Guerreiro

1 Capítulo 1 ― Uma Surpresa Inesperada



FAZIA EXATOS DOZE ANOS que eu já estava naquele lugar. Sei disso porque hoje era o meu aniversário e segundo a minha ficha no Reformatório, eu tinha chegado ali naquela data ― eu era muito pequeno quando cheguei aqui para processar toda a informação, pois eu tinha apenas três anos.

Eu não tinha permissão para sair de onde o Reformatório me obrigava. Era a escola e Reformatório. Reformatório e escola. Eu não podia nem se quer ao menos pisar fora da porta de entrada. Mas não era tão ruim assim, eu tinha abrigo, comida e transporte escolar (um ônibus que levava todas as crianças do Reformatório e nem todas as crianças que estavam ali eram agradáveis). E eu podia receber visitas. Meu primeiro irmão mais velho, Brendan, me visitava sempre que podia. Tommy, meu segundo irmão mais velho, nunca mais tinha vindo me visitar depois de meu aniversário de sete anos. E eu não podia receber a visita do meu pai. Nunca soube o porquê, mas aprendi aqui dentro a nunca fazer tantas perguntas.

Eu conheci Brendan logo criança. Ele tinha me visitado pela primeira vez quando eu tinha completado quatro anos e ele tinha me dado um boneco para eu poder brincar e guardo comigo até hoje. Eu o conheci esse dia e desde então ele sempre me visitava quando podia. Já Tommy, eu o conheci quando tinha completado sete anos. Ao contrário de Brendan, Tommy só me disse que tinha sido legal em me conhecer, que esperava que eu não virasse um pateta como Brendan e o nosso pai, me deu dois tapinhas no ombro e foi embora. E nunca mais o vi.

De qualquer forma, hoje era o dia de visitas e era o meu aniversário também. Eu estava fazendo quinze anos e tinha conseguido notas boas e entrado para o ensino médio em uma boa escola em Williamsport, Pensilvânia e estava animado para contar isso a Brendan, pois ele era a única família que eu tinha e eu achava que devia isso a ele. Bem, tinha o Tommy, mas eu já não o via fazia exatos oito anos, então não achava que ele se importava com minhas notas da escola.

Sentado em minha cama, fitei meu dormitório. Meu boneco de presente de Brendan estava devidamente posto sobre a pequena mesinha que tinha no canto a minha direita. Meu pequeno guarda-roupa (apenas de duas portas) ficava no canto esquerdo do dormitório, contendo uma pequena quantidade de roupas que eu tinha. E minha cama de solteiro, onde eu estava sentado, estava devidamente arrumado. Meu quarto era arrumado. Eu tinha que deixar arrumado, pois caso contrário eu era banido de fazer um dos passeios mensais que o Reformatório fazia.

Levantei-me de minha cama e fui até à mesinha, peguei meu boletim e o guardei no bolso de minha calça surrada (era a roupa que o Reformatório nos dava). Após ter feito isso, saí do dormitório e fui direto para o pátio, onde eu poderia ficar pensando melhor sobre meu aniversário naquele local.

Era um sábado e, como era fim de semana, muitos parentes próximos às crianças vinham visitá-las, pois sábado era um dos dias em que podíamos receber visitas, exceto os aniversários, pois nos aniversários podíamos receber visitas. Sexta-feira, sábado e domingo, esses eram os dias das visitas. E como era dia de visita, o corredor que ficava a minha ala, a ala K, estava bastante movimentado. Tinha uma criancinha de seis aninhos abraçando seus avós, tinha um garoto que tinha treze anos recebendo a visita da irmã mais velha e muitos outros. Brendan chegaria, pensei. Não vejo a hora de ele chegar.

Descendo as escadas, deparei-me com a recepção um tanto vazia. Não tinha ninguém atrás do balcão de madeira e nem mesmo no sofá de espera ― o que me deu uma pequena pontada no coração, pois eu tinha esperanças de ver Brendan ali sentado. Só tinha uma moça de pele clara e cabelos escuros bebendo um copo com água. Estranho.

