Guerreira da Lua
1 Prólogo
Notas iniciais
A chuva insistente já corria por dias quando naquela tarde finalmente cessou, dando lugar á garoa fria que caia das nuvens pretas cobrindo o céu.
Um enorme casarão cercado de jardins e muros se escondia atrás de uma densa neblina dificultando a vista tanto dos convidados que lutavam com suas carroças para encontrar o caminho até a entrada, quanto para a pequena garota que observava o vidro da janela que se embaçava com o calor da sua respiração.
Há algumas horas os portões tinham se aberto convidado carruagens a atravessá-lo.
De seu ponto de observação no terceiro andar ela apenas podia ver a luz dos lampiões presos na frente das carroças como se fantasmas caminhassem pelas sombras abrindo seu caminho pela neblina até adentrarem sua casa.
Havia múrmuros percorrendo os silenciosos corredores vindos dos andares de baixo, estranhos aos ouvidos dela. Nos poucos dias que ficara naquela casa mal se podia ouvir o barulho do vento deslizando pelas janelas.
Logo chegaria o momento para que ela se juntasse a eles. Apenas durante a janta, como instruíra sua tia. Mas então ela teria que enfrentar os fantasmas que a perturbavam.
Se levantado da soleira da janela onde estivera sentada a garota alisou seu vestido preto. O modelo a lembrava do vestido de uma boneca, cobrindo seus braços e a sufocando no pescoço para dar espaço a uma saia folgada e de poucas camadas que chegavam abaixo de seus joelhos. As meias, brancas, contrastando com os sapatos de ponta redonda, igualmente pretos. A cor, por mais que adequada, a incomodava. Era um constante lembrete de sua situação.
O cabelo vermelho parecia sombrio agora, como se escurecido pela dor. O coque o afastava dos olhos verdes, deixando ainda mais aparente as rodelas vermelhas que os cercavam por conta do choro.
Lentamente ela desceu os degraus contando-os na tentativa de prolongar os segundos. No lugar dos múrmuros, palavras foram se formando, perdidas no ar. Ela não queria ter de entrar na sala, não queria ver ninguém que estivesse lá, não queria nem ao menos estar ali.
Mas não havia escolha, cedo ou tarde ela teria percorrer o resto do caminho e então teria que seguir em frente.
Deixando algumas das conversas se aproximarem ela reparou no clima profissional e pesado das palavras, mas nenhum expressava a mesma tristeza que ela. Nem mesmo os rostos das pessoas quando ela finalmente os encarou.
Todos vestido de preto como ela, mas nenhum realmente igual a ela. Poucos a reparavam se esgueirando pelas sombras e estes apenas a observavam com olhos de pena e palavras falsas de lamento.
No fundo ela não se importou. Se ninguém naquela sala se importava, ela tomaria toda a dor pra si.
Em pouco tempo todos estavam reunidos em volta da mesa de jantar, em silencio. Eram quase doze casais enfileirados pelas cadeiras. Na cabeceira se sentava seu tio Rodolfo, com uma taça de vinho em sua mãos, em sua direita a esposa Margaret, com os constantes óculos que escondiam seus olhos de cobra, e na esquerda a pequena garota.
Margaret a encarava de frente e um pequeno sorriso dominava seus lábios. Mas não do tipo agradável e descontraído ao qual ela estava acostumada e sim um sorriso rígido que trazia calafrios a espinha.
Por um momento ela se perguntou se mais ninguém tinha percebido como a mulher a sua frente parecia querer devorá-la, com a maldade em seus olhos castanhos, mas obviamente eles só percebiam o modo como seus pratos e talheres eram incrivelmente chiques e caros, ou como o vinho deveria ser saboreado por ser de uma safra incrivelmente antiga.
Foi então que o timbre das batidas da faca contra a taça de cristal despertou a atenção dos convidados. Rodolfo se aprumava em sua cadeira se preparando.
– Primeiramente quero agradecer a presença de todos, é um prazer tê-los reunidos está noite. – ele deu uma pausa como se tomasse fôlego e sua felicidade já não era tanta. – Mas o motivo como já devem saber é a perda de minha esposa Margaret que recentemente perdeu seu estimado irmão em um incêndio.
Ninguém se moveu em sua cadeira. Era óbvio que todos ali já sabiam das noticias e mesmo assim ninguém parecia realmente afetado, nem mesmo Margaret com seu sorriso venenoso.
– Adrian foi um homem honrado e justo e Kate uma mulher fiel.
Ao seu lado a jovem não pode deixar de perceber como seu pai era tratado com respeito enquanto o nome de sua mãe parecia um sibilo com sua única valia em sua fidelidade. Não bastasse a desvalorização das mulheres a descendência da mãe era vista como um veneno posto no nome da família.
Seu pai, assim como Margaret tinha o cabelo loiro e a pele pálida como papel, mas no lugar dos olhos castanhos e a aparência reptiniana ele tinha belos olhos verdes como os dela e um corpo forte e esguio.
A mãe por sua vez tinha a pele escura e os cabelos cacheados. Seu corpo era forte e pouco delicado apesar das curvas femininas. O pai dela era de linhagem nobre e a mãe uma serva, por isso mesmo com o sangue sujo, como diziam os outros, o casamento tinha sido aprovado.
– Mas acima de sua perda, nos felicitamos com a vida de minha sobrinha, que milagrosamente sobreviveu ao ardor das chamas.
Vários pares de olhos se voltaram para ela fazendo com que sua face se avermelhasse. Acima de tudo ela não gostava desse tipo de atenção, ainda mais com aqueles olhares de pena. Mesmo tendo apenas doze anos ela conseguia entende como a pena era algo insignificante e desonroso.
Pena não a ajudaria em nada e de maneira nenhuma ela a aceitaria.
– Meu cunhado e sua esposa não dispunham de muito tempo para lidar com a família então muitos de vocês ainda não a conhecem. – todos os olhos já cravados nela. – Vos apresento Artemísia Twining Rosenberg. E acima de tudo tenho o prazer de anunciar que Margaret e eu concordamos em tomar a guarda da garota.
Artemísia se sentiu gelar. Havia um motivo para seus pais evitarem o convívio com a própria família e não era apenas por falta de tempo. Agora seu futuro estava atado a estas pessoas.
Os múrmuros estouraram quando o pronunciamento finalmente terminou e a comida começou a ser servida.
Artemísia não pode se concentrar em mais nada. A comida pareceu sem sabor, mesmo sabendo que ela fora feita pelo melhor cozinheiro da casa. As palavras se tornaram simples múrmuros a distancia. A incessante luta em evitar o olhar da tia se apagando.
Naquele momento sua vida se dava um fim assim como a de seus pais, e na manha seguinte uma nova começaria. Uma vida cheia de dor, onde a luz não brilharia com o mesmo esplendor.
Prendendo a respiração Artemísia pode jurar ter visto um breve sorriso de satisfação no rosto de Margarete um calafrio percorreu sua espinha.
Nada nunca mais seria o mesmo.
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