escuro.
– Viu? Se eu soubesse voar...
Antes que o menino termine de falar o chão abaixo de seus pés se parte, fazendo com que ele resvale.
– Esse garoto não ouve mesmo. Resmunga Krom correndo para salvar Enzo. O clérigo se lança ao chão, segurando o menino pelo braço, mas o chão embaixo dele também cede, fazendo com que os caiam na grande cratera.
– Agora concordo que voar é uma boa ideia Enzo. Grita Krom.
– Imagino.
Enquanto caem no grande buraco Krom olha à sua volta procurando um jeito de evitar a queda. Então o clérigo vê uma abertura na parede alguns metros abaixo de onde estão, parece ser uma entrada. Usando sua magia arcana Krom conjura duas correntes, segura Enzo com uma e lança a outra em uma estalactite. Estão suspensos no ar. Krom ordena que Enzo suba através da corrente até a entrada na parede, o garoto sobe e puxa Krom. Eles ficam na frente da abertura, olham para baixo e ainda não conseguem ver o fundo.
– Sempre me disseram que essas crateras das ratlines não possuíam fim... Pensei que fosse lenda. Diz Krom.
– E agora? Vamos entrar aqui? Pergunta o mago.
– É a única coisa à fazer... Não sabemos voar. Responde ironicamente Krom.
Enzo faz cara de quem não aprova a piada.
Eles entram na fenda, ao apoiar seu pé no chão extremamente escorregadio, Enzo resvala, ao cair puxa Krom pelo pé na esperança de se segurar, mas ao invés disso puxa Krom junto. O lugar é um tipo de tobogã, caem em grande velocidade até que em um momento são lançados aos ares, enquanto berram caem, e ao cair sua queda é amortecida por uma grande pilha de fenos. Com uma certa dificuldade eles se levantam do meio de toda aquela palha, Enzo gargalha ao ver que há palha no ouvido de Krom, que não gosta da atitude de seu companheiro. Eles estão em uma espécie de caverna.
– Cuidado Enzo.
– E você também.
Assim que dão o primeiro passo, eles são surpreendidos por lanças ao redor de suas cabeças. Eles olham com o canto de seus olhos, é uma tropa de pequenos e inquietos goblins.
– Alto lá Krom. Diz um dos goblins.
– Malditas criaturas... estavam aqui o tempo todo. Há uns quatrocentos anos não vejo um goblin.
Enzo olha apavorado para Krom, surpreso com a possível idade do clérigo.
– Foram tempos difíceis, você é um dos grandes responsáveis por nossa angústia. Desde aquele dia em que você e aqueles seus companheiros resolveram destruir os goblins, nós viemos sofrendo. Tivemos que nos refugiar aqui, abaixo da floresta de pedra da ratline de Baltasar.
– Vocês são lamentáveis. Diz Krom.
Um dos goblins fica muito ofendido e ataca Krom com uma faca, mas outro goblin intercepta o ataque segurando o braço do primeiro.
– Vamos levá-los ao líder, vamos, ele vai gostar de ver a cara do Krom. Diz o goblin entre risos e pulos.
Os goblins levam Enzo e Krom como reféns.
– É... Bela ideia, ótima ideia... A ratline de Baltasar. Cochicha Enzo para Krom.
O caminho que seguem é muito escuro, há poucas tochas iluminando o local, os goblins ficam rindo entre eles, falando em uma língua estranha, o dialeto deles parece mais resmungos misturado com risos. Eles chegam até um lugar onde há um grande trono. No trono está um goblin com uma coroa de madeira, ele é maior que os goblins convencionais, é um pouco menor que Oscar, deve ter uns dois metros.
– Olha o que os bons ventos da deusa tormenta me trazem, Krom o clérigo, e uma criança.
– Ele é o filho de Ferreiros. Responde Krom.
A boca do grande goblin começa a babar, como se quisesse devorar Enzo naquele instante.
– Muito obrigado Krom, agora aquele goblin quer minha cabeça.
– S-senhor... vamos matar o Krom? Vamor senhor? Vamos?
Pergunta um goblin eufórico.
– Vamos. Mas não agora. Amanhã pela parte da manhã, reúnam toda a nossa sociedade, todos os goblins devem ver a morte do principal responsável de nossa desgraça, Krom.
Os goblins erguem suas lanças ao ar e gritam comemorando, alguns poucos batem com suas espadas em seus escudos.
– Sério que não vamos reagir? Eles são pequenos. Diz Enzo.
– Ainda não, tem algo que eu quero ver. Responde Krom.
Os goblins levam os dois até uma cela, uma cela gigante e horrível, eles jogam Krom no chão e em seguida jogam Enzo, quando Enzo cai, cai em cima de algo fofo, parece uma pila de penas. Os goblins trancam a cela, e saem rindo.
Enzo ajuda Krom à se levantar, o clérigo vê algo abrir grandes asas, no reflexo ele puxa Enzo para trás e fica cara a cara com o monstro.
Estão Krom de pé e Enzo sentado atrás do clério, e na frente de Krom algo com grandes asas, porém a face da criatura está coberta por uma sombra. A criatura se aproxima aos poucos e se revela um belo grifo, muito, muito grande, do tamanho de um dragão na verdade. Enzo sorri, se levanta rapidamente e fica cara a cara com o grifo.
– Então foi em cima de você que eu caí.
O mago começa a acariciar a fera, que aceita o carinho.
– Os grifos são muito fortes, e também muito pacíficos. Diz Krom.
Enzo percebe que há uma corrento no pescoço do grifo.
– Qual o motivo de manterem um grande grifo preso aqui? Pergunta Enzo sem entender.
– Esse grifo deve ter caído em uma armadilha, e como tem muita carne...
– Eu não acredito que esses goblins repugnantes iam comer esse belo grifo.
O grifo não foge aos padrões, cabeça de águia branca, com um grande bico curvo, suas asas são brancas com uma penugem preta na parte de baixo, o corpo de um leão assim como as patas traseiras, apenas as patas dianteiras são de águia.
– É bem jovem, provavelmente irá crescer mais. Diz o clérigo.
– Prederam ele pelo pescoço e por suas patas. Completa Enzo, ainda acariciando a cabeça do animal, o menino se vira para Krom e pergunta:
– Você disse que queria ver algo. O que é?
– É um goblin. Se você ver um goblin com um colar que tem uma pedra roxa de pingente, me avise.
– Certo.
O tempo passa, Enzo pega no sono, escorado no grifo. Enquanto isso Krom fica alerta o tempo todo, fica em pé à frente da cela, olhando pra fora, procurando o tal goblin com o colar e o tal pingente roxo.
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