Assim que desci as escadas, virei-me para a direita e fui em direção ao pátio.

O pátio era enorme. Ali tinha algumas árvores, tinha alguns balanços, gangorras, casinhas para crianças brincarem e tinha até três casas em três árvores. Quando eu era mais novo, eu brincava em uma delas. Ali também tinha algumas mesas de mármore com quatro bancos de mármore e tinha um pequeno local onde era gramado com um pequeno lago com peixes viventes nele. Muitas crianças corriam e brincavam. Algumas até conversavam com alguns parentes nas mesas de mármore, ou até mesmo podiam ser seus futuros pais adotivos. Mas meus olhos foram atraídos ao lago com peixes e foi para lá que eu fui.

Sentei-me na grama muito bem aparada e tirei meu boletim do bolso. Brendan ficaria orgulhoso. Só tinha nota azul. Eu tinha passado como o melhor aluno da turma e tinha sido bem recomendado para outras escolas, onde algumas queriam que eu fosse matriculado logo no comecinho do ano. Mas eu já tinha sido matriculado em uma das escolas de Williamsport, Pensilvânia, mas eu não via diferença nisso. Era até engraçado isso, pois eu não me sentia inteligente; somente esforçado. Nunca me senti inteligente, apenas prestava atenção nas aulas e, bem, escrevia o que aprendia nas lições de casa e nas provas. Bem, mas eu tinha notas azuis, isso era o que importava.

Mas minha cabeça seguiu um diferente ângulo, minha mente foi para a pergunta que eu me fazia há anos: quem era o meu pai? Eu nunca o tinha visto. Não sabia se seus olhos eram azul-escuros como os de Tommy ou azul-claros como os de Brendan. Não sabia se a cor de seu cabelo era castanho clarinho como a de Tommy ou loura como a de Brendan. E se ele fosse careca? E se, talvez, ele tivesse cabelo e já fosse todo branco? Ele era alto ou baixo? Gordo ou magro? Ele tinha alguma namorada já que minha mãe tinha falecido? Eu não sabia de nada dele.

Eu não perguntava sobre minha mãe porque, segundo Brendan, ela tinha falecido e eu não sabia como e ele também não entrou em detalhes. Era até melhor assim, a meu ver, pois eu não queria me lamentar logo agora. E Brendan também me disse que era melhor eu não saber muito sobre o meu passado, que um dia eu realmente saberia de tudo.

Mas antes que meus pensamentos pudessem realmente continuar a ser questionador, uma leve sacudida em meu ombro interrompeu meus pensamentos.

― Kyle Conlon, sua visita chegou ― disse Madalena.

Assenti para ela.

― Sim, obrigado ― disse eu.

― Estou aguardando na sala de visitas ― disse ela, assentiu para mim e se foi.

Madalena era uma mulher de pele cor de café, cabelos castanhos grossos e cacheados, alta e totalmente bela. Ela estava vestindo seu habitual blazer e saia vermelha com sapatos vermelhos. Usava dois brincos de ouro, um em cada orelha, e uma pulseira em seu pulso esquerdo. Madalena era a inspetora e também coordenadora do Reformatório daqui. Ela podia ser simpática, mas era, também, uma megera de quinta quando alguma criança fazia algo que ela não gostava.

Mas ela trouxe boas notícias. Visita. Brendan estava ali. Eufórico, tirei meu boletim do bolso e, ainda animado, fui até a sala de espera encontrar meu irmão.

A sala de espera ficava do outro lado do Reformatório. Aquele ala era coberta de cabines, onde tinha uma mesa em cada cabine e quatro cadeiras. Tinha persianas e outras tinham cortinas. Mas eu entrei na que tinha persiana.

Lá dentro era quieto e calmo. Fui até a janela para bisbilhotar, mas não consegui encontrar o carro do Brendan. Talvez tenha vindo de outra maneira, pensei. Não importa! Ele estava aqui e era bom saber que eu tinha família fora das portas do Reformatório. Talvez eu não precisasse ser jogado na rua quando fizesse dezoito anos. Talvez Brendan pudesse conseguir minha guarda.

Ouvi a maçaneta girar e virei-me para ver, na esperança de ser Brendan, mas era apenas Madalena.

― Sua visita chegará em um momento ― disse ela.

E se foi novamente. E me virei para a janela novamente, à procura de reconhecer algum carro que fazia o estilo de Brendan, mas eu não sabia imaginar como poderia ser.

Brendan é professor de física na Filadélfia, Pensilvânia. O que eu achei totalmente surpreendente, pois ele não me parecia ser um professor. Tudo bem, sua blusa xadrez azul e seu paletó cinza convenciam de que ele era professor, mas olhando para ele, ele não parecia ser professor. Ele deveria ser algo mais.

― Levem o tempo que quiserem ― disse a voz de Madalena e, no segundo seguinte, o som da porta se fechando.

Sorri por saber que Brendan estaria ali quando eu me virasse.

― Brendan... ― disse eu totalmente feliz e me virei.

Mas meu sorriso se desfez na mesma hora.

Aquele corpo bastante musculoso, aquele casaco de couro, calça jeans, tênis de corrida e toca na cabeça não era nada comparado ao Brendan que eu conhecia. Apesar de quê aquele não era o Brendan. Seus olhos azul-escuros eram inconfundíveis. Seu olhar sério e de mal-encarado assustaria a qualquer um. Alguns fiapos de cabelo castanho clarinhos estavam para fora da toca. Aquele não era Brendan. Aquele era...

― Tommy... ― disse eu em pleno choque.

Seus lábios em seu rosto sério e mal-encarado se puxaram para o canto formando um pequeno sorriso de lado.

― Surpresa, irmãozinho ― disse ele naquela voz grossa. ― Além do mais, feliz aniversário.

Eu não me sentei na cadeira para digerir aquilo, é lógico. Eu apenas fiquei encarando ele por um determinado momento.

Eu não esperava que Tommy viesse me visitar. Fazia oito anos que eu não o via e para mim, ele tinha se esquecido de minha existência. Eu nunca esqueci a dele, é claro, pois não tinha como se esquecer dele. Mas... bem, eu não o esperava aqui.

― Ahn... ― chacoalhei a cabeça por um segundo. ― O que faz aqui?

Tommy descruzou os braços musculosos, puxou uma cadeira e se sentou.

― Hoje é seu aniversário ― disse ele. ― Vim visitar meu irmão mais novo e lhe desejar parabéns.

― Ah... ― foi só o que eu consegui dizer.

Comecei a mexer meus dedos, mas percebi que o papel do meu boletim estava em minhas mãos, então o dobrei e o pus em meu bols...

― O que é isso aí? ― perguntou ele apontando para o meu boletim.

― Ahn... nada ― disse eu, terminando de por o boletim no bolso. ― Não é nada de importante.

― O que é? ― perguntou ele mais sério e me encarando.

Se ele não fosse meu irmão, eu ficaria completamente intimidado. Quero dizer, eu estava intimidado, mas não muito. De alguma maneira, eu não conseguia ter muito medo de Tommy. Não sabia dizer se era porque éramos irmãos, mas eu simplesmente não me sentia muito intimidado por ele.

― É só... ― tirei meu boletim do bolso com as mãos trêmulas e o desdobrei. ― É só o meu boletim. Não é nada de mais...

― Deixe-me ver ― disse ele.

Não era exatamente uma pergunta, mas cautelosamente assenti para ele e o entreguei meu boletim. Ele pegou o boletim e começou a olhá-lo com certa atenção.

Eu, como tinha dito, só tinha visto Tommy uma vez e essa era a segunda. Eu pensava que ele não dava a mínima para mim e tampouco para minhas notas na escola. Mas vê-lo olhar meu boletim com bastante atenção, me deu certo pânico. Pânico porque eu não sabia se ele aprovaria minhas notas ― mesmo eu sabendo, segundo os professores, que eram notas excelentes.

― Sabe ― disse ele ―, eu nunca dei a mínima para a escola ― ele parou de olhar o boletim e me olhou por cima dele com aquele olhar sério. ― Mas gostei de ver. Suas notas são excelentes e muito melhores do que as minhas. Parabéns. Estou orgulhoso.

Assenti para ele e abaixei a cabeça corando logo em seguida. Seu elogio me deixou completamente desconfortável. Assim, era bom recebê-lo, mas eu mal tinha visto Tommy em minha vida e receber um elogio dele era, bem, legal de se ter.

― Obrigado ― consegui dizer.

― Sente-se, Kyle ― disse ele. ― O que eu tenho para dizer a você vai atordoá-lo.

Eu assenti para ele, puxei uma cadeira e me sentei na mesma. Pus minhas mãos no colo e comecei a fazer aquele meu tique-nervoso com as mãos: meus dedos sempre começavam a se mexer involuntariamente. Não era algo que eu conseguia controlar direito, mas de um tempo para cá, só veio piorando. Enfim! O olhei e ele me fitou.

Era um pouco intimidador olhar para Tommy depois de todos esses anos, ainda mais esperar uma notícia vinda dele que poderia me atordoar.

Nós já tínhamos chegado a Pittsburgh.

Tommy disse quando estávamos no carro que iríamos morar com um velho senhor ex-bêbado e que não era importante na vida dele e que, se eu fosse realmente o irmão dele e fosse esperto, não ligaria para o velho também. Mas quando eu perguntei quem era o velho, ele disse que era o nosso pai.

Eu tinha ficado em choque, é claro. Primeiro porque eu não sabia como era meu pai. Segundo porque eu estava prestes a finalmente conhecê-lo. Mas Tommy disse que não era para eu dar atenção a ele. Que Paddy Conlon (esse era o nome do meu pai) não merecia minha atenção e nem mesmo deveria gastar minha saliva com ele. Eu não precisei perguntar o porquê a ele. Tommy disse que, no passado, nosso pai era um tremendo bêbado e que batia em nossa mãe. Agora eu entendia o porquê que eu tinha que morar no Reformatório, pelo Juizado de Menores.

Eu não podia morar debaixo do mesmo teto que um bêbado e agressor. Aquilo me deu tanta raiva que eu tinha vontade de voar no pescoço de Paddy (eu não o chamaria de pai nem tão cedo) e socá-lo por tudo que ele tinha feito a minha mãe. Nem mesmo a conhecia e já sentia pena e não poderia deixar que isso pudesse passar despercebido. Eu faria como Tommy, não daria a mínima para Paddy. Ele não merecia.

Mas o assunto tomou outro rumo quando ele tinha dito o nome de Brendan.

Ele tinha me perguntado se Brendan tinha me visitado ultimamente e eu disse que não ― foi duro dizer aquilo, mas era totalmente verdade. Brendan não vinha me visitar desde o ano passado e eu não sabia o porquê. Porém Tommy me contou o porquê. Ele tinha dito que ele e Brendan tinha ido, acredite se quiser, participado de um tornei de UFC em Atlantic City em Nova Jersey e Brendan o venceu ― ele tinha ficado tão série nessa parte que tinha me dado medo. Brendan, segundo Tommy, tinha ganhado e mudado de vida. Ele e sua esposa e filhas (eu não sabia que tinha sobrinhas até aquele momento) estavam morando bem na Filadélfia e que Brendan tinha me esquecido, que não faria mais causa minha, uma vez que estava milionário e bem de vida.

Aquilo também me deixou com certa raiva. Brendan, uma vez quando tinha me visitado, disse que nunca me deixaria. Ele tinha prometido e, pelo visto, ele não cumpria suas promessas. E eu não gostava disso. Mas Tommy estava certo. Segundo ele, eu também não deveria acreditar em Brendan e nem esperar nada dele. Doía? Sim, doía. Mas era a mais pura verdade; eu não queria ter ligação para com aqueles que não cumpriam suas promessas. Eu cumpria, porque o meu próprio irmão não? Agora eu tinha um pé atrás com Brendan, eu não confiava mais nele.

De qualquer forma, Tommy e eu chegamos à casa de Paddy. Ela era simples. Tinha três andares e parecia ser aconchegante por dentro.

― Venha, vamos entrar ― disse Tommy assim que saiu do carro.

Fitei a casa por um determinado tempo, respirei fundo e saí do carro. Atravessei a rua e, com ele, subi os degraus de entrada, ele girou a maçaneta e adentramos na casa.

Por dentro era realmente aconchegante. O chão era coberto de carpete e à direita do hall de entrada ligava a sala de estar. A minha frente tinha a escada que ligava para o segundo andar.

A sala de estar tinha uma cômoda com vários porta-retratos. Tinha uma poltrona de costas para a janela e outra perto da cômoda com os porta-retratos. Ainda à direita, tinha uma pequena estante com alguns livros e outra sala, com mesa e cadeiras. Mas eu reparei mais nas fotos presas à parede na sala de estar, a que eu estava. Tinha foto de Tommy pequeno com uma roupa apertada ridícula e uma medalha no pescoço. Outra tinha uma cabeleira loura, que eu reconheci ser Brendan na mesma hora, com uma camisa com o número 26 no peito. Eu não sabia que ele jogava futebol americano. Outras fotos eram de Brendan e Tommy juntos na praia e outra deles dois mexendo em um carrinho de mão. Era até legal e incomum vê-los juntos, uma vez que eles nunca mais se falavam direito.

A cozinha ficava à minha esquerda. Ela era um pouco grandinha. Tinha armários em cima e embaixo da pia. Tinha uma geladeira, um fogão e uma pequena mesinha ali também.

― Onde está o Paddy? ― perguntei entredentes.

Como eu disse, eu não iria o chamar de pai.

― Ele saiu ― disse Tommy. ― Reunião com os AA ― ele revirou os olhos.

Assenti para ele. Bem, pelo menos Paddy assumiu que precisava de ajuda e estava indo à reunião dos Alcoólicos Anônimos.

― Onde eu vou dormir? ― perguntei

― Por aqui ― disse ele e seguiu para o hall de entrada.

Tommy começou a subir as escadas e eu fui bem atrás dele. O segundo andar era um pouco chocante, digamos assim. Bem, pelo que parecia, tinha dois quartos ali e uma escada que subia para o terceiro andar no fim do corredor. E quando Tommy abriu um dos quartos, era do mesmo tamanho do quarto em que eu dormia no Reformatório. Tinha um guarda-roupa, uma cama de solteiro e um pequeno criado-mudo.

― Você fica aqui ― disse ele. ― Paddy dorme no outro quarto...

― Não! ― o interrompi com pressa. ― Eu não quero dormir perto desse homem.

Ele me estudou com os olhos semicerrados por um tempo e eu não fiz nada a não ser encará-lo da mesma forma.

Se Tommy pensava que eu ficaria perto de Paddy, ele estaria muito enganado. Eu não tinha saído do Reformatório para ficar perto de um ex-bêbado e agressor. Segundo Tommy, ele tinha a minha guarda provisória, mas eu não era idiota. Eu poderia muito bem pedir para voltar para o Reformatório e eu faria isso se ele realmente me obrigasse a dormir perto de Paddy.

― Tudo bem ― disse-me ele dando de ombros, como se não se importasse com aquele assunto. ― Você pode dormir comigo. Mas já te aviso: lá em cima não é nada aconchegante.

― Tem uma cama? ― perguntei com certa impaciência na voz.

Ele assentiu.

― Tem...

― Então já é aconchegante para mim ― o interrompi, ainda com certa raiva. ― Podemos ir?

Ele deu um sorriso abusado.

― Por aqui ― disse ele e seguiu pelo corredor.

Segui-o e, subindo as escadas, encontrei um local bem interessante.

O terceiro andar era um quarto sem porta que o teto era triangular. A única janela que ficava no final do quarto era a janela do terceiro andar, que ficava de frente para a rua. Havia duas camas, uma, obviamente ocupada por ele e a outra, na época, ocupada por Brendan, deduzi. Só podia ser ocupada por ele. Segundo Tommy, antes de minha mãe tinha me dado à luz, era ali que ele e Brendan dormiam. E tinha um criado-mudo bem perto da janela.

As paredes eram repletas de pôsteres de alguns times de futebol americano e de alguns lutadores de UFC. Eu não era estúpido, eu assistia UFC com alguns garotos do Reformatório e aqueles pôsteres indicavam os lutadores.

Tinha troféus e mais troféus de primeiro e segundo lugar em frente à cama à direita. Deduzi serem de Tommy e Brendan. Tinha que ser deles, é claro. Paddy não seria lutador nem tão cedo e nem ouvi dizer que ele tinha sido lutador. Tinha um abajur no criado-mudo e uma bola de basquete azul e branca no chão ali perto.

Aquele quarto deveria trazer boas lembranças a Tommy, talvez. Ele não era do tipo que ficava relembrando o passado e, pelo olhar dele agora e ver as plaquinhas de identificação em seu pescoço (coisa que eu não tinha reparado antes até ele se sentar na cama), algo me dizia que ele não iria querer falar sobre o passado.

― Você serviu ao exército ― disse apontando para as plaquinhas de identificação em seu pescoço.

Ele olhou para as plaquinhas, mexeu e depois as guardou dentro da blusa.

― É. ― Disse ele. ― Fui fuzileiro por um bom período.

― Sente-se ― disse ele indicando a cama ao lado. ― Agora este é o seu quarto. Pode se acomodar.

Sentei-me na cama e pus a única mochila que tinha pendurada nas costas no chão. Ele me encarou por um tempo e desviei o olhar dele.

Não! Eu não podia ter medo e nem me intimidar por conta só de um maldito olhar de Tommy. O cara era meu irmão e eu não iria ter medo dele. Não tinha necessidade de ter medo dele.

O olhei.

― Por que me tirou do Reformatório? ― perguntei.

Ele pôs um pé na cama e deixou o outro no chão. Acomodou-se em sua cama, olhou para o teto, suspirou e me olhou de volta.

― Você é família ― disse ele. ― Não podia ficar lá. Além do mais, não é um local agradável de se viver.

― Desde quando você pensa assim? Pelo que Brendan falou, você nunca deu a mínima para a família...

― O que Brendan disse ou deixou de dizer é problema dele ― disse ele completamente furioso e sentou-se na cama para me encarar nos olhos. Eu não me mexi, estava completamente em pânico e com medo de ele me dar um soco. ― Brendan? O que aquele fracassado fez para te tirar de lá do Reformatório, hein, Kyle? Ele não fez nada! Brendan é um idiota e que não sabe de nada sobre mim. Você é o meu irmão. Se eu morasse em um reformatório qualquer e tivesse um irmão mais velho que disse que ligava para mim, eu iria querer sair de lá. Eu te tirei de lá. Não Brendan.

Ele continuou me encarando seriamente e eu não disse nada.

― Eu fui seu irmão ― prosseguiu ele. ― Eu te tirei daquela prisão. Eu te trouxe. Eu tenho a sua guarda ― ele remexeu os bolsos e tirou o papel que dizia que minha guarda pertencia a ele. ― Você não pertence ao fracassado do Brendan e tampouco àquele Reformatório e nem mesmo ao Paddy. Você pertence a mim! Eu te tirei daquilo. Eu dei entrada nesse processo. Eu fiz tudo para te tirar de lá. Brendan nem mesmo moveu um dedo para fazer isso.

Ele tinha razão. Brendan não tinha feito nada. Ele tinha. Paddy, bem, eu nem conto. Eu tinha que ser mais grato a Tommy. Essa era a verdade. Eu não ligava para quem me tirasse daquele lugar ― nem mesmo se fosse Paddy. Eu só queria sair de lá e nunca mais voltar. Não era legal viver naquele Reformatório.

― Desculpe ― disse eu, completamente envergonhado.

Ele se levantou.

― Eu vou fazer o jantar ― disse ele. ― Acomode-se e depois desça para comer.

Eu não disse nada e ele desceu escada à baixo ainda com o semblante feroz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.